Conheça e assista Ôctôctô

Conheça e Assista é a sessão do Música em Letras dedicada a perfis de artistas e profissionais relacionados à música. Muitos deles, embora com carreiras estabelecidas e reconhecidas por seus pares, não têm seus nomes identificados imediatamente pelo público.

Mesmo para quem milita na área, como é meu caso, histórias e trajetórias de personagens que contribuem de modo relevante para nosso universo sonoro podem passar despercebidas. Por isso, aproveito para contar aqui como acontecem esses encontros, misto de atenção, acasos felizes, contatos e um pouco de sorte.

Nesse relato, conheça o grupo Ôctôctô e seus integrantes, que estão lançando “Oito”, o segundo CD deste octeto de música instrumental popular brasileira.

Assista ao grupo tocando “Querença”, de Julio Valverde, e “Atribulado”, de Márcio Modesto, no ensaio gravado com exclusividade pelo Música em Letras (veja vídeos no final do texto).

PRIMEIRO CONTATO

Conheci a música do Ôctôctô por indicação da jornalista Marcella Franco, blogueira e há muito colega de trabalho: “Bozzo, gostaria que você ouvisse o som de um grupo instrumental. Eles estarão em um estúdio na Vila Mariana, na próxima terça-feira à tarde…”. “Putz, tenho pauta…Que estúdio é? Do Adonias?”, perguntei chutando e acertando. “Esse mesmo, que pena…”. “Marcela, por favor, peça para me enviarem um CD”, pedi interessado já que o estúdio em questão é o Arsis, que prima por registrar com alta qualidade técnica, aqui em São Paulo, trabalhos de artistas da música instrumental, em diferentes formações.

Recebi o disco e fiz como faço com todos os que recebo, coloco na máquina e ouço. Se tiver assunto, conteúdo, novidade, ou qualquer coisa que interesse para o internauta – mesmo que eu não goste -, eu ouço, ouço, ouço, e depois ouço mais um pouco, antes de consultar, ler, pesquisar, elaborar e ver se vale “dar”, como se diz no jargão jornalístico. “O Ôctôctô vale e gostei bastante!”, disse, agradecendo Marcella semanas depois e já descolando o contato de um dos integrantes do grupo, o saxofonista Luís Santiago Málaga Leme.

Contato feito, armamos um dia de entrevista e um outro de ensaio do grupo para a elaboração do que vem a seguir.

Conheça e assista Ôctôctô.

GÊNESE

Málaga, 32, foi o porta-voz do Ôctôctô, na entrevista com o Música em Letras, que solicitou aos outros integrantes que respondessem por e-mail a algumas perguntas (veja texto no Quem é Quem no Ôctôctô).

Saxofonista, clarinetista e flautista, Málaga é compositor, professor de música no projeto Guri. Além de integrar o Ôctôctô, amealha alunos particulares, toca no grupo de choro, gafieira e samba João de Barro e ainda desempenha o papel de diretor musical da companhia de teatro Trupe Pé de Histórias, com trabalho voltado para o público infantil.

A formação do Ôctôctô se deu há cerca de dez anos, composta por alunos de cursos de Música da USP (Universidade de São Paulo). Segundo Málaga, naquela época o grupo ensaiava toda segunda-feira de manhã e contava com mais um integrante, o multi-instrumentista Pedro Bruschi, que na formação tocava guitarra e violão. O grupo, então, chamava-se Noneto de Jazz da USP. Com a saída de Bruschi, há oito anos, os integrantes adotaram o nome Ôctôctô.

Perguntado se a música que o octeto apresenta é popular ou erudita, Málaga disse que recentemente houve consenso no grupo em afirmar que a música que fazem e tocam é popular. “Mas as pontes com a música clássica estão aí.” A afirmação do músico procede. Basta ouvir “Pancho y Luna”, e “Esquina do Zebrinha”, as duas do guitarrista e integrante do Ôctôctô Yuri Prado, para confirmar que ambas são peças orquestrais.

As peças executadas pelo grupo sofrem muitas transformações. Passam de momentos bem silenciosos – às vezes, apenas com o som de um ou dois instrumentos -, para trechos com todos da banda atacando fortemente. É música para prestar atenção, mas seria mais adequada se executada em teatros? “Sim, gostamos muito de tocar em teatros e auditórios, mas já tocamos em clubes de jazz, onde as pessoas estão comendo costelinha e bebendo cerveja. Tudo bem, a gente não se ofende nem um pouco, mas sentimos que a experiência pode ficar um pouco encoberta pelo burburinho.”

