Retrospectiva 2017 – Sons, músicas e ruídos do ano

Por Carlos Bozzo Junior
(Fotomontagem : Carlos Bozzo Junior)

Na retrospectiva de 2017 do blog, você tem acesso a uma seleção de trechos e fotos de alguns dos 248 posts publicados, assim como a gravações das 207 realizadas com exclusividade para o blog.

O Música em Letras agradece quem o acompanha e deseja a todos um ano novo repleto de sons, músicas, ruídos, cantos, gorjeios, trinados, solos, graves, médios, agudos e bastante silêncio para ouvirmos tudo isso e o que mais vier.

Boa navegação e excelente 2018!

DE OUVIDOS ABERTOS

 

Capas dos CDs de Hermeto Pascoal e Grupo, Almério e Théo de Barros (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Música em Letras selecionou alguns CDs para você conhecer o que há de melhor no mercado.
Discos merecem ser ouvidos com bastante atenção. Procure escutá-los usando um bom par de fones, pois eles nos ajudam fisicamente a focarmos e aproveitarmos melhor a audição. Surpreenda-se com detalhes que geralmente passam desapercebidos quando nossos ouvidos não estão “enfonados”.
Segundo o empreendedor Henry Ford (1863 – 1947), “há um punhado de homens que conseguem enriquecer simplesmente porque prestam atenção aos pormenores que a maioria despreza”. Verdade, principalmente quando se trata de enriquecer a própria alma com música. Um verdadeiro empreendimento, principalmente para quem quer resultados imediatos e com portabilidade para outras vidas.

NO MUNDO DOS SONS

Os dois CDS “No Mundo dos Sons”, de Hermeto Pascoal e Grupo, são compostos de 18 faixas, com bons sons e maus sons; judiciosos e loucos; fortes e fracos; sons prudentes e sons da alma. Os sons judiciosos têm seus momentos de erro; os loucos, seus momentos de razão; os fracos, seus acessos de coragem; os fortes, seus instantes de fraqueza; os prudentes, seus momentos de vislumbres da alma; e os sons da alma, eclipses de bom senso.
Há quinze anos sem registrar o som do grupo, atualmente formado por André Marques (piano), Itiberê Zwarg (contrabaixo), Ajurinã Zwarg (bateria), Jota P. (sax e flauta), além do filho de Hermeto, Fabio Pascoal (percussão), o disco traz, entre as composições autorais e arranjadas pelo chefe da tribo, algumas homenagens póstumas. Entre elas, “Vinicius Dorin em Búzios”, para o ex- saxofonista e flautista do grupo; “Pernambuco Percussão!”, para o músico e irmão de som de Hermeto, Luiz de Santa; “Rafael Amor Eterno”, para o bisneto do Bruxo, Rafael, além de “Para Miles Davis”, designada ao trompetista; “Viva Piazzolla!”, dedicada ao músico argentino; “Forró da Gota para Sivuca”, composta para o acordeonista; e “Para Tom Jobim”, feita em homenagem ao maestro soberano.

Um primor em música, sons, execução, composição, arranjos e criatividade que coloca a brasilidade em lugar de destaque no mundo dos sons.

TATANAGÜÊ

Companheiro de Hermeto Pascoal no Quarteto Novo, o compositor Théo de Barros também estava há muito sumido e, como o Bruxo, sem gravar. Por sinal, gravar discos e aparecer em shows não é muito de seu feitio. Compositor de “Disparada”, entre outros clássicos, Théo de Barros gravou apenas três discos: “Primeiro Disco” (1979, LP), “Violão Solo” (1997), e “Theo” (2003).

“Tatanagüê”, seu novo CD, rompe o silêncio por meio de lindas músicas e das belas vozes de Renato Braz, Mônica Salmaso e Alice Passos. A canção homônima ao título versa sobre um pássaro invisível que servia de sentinela nos quilombos. Por meio de seu canto, o ser alado alardeava a presença de pessoas estranhas próximas à comunidade formada por escravos.
Entre as 16 faixas do CD, “Tatanaguê”, “Cavalo de Oxóssi” e “Camaradinho”, são temas da “Suíte Capoeira”, enquanto “Dança de Marinheiro” é parte da “Suíte Marinha”, todas composições de Théo de Barros com Paulo César Pinheiro.

Como o pássaro Tatanagüê, Théo de Barros parece ter descoberto um jeito de se tornar invisível, bastando ser ele mesmo. Afinal, é característico do mercado fonográfico mostrar e favorecer quem quer apenas aparecer, sem ter o que acrescentar musicalmente. Situação contrária à desse excelente músico que compõe, arranja e toca violão majestosamente.

Essa é uma aparição mais que bem-vinda, que nos faz crer no incrível, rever o invisível e realizar quase o impossível, ou seja, ouvir música e letra de alta qualidade do começo ao fim de um disco

DESEMPENA

Segundo disco do cantor e compositor pernambucano Almério – o primeiro é o homônimo “Almério” (2013)-, “Desempena” é sem dúvida um dos melhores CDs de MPB lançados recentemente e deve ser ouvido com atenção.

Com sonoridade limpa, concisa e atraente, as 11 faixas são recheadas de composições com letras tão bem elaboradas como interpretadas – todas com pegadas existenciais -, passeando por ritmos diferentes e preenchendo ouvidos carentes de conteúdo, originalidade e poesia. Difícil, depois de ouvir essas músicas, é viver no vazio. Mesmo que algumas delas, como “Queria Ter pra Te Dar”, de Thiago Martins, e “Segredo”, de Isabela Moraes, não tragam em suas estruturas refrões. Ausência não sentida, mas que nos preenche pelo inusitado e pelo bom gosto de seus conteúdos inquietos.

O som, que agrada do começo ao fim da audição, desempena qualquer ouvido torto por massa musical de baixa qualidade. Os músicos, além de Almério cantando, seguem os arranjos originais e enxutos de Juliano Holanda (violão de aço, nylon, violão de 10 cordas e contrabaixo) que valorizam e emolduram a voz dando mais poesia às letras. Quem ajuda Almério e Juliano Holanda a nos aprumar a alma pelo som e pela poesia é Marconiel Rocha (percussão), Philipe Moreira Sales (pífanos e flautas) e Piero Bianchi (teclado).
Da lavra de Almério “Tatoo de Melancia”, “De Olhar Pra Cima”, “Retiro da Flores” e “Chamado”, esta em parceria com Valdir Santos. “Desempena” e “Por Que Você” são duas canções fortes de Juliano Holanda. A última serve para brecarmos o estúpido e incoerente moto perpétuo que vivenciamos cotidianamente em nossas automáticas e repetitivas atitudes infrutíferas.

Juliano Holanda assina ainda “Trêmula Carne” e “Não Nasci para o Amor”, com Thiago Martins. Elba Ramalho tem participação especial em “Do Avesso”, outra música (um coco com baião) de Juliano Holanda.
Jethro Tull, Raul Seixas, Alceu Valença, Quinteto Violado e Geraldo Azevedo são alguns dos sons que você irá lembrar ouvindo Almério, mas o artista constrói e tem identidade suficiente para realizar um disco ótimo que desempena a alma, nivelando-a a boas cabeças e sensíveis corações.

SOM DA CALÇADA

Músicos de rua de São Paulo ganham festival próprio

A compositora e cantora Lílian Jardim, que se apresenta no 1º Busker Fest (Foto: Carlos Bozzo Junior)

“Busker” é o termo em inglês usado para identificar o artista de rua. Busker Fest é o nome do evento que acontece pela primeira vez amanhã (20), às 21h30, no Bourbon Street, em São Paulo. O evento foi criado com o objetivo de abrigar músicos que tocam nas ruas de São Paulo no palco da casa com estrutura, aconchego e segurança que as ruas não oferecem.

Tocando nas ruas de São Paulo há cerca de dois anos, a cantora e compositora Lílian Carla Benincasa Jardim, 38, se considera “uma verdadeira vira-lata”, por conta de suas diferentes ascendências: espanhola, italiana, austríaca e portuguesa. Nasceu em Araraquara, interior do Estado, onde se formou em direito e há 18 anos, “vive de música”. Em São Paulo, está há oito anos.

A cantora nunca exerceu a profissão de advogada.“Toquei na minha formatura de direito, ganhei cachê, e ainda levei a família inteira com convites gratuitos. Nessa ocasião, eu já vivia de música”, disse a artista que atacou com um trio tocando violão, pandeiro e cantando, no jantar do evento, além de integrar o grupo de baile que animou a festa no dia seguinte.

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 19/07/2017)

NÁ “AFINIDADE”

Sem Noção – “Afinidade”, por Ná Ozzetti

Ná Ozzetti (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras convidou a cantora e compositora Ná Ozzetti, 58, para participar da série Sem Noção (veja posts anteriores) que realiza audições às cegas de discos recém-lançados no mercado brasileiro.

A artista, que gravou 12 discos, ouviu “Afinidade”, CD da cantora Cibele Codonho, em um ambiente que lhe é muito familiar, o parque Fernando Costa, conhecido por parque da Água Branca, na zona oeste de São Paulo.

Ná Ozzetti mora há 16 anos em um sítio, em Santa Clara, bairro da Serra do Japi, Jundiaí, cerca de 55 quilômetros da capital. “Eu fui criada aqui na Água Branca, depois morei em Perdizes. Gosto muito desse lugar, vinha muito aqui”, disse a artista.

A mudança da capital para o interior melhorou a qualidade de vida da cantora e aguçou seus ouvidos. Em São Paulo, Ná Ozzetti tinha que enfrentar o ruído de motos e carros que subiam a ladeira de sua rua, anunciando-se quarteirões antes de passar por sua casa, o que nela provocou uma insônia crônica. “Não tomo remédios, por isso, de 15 em 15 dias, tinha que fazer uma sessão de acupuntura. Era a única coisa que me fazia dormir, mas durava só 15 dias. Aí, tinha que colocar as agulhas de novo”, disse a cantora que com a mudança de São Paulo se curou da insônia e de uma rinite alérgica.

Contudo, para a cantora o silêncio absoluto não existe, nem no mato. Segundo ela, há sons de bichos durante todo o dia, apesar de ser possível sentir uma profundeza imensa no silêncio por trás das vozes e ruídos da bicharada. “Aqui, na cidade, não se chega nesse silêncio profundo, tem sempre um ruído. Lá eu percebo que me afundo nesse silêncio, embora ouça outras frequências também.”

A quietude da noite do mato é sempre rompida pela festa de sons que inaugura o dia. É Ná Ozzetti quem conta como é esse concerto matinal e natural: “Lá, acordo com o som dos galos, depois vem os jacus, e aí fica cheio de passarinhos”, disse a cantora ressaltando que alguns pássaros só dão o som de sua graça no período da tarde, como os tucanos que ela reconhece por terem um canto “meio seco. Trrrr, trrr, trrrr”, imitou-os trinando.

Duas vezes por semana, a artista deixa o mato e vem para a cidade dirigindo e ouvindo. “Estudo muito no carro, não vocalise, que não dá para fazer no carro, mas quando tenho que aprender repertório novo, o melhor lugar é o carro”, contou Ozzetti que, além de estudar, aproveita os 40 minutos da viagem para ouvir discos de outros artistas ou o rádio, que “adora”, mas quando se ouve “levo um susto”, contou rindo.

Foi no carro, dentro do estacionamento do parque, que Ná Ozzetti realizou a audição proposta pelo Música em Letras. A artista comentou que tem realizado shows de seus último discos, o “Ná e Zé” (2015), com José Miguel Wisnik; “Thiago França” (2015), com o grupo Passo Torto, formado por Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos e Romulo Fróes; e “Balagandãs” (2009).

(Trecho de matéria postada dia 17/07/2017)

BELCHIOR NO METRO

Linha 4-Amarela, onde as paralelas se encontram

(Fotomontagem: Carlos Bozzo Junior)

Viajar na Linha 4-Amarela do Metrô de São Paulo permite ao usuário vivenciar uma experiência impossível para a geometria, mas real para os ouvidos.

A viagem nessa linha, com seis estações em operação- Butantã, Pinheiros, Faria Lima, Paulista, República e Luz-, comprova que as paralelas se encontram, assim como a linha do céu no horizonte encontra o mar.

Ao anunciar qualquer uma dessas estações ou emitir informações no sistema de som dos vagões, um sinal de três notas- que remete à sonoridade de um sax tenor – , paralelamente também remete a introdução da música “Paralelas”, de Belchior (1946-2017).

Introduzir é fazer entrar; levar para dentro; pôr em voga; fixar; arraigar. A introdução musical funciona como um prefácio de livro, antecedendo-o em poucas palavras ao leitor.

Na música, a introdução por vezes assume importância própria. É o caso dessa “intro”, como se diz no jargão musical, de “Paralelas”, gravada por Belchior, em 1977, no LP “Coração Selvagem”.

(Trecho de matéria postada 14/072017)

SOM GORDO

Arismar do Espírito Santo lança “Flor de Sal”

Arismar do Espírito Santo lança o CD “Flor de Sal” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

É Arismar quem define o papel de cada um dos integrantes de seu grupo. “A Léa transita numa harmona [harmonia] em que todo mundo arpejaria. Ela não. Ela quer fazer música. O Tiago é exato. O Cleber batuca com a bateria. A bateria dele tem batuque e violão ao mesmo tempo. E o Serginho é o cara novão que está tocando pra caramba. Ele é fã do Raul. Fã do Raul já está bom, você entendeu?”, falou o músico, referindo-se ao trombonista Raul de Souza, inventor do Souzabone e de muita malandragem nos dois instrumentos.

“Flor de Sal” é um CD autoral, e foi definido por Arismar como “um monte de amor junto. Viramos uma flor de sal, cristalizamos usando nossos ritmos. É o nosso vocabulário de samba, de frevo, do xote, mas vai ter quem diga: ‘Está jazzeado!’. Tem cara que gosta de botar nome; a gente gosta de botar som.”

(Trecho de matéria postada 03/07/2017)

SIGNOS E SONS

Partitura perdida de Rogério Duprat estreia em São Paulo

Itamar Vidal mostra “Antonomie I”, peça de Rógério Duprat, no computador (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O compositor, arranjador e maestro carioca Rogério Duprat (1932-2003), nome forte da música brasileira ligado à Tropicália, terá sua peça “Antinomies I” executada pela primeira vez sexta-feira (2), no Auditório Ibirapuera. Entre os músicos que participam do concerto, instrumentistas da banda Mantiqueira, da OSESP, da Jazz Sinfônica, da Banda Sinfônica, além das cantoras Anna Tréa, Cris Miguel e do cantor Roberto Gava.

O Música em Letras esteve com o clarinetista, arranjador e compositor paulistano Itamar Vidal Junior, 55, um dos responsáveis pelo evento, para saber mais sobre essa partitura, que foi perdida pelo próprio Duprat durante uma viagem à Europa, em 1962, ano em que escreveu a peça.

Segundo Vidal, para Duprat foi um alívio ter perdido a partitura, embora ele reconhecesse sua importância. “Ele dizia isso porque não teve que mostrá-la para ninguém. Em seu diário, ao citar uma peça anterior, “Organismo”, ele afirma que teve uma liberdade muito maior em ‘Antinomies I’ porque nela não teve de determinar as notas. Por isso, ela era considerada muito importante por ele mesmo”, contou Vidal.

Um amigo e parceiro de trabalho de Vidal, o percussionista Ricardo Stuani, 45, descobriu a peça inédita do Rogério Duprat, reescrita em 1966. Por algum motivo, ela ficou novamente perdida numa gaveta qualquer no acervo da família de Duprat. “Apesar de várias teses e livros sobre o compositor, pouco ou quase nada se sabia sobre ela até a gente resolver estudá-la a sério para mostrá-la ao mundo”, disse Vidal sobre a partitura garimpada há cerca de três anos.

Segundo o músico, “a peça é incrível e traz as bases do que seria a contribuição de Duprat para a música brasileira, seja no movimento Música Nova, seja no próprio tropicalismo. Não tem pentagrama, são só desenhos”, falou mostrando a partitura.

Vidal disse ter mostrado a peça para Arnaldo Baptista. Nas palavras do Mutante, a composição tem tudo a ver com o que eles falavam e criavam em 1967, contou Vidal.

(Trecho de matéria postada dia 31/05/2017)

TOM PRA SEMPRE

Tom Jobim volta para casa em forma de estátua

Carol Fernandes uma das proprietárias da pousada Bonita, onde morou Tom Jobim (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O maestro soberano Tom Jobim (1927-1994), que hoje completaria 90 anos, é homenageado em um evento, na casa onde morou entre os anos de 1962 e 1965, período em que compôs, entre outras músicas, “Garota de Ipanema”.

A casa que hoje abriga a pousada Bonita e fica na rua Barão da Torre, 107, em Ipanema, irá abrigar também uma estátua feita para homenagear o músico.

(Trecho de matéria postada dia 2501/2017)

DUPLA DAS CORDAS

Swami Jr. e Tuco Marcondes mostram em show os dois lados da força

Os músicos Swami Jr e, à esquerda, Tuco Marcondes, que se apresentam , amanhã (18), em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Um projeto inédito reúne o duo Swami Jr. (violão de sete cordas) e Tuco Marcondes (violão de seis cordas de aço). Ambos, super-requisitados e excelentes músicos, sobem no palco do JazzB, em São Paulo, amanhã (18), às 21h, para mostrarem ao público músicas que fazem parte da história musical dos dois e que gostam de tocar.

