Luiz Tatit e Ná Ozzetti celebram São Paulo

O compositor Luiz Tatit e a cantora Ná Ozzetti (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Paulistanos da gema – da clara e do ovo inteiro -, o músico e compositor Luiz Tatit e a cantora Ná Ozzetti se apresentam nesta quinta (25), em show no qual presenteiam São Paulo, cidade da qual fazem parte e que na data completa 464 anos. Contudo, para os dois artistas será apenas um show que coincidiu com o aniversário da cidade e por isso resolveram dedicar o evento a ela. “Mas não era a nossa intenção inicial”, falou Tatit.

O Música em Letras esteve nesta terça (23) no ensaio, que aconteceu na casa de Tatit, no bairro do Butantã, para entrevistá-los e gravou um vídeo, no qual os artistas interpretam, com exclusividade para o blog, “Ladeira da Memória”, de Zé Carlos Ribeiro, música da época do experimental grupo Rumo, do qual eram integrantes. Quer coisa mais paulistana que isso? Continue lendo e veja o vídeo no final do texto.

PAULISTANICES

Luiz Augusto de Moraes Tatit, 66, o Luiz Tatit, além de músico, compositor e professor chegou na cidade quando ela já havia completado 398 anos. Perguntado em quais aspectos se considera paulistano respondeu: “Em praticamente tudo. Eu até não gosto de sair de São Paulo. Como não gosto de viajar, minha vida é aqui em todos os sentidos. Não me acostumaria com nenhum outro ritmo de vida. É engraçado isso, tanto que quando chegam as férias meu prazer é ficar em São Paulo”, contou rindo o compositor que prefere não sair de casa, alegando que não é muito de passear pela cidade, mas quando precisa se locomove de metrô. Usa o carro, eventualmente, para chegar a pontos que não são servidos por esse meio de transporte.

Ao contrário da maioria das pessoas, Luiz Tatit não gosta de viajar. Por quê? Medo de avião? “Não, apenas não aproveito a viagem. Fico querendo voltar, então já prefiro ficar de uma vez. Já tentei várias vezes viajar e aproveitar, mas não consigo, fico com ansiedade para voltar”, disse o músico. Perguntado se fica confinado no Butantã, Tatit negou veementemente. “O Butantã já seria demais. Fico nesse quintal, no quarto, no escritório, tudo aqui, nesse mesmo lugar”, falou referindo-se ao local onde realizamos a entrevista.

É por essa e outras razões que Tatit se considera muito paulistano, embora reconheça uma certa radicalidade em sua atitude, lembrando que nem todos os paulistanos são assim. “Eu não poderia morar em outro lugar, né? Levo ao extremo isso, só saio quando tenho que fazer um show, dar uma palestra ou uma aula. Sou um paulistano com uma radicalidade que pouca gente tem”, disse o cidadão que nasceu em Pinheiros, um dos mais antigos bairros da cidade, na Fradique Coutinho, rua que viu ser asfaltada.

A lembrança mais antiga de Tatit tem relação com São Paulo. “Tinha 2 anos e lembro da comemoração do quarto centenário da cidade. Eu estava acompanhando meus pais e me recordo quando jogaram papeizinhos prateados de aviões. Era noite e aquilo foi como uma chuva de prata. Essa imagem jamais esqueci. É a coisa mais antiga de que me lembro”, contou o compositor sobre o evento que comemorou os 400 anos de fundação da cidade, realizado em 1954, ano em que foi inaugurado, por conta dessa comemoração, o Parque Ibirapuera.

Maria Cristina Ozzetti, conhecida como Ná Ozzetti, 59, não deixa por menos em “paulistanice”. Quando veio ao mundo, a cidade já era uma experiente senhora com 405 anos. “Sou superpaulistana. Adoro andar na [avenida] Paulista. Moro atualmente no mato [em um sítio próximo a Jundiaí], mas, meu, ir à Paulista me dá muita alegria. Fora isso, ser paulistano tem a ver com o modo de vida e de relações com as pessoas. Dizem que São Paulo é a terra do trabalho e o trabalho é essencial em minha vida. Ter uma rotina, disciplina de estudo e de trabalho é um jeito paulistano de encarar a profissão e levar a vida de artista. É uma coisa sistemática da qual eu gosto muito porque faz o trabalho render mais.”

Criada em bairros da zona oeste da cidade, Perdizes e Pompeia, Ná desmistifica a ideia de que São Paulo é apenas um grande centro urbano “Gosto do centro, mas jamais moraria lá. São Paulo são muitas cidades em uma só. Fui criada em bairros onde brincava nas ruas, algumas ainda de terra. São Paulo tinha, uns oásis, uns núcleos como os em que morei. Vi chegar o asfalto em lugares como, por exemplo, na avenida Sumaré. Lá passava um riachinho e tinha campo de futebol onde meus irmãos jogavam.”