Contudo, ao ouvirmos as composições e os arranjos do Ôctôctô, é clara a sensação de passear por uma espécie de “Faixa de Gaza”, que divide o erudito e popular por meio de uma linha muito tênue, mas que por vezes marca a quem pertence o território da música.

Conheça, a seguir, um pouco de cada integrante do Ôctôctô e o que pensam sobre o grupo. Depois, assista no final do texto aos vídeos nos quais o grupo toca, com exclusividade, para o blog.

QUEM É QUEM NO ÔCTÔCTÔ

Luís Santiago Málaga Leme, saxofonista, flautista e clarinetista do Ôctôctô (Foto: Carlos Bozzo Junior/ Folhapress)

Nome Luís Santiago Málaga Leme

Idade 32

Local de nascimento Los Angeles, Estados Unidos, com 10 meses veio para São Paulo

Instrumentos Sax, flauta e clarinete

Formação acadêmica Licenciatura em educação musical pela USP, em 2010, com mestrado em processos composicionais.

Como define o grupo? “Um pequeno conjunto de câmara dedicado à interpretação e escrita da música brasileira, estabelecendo pontes entre a música erudita e popular.”

Em que o grupo se destaca? “Destaca-se pela composição e arranjo, ou seja, pela linguagem que a gente estabelece para cada música.”

Qual a maior dificuldade do grupo? “Encontrar no mercado o nicho no qual a música que a gente faz se insere.”

O que as pessoas devem ter em mente ao ouvirem o grupo? “Que são arranjos feitos com a intenção de transportar a mente das pessoas para vários lugares, sempre criando imagens.”

Fazer música como integrante do Ôctôctô é…“Uma coisa muito boa. A gente reconhece – pelo fato de sermos todos muito compromissados –, que a cada ano que passa, e a cada projeto que acontece, que é um milagre. Além de termos desenvolvido uma amizade e confiança muito forte.”

Rubens José de Oliveira Júnior, baterista do Ôctôctô (Foto: Carlos Bozzo Junior/ Folhapress)

Nome Rubens José de Oliveira Júnior

Idade 30

Local de nascimento São Paulo

Instrumento bateria

Formação acadêmica Bacharel (percussão) pela USP, em 2011; mestrado em performance musical pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), em 2014.

Como define o grupo? “Grupo de música instrumental brasileira, com ênfase no tratamento camerístico de seus arranjos.”

Em que o grupo se destaca? “Há um bom equilíbrio, uma complexidade, mas que é acessível ao público. É uma música que a gente acredita muito, e acho que quem a ouve também percebe que ela é sincera, não tem muita vaidade.”

Qual a maior dificuldade do grupo? “A gente trabalha com um processo de criação artística que visa nossa livre expressão através da música instrumental, que por vezes é pouco difundida para o grande público. Fazemos shows e oficinas sempre que podemos, mas não operamos nossa criação na lógica comercial, na qual a quantidade de pessoas atingidas é a meta principal, então por vezes nos deparamos com uma grande dificuldade de viabilizar economicamente nossas atividades. O governo tem que assumir mais seu papel de incentivar a cultura, é bom para a sociedade toda, não só para os músicos.”

O que as pessoas devem ter em mente ao ouvirem o grupo? “Ouvir o que acontece em cada momento. Geralmente tem um elemento principal chamando a atenção, mas por trás dele tem outras coisas que remetem a trechos da música que já passaram ou anunciam trechos que virão. Em geral, quanto mais a mente estiver vazia para receber a música melhor. Mas se a pessoa começar a pensar na vida tudo bem também, não deixou de aproveitar a música.”

Fazer música como integrante do Ôctôctô é… “Bom demais. Gosto muito da música que a gente faz e, na maioria do tempo, gosto de como a gente leva o dia a dia do grupo. Aprendo muito musicalmente com o Ôctôctô.”

Márcio Modesto, pianista do Ôctôctô (Foto: Carlos Bozzo Junior/ Folhapress)

Nome Márcio Modesto

Idade 32

Local de nascimento Jaboticabal (SP), mas criado em Taquaritinga (SP), onde iniciou a formação musical.

Instrumentos piano e flauta

Formação acadêmica Bacharel em composição pela Unicamp, em 2009.

Como define o grupo? “Grandes amigos junto dos quais fazer música e o exercício da composição se tornam ideais.”

Em que o grupo se destaca? “Na robustez erudita dos arranjos e no sabor popular das influências.”