O Música em Letras esteve no ensaio da dupla, que aconteceu na tarde de ontem (16), no estúdio da casa de Marcondes, no Campo Belo, bairro da zona sul de São Paulo, e conversou com a dupla que gentilmente gravou duas músicas do repertório do show, com exclusividade para o blog.

Elza Soares, Maria Bethânia, Zizi Possi, Chico César e Zeca Baleiro, entre outros artistas de renome, já foram acompanhados pelas cordas de Swami, 58, que é violonista, produtor e arranjador, além de diretor musical de Omara Portuondo e Buena Vista Social Club.

Seu parceiro de palco, Tuco Marcondes, 52, é compositor, arranjador e multi-instrumentista, e acompanha Zeca Baleiro, Paulo Ricardo, Fafá de Belém, Zélia Duncan e Ana Carolina, entre outros.

“Conheço o Tuco há mais de 15 anos. Sou fã dele. É um músico espetacular, com uma musicalidade genial. Trabalhamos juntos em muitas produções, gravações e shows. Com o Zeca Baleiro, fizemos o disco ‘Concerto’ e atualmente tocamos em shows com o cantor Richie. Sempre tivemos essa vontade de nos apresentarmos juntos, e essa oportunidade finalmente chegou”, falou Swami.
Em dois sets de 50 minutos, os artistas interpretam “Sons de Carrilhões”, música de João Pernambuco (1883-1947); “All Blues”, de Miles Davis (1926-1991); e “Meu Caro Amigo”, de Chico Buarque e Francis Hime, em uma versão “arriguisticabarnabé” misturada com samba, além de outras peças clássicas de Baden Powell (1937-2000), Stevie Wonder, Beatles, Burt Bacharach e Charlie Haden.

Músicas autorais também estão no programa. De Swami, uma toada gravada em seu disco “Jurupari”, e um partido alto, “Dois”; de Marcondes, “Nylon”, um boogie de seu primeiro disco, “Tuco Marcondes Band” (1997); e a espanholada “Anda, Luzia”.

“Fizemos uma turnê, só nós dois, acompanhando o Zeca [Baleiro]. Nas passagens de som, percebemos que se fizéssemos um som nosso dava a maior ginga, e desde que conversamos sobre isso, em menos de seis anos, conseguimos tirar essa ideia da conversa e realizá-la”, contou Marcondes.

Marcondes acrescentou que tocar com Swami é um privilégio para poucos. “Ele toca te ouvindo, toca para você. Embora eu não seja tão habilidoso quanto ele, tento fazer o mesmo, ou seja, deixá-lo confortável enquanto ele sola. Sou fã do cara. Ele é do bem. Não bebe, não usa drogas e não peca. Ele é o lado branco da força e eu o lado negro. Somos luz e trevas, mas no fundo temos um parentesco. Esse som é tipo Luke Skywalker e Darth Vader, em um troca- troca”, falou rindo Marcondes.

Quem comparecer ao show certamente irá presenciar dois músicos, em uma formação pouco inusitada (violão de sete e violão com cordas de aço), tocando despretensiosamente e com muito prazer músicas que passam pelo jazz, MPB, tango, entre outros gêneros, abrindo muito espaço para a improvisação. Uma canja do brilhante instrumentista Mário Manga acrescenta molho à alta qualidade musical do evento. O encontro talvez seja o embrião de um novo CD para Swami e Marcondes.

MORTE SENTIDA

Quão importante é saber que  Nat Hentoff morreu

(Fotomontagem: Carlos Bozzo Junior)

O colunista, historiador, romancista e crítico musical norte-americano Nathan Irving Hentoff, 91, morreu no último sábado (7), na sua casa em Manhattan, Nova York, ladeado por familiares e ouvindo a voz de Eleanora Fagan Gough (1915-1959).

Nathan Irving Hentoff era conhecido como Nat Hentoff, e teve entre tantos privilégios ser amigo do mestre Quincy Jones.

Jones, além de considerar Hentoff um grande jornalista, e tecer vários elogios sobre ele, compôs “Jessica’s Day” para a filha de Hentoff, gravada pela banda de Count Basie (1904-1984), em 1959, e pelo grupo de Cannonball Adderley (1928-1975), em 1962.

Um mestre não erra. Jones é certeiro ao falar sobre um homem que, entre vários veículos, escreveu para os melhores. Entre eles “United Media”, “The Wall Street Journal”, “Down Beat”, “The Village Voice”, “Jazz Times”, “Legal Times”, ‘The Washington Post”, “The Washington Times’, “The Progressive”, “Editor & Publisher” e “Free Inquiry”.

Hentoff, que nasceu em Boston e se pós-graduou na Universidade Harvard, teve sua vida ligada à música, escrevendo sobre ela. Contudo, nem só de críticas, resenhas e artigos viveu o homem. De 1955 a 2005, escreveu mais de 35 livros, entre eles “Jazz is” (1976).

Qual a importância de saber que Hentoff morreu? A mesma de saber que a voz de Eleanora Fagan Gough é a da cantora Billie Holiday.
(Trecho de post ddo dia 09/01/2017)

ONDE NAUFRAGADA

“Deu Onda”, a musa do verão

(Fotomontagem: Carlos Bozzo Junior)

– Zozzo, você viu, ouviu, dançou ou cantou “Deu Onda”, do MC G15?

Era um daqueles músicos puristas e chatos, no telefone, fazendo o que alguns deles fazem: cobrar do Música em Letras uma posição diante da tal música obrada para ser sucesso neste verão.

– Sim, e senti o cheiro também.

– Sério, Zozzo! Você precisa falar que isso é uma zosta!

– Pera lá, eu disse obrada, mas não que era uma zosta. Nem cheiro disso ela tem. Ela cheira a nada.

– Como assim?

– Leia a letra:

“Deu Onda- Meu pau te ama”

Eu preciso te ter
Meu fechamento é você, mozão

Eu não preciso mais beber
E nem fumar maconha
Que a sua presença me deu onda

O seu sorriso me dá onda
Você sentando, mozão, me deu onda

Que vontade de ter [aqui “ter” escamoteia a palavra cantada, “foder”], garota
Eu gosto de você, fazer o quê?
O pai [aqui “o pai” escamoteia o que é cantado, “meu pau”] te ama

Que vontade de ter [foder], garota
Eu gosto de você, fazer o quê?
Meu pai [meu pau] te ama, é

Meu pai [meu pau] te ama
Meu pai [meu pau] te ama, é
Meu pai [meu pau] te ama

– Não preciso ler, já conheço –, disse o chato abreviando a charla.

– Ótimo, então perceba sua eficiência. Clara e direta, “Deu Onda” foi composta para você repetir, sem precisar nem mesmo se dar ao trabalho de decorar. Ela é feita para isso, para nada.

– E daí?

– Daí, nada. Se ela é nada, talvez seja, zen…

– Mas você não vai falar nada sobre ela no seu blog?

– Falar sobre o nada? Ok. No nada há frases, só isso. Capciosas, aproveitam da similaridade dos sons das palavras para causar o manjado efeito, no ouvinte, de que ele é esperto e descolado por perceber a brincadeira “supermegainteligente” do autor. Brincadeira igual àquela de dizer rápido as palavras: “vivo, lixo, pano”. Ritmo, melodia, harmonia e timbre, tudo passa longe de uma música de qualidade, mas não deixa de ser a musa deste verão, que embala dancinhas coreografadas, gravadas e postadas por celebridades e anônimos de todo o território nacional. Na real, ela é o nada e, sendo o nada, talvez seja zen, zen ruim e zoa ao mesmo tempo. Sei lá…

– Ok, Zozzo.
(Trecho de matéria postada no dia 10/01/2017)

MÚSICOS NA LUTA

Músicos protestam na frente da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo

A Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, que realizou um concerto protesto, na capital, nessa sexta-feira (Foto: Carlos Bozzo Junior)

A Banda Sinfônica do Estado de São Paulo realizou hoje, sexta-feira (27), ao meio dia, em frente ao prédio da Secretaria da Cultura do Estado, na região central da capital um concerto protesto relâmpago contra as demissões de seus músicos. A convocação para o ato, aberto à população da cidade, foi feita por meio da página da banda no Facebook.

Gabriela Machado, flautista da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, uma das cerca de 60 integrantes do grupo que compareceu ao ato, falou com exclusividade ao Música em Letras (veja vídeo no final do texto), explicando a polêmica que gerou o concerto. “Vamos lutar até o fim, inclusive para que não desapareça o nome Banda Sinfônica, pois na convocação do próximo edital, de 2017 a 2021, a banda já não consta entre os grupos que a organização social irá administrar, ou seja, ela já desapareceu, foi extinta no papel. Isso não pode acontecer, não só pelos nossos trabalhos, mas um grupo musical de tanta importância não pode deixar de existir por uma vontade política equivocada”, disse a musicista.
O presidente do Sindicato do Músicos no Estado de São Paulo, Adelmo Ribeiro, também esteve no local, além de outros músicos solidários à causa. Entre eles, o guitarrista, compositor, arranjador e professor Fernando Antonio de Alvarenga Corrêa, 52, e sua mulher Liliana Bollos, 52, pianista, compositora e professora, ambos nascidos no interior do Estado. “Viemos dar nosso apoio ao pessoal da banda”, disse a pianista.

Assista aos vídeos feitos com exclusividade pelo Música em Letras em que foi registrado, além do som da banda, o protesto de seus músicos juntos à população, chamando o secretário da cultura do Estado José Roberto Sadek para recebê-los com as palavras de ordem: “Sadek, cadê você? Vim aqui só pra te ver”.

No término do concerto, uma comitiva formada pela spalla e clarinetista da banda Marisa Takano, pelo saxofonista César Roversi, e pelo percussionista Saulo Camargo, acompanhados do maestro Marcos Sadao Shirakawa, foram solicitados a entrar no prédio da Secretaria de Cultura para serem atendidos pelo secretário que, diante da manifestação musical, aceitou recebê-los.

Segundo a flautista Gabriela Machado, a reunião da comitiva com o secretário “acabou sem novidades, foi só para paralisar o movimento”, escreveu a musicista em mensagem direcionada ao Música em Letras às 14h36. Continue acompanhando pelo blog o desfecho dessa polêmica que se arrasta há meses.
(Trecho de post do dia 27/01/2017)

CRÍTICA

Crítica – “Quando eu for Grande”, CD para pais e filhos

Capa do CD “Quando Eu For Grande” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Não há quem engorde lendo cardápio. Entretanto, é possível imaginar as propriedades de certos ingredientes, suas texturas, cores, aromas e sabores sendo misturados, por meio de descrições curtas e didáticas que comumente preenchem menus.

Descrever o que há no CD “Quando eu for Grande”- recheado de harmonias, percussões, timbres, musicalidade, criatividade e poesia-, é possível. Contudo, descrever o que ele exprime e representa é tarefa que só será realizada se você, pai ou filho, escutá-lo. Portanto, corra e consiga um meio de ouvi-lo, pois só assim para sacar esse excelente disco para crianças e que ainda agrada qualquer adulto que goste de conteúdo que passe longe da chatice.

O disco é liderado por Jackson Carlos de Freitas (violão, composição, produção e direção musical) e Mayla Valentin (voz e percussão). Ambos de Blumenau, são acompanhados por Arnou de Melo, excelente contrabaixista de Itajaí, para darem som às mágicas letras de Gregory Haertel (escritor, letrista, dramaturgo e médico psiquiatra), de Floripa. É Santa Catarina mostrando, por meio desses tarimbados artistas, o seu melhor na arte de som, poesia, entretenimento e educação.

As músicas e letras das dez canções do disco não banalizam ou subestimam ouvidos e mentes infantis com o óbvio que beira a idiotice. Passando pelo jazz e pela MPB, por vezes “mudam” sons (harmonia, melodia e ritmo) junto com a palavra, tratando a música e a poesia, com suingue, arte e respeito, sem deixar de ser lúdico e enriquecedor.

Realista, o disco aborda, entre outras questões, as expectativas criadas pelo futuro em “Quando eu for Grande”; o peso das obrigações, em “Tanta Coisa”; as emoções (medo, vontade) dos pais em terem outro filho; jogos de palavras, em “Descabelada”; e o amor dos pais pelos filhos, em “Cara de Joelho”.

Este é um disco capaz de mostrar que a seriedade poética e musical, que um dia foi só de adultos, chegou muito bem adaptada para crianças. Uma aula de como fazer música para quem está por vir e não encher a paciência de quem já veio.

Peça e ouça esse disco que alimenta e acrescenta. Ou vai ficar só olhando o cardápio?
AVALIAÇÃO Ótimo

(Trecho de post dia 20/01/2017)

ALÊ RIBEIRO, O HOMEM, O MITO

Gigante do clarinete, Alê Ribeiro lança CD em show

Alê Ribeiro, o gigante do clarinete (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Com um talento gigante, asseverado pela excelência como instrumentista, compositor e arranjador, o clarinetista Alexandre Messias Alves Ribeiro, 34, conhecido por Alê Ribeiro, faz show de lançamento do CD “De Pé Na Proa”, no Sesc Pompeia, amanhã (10), às 21h. O artista divide o palco com o quinteto Sujeito a Guincho e a dançarina Flaira Ferro.

O Música em Letras esteve na casa de Alê Ribeiro na última segunda-feira (6), conversou e gravou (assista ao vídeo no final do texto) o músico que nasceu em São Simão, cidade próxima a Ribeirão Preto, cerca de 280 km da capital paulista.

Atualmente, o artista desenvolve um trabalho com música popular brasileira, mas no início de sua carreira, há 20 anos, Ribeiro tocava em orquestra. No último ano do curso de música da UNESP, que daria a ele o título de Bacharel em Música, o clarinetista parou de estudar. “Nessa ocasião, eu já estava muito envolvido com música popular. Faltavam apenas duas disciplinas para terminar a faculdade, mas eu estava morando longe da universidade e já viajava muito para tocar. Por isso, optei por desistir”, falou Ribeiro que mora em São Paulo há 18 anos.

A discografia de Ribeiro inclui, além do primeiro disco, “Tributo a Altamiro Carrilho” (2007), com o grupo Ó do Borogodó, dois CDs em que atua como solista no Sexteto do Panorama, “Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo- Volume 1” (2011) e “Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo- Volume 2 ” (2015), um com o grupo Roda de Choro, “Quarteto Roda de Choro” (2015), dois CDs com o violonista Alessandro Penezzi, “Cordas ao Vento” (2009) e “Ao Vivo na Bimhauis-Amsterdam” (2011), e mais dois discos solo, “Alexandre Ribeiro Quarteto” (2014) e, agora, “De Pé Na Proa” (2016).

Além dos oito discos, Ribeiro participou de uma centenas de outros CDs, lapidando com seu som trabalhos de outros artistas. Entre eles, os das cantoras Tulipa Ruiz, Verônica Ferriani, Luciana Mello, Consuelo de Paula e Corina Magalhães.

Shows, Ribeiro já perdeu a conta de quantos realizou. As cantoras Dona Ivone Lara e Teresa Cristina, os cantores Toquinho, Jair Rodrigues (1939-2014) e Dominguinhos (1941-2013) tiveram o apoio de seu som. Mas um, entre tantos, o desconcertou. Foi o show com Pena Branca (1939-2010) que fazia dupla com o irmão, Xavantinho (1942-1999). “ Foi em Araraquara. Passando o som, tocamos ‘Jardim da Fantasia’, do Paulinho Pedra Azul, e entrei em contato direto com a simplicidade e grandiosidade daquele santo negro, que eu ouvia desde pequeno, e chorei muito. Tive que sair correndo do palco para o banheiro, por não conseguir segurar minha emoção. Não dá para tocar e chorar ao mesmo tempo, é impossível”, contou o clarinetista.

NOVAS SONORIDADES

Na infância, mesmo sem se sentir especialmente atraído pela música, numa mesma tarde de domingo ouvia Tião Carreiro (1934-1993) e Pardinho (1932-2001), Madonna, Camisa de Vênus e Pink Floyd, sempre ao lado do pai, um eclético.

Ribeiro gosta muito de “fazer um som”. Passou por uma fase em que abraçou o preconceito. Tocando apenas choros, fechou os ouvidos e a alma para outros gêneros. Há cerca de três anos, trabalhando com Tulipa Ruiz, amadureceu ao perceber que gostava de outros estilos musicais, deixando para trás um universo engessado por um estilo musical. Assumiu o gosto por outras músicas, timbres, performances, tecnologia, se encantou, e trouxe tudo isso para mais perto de seu instrumento.

“Comecei a me interessar pelos sons de pedais de efeito, tipos de distorção, reverb, delay, e acabei comprando um pedal de looping que é muito útil para ‘loopar’ (repetir) uma base enquanto improvisamos. Passei a ficar horas assoviando, batendo palmas, tocando com esse brinquedo e fazendo um som. Quando percebia, tinha criado um groove gigante”, falou o músico que depois comprou um pedal harmonizador, para abrir outras vozes de seu instrumento, o clarinete.

Contudo, a experiência com a tecnologia não passava de uma brincadeira. “Por ter muito pudor, achava que para tocar com aqueles equipamentos e fazer aquele tipo de som eu precisaria mudar minha postura, inclusive vestir outras roupas, falar de maneira diferente e perder minha origem interiorana. Não conseguia juntar meu mundo do choro, minha forma de tocar, e aquele mundão novo que havia se aberto para mim”, contou o artista que no final de 2015, decidiu fazer um disco solo incorporando a nova sonoridade.