Luiz Tatit e Ná Ozzetti em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

AFINIDADE COM O NOVO

Em que sentido a música, poesia e interpretação desses dois artistas se caracterizam como paulistana? É Luiz Tatit quem responde, com uma tese: “Começamos como um grupo de experimentação, o Rumo. Havia mais bandas que experimentavam como nós, gerando o movimento da Vanguarda Paulista no [teatro] Lira Paulistana. Essa ideia de experimentação é muito paulistana. Eu até atribuo isso ao fato de que São Paulo não se prende muito à história, não temos muitos pontos turísticos ligados à história. Normalmente, as pessoas vêm a São Paulo para conhecer uma coisa nova, algo que foi construído, uma ponte, por exemplo, e isso é um pouco da experimentação. O novo é muito mais importante para São Paulo do que para outros Estados. A Bahia, por exemplo, que é um Estado maravilhoso, onde nasceu o Brasil, tem coisas históricas, religiosas e não sei quantas igrejas para se ver. O Rio de Janeiro, a mesma coisa, foi capital do Brasil por muito tempo, reunindo várias construções antigas. São Paulo tem uma coisa ou outra desse tipo, mas o que chama a atenção aqui são as obras, as novidades que estão sendo construídas. Então, tenho a impressão de que essa afinidade com a experimentação é um pouco dos artistas daqui. Os marcos de São Paulo não são tão arraigados na população. Sinto que São Paulo está constantemente em obras.”

SHOW

O show que Luiz Tatit e Ná Ozzetti apresentam nesta quinta (25) conta com cerca de 18 músicas, entre elas algumas do grupo Rumo, além de trabalhos autorais de cada um. O Rumo foi formado em 1974 por um grupo de alunos da Escola de Comunicação e Artes da USP, liderados por Luiz Tatit. Com o surgimento da chamada Vanguarda Paulista, gravaram o primeiro LP em 1981. “Além da música que gravamos no vídeo para o blog, teremos no show ‘Delírio Meu’ e ‘No Decorrer da Madrugada’, da época do Rumo, além de “Dia Útil”, que foi gravada no disco ‘Rumo ao Vivo’, de 1992. Também apresentaremos canções que eu e a Ná fizemos depois do Rumo”, explicou Tatit. Entre elas, “Atração Fatal”, do disco “Ná” (1994), e “Meu Quintal”, do disco homônimo da cantora, de 2011, ambas de autoria dos dois artistas. Do disco “Sem Destino” (2010), de Luiz Tatit, interpretam “De Favor” e a homônima “Sem Destino”. Da feliz parceria entre Tatit e Dante Ozzetti, irmão de Ná, devem mostrar “Crápula” e “Capitu” do disco “Estopim” (1999) da cantora.

PARTE DA HISTÓRIA

Segundo Tatit, o público irá assistir a um show bastante paulistano e de gente que viveu aqui a vida inteira. “Vamos reviver o que fizemos porque somos parte da história de São Paulo há pelo menos 40 anos. Já é um naco de São Paulo do qual participamos. Não tem muito erro, quem for ao nosso show vai ver São Paulo.”

Ná Ozzetti presenteará a cidade fazendo o que faz todos os dias, trabalhando. “Por isso, sem querer ser pretensiosa, ofereço meu trabalho de todo o coração”, contou rindo a artista que teve sua resposta complementada por Tatit: “Se é que ela [a cidade] considera isso um presente. Normalmente, um presente, um prêmio são coisas que permanecem e duram. Estamos apresentando vários ‘presentes’ , tomara que a cidade os conserve”.

Perguntados se concordam que ocupam um lugar na história da cidade como o de Adoniran Barbosa (1910-1982), Ná respondeu: “Eu nem penso nisso, de jeito nenhum…Penso que represento alguma coisa que é o meu jeito de ser”. Para Tatit, a comparação não é feliz: “Não gosto, porque o Adoniran está na frente. Será que a gente o alcança? Nosso interesse é alcançar o Adoniran, mas não se consegue”, falou rindo o artista, que convidou o violista Fábio Tagliaferri para fazer uma participação especial na música “De Favor”.

Assista ao vídeo no qual os artistas interpretam “Ladeira da Memória”, de Zé Carlos Ribeiro.

SHOW LUIZ TATIT E NÁ OZZETTI

ARTISTAS Luiz Tatit e Ná Ozzetti
QUANDO Amanhã (25), às 21h
ONDE Espaço Tupi or Not Tupi, r. Fidalga, 360, Pinheiros, São Paulo, tel. (11) 3813-7404
QUANTO R$ 60