Qual a maior dificuldade do grupo? “A difícil inserção da sonoridade dentro de um nicho musical específico (música erudita, jazz, choro, instrumental etc), somada à dificuldade de espaço para a música instrumental, intensificada pelo tamanho e necessidades estruturais do grupo.”

O que as pessoas devem ter em mente ao ouvirem o grupo? “O grupo é um mosaico de influências de seus compositores e arranjadores. No momento, o som do grupo é propício aos ouvintes dispostos a usufruir dos detalhes das orquestrações e sutilezas dos arranjos, que fogem dos lugares-comuns da música instrumental jazzística.”

Fazer música como integrante deste grupo é… “Uma reafirmação de amizade, além de um grande prazer musical, pois a cada acorde uma construção musical esmerada e cuidadosa se revela.”

Yuri Prado, guitarrista e violonista do Ôctôctô (Foto: Carlos Bozzo Junior/ Folhapress)

Nome Yuri Prado

Idade 32 anos

Local de nascimento São Paulo

Instrumentos Guitarra e violão

Formação acadêmica Doutorado em música pela USP, em 2018

Como define o grupo? “A sonoridade do grupo é resultado de uma mistura muito grande de influências, graças aos diferentes percursos de formação musical e de atuação profissional de seus integrantes (orquestras, conjuntos de música de câmara, big bands de jazz, grupos de choro). Ainda que o Ôctôctô seja considerado um grupo de música popular, é significativa a influência da música erudita em sua sonoridade, refletida tanto na orquestração quanto no aspecto formal das peças.”

Em que o grupo se destaca? “Uma característica marcante do Ôctôctô é o fato de ele não tratar a improvisação como o foco principal do fazer musical. Assim, não há uma regra que determine a sua presença ou localização no discurso; há peças em que chegamos mesmo a prescindir da improvisação (“Bodas de papel”, e “Contemplativo”), outras em que ela está na seção central (“Pancho y Luna”, “Atribulado”, e “Querença”), e outras em que ela acontece ao final de uma grande jornada (“Esquina do Zebrinha” e “2013”).”

Qual a maior dificuldade do grupo? “Conseguir espaços para a apresentação de nosso repertório.”

O que as pessoas devem ter em mente ao ouvirem o grupo? “Os ouvintes vão encontrar uma riqueza muito grande de sonoridades, seja na variedade de timbres, nas referências a ritmos populares ou nas construções formais das peças.”

Fazer música como integrante do Ôctôctô é…“Ter a liberdade de escrever aquilo que está sentindo, sem a necessidade de adaptação a algum rótulo. É ter a liberdade de experimentar novas sonoridades e contar com o apoio dos outros integrantes. E, acima de tudo, estar no Ôctôctô significa fazer parte de uma grande família na qual os membros possuem não somente uma grande identificação musical, mas também compartilham valores e sonhos.”

Felipe Pinheiro Roque, trompetista do Ôctôctô (Foto: Carlos Bozzo Junior/ Folhapress)

Nome Felipe Pinheiro Roque

Idade 31 anos

Local de nascimento Tatuí

Instrumento Trompete

Formação acadêmica Bacharel em Música com habilitação em instrumento (trompete) pela USP, em 2014

Como define o grupo? “O Ôctôctô explora o universo da música brasileira, focando na interpretação de composições e arranjos que fazem referência aos campos ‘popular’ e ‘erudito’ simultaneamente, permitindo atuações e interações bem particulares entre os músicos, que acabam tendo certa liberdade na forma de tocar e influenciar na sonoridade e até mesmo na forma dos arranjos.

Em que o grupo se destaca? “Se destaca no sentido de ser um grupo que não tem como finalidade principal alcançar seu ápice na improvisação, mas sim no diálogo constante entre os integrantes.”

Qual a maior dificuldade do grupo? “Agenda de ensaios e maior produção de composições. Esta função, em geral, acaba se acumulando em poucos integrantes.”

O que as pessoas devem ter em mente ao ouvirem o grupo? “As pessoas devem ter em mente que o grupo não se propõe objetivamente a nada além da troca com aqueles que também amam música e que, independentemente de rótulos ou formas fechadas, também encontram nela um ‘alimento’.”

Fazer música como integrante do Ôctôctô é…“Fazer parte é poder exercer a própria individualidade abraçada à coletividade necessária, podendo brincar com suas próprias preferências de linguagem e articulação, sem deixar de respeitar a delimitação do arranjo.”