POSIÇÃO DE COMANDO

O instrumentista passou a tocar botando o dente na palheta, com uma embocadura torta, além de tirar sons diversos recorrendo a uma técnica expandida no instrumento. Além disso, distorcia, repetia, harmonizava e colocava mais efeitos no que tocava. Tomou coragem e fez alguns grooves de samba e choro utilizando tudo isso. Surpreendeu-se com o resultado e ao lado do mago dos produtores, o violonista Swami Junior, entraram no estúdio e gravaram “De Pé Na Proa”, que tem esse nome por remeter a uma posição de comando. “É a posição de quem conduz o barco e nesse disco eu é quem conduzo meu som.”

O disco é uma mistura das descobertas sonoras de Ribeiro, com um som que já existia dentro dele, mas que o preconceito não deixava eclodir. “Esse disco é um marco para mim pelo fato de eu não ter que negar uma coisa para fazer outra, que é uma coisa que muitos artistas fazem. O cara, às vezes, para fazer um som pop, nega que tocava com a rapaziada do samba no gueto. Eu aprendi que você não precisa negar nada. Você só soma dentro de seu trabalho”, disse o artista que, agora, se sente livre produzindo um novo tipo de som e já pensa em gravar com o grupo Barbatuques.

Entre as dez faixas do disco, duas músicas são solo, “De Fianco” (assista ao vídeo), sem o uso de pedais, e “Lau e Joji”, que conta com um loop, mas só como ornamento. As demais, “Canto pras Almas”, uma releitura de domínio público, “O Andarilho”, “De Pé Na Proa”, “Obrigado”, “Na Trilha da Trilha”, “Chalumô” e “Clarinete Psicose”, são todas de autoria de Ribeiro. “Ranquei”, dele com Swami Junior e Thiago “Big” Rabello, foram compostas para esse projeto que engloba um nova e libertadora sonoridade do instrumentista.

 

(Trecho de matéria postada 09/02/2017)

ENCONTRO DE SOM

Encontros – Natan Marques e Anna Tréa

Natan Marques e Anna Tréa encontram-se pela primeira vez, no apartamento do guitarrista (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Encontros é uma série do Música em Letras, na qual um personagem do meio musical é registrado em vídeo no momento de um encontro com outro artista do meio, cantando, contando, tocando, recitando, ou simplesmente fazendo um som.

O encontro de hoje (22) aconteceu inesperadamente, na hora do almoço, no bairro de Perdizes, em São Paulo, reunindo os artistas Natan Marques (guitarrista, violonista, arranjador e compositor) e Anna Tréa (cantora, multi-instrumentista e compositora).

Ambos nunca haviam tocando juntos ou sido apresentados. Anna Tréa lembrou de um show de Natan Marques, que assistiu há muito tempo, e chorou ao ouvir “Caminho do Elefante”, da autoria do guitarrista.

Acompanhe, nos vídeos abaixo, como foi esse encontro.

(Trecho de post do dia 22/02/2017)

PRAZER EM CONHECER

Conheça e Assista- Luís Filipe de Lima

O compositor, arranjador, violonista e ator Luís Filipe de Lima (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Conheça e Assista é a nova sessão do Música em Letras dedicada a perfis de artistas e profissionais relacionados à música. Muitos desses artistas, embora com carreiras estabelecidas e reconhecidas por seus pares, não têm seus nomes identificados imediatamente pelo público.

Mesmo para quem milita na área, como é meu caso, histórias e trajetórias de personagens que contribuem de modo relevante para nosso universo sonoro podem passar despercebidas. Por isso, aproveito para contar aqui como acontecem esses encontros, misto de atenção, acasos felizes, contatos e um pouco de sorte.

Nesse primeiro relato, Conheça e Assista o carioca Luís Filipe de Lima, 49, artista de variados domínios e mais uma pá de coisas, aqui registrado em letras, fotos e vídeos.

PRIMEIRO CONTATO

Conheci Luís Filipe de Lima, pelo som. Ouvi-o tocar violão de sete cordas, fazendo seus contracantos ao conhecer o disco da cantora, jornalista e compositora Cecília Leite “Enquanto A Chuva Passa”. Ao ouvir a gravação, o som do violão de sete cordas me chamou muito à atenção.

Pesquisando sobre o instrumentista, deparei-me com sua imagem. Dela, veio a sensação de que eu já o conhecia. Era de se esperar, pois Filipe, além de músico, foi ator de novelas da Rede Globo, portanto teve seu rosto visto por milhares de pessoas, talvez incluindo a mim.

No histórico de sua carreira, constam várias produções e direções musicais, além de também ter os títulos de Mestre e Doutor em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Entretanto, o que me chamou mais a atenção foi saber que Filipe foi aluno de Horondino José da Silva, o Dino 7 cordas (1918-2006). Talvez, fosse essa a razão de seu som não ser chato, esporrento, cheio de técnicas, manhas e artimanhas, ao contrário do festival excessivo das rajadas de bordões que assola o planeta. Talvez tenha sido com o mestre Dino que Filipe aprendeu a ser certeiro, bonito, elegante, comedido e muito bom de ser ouvido. Em seu som há muita música.

Além disso, Filipe escreveu livros sobre candomblé, atualmente escreve um sobre samba, é envolvido com o carnaval carioca, cozinha muito bem e entende bastante de vinho.

O descrito acima, aliado ao som de seu violão de sete cordas, foi o bastante para eu “pegar amor” na pauta! Decidi entrevistar o sujeito, mas não sabia quando. Aguardaria uma oportunidade e pronto.

OPORTUNIDADE

Com uma matéria a ser realizada no Rio de Janeiro para este blog e para o jornal, em janeiro, decidi aproveitar a estadia na cidade e descolar mais uma pauta legal. Sim, não desprezo oportunidades, e no Rio elas saem da torneira.

Dias antes de embarcar, conversando com a atriz e amiga Adriana Lessa, contei sobre minha viagem, e perguntei se ela tinha alguma sugestão de pauta. O carnaval já estava próximo e Lessa é da festa, e do samba. Depois de aventarmos nomes iniciados pela letra M, de música, passando por Monarco, Martinho da Vila, Mart’nália, entre outros, Lessa perguntou: “Por que você não entrevista um músico instrumentista?”

Com “M” maiúsculo? Perguntei, já respondendo que seria uma boa, inclusive tinha na manga, um cara que havia me surpreendido ao escutá-lo. Quem? Perguntou Lessa. E citei o nome de Luís Filipe de Lima. Espantada, me disse: “Você tem que conhecer e entrevistar esse cara! Ele é o máximo. Aposto que você vai fazer uma superentrevista. Daquelas que você gosta. Vocês vão se curtir muito. Ele vai te abrir muitas portas”, disse a atriz em tom profético.

Foi assim, que descobri o fato de ambos serem amigos. Ela fez a ponte. A partir daí, tudo conspirou para que Filipe fosse o eleito da vez. Trocamos mensagens no Whatsapp, expus minhas intenções diante da possibilidade de ele ser o primeiro a participar do Conheça e Assista. Na mesma hora, ele achou legal, mas ficou de confirmar sua disponibilidade para a entrevista, pois estava ensaiando o espetáculo “Deixa a Dor por Minha Conta”, peça escrita por Marcos França e Hugo Sukman, sobre a obra do compositor Sidney Miller (1945-1980), com 28 músicas e direção musical de Filipe. O espetáculo, que conta com quatro personagens e um coro de oito figuras, estreia dia 9 de março, no Sesc Copacabana.

No final, tudo deu certo. Nos conhecemos, rimos, ouvimos e falamos para cacete. Filipe me aturou durante 4 horas, perguntando, fotografando, gravando, perguntando, fotografando, gravando e perguntando, fotografando e gravando.

Conforme a premonição de Lessa, o multiartista abriu “muitas portas” para mim. Entre elas, a de sua generosidade, humildade, dedicação e devoção que tem pela vida e pela arte.

GENÊSE

Segundo Filipe, seu nome completo “é um testamento”: Luís Filipe Esplendore de Lima da Silva. “Sempre digo que na próxima encarnação, se eu puder escolher, vou querer nascer como Josa, que é o nome mais curto, com nome, sobrenome. E, em quatro letras já matou, né?”, disse rindo.

“Meu nome de guerra é Luís Filipe de Lima”, falou. O Esplendore, vem da família da Maria Stella Splendore, a primeira top model brasileira, que foi casada com o estilista e pioneiro da moda no Brasil, Dener (1937-1978). Filipe é do Rio, a mãe de São Paulo e o pai era de Lisboa. “Ele morreu com 77 anos, em 2002. Hoje, teria 92 anos”, disse referindo-se ao pai Luis de Lima que foi ator, diretor, mímico, professor de teatro que ouvia gêneros musicais diversos em casa. “Da música concreta de Edgard Varèse a músicas de protesto. Tínhamos o compacto do [Geraldo] Vandré cantando ‘Pra Não Dizer que Não Falei das Flores’, comprado no dia em que chegou às lojas e que no dia seguinte foi recolhido. Esse disco virou nosso troféu, pois era proibido. Também tínhamos discos da Tropicália e um, em especial, de 1951, que meu pai comprou em um sebo, com gravações da Aracy de Almeida cantando as músicas do Noel Rosa. Era um estojo de cartolina coberto por tecido, com ilustração do Nássara”, contou.

A mãe de Filipe, Maria Luiza Esplendore, 85, é bailarina clássica. Dançava no Ballet do IV Centenário de São Paulo. “Fui tocar no Sesc Belenzinho, em São Paulo, com o Bezzerra da Silva, com quem toquei por quatro anos. Quando entrei, vi uma exposição que estava acabando de ser montada sobre o Ballet do IV Centenário e havia um painel, de tamanho maior do que a escala natural, com uma foto de corpo inteiro de minha mãe”, contou Filipe sobre sua progenitora que dançou por um tempo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, antes de trabalhar em emissoras de TV.

“Todas emissoras tinham seus corpos de baile. Minha mãe dançou na primeira abertura do Fantástico, da Globo, mas antes passou pelas TV Excelsior, TV Continental, Tupy do Rio e TV Rio.” O músico lembrou que nesse tempo sua mãe era amiga da Rogéria, nascida Astolfo Barroso Pinto, 73, atriz transexual brasileira, que começou como maquiadora na extinta TV Rio e vedete. “Até hoje, quando me encontra, me chama de filho. O primeiro show que o Astolfo fez como Rogéria foi usando uma calça minha emprestada por minha mãe.”

Shows de música costumavam ter corpos de baile e Maria Luiza Esplendore participou de vários deles. “Acho que no show ‘Brasileiro Profissão Esperança’, com o Paulo Gracindo e a Clara Nunes, ela estava no palco”, falou sobre a mãe que, além de bailarina, estudou piano durante nove anos em um conservatório, em São Paulo.
Segundo Filipe, depois de se formar no conservatório, Maria Luiza deu diploma para a mãe e nunca mais tocou piano. “Ela tocava violão. Nos anos 1960 e 1970, era muito comum ter rodas de música em casa embaladas pelo som do instrumento. Eu era garoto de colo e ficava grudado nele. Depois minha mãe vendeu esse violão”, disse o artista que nas visitas às casas dos amigos dos pais, na maioria músicos, corria para abraçar o instrumento alheio.

Nos anos 1970, Luís de Lima, pai de Filipe, trabalhava muito como professor e ator em teatros de Portugal e da França. De uma dessas viagens à Europa, trouxe de presente para o filho, que completava 7 anos, um violão espanhol Roca, de bojo pequeno, próprio para criança. “Eu achava que era o melhor violão do mundo. Depois, quando já tocava, passei a levar esse instrumento para usar nas rodas e percebi que ele não tinha som nenhum e sua madeira era cheia de nós. Mas guardo esse instrumento com o maior carinho.”

Filipe não se recorda de uma música específica de quando era criança, mas sim de um caleidoscópio de sons. Contudo, a primeira música que aprendeu a tocar no violão que ganhou do pai foi o “Vira”, imortalizada pelo grupo Secos e Molhados. “Nessa ocasião, violão parecia Kama Sutra porque, ao invés de acordes, todo mundo falava que me ensinaria umas posições”, contou rindo.

A segunda música aprendida no instrumento foi “Charlie Brown”, de autoria de Benito di Paula. “Trinta e cinco anos depois, fui convidado para participar do DVD do Benito di Paula, tocando violão de sete, nessa e em outras músicas dele.”

Embora seja canhoto, Filipe aprendeu a tocar violão como destro. Um professor o orientou a tocar da maneira que quisesse, pois teria de utilizar as duas mãos e, como todo mundo, teria as dificuldades iniciais de um aprendiz, e isso não importaria. Contudo, segundo o professor, se empunhasse o violão como destro poderia ser um violonista mais sociável. “Ele me deu um argumento convincente, quando explicou que se eu invertesse as cordas do violão só eu e outros poucos violonistas tocariam em meu instrumento. Se eu tocasse como destro, chegaria em festas onde a música rolava e sairia tocando em qualquer violão.”
O ALUNO E SEUS PROFESSORES

Filipe seguiu aprendendo violão, mas de modo irregular. Abandonava as aulas, mas voltava sempre que podia. “Coisa de geminiano”, explicou o músico que utilizava bastante as revistas “Violão e Guitarra” para completar o aprendizado. “Aquelas harmonias eram sempre muito erradas, mas aquilo era legal porque ficávamos tentando achar os acordes certos”, falou o músico que não tem ouvido absoluto, nem obsoleto, como se diz na piada, mas “Absolut”, como disse em tom de galhofa em referência à marca de vodka.

Embora seja doutor em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da UFRJ, onde defendeu tese sobre o choro carioca, e mestre pela mesma instituição, com dissertação sobre a música das religiões afro-brasileiras, Filipe não enveredou pelo mundo acadêmico. “Cheguei a dar aulas na própria UFRJ e em cursos de outras universidades, mas a necessidade de um comprometimento com essa atividade, enquanto continuava a atuar como músico, impossibilitou que eu continuasse a ser professor.”

Para Filipe, a música parte de uma ligação mecânica e física que temos com o instrumento, mas ela está em nossa cabeça. “A música é uma linguagem, que se dá em um conjunto de idiomas. Duvido de quem afirma que ela é um idioma universal; ela não é. É um outro tipo de linguagem que promove a combinações de elementos, signos e sinais. É possível, por meio da música, obter um entendimento que não se dá falando. Mas você não vai tocar a música de um cara do Azerbaijão do jeito que ele toca e vice-versa. Por isso, é preciso relativizar essa ideia de que a música é uma linguagem universal.”

Filipe foi aluno, entre outros professores, de Lourenço Baeta, cantor, instrumentista (violonista e flautista), ator e compositor carioca do grupo Boca Livre. “Essas aulas eram mais direcionadas à percepção musical. Ele me abriu mais os olhos para a questão do repertório e de pensar a música. Um dia pediu para que eu tocasse um samba, e eu disse que não sabia. Espantado, disse que eu era brasileiro, carioca, e tinha que saber tocar samba, mesmo se eu não seguisse por esse caminho na música”, contou o músico que na ocasião estava com 9 anos.

Com 12 anos, Filipe passou a ouvir muita música clássica. Entre os compositores preferidos, Joseph Haydn (1732-1809), Beethoven (1770-1827) e Vivaldi (1678-1741), por quem se encantou. “Comecei a ler música na escola, quando aprendi a tocar flauta doce e tocava música barroca”, falou o artista que estudou na escola Luiza Prates, instituição com um ensino mais direcionado às artes. Depois, ainda garoto, Filipe foi estudar na Escola de música Villa-Lobos, no centro do Rio de Janeiro. Apesar de tocar muita música de ouvido com a flauta, embora com técnica limitada, o menino impressionava por sua aptidão no instrumento de sopro, que acabou por ser tolhida. “Uma professora, especialista em flauta doce, me disse que eu não podia tocar com vibrato porque flauta doce não se toca com esse recurso. Isso cortou minha onda, fiquei puto e abandonei o instrumento.”

Prestes a completar 13 anos, enquanto o pai trabalhava novamente em Portugal, Filipe recebeu a proposta de ganhar um instrumento da “terrinha”. Entre as sugestões do pai para o pimpolho houve a oferta de uma guitarra portuguesa. “Vacilei, deveria ter aceito porque adoro fado e esse instrumento, mas queria uma guitarra elétrica. Não para tocar rock, porque nunca me interessei por isso, mas para estudar timbres diferentes com pedais e distorções. Meus pais eram artistas, mas caretésimos e cortaram meu barato. Acho que ficaram com medo de eu virar rockeiro, maconheiro, que incomodasse os vizinhos com o barulho, sei lá. Disseram para eu pedir outra coisa, menos a guitarra. Pedi um bandolim”, falou o músico que assistia aos domingos o programa Concerto para a Juventude e se encantava com o som do bandolinista Joel do Nascimento, 79, tocando com orquestra.

De posse de um bandolim Del Vecchio- o primeiro foi um Giannini, que estourava as cordas-, Filipe disse ter descoberto definitivamente o Brasil. Procurou Afonso Machado, bandolinista do grupo Galo Preto, pois Nascimento estava muito ocupado fazendo shows. Depois de estudar com Machado, Filipe também teve aulas com Joel Nascimento.

NA TELA E NO PALCO

Em 1975, o pai de Filipe trabalhava como ator na novela “Bravo”, de Janete Clair (1925-1983) e Gilberto Braga, produzida pela Rede Globo, representando o empresário de um maestro. “Meu pai frequentava muito a casa da Janete e do Dias Gomes, no Recreio dos Bandeirantes, que nessa época era zona rural. Eles eram muito festeiros e faziam reuniões, almoços, jantares e festas juninas muito legais. Eu era pirralho, muito espoleta e brincava com o Alfredo e a Denise, filhos do casal. Um dia a Janete, que simpatizava comigo, me chamou de lado, disse que iria escrever um papel, uma pontinha, para a novela em que meu pai trabalhava e se eu queria fazer. Topei na hora, porque para mim aquilo era uma brincadeira. Ela escreveu o papel e eu gravei com a Bete Mendes, Aracy Balabaniam, Carlos Alberto e o Denis Carvalho. Ainda era o tempo da TV em preto e branco. Fizeram uma ficha minha e deixaram no departamento de elenco.”

Quatro anos depois, quando fizeram a novela ‘Os Gigantes’, do Lauro Cesar Muniz, que mostrava um triângulo amoroso entre a Dina Sfat (1939-1989), Francisco Cuoco e Tarcísio Meira, precisavam de crianças para o flashback dos três personagens quando pequenos. Chamaram Filipe para fazer um teste com Regis Cardoso (1934-2005). “Ele era o diretor da novela e me escolheu porque eu falava bem e tinha uma ‘pinta’ do Tarcísio Meira”, contou o artista que só depois de ter abocanhado o papel revelou ser filho do ator Luís de Lima e de Maria Luiza Esplendore. “O fato de eu ter entrado na novela, por conta própria, garantiu segurança extra para que eu desempenhasse o papel.” Ainda na Globo, participou das novelas “Olhai os Lírios do Campo” (1980) e “As Três Marias” (1980) na qual contracenou com Glória Pires.

No teatro, em 1979, Filipe dividiu o palco com Fernanda Montenegro e Fernando Torres (1927-2008), interpretando o filho de ambos, na peça “Assunto de Família”, de Nuno de Oliveira, com direção de Paulo José, 79. Em “Os Meninos da Rua Paulo” (1983), adaptação para o palco de Claudio Botelho da tradução de Paulo Ronai (1907-1992) do romance do húngaro Ferenc Molnár (1878-1952) Filipe foi dirigido pelo próprio pai. Agnaldo Silva, 73, dramaturgo, escritor, roteirista, jornalista, cineasta e autor de novelas assistiu à montagem, e convidou Filipe para atuar na novela “Partido Alto” (1984), sabendo que o adolescente de 16 anos tocava bandolim. “Pedi uma ajuda para o Afonso Machado, pois pediram que eu indicasse músicos para me acompanharem nas gravações. Todos que tocavam comigo eram do grupo Galo Preto. Foi assim que comecei a tocar de verdade.”

O pai de Filipe, ao lado do amigo Mário Lago (1911-2002), apresentava as festas de 25 de abril, em comemoração ao aniversário da Revolução dos Cravos, ocorrida em Portugual. Eram shows gratuitos que reuniam a nata da MPB. No ano de 1984, o show foi no teatro João Caetano com capacidade para mais de mil pessoas. “Lembro do teatro lotado, com gente sentada no chão. Tinha Chico Buarque, João Nogueira, Gonzaguinha, Fagner, Fafá de Belém e mais um monte de gente que era sucesso na MPB dos anos 1980. Me puseram para abrir o show, pois eu era o nome menos conhecido de todos. Eu nunca tinha tocado bandolim em público, só em casa. Essa foi a primeira vez que toquei esse instrumento diante de mais de mil pessoas”, contou o músico que pela primeira e única vez ficou nervoso antes de tocar. O artista acabou com o nervosismo dando uma talagada de um uísque Red Label que dava bobeira em um dos camarins do teatro. Tocou “Noites Cariocas” de Jacob do Bandolim (1918- 1969) e “Amarelinho”, choro de Elton Medeiros e Téo de Oliveira, músico e compositor que integrava o regional de choro Galo Preto e acompanhou o valentão mamado.

A novela “Partido Alto”, escrita por Agnaldo Silva e Glória Perez, estreou um mês depois do show. Nela, Filipe interpretou Felipe, filho do personagem Célio Cruz, um bicheiro interpretado por Raul Cortez (1932-2006). “Nessa novela, o sonho do bicheiro era que o filho herdasse seus pontos e também trabalhasse com isso. Não sei qual dos dois autores da novela escreveu essa fala, mas eu a disse saboreando. A cena era o pai enchendo o saco do filho, dizendo: ‘Pô, Filipe, você tem que trabalhar comigo no bicho’. E eu dizia: ‘Que é isso pai? Bom mesmo é Pixinguinha’. Pô, eu poder dizer isso em horário nobre, na novelas das oito da noite…”, falou rindo.

Esse trabalho foi o divisor de águas na vida do ator que acabou enveredando pelo caminho da música. Apesar de ter feito ainda algumas minisséries e outras novelas, o trabalho na TV foi rareando.

Como ficou conhecido como o garoto que tocava bandolim na novela, passou a tocar em rodas de choro e samba, em alguns bares na noite carioca. Ainda insistiu em trabalhar com TV, fez curso de vídeo, “pois na época a onda era ser videomaker”. Mas não virou e o bandolim foi ficando de lado.

PROFISSÃO MÚSICO

Filipe nunca imaginou que fosse se tornar músico profissional, pois queria que a música se tornasse uma fonte de prazer e não de obrigação. “Era o papo de adolescente horroroso que eu tinha, achando que como profissional teria que abrir concessões. Mas o tempo passou e sou um cara muito feliz com meu trabalho, afinal concessões fazemos cotidianamente, em tudo. No meu trabalho, faço menos concessões do que imaginava que teria que fazer quando era adolescente. Pepinos sempre aparecem, mas o índice de satisfação que tenho é altíssimo. Nem sempre tem grana, mas alegria tenho a toda hora.”

Além de acompanhar tocando violão em shows de Bezzera da Silva (1927-2005); Elton Medeiros, 87; Nelson Sargento, 92; Dona Ivone Lara, 95; e Noca da Portela, 84, Filipe tocou em muitos bares. Durante dez anos, apresentou-se também nos carros de som dos blocos do carnaval carioca Simpatia é Quase Amor, Suvaco do Cristo, Imprensa que eu gamo, entre outros. Contudo, os bares foram essenciais em sua formação musical.

Na faculdade, Filipe já havia abandonado o bandolim e se reaproximado do violão, até então o de seis cordas. “Tocava nas rodas do famoso laguinho da ECO (Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e no Sujinho, bar que fica no campus da Praia Vermelha. Tocava choro e samba com uma rapaziada da minha idade. Passamos a tocar nos bares de Botafogo que já tinha umas rodas com um pessoal mais velho, uns 15 anos a mais do que nós. Na maioria, eram da mesma faixa de idade do pessoal do Galo Preto. O Paulão 7 Cordas, o Henrique e o Beto Cazes, além do Maurício Carrilho, já tocavam nesse circuito. O pessoal da velha guarda de Botafogo, como o Paulinho da Viola, nascido e criado em Botafogo, além de Walter Alfaiate e Zorba Devagar faziam esse movimento de samba. As casas eram O Samba de Fato, o Dezenove do Dois, um bar da rua Dezenove de Fevereiro, o bar do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil) e o Asa, um clube judaico que tinha rodas de samba memoráveis. Os grupos eram Branco no Samba e o Sem Colarinho, do pessoal que fundou o bloco Simpatia É Quase Amor [nome inspirado no personagem da zona norte carioca, Esmeraldo Simpatia é Quase Amor, do livro de crônicas “Rua dos Artistas e Arredores”, de Aldir Blanc]”, contou o músico que, entre outros, andava em companhia dos compositores e músicos Eduardo Gallotti, Rodrigo Lessa e Eduardo Neves.

Mandrake era o nome do bar que a turma de Filipe achou, no Botafogo, em 1987, para se reunir e tocar sem ganhar nada. O som atraiu fregueses, e os músicos foram contratados para tocarem toda terça-feira à noite, sem hora para terminar, por um cachê simbólico mais uma cota de chopp e tira-gosto. Isso durou oito anos e ensinou Filipe a tocar samba, no violão de seis cordas, acústico, na marra e sem amplificação. “Foi minha principal escola. Aprendi repertório e a harmonizar direito, além de adquirir a habilidade de achar tom na hora para alguém cantar, ou de acompanhar cantores que não são profissionais e mudam de tom no meio da música, ou que comem um tempo do compasso, e a dinâmica de uma roda de samba, tudo tocando nesse bar. Nos dias que o bar estava cheio, nem eu me ouvia tocando. O cavaco que é mais agudo com frequência mais alta, tem alcance maior. Voz, as pessoas se esgoelavam. Com a percussão estava tudo certo, estava em casa, mas o violão…Às vezes, eu só conseguia tocar se encostasse o ouvido no corpo do instrumento. Por isso, eu podia experimentar e errar à vontade. No final da noite, eu tinha crises de consciência porque eu errava e ainda por cima recebia por isso. Tem quem chame isso de desonestidade ou de ‘pão da vergonha’”, contou rindo o artista que passou a usar dedeira no violão de seis cordas para dar volume ao instrumento.

Segundo o músico, o público ouve e participa muito mais de uma roda de samba acústica do que uma amplificada. “A relação toda muda. A roda acústica é mais dinâmica, as trocas são mais ricas e as canjas também”, falou Filipe, acrescentando que apareciam Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Sombra e Sombrinha, entre outros, para apreciar a “garotada de Botafogo” como passaram a ser chamados.

Surgiu o Sobrenatural, bar em Santa Tereza, onde Filipe já estava tocando com mais desenvoltura e atacava de quarta a sábado. O Mandrake fechou e o artista passou a tocar toda terça-feira, em Laranjeiras, no bar chamado inicialmente de Severina e depois de Carne de Sol. Nessa casa permaneceu dez anos mostrando seu som. “Toquei regularmente na noite durante 18 anos. Tenho asma e nunca fumei, mas fui fumante passivo todos esses anos.”

VIOLÃO DE SETE CORDAS

A Casa da Mãe Joana, em São Cristóvão, foi outro lugar em que Filipe fez muito som. Como gostava e tinha facilidade para harmonizar, foi se aprimorando até que, em 1992, começou a tocar o violão de sete cordas. “Sempre namorei o sete cordas, mas existia um pensamento dominante entre os músicos de choro de que primeiro você começa com o violão de seis cordas para ter o fundamento da levada. Primeiro se aprende a harmonizar para depois fazer as ‘baixarias’. Antes tem que aprender a fazer o ‘trabalho sujo’, centrando. Hoje, o violão de sete cordas ficou muito mais popular do que era naquela época.”

Filipe gravou pela primeira vez com esse instrumento, só com bambas, em um disco de Paulinho Tapajós (1913-1990), no qual o compositor canta e convida outros artistas da MPB. Uma das faixas gravadas por Filipe, “No tempo dos Quintais”, traz Tapajós cantando com Beth Carvalho, Sivuca (1930-2006) no acordeom, além dos violões de seis e de sete cordas de Filipe. “O Sivuca me deu o caminho das pedras nessa música. Ele foi muito generoso”. A outra faixa gravada foi o samba “Coração Poeta”, de Paulinho Tapajós, em parceria com Nelson Cavaquinho (1911-1986), nas vozes de Chico Buarque e João Nogueira (1941-2000), que segundo Filipe, deveria ser mais lembrado. “É um samba lindo”.

Paulão 7 Cordas, 59, além de tocar muito, é um colecionador de violões diferente, pois usa todos eles. Um dos itens de sua coleção, um violão Dusouto de 1986, foi vendido para Filipe, tornando-se seu primeiro instrumento de sete cordas. “Esse violão foi reformado pelo Mario Jorge, um luthier que deixou de trabalhar com luteria. Ele fazia os violões do Raphael Rabelo. Esse violão, especificamente, tinha o rastilho [peça de resina, plástico ou osso que apoia as cordas no tampo do violão e serve para captar e passar a vibração das cordas para o tampo e o captador do instrumento] para cordas de nylon e de aço. Comecei usando nylon, mas quando mudei para cordas de aço, me encantei. Passei a usar um encordoamento, que o Dino 7 Cordas usava e que foi popularizado por ele entre os músicos. Não sei se foi ele quem inventou, mas é um encordoa mento híbrido. As duas primeiras cordas [mi e si] são de nylon, e da terceira à sexta [sol, lá, ré, mi] são cordas de aço flat, lisas para guitarra, e para a sétima corda, dó, usamos uma quarta corda de violoncelo.”

Após anos usando esse Dusouto, Felipe colocou o instrumento para descansar. “Comprei outro Dusouto mais antigo, de 1983, do Lucas Porto”, falou o instrumentista referindo-se ao violonista carioca.

DINO 7 CORDAS: O MITO, A LENDA

O violonista carioca Dino 7 Cordas aparece na vida de Filipe da seguinte maneira. Ele já tocava o violão de sete cordas e ouvia Dino como um mestre, mas só por meio de discos. “Aprendia tudo ouvindo o Dino pelos discos. Em 1994, fui ter aula com ele para conhecer de que mãos saiam aquilo”, falou o músico que também ouvia os discos de Cartola (1908-1980) que tinham a direção musical de Dino, e todos os discos do Jacob do Bandolim, especialmente “Vibrações”, o último do artista, no qual o violão de sete cordas tem grande destaque.

Filipe procurou Dino, o mito do violão de sete cordas. A lenda dava aulas em dois lugares: na Casa Oliveira de Música, localizada desde 1948 no Largo da Carioca, no centro do Rio de Janeiro; e no Bandolim de Ouro, que na época funcionava na rua Marechal Floriano, também conhecida como Rua Larga de São Joaquim ou Rua Larga, logradouro situado entre o Morro da Conceição e a Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro, segundo Filipe “um lugar muito interessante, com muita história em volta”.

O músico, que já tocava profissionalmente, foi à Casa Oliveira, onde Dino dava aulas terças e quintas-feiras, sabendo que a lenda do sete cordas não gostava de dar aulas desse instrumento para quem já tocava. Dino gostava de ensinar, violão de seis cordas para iniciantes, de preferência para quem ainda nem soubesse afinar o instrumento. Nessa ocasião, era comum entre os músicos “esconder o leite”. “Quando um novato ficava olhando um violonista de regional tocar, eles viravam o braço do violão, para não mostrar como estavam tocando. Era uma mentalidade competitiva que os fazia pensar que ‘não podiam criar uma cobra para serem picados’. Nesse ambiente, que também incluía muito de vaidade, o receio era de ensinar os caras que depois pegariam os trabalhos deles”, contou o músico revelando uma cena diferente da atual em que os músicos costumam trocar muitas informações.

Filipe foi na Casa Oliveira, esperou a aula de um aluno acabar e encontrou o mestre para quem manifestou seu desejo de aprender o instrumento. “Você já toca, rapaz?”, perguntou Dino. “Um pouquinho”, respondeu Filipe, embora já tocasse profissionalmente. “Então pegue aquele violão, e vamos ver o que é que você está tocando”, mandou Dino já com o violão nas mãos e começando a solar uma melodia simples de um samba. “Toca aí”, ordenou Dino para Filipe, que prontamente o atendeu passando a acompanhá-lo com o violão que havia sido indicado pelo professor. Filipe pegou o tom e foi harmonizando, quando, no meio do lance, Dino berrou: “Para! Para!”. Filipe pensou, abraçando o braço do violão: “Meu Deus, que merda que eu fiz?”. E o mestre prosseguiu: “Você já sabe tocar!”.

Filipe insistiu, já sabendo que esse era o sinal de que não seria aceito como pupilo. “Tá bom, mas eu queria ter aula com você…”, tentou sem conseguir nem esboçar o início de uma justificativa e foi interrompido pelo professor: “Mas você quer aprender o quê?” Filipe explicou que estava em busca de se aprimorar, tocar melhor do que tocava e que gostaria de aprender “baixarias”.

O tempo já estava ruim e piorou. “Baixarias? Baixarias? Baixarias são escalas maiores e menores, melódicas e harmônicas. Tem um método do Rodrigues Arena, com dez volumes; estuda ele, mas não vou te dar aula”, disse vigorosamente Dino a Filipe, que chegou a comprar o método, escrito por um violonista argentino clássico, mas não passou do primeiro volume.

Três anos depois desse primeiro encontro, Filipe resolveu voltar a procurar o mestre, no mesmo local, em busca de aulas, pensando que Dino não iria se lembrar dele. Além disso, se Dino pedisse para Filipe tocar, seu plano era tocar errando tudo. Aguardou um aluno sair e, da mesma maneira que antes, entrou e disse suas intenções. Dino olhou para Filipe e soltou: “Você já esteve aqui. Você já sabe tocar!”. Para Filipe, a frase funcionou como um “xeque mate” e concluiu que jamais teria aulas com Dino.

O compositor, arranjador, violonista e ator Luís Filipe de Lima (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Mais três anos se passaram e Felipe, que já havia desistido das aulas com Dino, estava no Bandolim de Ouro, comprando cordas e acessórios, como as famosas dedeiras “fabricadas com sucata de porta de trem japonês, moedas de níquel plainadas e até cafeteira de inox antigas, que o falecido Julinho cortava em chapas”, quando aconteceu o inesperado.

Filipe via Dino no local, mas nem chegava perto do mestre. Julinho, o homem das dedeiras, também era músico e dava aulas de cavaco, dividindo a mesma saleta, no Bandolim de Ouro, com Dino. Em um final de expediente, com a loja quase fechando. Filipe entrou para comprar uma corda e viu Dino ao lado de Julinho, no térreo do estabelecimento. Não se conteve, chamou Julinho de quem era conhecido e falou sobre sua vontade frustrada de ter aulas, com o mito das sete cordas. Julinho explicou o que Filipe já sabia: Dino só gostava de ensinar quem não sabia. Entretanto, sensibilizado com a situação, Julinho aproximou-se de Dino e apresentou Filipe como um fã que queria ter aulas. Dino começou a fechar a cara e já ia dizer que não, quando Filipe foi salvo por uma balconista, de quem só não lembra o nome. “Era uma senhora que devia regular em idade com o Dino. Gordota, usava um cabelo pintado de loiro, com um coque achatado no alto da cabeça. O batom era cor de carmim, com o contorno do lábio desenhado por cima. Foi ela quem se aproximou do Dino e disse que eu era freguês da loja há muitos anos, coisa e tal, antes de pedir para me dar aulas. Acho que ele devia gostar dela, pois deu um tapa no meu ombro e disse: ‘É garoto, quem tem padrinho não morre pagão’.”