Cibele Odete Palopoli, flautista do Ôctôctô (Foto: Carlos Bozzo Junior/ Folhapress)

Nome Cibele Odete Palopoli

Idade 28 anos

Local de nascimento São Paulo

Instrumentos flauta transversal e flauta baixo

Formação acadêmica Bacharel em flauta transversal pela USP, em 2010; mestrado em Artes (Processos de Criação Musical), USP, em 2013; doutorado em Música, USP, 2018.

Como define o grupo? “O Ôctôctô é um grupo de música instrumental brasileira autoral. Encontra-se na fronteira entre o popular e o erudito, apresentando obras com arranjos específicos para a formação do octeto.”

Em que o grupo se destaca? “Tratando sobre aspectos extramusicais, o grupo sem dúvidas se destaca pelo ambiente totalmente colaborativo entre os seus integrantes. Não fosse isso, dificilmente estaria em plena atividade, com 10 anos de existência (sem hiatos!), e com uma trajetória de êxitos significativos. É muito difícil manter um grupo de música instrumental.”

Qual a maior dificuldade do grupo? “Uma das grandes dificuldades, ao meu ver, é encontrar remuneração à altura. O Ôctôctô é um grupo grande, que tem muitos equipamentos e por isso acaba sendo caro também. Um concerto, por mais simples que seja, envolve o transporte e a montagem de muitos equipamentos. Sem falar no exaustivo trabalho dos compositores e arranjadores do grupo. Não fosse o amor pela música e a boa vontade coletiva, seria difícil sobreviver.”

O que as pessoas devem ter em mente ao ouvirem o grupo? “Acho bacana estar ligado na trama entre os instrumentos, nas trocas de vozes, esse trabalho que os compositores e arranjadores fazem muito bem. Porque cada música é cuidadosamente pensada para ser tocada pelo octeto, não é apenas mais uma releitura. E também o fato de tocarmos juntos há tantos anos. O entrosamento entre o grupo é algo a ser reparado.”

Fazer música como integrante do Ôctôctô é…“Muito bom!Sou extremamente feliz em tocar no Ôctôctô e sinto uma alegria enorme em cada apresentação. É um trabalho feito entre grandes amigos e com muito amor pela música!”

Edinaldo dos Santos, trombonista do Ôctôctô (Foto: Carlos Bozzo Junior/ Folhapress)

Nome Edinaldo dos Santos

Idade 32 anos

Local de nascimento São Paulo

Instrumento Trombone

Formação acadêmica Curso Trombone Erudito, pela EMESP (Escola de Música do Estado de São Paulo – Tom Jobim), e Licenciatura em Música, pela UniSant’Anna (Centro Universitário Sant’Anna), em 2008.

Como define o grupo “Uma família.”

Em que o grupo se destaca? “Na criação das composições e arranjos, explorando o melhor de cada instrumento, tanto em sua técnica como no diálogo com diversas linguagens musicais.”

Qual a maior dificuldade do grupo? “Além daquela de reunir todos (risos), acho que encontramos dificuldade em conseguir locais para as apresentações.”

O que as pessoas devem ter em mente ao ouvirem o grupo? “O grupo oferece muitas cores sonoras, sensações e emoções ao longo dos concertos.”

Fazer música como integrante do Ôctôctô é…“Fazer música com amigos, música de qualidade, feita com carinho, em que cada um tem extrema importância na construção musical.”

Miguel Diaz Antar, baixista do Ôctôctô (Foto: Carlos Bozzo Junior/Folhapress)

Nome Miguel Diaz Antar

Idade 35 anos

Local de nascimento Assunção, Paraguai

Instrumentos contrabaixo acústico e elétrico

Formação acadêmica Bacharel em Música pela USP, em 2007, e mestrado em Música pela USP, em 2018.

Em que o grupo se destaca? “Ôctôctô é um grupo de música instrumental que dilui as fronteiras da velha dicotomia erudito/popular. Em nossa música, colocamos nossas referências pessoais em estruturas formais contemporâneas.”

Qual a maior dificuldade do grupo? “Por se tratar de um grupo grande, por vezes é difícil encontrar uma boa sala de ensaios.”

O que as pessoas devem ter em mente ao ouvirem o grupo? “Um som de qualidade e bom gosto. E um som próximo, simples, que se reconhece. Ao mesmo tempo é complexo.”

Fazer música como integrante do Ôctôctô é…“Fazer música com amigos é um presente de Deus!”

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Capa do CD ‘Oito’, do Ôctôctô (Foto: Carlos Bozzo Junior/Folhapress)

Assista aos vídeos, a seguir, nos quais o Ôctôctô toca, com exclusividade para o Música em Letras, “Querença”, de Julio Valverde, e “Atribulado”, de Márcio Modesto.