A convite do mestre, subiram para a saleta usada como sala de aula para Dino consultar se havia algum horário disponível. Dino abriu o caderno com a grade de horários e passou a olhá-lo fazendo um ar de suspense. Entrevendo um monte de horários disponíveis, Filipe segurou a onda e permaneceu em silêncio até que o professor disse: “O único horário vazio é segunda-feira, às 9 horas da manhã”. Filipe respondeu em looping: “Eu, posso. Eu posso. Eu posso…”

Filipe teve aula com Dino durante quase um ano. Aprendeu muitos choros de João Pernambuco (1883-1944), Garoto (1915-1955) e Aymoré (1908-1979), entre outros. “Pouca gente soube que o Dino tinha um repertório considerável de choros para violões, no qual ele solava tudo. Não era só de acompanhar.”

Segundo Filipe, que colheu a informação com Dininho, filho de Dino, muitas vezes o mestre das sete cordas estudava músicas em tons esdrúxulos. “Aqueles que só tem cordas presas como ré bemol, fá sustenido e si maior. Ele estudava muito para se preparar e tocar com qualquer cantor, em qualquer tom. Além disso, ele estudava escalas com acordes alterados, como o Jacob do Bandolim. O Jacob tinha aquela coisa do nacionalismo, mas é sabido que ele estudava temas de jazz. O Dino foi um dos primeiros músicos de regional que aprendeu a ler e escrever música. Ele tocava em shows, gravava, viajava tocando, mas quando chegava em casa ainda estudava. Era muito aplicado.”

As aulas prosseguiram com Filipe se dedicando e levando a lição de casa feita, fosse um exercício de técnica, uma música ou uma frase. A dedicação e desempenho fez com que Filipe ganhasse o apreço de Dino. Filipe tocava no domingo à noite, em Niterói, mas não atrasava para as aulas de segunda-feira, às 9h.

Contudo, muitos trabalhos apareceram e começaram a impedir que Filipe frequentasse as aulas com afinco. Abandonou-as durante um período para, depois de alguns meses, retornar e estudar por mais um período de dez meses com o mestre.

“O Dino me contou que quem o fez dar aulas foi o Jacob do Bandolim. Pouco antes de morrer, o Jacob o levou na Casa Oliveira e disse que ali havia um lugar para dar aulas. Ele aceitou e anos depois, quando o trabalho escasseou, o Dino também passou a dar aulas no Bandolim de Ouro, segundas, quartas e sextas-feiras ”, contou o músico.

LIÇÕES DO MESTRE

A maior lição que Filipe teve com o mestre foi aprender o sentido de concisão: “Tocar as ‘baixarias’, frasear na hora certa, não sair tocando indiscriminadamente”. Normalmente as frases do violão de sete cordas acontecem nos intervalos da melodia solista, nos intervalos da voz. “Você toca naquele buraco, é como se o violão ajudasse a empurrar a harmonia por evidenciar a passagem de um acorde para outro. Claro que tem outras funções, como a função rítmica e de condução, por exemplo, mas quando se faz um frase, em geral se está nessa situação. Mas, para o Dino, o importante era saber o contexto da música. Em outras palavras, ele quis me dizer que nenhuma frase é gratuita. Toda frase faz parte de um contexto e, se o violão de sete tem esse sentido de contracanto, ele precisa dialogar com o solista, com uma melodia que já existe.”

Filipe aprendeu que, dependendo do contexto musical, o violão de sete cordas deve se portar conforme algumas regras. Se o instrumento for tocado solo, haverá um apoio maior na harmonia. Quando o instrumento é tocado em um regional, com cavaquinho, pandeiro e outros instrumentos de percussão, fica-se livre, à vontade. Se aparece um instrumento de sopro agudo ou um bandolim, deve-se tocar menos, mas com mais liberdade, porque esses instrumentos estarão fraseando em outra região, outra frequência. Mas se há um sax tenor ou um trombone, que são instrumentos que fraseiam na região do violão de sete cordas, há de se prestar atenção, saber se colocar melhor. E se há um baixo acústico ou elétrico, um diálogo se estabelece entre os dois instrumentos.

Uma piada resume bem o que Filipe aprendeu e adotou para o seu som de violão. Um guitarrista toca 20 anos em um bar e nunca faltou. Um dia precisou faltar e enviou um de seus alunos para substituí-lo. Mais jovem, o garoto foi ao bar e estraçalhou a guitarra, tocando muitas notas, frases e o escambau. Na semana seguinte, o guitarrista veterano retornou ao bar para tocar e ouviu do proprietário do estabelecimento: “Escuta, porque você não faz como o seu aluno que toca um monte de notas, que dão o maior efeito e fez dele o maior sucesso?”. O veterano respondeu: “Ele toca essas notas todas porque ele ainda está procurando. Eu já achei.”

Segundo Filipe, ninguém escrevia partituras para Dino, ele tocava improvisando. Era um virtuose que tocava com muita consciência, propriedade e bom gosto. O último show realizado por Dino fez parte de uma série dirigida por Filipe em 2003 para o CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), “Sete Cordas- Um Violão Brasileiro”, em homenagem aos 85 anos comemorados pelo mestre. A série incluía outros exímios violonistas de sete cordas: Walter Silva 7 Cordas, Swami Jr., Mario Eugênio, Jorge Simas, Luizinho 7 Cordas, Zé Barbeiro, Yamandú Costa, Rogério Caetano e o próprio Luís Filipe de Lima. Contudo, a apresentação de Dino foi só com ele e o Conjunto Época de Ouro. “Na ocasião, ele já não desempenhava tanto. Ele tinha uns lapsos. Por exemplo, ele pegava um choro como ‘Noites Cariocas’, em sol maior, e no meio começava a tocar em ré. Ele mudava o tom, mas de qualquer modo era o Dino tocando.”

MULTIARTISTA EM AÇÃO

Filipe é ator, diretor musical de peças de teatro, violonista, compositor, jornalista, mas há muito sua ocupação maior é a direção musical de shows. “Já perdi a conta de quantos já fiz, só para o CCBB foram 16 séries de shows, que idealizei e dirigi”, disse o proprietário da empresa de produções artísticas Sete Cordas Empreendimentos Culturais, onde, além de empresário, atua na concepção, pesquisa, roteiro, direção geral, direção musical, “e ainda sirvo cafezinho, além de dar um sorriso, se precisar. Não posso perder esse emprego”, completou rindo.

Entre os projetos de Filipe que ficaram conhecidos está “Toca Raul” (2013), reunindo nomes fortes da MPB, como Zélia Duncan e Lucas Santtana; BNegão e Letuce; Zeca Baleiro, Chico César (substituindo Baleiro) e Katia B; Marcelo Nova e O Terno, além de Vivi Seixas, filha do Maluco Beleza que pilotou picapes tocando discos do pai. O projeto teve muito alcance, com shows realizados em espaços públicos, em São Paulo, Minas e Brasília, alcançando entre 25 e 35 mil pessoas por apresentação.

Contudo, “Toca Raul” é um ponto fora da curva, pois Filipe geralmente faz espetáculos mais ligados ao samba. Entre outros do gênero, trouxe para os palcos as obras de Lupicínio Rodrigues, Ismael Silva, Noel Rosa e Carmem Miranda. “Sassaricando”, outro espetáculo dirigido por Filipe, completou dez anos de palco no dia 25 de janeiro, com mais de 500 apresentações. E a festa não tem hora para terminar. “Logo, logo vamos reestreiar no Sesc Tijuca e em Niterói”, disse o artista que já apresentou o musical em Portugal.

Como produtor de discos, Filipe destaca os dois últimos trabalhos do cantor Pedro Miranda, “Pimenteira” (2009) e “Samba Original” (2016). Quando produz discos, Filipe também se desdobra em muitas funções. “Em geral faço tudo, de ponta a ponta. Desde pensar a concepção do disco com o grupo ou o artista, elaborarmos a história que se está querendo contar, além da pesquisa de repertório. Procuro não ser invasivo. Ofereço depois de procurar entender que figura é o artista, para eu poder oferecer mais possibilidades de escolha.”

Entre outros discos, Filipe produziu os três CDs do cantor e compositor Oswaldo Gusmão, além dos CDs do violinista francês radicado no Brasil, Nicolai Krassin.

PROJETOS FUTUROS

Vários são os nomes de brasileiros que Filipe gostaria de ver e ouvir em musicais. Entre eles, o de Haroldo Barbosa (1915-1979), humorista, jornalista e compositor; Luís Peixoto (1889-1973), letrista, dramaturgo, poeta, pintor, caricaturista e escultor; além de Cacaso (1944-1987) poeta, letrista e professor universitário. “Esses são os três primeiros nomes de uma lista muito grande. Há muito para se fazer e inventar a partir do material que essas pessoas tão ricas e interessantes nos deixaram.”

Para o músico e diretor de espetáculos musicais, em se tratando de musicais, atualmente temos de tudo. “A produção de musicais no Brasil é muito irregular, em vários aspectos. Apresentam coisas boas e ruins. Mas de qualquer forma o que podemos celebrar é que existe um avanço, sobretudo em tudo que diz respeito à técnica. Hoje temos atores preparados, com formação em interpretação, canto, dança, e alguns que tocam instrumentos. Dos anos 1970 para cá, um leque de oportunidades se abriu também para os músicos, diretores musicais e arranjadores que passaram a entender que uma coisa é escrever para um disco, um show, e outra é escrever para servir à cena. Sem falar em avanços em termos de produção técnica, luz e áudio. Devemos isso a quem começou a produzir musicais no Brasil, remontando os espetáculos da Broadway. Com isso, os musicais brasileiros ganharam um impulso.”

Assista, a seguir, aos vídeos que o multiartista Luís Filipe de Lima e a atriz e cantora Lu Vieira gravaram com exclusividade para o Música em Letras. No primeiro vídeo, interpretam “O Sol Nascerá”, de Cartola (1908-1980) e Elton Medeiros. No segundo, interpretam “Folhas Secas”, de Nelson Cavaquinho (1911-1986) e Guilherme de Brito (1922-2006).

(Trecho de matéria postada 28/02/2017)

MUITO PRAZER 2

Conheça e Assista- Anna Tréa

A compositora, arranjadora, violonista e cantora Anna Tréa (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Conheça e Assista é a sessão do Música em Letras dedicada a perfis de artistas e profissionais relacionados à música. Muitos desses artistas, embora com carreiras estabelecidas e reconhecidas por seus pares, não têm seus nomes identificados imediatamente pelo público.

Mesmo para quem milita na área, como é meu caso, histórias e trajetórias de personagens que contribuem de modo relevante para nosso universo sonoro podem passar despercebidas. Por isso, aproveito para contar aqui como acontecem esses encontros, misto de atenção, acasos felizes, contatos e um pouco de sorte.

Conheça e Assista a paulistana Anna Tréa, 30, aqui registrada em letras, fotos e vídeos, que faz show no teatro da Rotina, na próxima quarta-feira, dia (8), em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, mostrando músicas de seu CD “Clareia”.

PRIMEIRO CONTATO

Conheci a música de Anna Tréa por meio do violonista, arranjador, compositor e produtor Swami Junior, que jogou na minha mão o CD da moça, quando o entrevistei para matéria postada aqui (http://musicaemletras.blogfolha.uol.com.br/2017/01/17/swami-jr-e-tuco-marcondes-mostram-em-show-os-dois-lados-da-forca/).

Ao me entregar o disco, no estúdio em que ensaiava com o guitarrista Tuco Marcondes, Swami alertou: “Este aqui você vai gostar. Ouve e me fala”. Verdade, gosto muito dos discos produzidos por Swami, e esse não fugiu à regra.

Há muito nos conhecemos e trocamos ideias sobre vários tipos de som, música e instrumentistas. Por isso, nossas conversas passam enriquecedoramente por bandas, grupos, regionais e pessoas que contribuem bastante com a música. Gente como Marco Pereira, Época de Ouro, Earth Wind & Fire, Asian Dub Foundation, Pixinguinha (1897-1973), Beatles, Jacob do Bandolim (1918-1969), Jaco Pastourius (1951-1987), Luiz Filipe de Lima, Garoto (1915-1955), Rogério Caetano, Jimmi Hendrix (1942-1970), Maurício Carrilho e um sem número de nomes com assunto pra não se ter fim.

Entretanto, uma coisa curiosamente quase sempre aparece no nosso papo, o suingue. Palavra quase sagrada que entorta e desentorta ritmos resilientes. Em “Clareia”, primeiro CD de Anna Tréa, há suingue e muito mais. Há uma artista que compõe, toca, interpreta e canta do seu jeito, sem firulas ou mimimis. Uma artista que dá sua cara à tapa, sem truques ou magias. No disco, Tréa mostra ser o que é e ponto. Sua música não é diferente disso. Sabe a máxima “o cachorro é a cara do dono”? A música de Anna Tréa quase late e abana o rabo.

Tréa é backing vocal do Emicida, e também faz música com Arrigo Barnabé, entre outras atividades artísticas. Basta, né? “Vou dar essa mina no blog”, pensei. Decidi entrevistá-la.

OPORTUNIDADE

No dia 18 de janeiro de 2017, enviei pelo telefone uma mensagem de contato para Anna Tréa, pedindo uma entrevista. Tréa respondeu simpaticamente topando a parada e ao longo de algumas semanas arregimentamos nosso encontro, que aconteceu em uma quarta-feira, dia 22 de fevereiro, às 11h, dentro de um dos poucos oásis da zona oeste da capital paulistana, o Parque Fernando Costa, conhecido como Parque da Água Branca.

Em meio a árvores, gente, bambus, patos, galos e galinhas, nos conhecemos, rimos, ouvimos e falamos. Tréa me aturou durante três horas, perguntando, fotografando, gravando, perguntando, fotografando, gravando e perguntando, fotografando e gravando. Contudo, seu suingue, simpatia, veracidade e talento não deixou que a entrevista fosse em nenhum momento enfadonha, chata, mala ou um porre, mas sim que transcorresse prazerosamente de maneira “suave”, como a artista gosta de dizer.

GENÊSE

Tréa nasceu sob o signo de escorpião, em 1986, no bairro da Mooca, em São Paulo, mas ainda bebê mudou-se com a família para Diadema, onde permaneceu por 18 anos antes de se mudar e morar por cinco anos em São Bernardo do Campo, no ABC. Há cinco anos, veio para São Paulo, morou em dois lugares no centro da capital por alguns meses, foi parar no Brooklin, na zona sul, e agora mora no bairro de Perdizes, na zona oeste.

O pai, Jair Rhuiz é artista plástico na ativa. A mãe, “culinarista”, se chama Roseli Nascimento. Desde os 4 anos, Tréa lembra de brincar com instrumentos de percussão. Entre eles, pandeiro, tamborim e repique: “Havia muitas festas em casa, meus pais faziam rodas de samba e o pandeiro era o instrumento que mais se destacava para mim naquela época”, disse a compositora que ganhou seu primeiro violão aos 8 anos e começou a cantar mais tarde, pois tinha uma trava para isso. “Era muito tímida, sempre fui. Na verdade, gostava de cantar e tinha vergonha. Cantar foi um desafio que me propus a fazer. Quando fui fazer aulas de canto era um horror, ficava morrendo de vergonha. Tinha aula de guitarra, antes da aula de canto e meia hora antes de terminar a aula de guitarra eu começava a tremer, de verdade. Entrava em pânico de ter que ir para a aula de canto.”

As aulas que iniciaram a artista nas artes foram em um centro cultural de Diadema, conhecido hoje como A Casa do Hip Hop (Centro Cultural Canhema), local inaugurado em 1999 com show do rapper Thaíde, e no qual já se apresentaram diversas atrações internacionais, entre elas, por quatro vezes, o renomado DJ Afrika Bambaataa.

O local, mantido pela prefeitura, é a primeira casa nesse segmento de cultura. “Quando surgiu esse centro cultural, tinha que ter um instrumento para poder frequentar as aulas. Meus pais fizeram uma magia e me deram um violão que comecei a aprender lá”, falou a artista que, dos 8 aos 13 anos, passava boa parte do dia na instituição assistindo aulas de violão, percussão, dança, teatro, DJ, grafite “e o que mais tivesse para aprender. Fiz aula de tudo lá”.

Aos 12 anos, Tréa ganhou uma guitarra elétrica Jennifer de uma tia. “Ela é a maior loucona e bota a maior pilha desde sempre. É irmã da minha mãe e gastava o que não tinha com os sobrinhos. Tudo que ela achava, cavaquinho, flautinha, ocarina, ela comprava para mim”, contou a sobrinha acrescentando que em seus primeiros show, para criar um ambiente de fãs fanáticos, a tia arremessava vários bichinhos de pelúcia no palco. “Meu, eu supernervosa no palco e, de repente, voava um urso na minha frente. Era ela tacando bicho no palco.”

Nas aulas de canto, Tréa aprendeu técnica de respiração, colocação de voz e repertório. “Geralmente, parte do repertório era dado pela escola e a outra eu tinha que escolher. Como estava na época das boy e girls bands, a primeira música que apresentei foi do Westlife”, disse referindo-se ao grupo pop irlandês, de 1998, inicialmente formado por Shane Filan, Mark Feehily, Kian Egan, Nicky Byrne e Brian McFadden.

APRONTANDO O FUTURO

Em casa, os pais de Tréa escutavam MPB, samba, discos de violão solo, rock progressivo, world music e sons da natureza. Cite Kitaro, Enia, Yanni e a resposta de Tréa será: “Manjo tudo dessas paradas aí”, diz rindo.

A futura cantora ouvia quase tudo em CDs, pois a vitrola, parte de um aparelho três em um, que havia na casa foi logo aposentada. “Esse aparelho ficou comigo porque tinha dois toca-fitas que eu usava para gravar, abrindo vozes e fazendo vários experimentos com outros instrumentos”, contou a artista que cantava diante de um tambor pequeno para obter um efeito similar ao do “reverbe” que tem o propósito de ambientar o som, fazendo com que ele se espalhe, ou tenha um efeito de eco.

Quando as cordas do violão ou da guitarra partiam, também não era problema. “Não tinha grana para comprar outra corda e ficava um mês tocando sem ela. Isso gera outra sonoridade. Pegava outra, colocava no lugar e ia experimentando vários tipos de som. Quando quebrava ficava triste, depois achava legal porque sabia que descobriria outras coisas.”

Depois de terminar o terceiro ano do ensino médio, Tréa fez um curso técnico de música na Fundação das Artes de São Caetano do Sul. “Sabia que eu iria trabalhar com música, mas tinha muita dificuldade por ser muito tímida, então cursei um ano de teatro na Fundação para ‘desencapar esse fio’ e estudar música lá mesmo, por mais cinco anos”, falou a compositora que, “por encreça que parível”, não se formou na instituição por ter dificuldade em lidar com “sistemas”. “Sistemas me paralisam. Não estava rendendo mais e resolvi sair para tocar. Decidi criar e escutar música por conta própria. Existem várias maneiras de estudar. No meu caso, essa foi mais efetiva”, disse a artista que nunca abandonou nenhum de seus instrumentos, tanto os de percussão quanto os de cordas passando a estudá-los com afinco como autodidata.

Passados alguns anos, Tréa voltou a estudar no CLAM (Centro Livre de Aprendizagem Musical), com o guitarrista Rudy Arnaut, onde permaneceu por dois anos, antes de ingressar na EMESP (Escola de Música do Estado de São Paulo), onde frequentou menos de um ano por conta dos muitos trabalhos que começaram a rolar. “Tinha acabado de entrar na primeira turnê com o Emicida, como backing vocal, e nossos ensaios eram exatamente nos dias de algumas aulas fixas. Bombei por faltas e desencanei”, disse a guitarrista que estudou na instituição com os instrumentistas Conrado Paulino, Jarbas Barbosa e Olmir Stocker (Alemão).

Foi em 2006 que Tréa passou a mostrar sua música em bares, saraus e onde desse. “Meu, acho toquei em todos os bares que aceitavam música autoral em São Paulo. Lembro de ter tocado no Café Piu Piu, no Ao Vivo, Café do Bixiga, Fim do Mundo, Villaggio Café e mais uns outros por aí.”

A artista trabalhou durante cinco anos em montagens teatrais. Participou dos musicais “Rituais” e “Oba”, com o grupo Gargarejo de teatro, do ABC, apresentando-se em São Paulo e em Minas Gerais, além de algumas peças infantis. Contudo, a música a chamava com mais veemência. “Quando estava fazendo peça, queria mesmo era estar tocando música. Por isso abandonei o teatro. Gosto de fazer as coisas por inteiro.”

Aos 20 anos se entregou por completo à música. “Na mesma época que apareceu a ‘gig’ [trabalho] do Emicida, na qual eu fazia percussões, vozes, violão e cavaco, surgiu a oportunidade com o Arrigo [Barnabé] para eu tocar guitarra e cantar.”

Ano passado, a artista mostrou sua arte em Portugal, Espanha e França, depois de ter se apresentado na Itália, em uma turnê com Arrigo Barnabé. “Fui sozinha, eu e esse cara aqui”, disse mostrando seu vilão, um Little Martin, instrumento de corpo compacto, menor que o usual, mas com timbre e volume poderosos.
(Trecho de matéria postada 06/03/2017)

BUMBO E SEU SAMBA POR DONA ESTHER

Conheça o Samba de Bumbo, com dona Maria Esther, a Embaixatriz do Samba Paulista

Dona Maria Esther (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Acontece amanhã (21), no teatro do Incêndio, às 19h, em São Paulo, uma conversa aberta ao público com uma das maiores expoentes do samba de bumbo, dona Maria Esther de Camargo Lara, 92, conhecida como a Embaixatriz do Samba Paulista.

Pirapora do Bom Jesus, onde mora dona Maria Esther é cidade da região oeste do Estado de São Paulo, considerada o berço do samba de roda, também alcunhado de samba paulista, samba caipira, samba rural ou samba de bumbo.

Esse tipo de samba surgiu na região centro-oeste do estado, durante o século 18, antes de migrar para o sul de Minas Gerais e para a capital paulista, no século 19 e 20. O nome samba de bumbo vem do conhecido instrumento de percussão, embora a zabumba também seja como o bumbo um dos principais instrumentos utilizados nessa modalidade de samba para improvisarem, enquanto caixas fazem a marcação rítmica.

Aberto ao público, o bate-papo pretende abordar as características do samba de bumbo, dando ênfase ao batuque, à dança e aos cantos executados nessa manifestação afro-brasileira que outrora era realizado somente depois das festas religiosas. Entre elas, a de São João, Santos Reis, Nossa Senhora Aparecida, Bom Jesus, e a de São Benedito. Após as liturgias religiosas, a festança entre os trabalhadores rurais rolava solta em meio a bebidas e alimentos típicos da roça, tudo embalado pelo som do samba de bumbo.

O evento de amanhã é gratuito e faz parte da programação intitulada Rodas de Conversa que reúne mestres da cultura popular de comunidades tradicionais do estado de São Paulo.
(Postado do dia 20/03/2017)

NOTAS TRISTES

Duas notas desafinadas- Melodia doente e Clube do Choro fecha em São Paulo

Luiz Melodia (Foto: reprodução Facebook)

A primeira nota que desafina este início de semana traz a notícia que o cantor Luiz Melodia se encontra hospitalizado. Segundo a assessoria do cantor, em nota veiculada no Facebook, às 16h17, no primeiro dia de abril, Melodia se encontra hospitalizado desde terça-feira (28/03) no Hospital Quinta D’Or, mas seu quadro é estável. “Diagnosticado com mieloma múltiplo há alguns meses, Luiz deu início a um tratamento de quimioterapia que resultou em uma baixa glicemia e acidez sanguínea, por esse motivo ele se encontra internado no CTI. Luiz permanecerá internado para que as sessões de quimioterapia sejam realizadas com maior segurança e na sequência fará um autotransplante de medula, que é o único tratamento com resultado efetivo.”

A segunda nota derruba a harmonia do choro com a notícia de que o Teatro Arthur Azevedo, em São Paulo, não é mais sede do Clube do Choro. Desde a reinauguração em agosto de 2015, o Teatro Municipal Arthur Azevedo, na Mooca, era sede do Clube do Choro de São Paulo, que reunia cerca de 300 músicos em shows mensais, além de promover aos sábados, no saguão do teatro, rodas de choro com ingresso gratuito para a população. Segundo a Secretaria Municipal de Cultura, os recursos orçamentários destinados à contratação dessas atividades estão contingenciados.
(Trecho de matéria postada 03/04/2017)

KAYAPÓ NA PAULISTA

Ire-o kayapó e Paulo Bagdonas, na exposição de artefatos indígenas (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Tem som de índio na Paulista
Em “Curumim Chama Cunhatã Que Eu Vou Contar”, música de Jorge Ben Jor – lançada e imortalizada por Baby do Brasil -, “todo dia era dia de índio”.

Em São Paulo, uma exposição no piso térreo do Conjunto Nacional, na avenida Paulista, o Dia do Índio, criado em 1943 pelo presidente Getúlio Vargas (1882-1954) e celebrado apenas em 19 de abril, parece seguir a letra da composição de Ben Jor e antecipa a data que tem por intuito levar à reflexão sobre os valores culturais dos povos indígenas e a importância da preservação e respeito a esses valores.

O Música em Letras esteve na exposição e apurou o que há entre os cerca de 800 itens à venda. Além de armas, arte figurativa, bancos, bolsas, cachimbos, cerâmicas, máscaras, cestos, colares, brincos, anéis, pulseiras, cuias, cabaças, redes, remos, CDs, DVDs, um conjunto de peças se tornou o principal foco desse post: instrumentos sonoros indígenas procedentes de várias etnias (veja vídeos no final do texto).

Entre os instrumentos há diferentes flautas, buzinas, chocalhos, apitos, paus de chuva e zunidores, um pedaço de madeira em formato de peixe, que amarrado em uma vara e girado em círculos reproduz o som de insetos. “Esses zunidores são utilizados em cerimônias para a pesca”, disse o paulistano Paulo Bagdonas, 48, economista e um dos proprietários da Casa das Culturas Indígenas, loja que expõem e comercializa os artefatos, em entrevista ao blog.

PINTURAS CORPORAIS

Segundo Bagdonas, o Conjunto Nacional montou essa exposição com o intuito de ajudar a aldeia A´Ukre dos índios kayapó, localizada no sul do estado do Pará. Um casal e uma criança da aldeia estavam presentes no local, durante a entrevista, na última quarta-feira (5). “Eles trazem alguns cocares feitos de canudinhos, pulseiras e colares de miçangas para venderem aqui, além de conversarem com os visitantes que desejam mais informações sobre de onde eles vêm e sobre a arte que realizam.”

A mulher kayapó presente no local realiza pinturas corporais (espécie de tatuagens tribais, que saem da pele depois de alguns dias) nos interessados, mostrando um pouco de sua cultura. Conforme o tamanho, o desenho feito com uma vareta embebida em uma mistura de sumo de jenipapo e carvão, é cobrado entre R$ 10 a R$ 20. Os desenhos funcionam como roupas e por essa razão há pinturas para “roupas” do dia a dia e para ocasiões especiais, como festas e cerimônias.

Os índios chegam ao Conjunto Nacional entre 9h a 10h. Contudo, fotos da criança e da índia, que realizou a mistura da tinta na hora para pintar meu braço, não são bem vindas. “Elas não gostam”, alertou o marido, Ire-o kayapó, 59, o único que fala português, entre eles. Portanto, respeite, controle-se e deixe seu aculturado self para yourself.

CHOCALHOS

Chocalho é o nome genérico para designar vários instrumentos musicais, que produzem sons pela agitação. Entre os expostos, um chocalho feito pelos kayapós traz uma base de miçangas para ser fixada na perna. Conforme o músico dança e bate com os pés no chão, o som que vibra em vários caroços de pequi surge em seu esplendor. O preço desse belo instrumento é R$ 280. Outro chocalho de perna (R$ 130) é confeccionado também com caroços de pequi, mas amarrados em uma trança de buriti, pelos kalapalos, índios do Xingu. Os nambikwuaras, de Rondônia, também têm seu chocalho na exposição (R$ 190). Ele é feito com uma série de coquinhos esculpidos em contas- principalmente de tucumã-, entremeadas com sementes de inajá, e amarrados em uma fibra natural chamada envira. Já o chocalho dos tikunas (R$ 35), que moram no Amazonas, na beira do rio Solimões, serve para ser amarrado em um bastão que ao ser batido no chão produz seu som. Este chocalho é feito com cascas de uma fruta chamada ukuki, encontrada na região, assim como um outro chocalho, também feito pelos tikunas, mas com sementes de seringa, árvore que nada tem a ver com a seringueira. Ele também é feito para ser amarrado em um bastão e custa R$ 18. “São vários chocalhos que parecem iguais, mas se diferem muito, pois a confecção depende das diferentes sementes encontradas próximas às aldeia de origem”, disse Bagdonas.

 

FLAUTAS

Há flautas de vários tipos. Entre elas, uma feita de taquara de bambu, decorada com desenhos, com bocal de cera de abelha, destinada aos índios kalapalos do Xingu que iniciam seus estudos do instrumento. “Esta flauta, que custa R$ 150, serve para os índios aprenderem a tocar uma flauta maior, em cerimônias. É uma flauta de treinamento. A maior, temos na loja, mas as mulheres não podem avistá-la e devem ser embebidas na água antes de serem utilizadas.”

ZUNIDORES

Feitos em madeira, em formato de peixe, os zunidores são apresentados em vários tamanhos e reproduzem sons de insetos. São utilizados pelos índios mehinakus do Xingu, antes da pesca. Quanto menor o zunidor, mais agudo o som. A peça é amarrada em uma vara que, quando movimentada em círculos, produz o som de zumbido. “Os índios usam esse instrumento em uma cerimônia que realizam antes da pesca para garantir que ela será boa. É uma crença que eles têm”, falou Bagdonas sobre os zunidores, cujos preços variam de R$ 18, os menores, a R$ 60.

 

(Trecho de matéria postada 07/04/2017)

MOSTRE SENTIDA 2

Belchior some de vez e seu legado surge para sempre

O cantor e compositor Belchior (Foto: Reprodução da Internet)

O cantor e compositor cearense Belchior, 70, morreu na noite de sábado (29), em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul. A causa da morte foi uma dissecção da aorta, rasgo da parede da principal artéria do corpo humano, causando grande perda de sangue. O corpo será levado para o Ceará, onde ocorrerá o sepultamento, em Fortaleza, na terça-feira (2), no cemitério Parque do Paz.

Primeiramente o velório acontece na cidade de Sobral, onde o artista nasceu no dia 26 de outubro de 1946, e foi batizado como Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Depois, o corpo segue para Fortaleza, onde ocorre outro velório, no centro cultural Dragão do Mar, antes de ser sepultado em enterro, restrito ao famíliares.

O Música em Letras entrevistou hoje (30), por telefone, o contrabaixista e arranjador João Mourão, 59, integrante da banda Radar que acompanhou Belchior entre 1984 e 1992, além de Hélio Rodrigues, empresário, produtor e mecenas de Belchior durante 33 anos.

Hélio Rodrigues ficou sabendo da notícia da morte de Belchior pela “boca do povo”, mas não acredita em sua veracidade. “Uma notícia tão pequena pela grandiosidade desse poeta faz com que eu não acredite e desconfie. Só vou acreditar quando vir o corpo no caixão.”

Atualmente, o empresário “cuida”, entre outros artistas, da carreira de Anastácia, 77, ex-mulher de Dominguinhos (1941-2013), com quem compôs mais de 250 músicas, além de autora de mais de mil, algumas gravadas por Luiz Gonzaga (1912-1989) e Gilberto Gil. “A Anastácia não tem o reconhecimento que deveria ter. Cuidei da carreira do Belchior durante 33 anos, até que houve um desentendimento entre eu e uma amante que ele tinha e parei de trabalhar com ele”, falou Rodrigues que trabalhou com o compositor de “Apenas um Rapaz Latino-Americano”, desde 1978.

Para Rodrigues, o artista era uma pessoa “extremamente fácil e dócil para trabalhar”. “Ele era também uma pessoa extremamente dedicada ao trabalho, e culta. Não tenho nada para reclamar dele. Em mais de 5 mil shows, ele nunca falhou em nenhum. Sempre, mesmo doente, compareceu aos seus compromissos.”

Perguntado sobre o sumiço do artista, o empresário respondeu haver um “grande mistério sobre essa questão. Se ele sumiu eu respeito essa atitude dele como amigo. Ele deve ter tido os motivos dele e não ser questionado por isso. Quem pode responder por isso é ele… seria ele. Está entendendo?”

Diego Ribeiro Figueiredo, 33, violonista e guitarrista nascido em Franca, no interior do Estado de São Paulo, considerado pelos guitarristas George Benson e Pat Metheny um excelente instrumentista, também está sob a tutela do empresário Hélio Rodrigues. “As temporadas dele são todas nos Estados Unidos e Europa, porque no Brasil pouca gente sabe quem ele é. Ele foi o último guitarrista do Belchior. Eu descobri o Diego no prêmio Visa e o convidei para trabalhar com o Belchior. Isso foi quando o Belchior parou com a banda Radar e começou a fazer shows solo, porque o Belchior não tocava bem violão. Ele usava o violão mais para compor. Ficamos mais de cinco anos viajando nesse formato solo, com o Diego Figueiredo”, disse o empresário sobre o instrumentista que tem mais de 30 CDs gravados.

BANDA RADAR

A banda Radar, que acompanhou Belchior era formada por João Mourão, 59, no contrabaixo; Arnaldo Parron, na bateria; Sérgio Zurawski, na guitarra; Léo Zurawski, no sax alto e flauta; e Glauco Sagebin, no teclado. “O Glauco morreu há uns seis anos”, falou Mourão.

João Mourão, que integrava e banda Radar gravou cinco discos com Belchior, – o último foi “Baihuno” (1993) -, fazia mais de 100 shows com o artista por ano, incluindo o exterior. “Fizemos nos Estados Unidos duas vezes, foram mais de dez shows”, falou o músico que “parou no som”, com o artista pelo fato de Belchior ter dispensado a banda para iniciar uma fase em que realizava shows apenas de voz e violão, acompanhado por Diego Figueiredo. “Nessa ocasião, o Gilberto Gil e o Belchior começaram a atacar sozinhos para fazerem essa onda mais intimista de voz e violão nos shows. Por isso, a banda deixou de tocar com ele”, disse o músico que atualmente integra o trio Trigais, formado por ele no baixo acústico; Humberto Zigler, na bateria; e Elton Ricardo, voz e piano. “ Nesse trio tiramos toda a roupagem que músicas conhecidas e muito tocadas em rádios têm e as tocamos em sua essência.”

Segundo Mourão, Belchior era um “cara muito gentil e aberto”. “Na verdade, o Belchior era um cara muito fácil de trabalhar e sempre aberto a sugestões, mudanças e novos arranjos. Às vezes, na hora em que subíamos no palco, falávamos que iríamos tocar tal música em ritmo de reggae ou mais rock ‘n’ roll, e ele entrava em todas. Ele nunca disse: ‘ Eu fiz essa música assim e ela tem que ser assim até morrer’. No palco, ele era um cara da banda e não o Belchior artista.”

Mourão disse que como pessoa Belchior era um cara “muito relax”. “Super relax e na dele. Nas viagens, que eram longas e de ônibus, o tempo inteiro ele estava lendo, esse era o grande vício dele, além do charuto. Charuto e livro sempre estavam com ele”, disse o músico acrescentando que Belchior era “caretaço”, pois nunca usava drogas ou bebidas, apenas um vinho e não era sempre.

Sobre o sumiço de Belchior, Mourão nada tem a acrescentar. “Nunca soubemos o porquê dele ter sumido. Pode ter sido por conta de dívidas, mas não sei. Perdemos contato, depois do começo dos anos 2000. Chegamos a nos encontrar para falarmos de uma gravadora que ele tinha e queria reativar, mas depois não nos vimos mais.”

O músico remontou a banda Radar para alguns shows. Um desses shows aconteceu há dois anos no Centro Cultural de São Paulo. “Brincávamos falando que seria demais se o Belchior aparece do nada, mas ele nunca apareceu”, disse o músico que nesse show, chamado de “Radar canta Belchior”, contou com o cantor Enzo Ballarini (Magoo), no lugar de Belchior e com o tecladista Roger Ferrer, no lugar de Glauco Sagebin.

Mourão recorda que nas últimas apresentações que fez com Belchior, o artista estava muito “ligado em um lances com caligrafia. Ele estava pirado nessa, tanto que algumas capas de disco ele que escrevia. No disco ‘Baihuno’ , foi ele que criou a caligrafia que está na capa. Ficava o tempo todo desenhando letras. Ele era um intelectual. A onda dele era essa, a de ser um intelectual amigo de vários poetas, artistas e professores. Ele tinha muita amizade com gente dessas áreas. Um cara legal e honesto pra caramba.”

O contrabaixista disse ainda que o mundo está perdendo um superartista e produtor musical. “Até hoje, todo mundo canta as músicas dele. Porque ele produzia arte e música verdadeira. Com esse sumiço, perdemos a possibilidade de termos novos e bons sucessos feito com música boa.”

A pauta está morta, mas pelo visto, vivido e ouvido, tanto o personagem Belchior quanto suas músicas viverão para sempre. Que assim seja.

 

(Matéria postada dia 30/04/2017)

DESPEDIDA DE SALMASO

Últimas apresentações de “Corpo de Baile”, de Mônica Salmaso

Cena do espetáculo musical “Corpo de Baile” (Foto: Divulgação)

Quem assistiu, assistiu. Quem não assistiu, terá apenas mais duas chances de ir ao teatro e se deliciar com um dos melhores espetáculos de música popular brasileira dos últimos tempos, “Corpo de Baile”, com a cantora Mônica Salmaso e um time de músicos sensacional.

A cantora encera a turnê do show de seu décimo disco na próxima sexta-feira (5), às 21h, e no sábado (6), às 20h, no Theatro São Pedro, no bairro da Barra Funda, em São Paulo, após ter percorrido 11 capitais brasileiras, realizando 23 apresentações a preços populares e ensaios abertos gratuitos.

O Música em Letras entrevistou a cantora hoje (2), pelo telefone, para falar sobre o espetáculo que conta com cerca de 15 canções compostas em parceria por Guinga e Paulo César Pinheiro. Entre elas, “ Fim dos Tempos”, “Noturna”, “Bolero de Satã”, “Rancho das Sete Cores”, “Curimã” e “Violada”.

No time que acompanha Salmaso, Teco Cardoso (sax e flautas); Nailor Proveta (clarinete); Nelson Ayres (piano e acordeom); Paulo Aragão (violão); Neymar Dias (viola caipira e contrabaixo) e o Quarteto de Cordas Carlos Gomes, formado por Cláudio Cruz (1º violino); Adonhiran Reis (2º violino); Gabriel Marin (viola); e Alceu Reis (violoncelo). Todos envolvidos pelo belo cenário idealizado pelo cineasta Walter Carvalho.
Segundo a artista, esse espetáculo é muito especial, entre outras razões, por abranger muita gente. “Estou feliz de fazer esses dois últimos espetáculos, mas tenho dó ao mesmo tempo. Estou com um aperto no coração, acho que vou chorar”, disse rindo.

O espetáculo contou, durante mais de dois anos, com 16 pessoas viajando juntos, sem nunca terem tido problemas de convivência, o que é normal em equipes que trabalham por muito tempo juntas em um mesmo show. “Esse é um show de pessoas incríveis trabalhando juntas. Ele é feito por várias mãos. O bonito nisso tudo é que a gente virou uma família. Nessa história de você ir para a estrada, com um grupo grande desses, sempre tem aquele risco de algo dar errado. Contudo, fizemos uma turnê em um clima de cooperação, vontade e felicidade incrível. Essa é a experiência musical que tive mais próxima a trabalhar como se fossemos uma companhia, tudo deu supercerto”, falou a cantora, afirmando que em um espetáculo dessa monta, com despesas como aluguel de teatro, piano e iluminação, pode custar mais de R$ 100 mil reais por apresentação. “É um milagre. Não haveria nenhuma possibilidade de viabilização não fosse o patrocínio e a Lei Rouanet”.

O teatro Castro Alves, em Salvador, o Guairão, em Curitiba, o São Pedro, em Porto Alegre, além de outros teatros nos quais a cantora se apresentou com esse excelente espetáculo, tiveram seus ingressos esgotados em mais de uma noite. “Foi muito emocionante. Esses teatros em que nos apresentamos são como igrejas para mim, são lugares sacros. As pessoas também se emocionaram por poderem ir a esses lugares, com ingressos acessíveis. Foi tudo muito feliz.”
( Trecho de matéria postada 02/05/2017)

CANTORAS DE CARTEIRINHA

Claudette Soares e Alaíde Costa juntas em show

Claudette Soares (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Acontece amanhã (13), sábado, às 21h30, na comedoria do Sesc Pompéia, São Paulo, show da cantora Claudette Soares, 79, com participação especial de Alaíde Costa, 81, ambas consideradas as principais precursoras da bossa nova.

O Música em Letras esteve hoje (12) no ensaio da cantora e gravou Claudette Soares cantando “Perdido de Amor”, de Dick Farney (1931-1987), com exclusividade para o blog. Assista ao vídeo no final do texto.

O show tem roteiro de Ruy Castro, autor de “A Noite do Meu Bem”, livro no qual cita várias vezes o nome de Claudette Soares, que aos 15 anos foi rebatizada por Luiz Gonzaga (1912-1989) como “Princesinha do Baião”, antes de reinar por outros gêneros musicais brasileiros como a bossa nova.

No entanto, não foi apenas nas boates do Rio de Janeiro, como na boate Plaza, em Copacabana, que Claudette Soares soltou a voz preconizando a bossa nova. Em São Paulo, no início dos anos 1960, a cantora divulgava canções do gênero nas extintas, mas ainda famosas, casas noturnas da cidade, como a Baiuca, Cambridge e João Sebastião Bar.

“Trouxe todas as músicas da bossa nova para São Paulo, que você possa imaginar”, disse a cantora.
(Trecho de matéria postada 12/05/2017)

PRAZER EM CONHECER 3

Conheça e Assista- Lito Robledo

O contrabaixista Lito Robledo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Conheça e Assista é a sessão do Música em Letras dedicada a perfis de artistas e profissionais relacionados à música. Muitos desses artistas, embora com carreiras estabelecidas e reconhecidas por seus pares, não têm seus nomes identificados imediatamente pelo público.

Mesmo para quem milita na área, como é meu caso, histórias e trajetórias de personagens que contribuem de modo relevante para nosso universo sonoro podem passar despercebidas. Por isso, aproveito para contar aqui como acontecem esses encontros, misto de atenção, acasos felizes, contatos e um pouco de sorte.

Conheça o paulistano Lito Robledo, 63, aqui registrado em letras, fotos e vídeos (assista-os no final do texto) captados no dia do 16º aniversário do Il Ristorante Walter Mancini, casa que reverencia músicos, fixando placas de metal com nomes de vários deles gravados, e ostenta um dos bares mais bonitos da noite paulistana. “Esta é a casa que emprega mais músicos em São Paulo. São mais de 20 trabalhando aqui. Muita gente da Europa e dos Estados Unidos, que vem aqui, afirma não conhecer lugar igual, com tantas atrações”, disse Robledo.

O restaurante fica na rua Avanhandava, revitalizada e reformada pelo proprietário, o empresário Walter Mancini. É lá que o contrabaixista Lito Robledo toca todos os dias da semana. Além disso, é ele o responsável pela programação musical dessa casa e de mais um estabelecimento do grupo Mancini, na mesma rua, o Restaurante e Pizzaria Famiglia Mancini, que conta com dois palcos.

PRIMEIROS CONTATOS

Conheci o contrabaixista Lito Robledo e seu humor inteligente e ácido nas noitadas paulistanas de minha juventude. Eu tinha 16 anos, momento que vivia em meio a muitos shows, estúdios de som, salões de sinuca; ouvindo muito jazz, choro, samba, rock; conhecendo outros músicos; saboreando os bifes à parmegiana feitos pelo cozinheiro Tibula, no bar do Alemão, e as bistecas do Sujinho, tudo acompanhado de chopp, cerveja e muita piada. Enfim, tudo o que tornava a vida em São Paulo algo muito mais musical, poeticamente suportável e segura do que hoje.

Nove anos mais velho do que eu, Robledo sempre trocou muita ideia comigo sobre vários tipos de som, música e instrumentistas. Com ele, conheci uma infinidade de nomes e sons de músicos instrumentistas, arranjadores, cantoras, temas, discos, gravações e mais do que uma bíblia de histórias hilárias, envolvendo música, a noite paulistana e seus ricos personagens, os músicos.

Robledo tocou em cerca de 50 casas noturnas de São Paulo, nos mais importantes hotéis e clubes da cidade (veja lista no final do texto), além de ter gravado e feito shows com muitos artistas. Entre eles, com Paulinho da Viola, Aracy de Almeida (1914-1988), Trio Mocotó, Dominguinhos (1941-2013), Hermeto Pascoal, Carlos Lyra, Ângela Maria, Elza Soares e Alfredo José da Silva (1929-2010), o Johnny Alf.

GÊNESE

O pai de Lito Robledo era um pianista, compositor e arranjador argentino, que veio de Córdoba, em 1944, para trabalhar no Parque Balneário, em Santos, um dos requintados cassinos da época, e ali permaneceu até 1948.

O nome escolhido, em castelhano, para batizar o pimpolho que nasceu em São Paulo, em 1954, sob o signo de Peixes, foi Rogelio Fernando Robledo, mais conhecido como Lito. “O diminutivo de Rogelio é Rogelito e por isso, abreviando, ficou Lito”, disse o ex-pimpolho que, hoje, pesa 130 quilos e tem 1,80 m. de altura.

Rotundo como seu som, o músico é fruto da união da argentina Angela Teresa Travesi de Robledo, que “tirava uma onda de acordeom”, e o maestro Antonio Rogelio Robledo, músico que gravou mais de 23 discos autorais e teve vários conjuntos e orquestras atuantes em night clubs e em emissoras de rádio e TV, no princípio da televisão no Brasil.

Maestro Robledo foi proprietário de um bar famoso, nos anos 1950, na rua General Jardim, no centro de São Paulo, em frente ao prédio do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil). Era o Robledo’s Bar, que rendeu, entre outros, um disco que traz a primeira gravação do baterista Toninho Pinheiro (1938-2004), que na ocasião tinha apenas 18 anos e era chamado de “Toninho Calça Justa”. Outras figuras que estão no disco são Caco Velho (1920-1971) e o baterista Gafieira. “O Gafieira morreu há muito tempo. Não me lembro de datas”, disse Robledo, o filho.

Além das datas, Robledo não lembra do bar de seu progenitor, mas soube que o pai o “bebera” com os amigos. “Por isso, obviamente, ele fechou”, contou o músico sobre o maestro que tomava uísque, mas era mais chegado a muitos copos de Campari. “Ele passava mal e botava a culpa nas coxinhas que tinha comido no Jockey Club. Um crime, porque aquelas coxinhas eram sensacionais e nunca fizeram mal a ninguém”, disse rindo o músico, que foi grande consumidor da iguaria, não mais disponível nos prados da Cidade Jardim.

Segundo Robledo, o pai e mais alguns músicos, considerados personagens hilários de São Paulo, como Chu Viana e o batera Dirceu – ambos mortos-, tinham cavalos no Jockey. “Eram todos azarões, só davam prejuízo. Meu pai dava um puta monte de dinheiro para cuidarem do cavalo. Sei que ele trabalhou no Jockey com uma banda dele durante oito anos, ganhando uma fortuna de salário, mas saiu de lá devendo para o clube.”

VACAS GORDAS, VACAS MAGRAS

O maestro Robledo teve seus momentos de glória e amealhou um bom dinheiro que o possibilitou comprar uma bela casa na rua Texas, no Brooklin, ter “um superautomóvel” com motorista, e um piano Steinwain. Para os padrões sociais de um músico, vivendo em São Paulo nos anos 1950 e 1960, era luxo. “Eles tocavam em rádios e em emissoras de TV. Baile era um atrás do outro, quase todos os dias. Como era muita variedade de trabalho entrava muito dinheiro”, lembrou o filho.

O contrabaixista Lito Robledo em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
A mãe de Robledo morreu em decorrência de um câncer no seio, aos 36 anos. A casa da família teve que ser vendida para custear o tratamento realizado sem sucesso, com remédios importados e carésimos. “Tenho fotos, com ela e com meu pai, quando fomos acompanhá-lo na Europa, com o conjunto dele”, disse o músico que perdeu a mãe quando tinha sete anos. “Ela ficou cinco anos se tratando na Santa Casa. Um puta sofrimento.”

Depois da morte da mãe, Robledo morou em diversos lugares, incluindo São Vicente, no litoral paulista, onde foi expulso de todas as escolas em que estudou. O motivo? “Mal comportamento. Soltava bomba no banheiro das meninas, roubava o lanche de não sei quem, contestava os professores… Eu era um cara muito inteligente. Tinha facilidade de aprender as coisas rapidamente, enquanto os outros demoravam. Agora, sou burro”, contou rindo o músico.

Sem a mãe, Robledo não tinha com quem ficar e acompanhava o pai que vivia de tocar, à noite, de bar em bar. “Nessa ocasião ele tocava em todos os puteiros do centro da cidade. Eu ia junto e as meninas cuidavam de mim. Depois, um pouco mais velho, mas ainda menor de idade, cuidei de quase todas elas”, disse rindo.

O músico lembra que durante a onda do iê-iê-iê, nos anos 1960, as vacas ficaram bem magrinhas e só chamavam para tocar isso. “Não podia tocar mais merda nenhuma, a não ser essa. Meu pai foi despejado e dispensado de onde tocava. Na rua Rêgo Freitas, quase chegando no largo do Arouche, tinha um hotel de putas chamado Hotel Neru, onde nós dois fomos morar. Eu tinha uns 11 anos.”

PRIMEIRAS LEMBRANÇAS DE MÚSICA

A memória musical de Robledo vai longe. “Sabe do que eu lembro? Quando eu era bem criança, com uns cinco anos de idade, era muito difícil para os músicos ouvirem um disco de jazz. Eram poucas as lojas. As que vendiam discos de jazz, então, eram raras. Funcionava assim: um milionário ia para os Estados Unidos e comprava um disco de jazz. Trazia o disco, e marcava um dia na casa dele, para a turma de músicos ir até lá e ouvir. Não tinha como gravar o disco nessa época. Geralmente, marcavam em um domingo para passar o dia inteiro ouvindo o disco. Eu me lembro disso porque era um acontecimento”, disse o músico que se recorda de ter ouvido um disco na ocasião, “novinho”, de Miles Davis (1926-1981).

Robledo ouviu “Kind of Blue” (1959), um dos dezenove discos gravados por Davis na Columbia Records, durante 1955 e 1975, período artístico e financeiramente mais bem sucedido da carreira do trompetista. “Deve ter sido, não me recordo do nome, mas lembro que os músicos ficavam ouvindo e tecendo comentários. Ninguém tocava junto, ou anotava ou gravava; você tinha que reter em sua memória tudo que acontecia naquele disco. Era assim que os caras aprendiam as músicas e o que vinha com ela.”

O primeiro instrumento musical que Robledo aprendeu a tocar foi violão. “Como eu gostava do som grave, abaixava uma oitava as quatro primeiras cordas do violão (mi, lá, ré, sol) e tocava com elas assim. Ouvia rádio e ficava tirando os baixos com o som desse violão. Quer dizer, violão mesmo não sei tocar”, contou o instrumentista que na ocasião tinha 9 anos.

SABÁ E O BAIXO FILHO PRÓDIGO

Na casa do pai de Robledo, a presença do contrabaixista Sebastião Oliveira da Paz, o Sabá (1927-2010), e do baterista Rubinho Barsotti, do Zimbo Trio, eram constantes. “Como tocavam na banda do meu pai, esses caras ficavam tocando e tirando repertório durante os ensaios.”

Sabá foi contrabaixista, entre outros, do Jongo Trio e do Som Três. Era irmão de Luiz Chaves (1931-2007), baixista do Zimbo Trio. Tocou com Deus e o mundo. Teve programas de rádio, gravou bastante e foi figura de destaque durante a bossa nova trabalhando com vários artistas. Entre eles, Dick Farney (1921-1987), Alaíde Costa, Elis Regina (1945-1982) e Wilson Simonal (1938-2000). “Ele deixou para mim, em testamento, o baixo acústico que usou a vida inteira. A bossa nova inteira está naquele baixo. É um instrumento alemão com mais de cem anos. Fica no meu quarto e não sai de lá. Tem, inclusive, a capa original com o endereço e telefone do Sabá”, disse o músico que reformou o instrumento depois de adquiri-lo.

A reforma foi por conta das avarias sofridas, quando um tombo levou Sabá direto para cima da relíquia. “Ele já estava doente, desequilibrou e caiu em cima do baixo, mas um luthier arrumou direitinho pra mim”, contou Robledo que, só depois de herdar o instrumento, soube que o tal “alemão” era de seu pai. “A Ivete, viúva do Sabá, contou que meu pai emprestou esse baixo para o Sabá. Segundo ela, o instrumento ficava na casa do meu pai para eles ensaiarem. O Sabá nunca contou isso para ninguém. Só a Ivete sabia dessa história. Sei que depois de tantos anos, o baixo voltou para mim.”

DE OFFICE BOY A MÚSICO

Entre os 13 e 15 anos, Robledo, que morava na esquina da avenida Vieira de Carvalho com a rua Aurora, trabalhou como office boy da L’Oréal Paris, em um prédio da rua Araujo, no centro de São Paulo, enquanto estudava a noite. “Levava documentos e entregava perfumes para as demonstradoras que trabalhavam nas farmácias. Não me lembro onde estudava, mas lembro que meu pai ganhava por dia o que eu ganhava por mês. Foi por isso que comecei a tocar”, contou o músico que iniciou sua carreira tocando com o pai, mas sob uma condição. “Meu pai era severo e me disse: ‘Enquanto você não souber tocar comigo não toca’. O pior, é que ele nunca me ensinou nada. Fui aprender com outros músicos.”

O primeiro professor de Robledo foi “um gordo, bêbado, baixista da noite e um cara muito legal chamado Djalma. Só muito depois fui aprender música mesmo, notação musical e o escambau com o João Godoy. Tio do Amilton Godoy, do Zimbo Trio”, contou o músico que perdeu o pai para uma cirrose hepática, em 1975.

Aos 15 anos, Robledo já havia aprendido o básico do contrabaixo e começou a tocar com o pai na Badalo, casa noturna da Alameda Lorena, em São Paulo, que foi de propriedade da atriz e humorista Consuelo Leandro (1932-1999). “Éramos um trio, meu pai, no piano; o Jurandir, na bateria; e eu, no baixo elétrico. Grande parte de meu imenso repertório vem dessa ‘gig’ na qual tocávamos um monte de músicas norte-americanas antigas. Depois, toquei com um monte de pianistas como o Luis Melo e o Evaldo, ampliando meu repertório. Esses caras tocam fácil umas três mil músicas; aprendi muito com eles”, contou o músico que dificilmente deixa de atender o pedido de música de um cliente por não conhecê-la.

Elvis Presley (1935-1977), Jovem Guarda, Beatles, Rita Pavone, entre outros, reinavam quando Robledo começou a tocar profissionalmente, e por isso abandonou os estudos. “Muitos anos depois, cursei o Supletivo Santa Inês, entrei na faculdade de medicina, mas a primeira vez que vi sangue me senti muito mal, desmaiei e desisti.”

Robledo aprendeu a ter repertório, além de harmonia, com gente do ramo. “Meu pai era um pianista bom e jazzista. Ele e o Johnny Alf me ensinaram muito de repertório e harmonia. Sem falar do Zé Bicão, do Luiz Melo e de mais alguns pianistas da noite, como o Ricardo Júnior, que morreu recentemente, marido da Dóris Monteiro e que tocava como o Bill Evans”.

Dos contrabaixistas, o músico destaca dois: Mathias e Carlinhos Monjardim. “Bicho, o Monjardim, na Baiuca, passava vaselina no braço do instrumento e, quando a gente ia tocar, escorregava a mão, e som que é bom nada.”

PRIMEIRA GIG NA GRINGA

Robledo estava com 18 anos quando ingressou no Trio Mocotó e realizou sua primeira apresentação no exterior, em Nova York. “Era eu no baixo; o Alemão [Olmir Stocker, 80], guitarra; Nelson Panicalli, piano; e os do trio Fritz, Nereu e Joãzinho [João Parayba, percussão; Nereu Gargalo, pandeiro; e Fritz Escovão, cuíca]. Nessa ocasião, menor de 21 anos não podia viajar sozinho, e o Fritz, que era mais velho, teve que ser responsável por mim.”

O músico foi escalado para integrar o Trio Mocotó em um dia que estava comprando cordas para seu baixo, na antiga loja da Del Vecchio, na rua Aurora, centro de São Paulo. “O Alemão me encontrou lá e disse que estava precisando de um baixista para tocar com esse trio. Lembro que fui em um ensaio, numa casa enorme que era do João. Ele era milionário, o pai dele [Severo Gomes], que morreu no acidente de helicóptero com o Ulisses Guimarães, era dono dos Cobertores Parahíba. Cheguei lá e os caras estavam ouvindo ‘Return To Forever’, LP de 1972 do Chick Corea, que tem ‘Spain’. Ouvi aquilo e falei quase indo embora: ‘Puta merda, que som é esse ai? Caralho! É isso que nós vamos tocar? Porque isso eu não sei”, lembrou rindo o músico que depois de saber que iriam tocar “samba rock, meu irmão” se acalmou e passou a integrar a banda.

Na época, Robledo nunca havia tocado samba rock, mas, segundo ele, quando você toca jazz fica meio fácil fazer o resto. “Eles começaram a tocar e saí tocando junto. Deu tudo certo. Tocamos nos Estados Unidos, Japão e México, fazendo muitas temporadas nesses lugares”, contou o músico que permaneceu durante oito anos com o trio que gravou- pouca gente sabe- com a lenda do jazz norte-americano e um dos criadores do bebop, o trompetista Dizzy Gillespie (1917-1993).

O disco “Dizzy Gillespie no Brasil com Trio Mocotó”, gravado em 1974, foi lançado, 36 anos depois, pela gravadora Biscoito Fino. São seis faixas registradas no Estúdio Eldorado, de São Paulo, em agosto de 1974, reunindo o quarteto de Dizzy e o Trio Mocotó. Entre as músicas, “Evil Gal Blues”, composição de Leonard Feather (1914-1994) e Lionel Hampton (1908-2002); além de “Samba” e “The Truth”, do pianista e compositor “Mike” Longo, que trabalhou com Gillespie. “Eu assisti essa gravação, mas gravei só em outros discos do trio”, disse Robledo.

PRESENÇA DE JOHNNY ALF

O contrabaixista não lembra exatamente como conheceu o autor de “Eu e a Brisa”, mas se recorda que, em 1972, começaram a tocar juntos no Chez Regine, casa noturna que funcionava na rua Santa Isabel, no centro de São Paulo.

No Chez Regine, o time de músicos que se revezavam durante a noite não era fraco. Tito Madi Trio e Johnny Alf Trio estavam presentes todas as noites para tocar para uma plateia lotada de músicos e artistas. “Uma noite, chegamos e o Bill Evans [1929-1980], junto com Marty Morell e o Eddie Gomez, estavam esperando para nos ouvir tocar. Quando olhei, na primeira mesa e os vi, falei pro Johnny não tocar nenhuma valsinha, e o filho da puta só tocou valsas, deixava solos pra mim e dava risada”, contou o músico. “Agradamos bastante os gringos. Esses caras eram e são de outro planeta. Supermúsicos.”

Segundo Robledo, Alf fazia shows de três horas só tocando músicas dele. “Cada uma melhor do que a outra. Lembro que tinha que ler partituras, o que na noite não era comum. Era muita música, e ele escrevia todas. Ele inclusive tocava lendo a letra, harmonia e melodia ao mesmo tempo. Muitas vezes, ele estava tocando e mudava uma segunda parte da música para meio tom abaixo, e eu tinha que me virar.”

Segundo o contrabaixista, todas as músicas que Alf compôs foram feitas para homens. Perguntado sobre a homossexualidade de Alf, Robledo confirmou, que o compositor tinha preferência pelo sexo masculino, mas era muito reservado. “Ele não chegava às vias de fato; ficava na dele. Dizem que ele fez ‘Ilusão à Toa’ para um baterista que você conhece”, contou revelando para o repórter o nome do músico, mas pedindo sigilo.

Robledo comentou que, certa vez, Alf ficou apaixonado por um sujeito que estava na cadeia e compunha. “Não lembro o nome do cara, mas o que ele fazia era tudo ruim, umas merdas de músicas. O Johnny cismava em cantar aquelas musiquinhas ruins desse cara porque estava apaixonado. Era um porre.”

De acordo com Robledo, Johnny Alf morou muitas vezes em hotéis ruins, de quinta categoria. “Eu convivia muito com ele, e ele nunca me ‘cantou’. Era um cara muito inteligente e culto. Nos lugares em que morava tinha sempre uma infinidade de discos, livros e partituras. Ele gravou muitas fitas de discos para mim. Tenho até hoje”, disse o músico, que cita a harmonia como a grande lição que tirou do tempo em que trabalhou com o artista.

Uma curiosidade sobre um dos grandes sucessos de Alf foi contada por Robledo: a música “Eu e A Brisa” foi proibida de ser tocada em um casamento. “Ele fez essa música para a cerimônia de casamento de um amigo. O padre não deixou, e a música ficou esquecida em uma gaveta, até que a cantora Marcia a defendeu em um festival da Record; ninguém gostou e acabou sendo desclassificada. Essa música é fodida, não é pra burros.”

INFLUÊNCIA DO ALÉM

Ao assistir o trio de Johnny Alf, a cantora Sarah Vaughan (1924-1990) se encantou e queria fazer uma temporada com o grupo nos Estados Unidos. Contudo, um “despacho” parece ter impedido a o acontecimento.

“O Johnny falou que iríamos com a Sarah Vaughan para os Estados Unidos, só depois de passarmos, os três juntos, em um lugar, no Jabaquara, ‘para limpar o trio’. Ele era muito ligado nessas coisas de umbanda, que atrapalhavam muito a carreira dele. O tal lugar era um terreiro de umbanda, com chão de cimento queimado vermelho. Fazia um frio danado e uma baiana falou para tirarmos o sapato. Pegamos uma fila e começaram a jogar pipoca nas nossas cabeças. Eu não entendia porque algumas pessoas saíam pulando quando as pipocas caiam nelas. Em mim, não aconteceu nada, acho até que comi algumas. Depois, tiraram a gente dessa fila e nos colocaram diante de um altar cheio de pequenas estátuas para fazermos nossos pedidos. Quando isso acabou, caminhamos os três até um cara, negro e bem alto, que disse que tínhamos que tirar a roupa para nos banhar. O banho era dado na gente com a mistura de um pó com cerveja. Tínhamos que tirar a roupa e ficarmos de pé dentro de uma bacia. Pô, cerveja gelada naquele frio já era demais; só que o pior é que eu não uso cueca, e fiquei literalmente nu. Como quem não morre, não vê Deus, topei e passei pelo ritual todo. No final, o cara pegou aquele líquido misturado com o pó, cerveja e a pipoca, fez um pacote e falou para eu jogar em uma encruzilhada de quatro ruas. Só que assim que nos enfiamos no taxi, abri a janela e dispensei o lance. Sei que nunca mais ouvi falar da Sarah Vaughan; o Duda, baterista que estava com a gente, tinha acabado de comprar um apartamento na Vila Guilherme, mas acabou perdendo o imóvel; e o Johnny sumiu, acho que foi para o Rio, porque pararam com a gente no Chez Regine. O resultado foi péssimo, fui tocar em uma casa típica de tango, longe pra cacete. Queria fazer um monte de coisas durante as músicas, porque tinha tocado com o Johnny, e o cara do bandoneon me falava com um sotaque portenho:‘No me haga variaciones’.”

Depois do relato, Robledo confessou que não tem religião, mas disse acreditar em Deus “sem fanatismo”.

 

(trecho de post do dia 15/05/2017)

MORTE SENTIDA 3

Morre dona Maria Esther, embaixatriz do samba paulista

Dona Maria Esther (Foto: Divulgação)

Morreu ontem (16), terça-feira, aos 93 anos, dona Maria Esther de Carmargo Lara, a embaixatriz do samba paulista, mulher de fibra que não se cansava de repetir: “Idade não regula, o que importa é o rebolado”.

O Música em Letras entrevistou, por telefone, João Mario, zabumbeiro há mais de 10 anos do grupo de samba de roda de Pirapora do Bom Jesus, do qual a artista fazia parte.

Segundo o percussionista, dona Maria Esther sofreu uma queda, no último dia 10, na casa onde morava sozinha. Foi socorrida pelos integrantes do grupo e levada ao hospital. A cantora se recuperou, após dois dias, e voltou para casa. No entanto, passou a se sentir mal, com dores. Dona Maria Esther foi novamente levada para o hospital e lá permaneceu para se recuperar. Contudo, há cerca de seis dias, a embaixatriz do samba contraiu uma pneumonia e morreu ontem (16), por volta de 20h.

“Ontem, o médico falou que seria difícil ela sobreviver. Como a gente a conhecia, porque dona Maria era ‘pedra 90’, não amarelava fácil não, e achamos que ela ia passar por essa. Mas sabe como é pessoa de idade, né?”, disse o músico.

O velório e sepultamento aconteceram no Cemitério Municipal de Pirapora, hoje (17), às 14hs, ao som do samba de bumbo do grupo, com a presença de Oswaldinho da Cuíca .

O último samba que dona Esther participou foi na cidade de Piracicaba, no dia 6 de maio. O grupo deveria se apresentar no próximo domingo, às 10h, no Anhembi, como parte das atrações elencadas da Virada Cultural de São Paulo.

“Não decidimos ainda se faremos a apresentação, mas como o samba de bumbo é uma manifestação de origem banto, nessa cultura quando um mestre morre é feita uma festa. A morte é comemorada não de uma maneira ruim, mas feliz. Nessa cultura, há um outro entendimento da passagem de vida para a morte”, falou o músico que lidera o grupo.

Pirapora do Bom Jesus, onde morava dona Maria Esther, é cidade da região oeste do Estado de São Paulo, considerada o berço do samba de roda, também alcunhado de samba paulista, samba caipira, samba rural ou samba de bumbo.

Esse tipo de samba surgiu na região centro-oeste do estado, durante o século 18, antes de migrar para o sul de Minas Gerais e para a capital paulista, no século 19 e 20. O nome samba de bumbo vem do conhecido instrumento de percussão, embora a zabumba também seja como o bumbo um dos principais instrumentos utilizados nessa modalidade de samba para improvisarem, enquanto caixas fazem a marcação rítmica.

Dona Esther foi uma das fundadoras, nos anos de 1940, do grupo de samba de roda de Pirapora do Bom Jesus, referência na preservação do samba paulista original e da cultura popular do Estado.
(Trecho de matéria do dia 17/05/2017)

SEM SABER

Sem Noção- “Canção da Impermanência”, por Eduardo Gudin

Eduardo Gudin
Eduardo Gudin (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras convidou o músico Eduardo Gudin, 66, para participar da audição às cegas, na série Sem Noção, do novo disco de Guinga “Canção da Impermanência”.

Reconhecido por ter um trabalho musical de alta qualidade, Gudin, violonista, compositor, arranjador e professor, recebeu o Música em Letras em seu apartamento, na Vila Beatriz, São Paulo.

Atualmente, o músico divide seu tempo estudando piano e arregimentando atrações que se apresentam aos domingos, às 19h, em seu bar, o tradicional Bar Alemão, um oásis da MPB em São Paulo. Nas noites de apresentação, uma iluminação especial, direcionada apenas aos artistas, cria o clima de um palco teatral. Em apenas dois meses, pois o projeto é novo, já estiveram por lá Arrigo Barnabé e Dante Ozzetti, entre outros. O próprio Gudin está programando uma apresentação sua com Paulo Cesar Pinheiro, e de Théo de Barros com Renato Braz. Quem se apresenta no próximo domingo (21) é o baterista e sambista Wilson das Neves, 80, acompanhado pelo exímio Luizinho Sete Cordas, tocando músicas que fizeram parte da trajetória dos 62 anos de carreira do baterista.

Gudin optou por escutarmos as 13 faixas do CD “Canção da Impermanência”, em seu carro, estacionado na garagem do prédio. “A moça ainda está limpando lá em cima. Depois, subimos para tomar um café”, justificou o artista. Com o carro coberto de flores, o músico comentou “despoeticamente” que a árvore, cuja copa fica em cima da vaga de seu carro, é “ingrata”, por despejar flores em cima do veículo. No entanto, o compositor concordou que a espatódea (Spathodea campanulata), conhecida também por “chama da floresta” pois exibe uma belíssima florada vermelha misturada ao amarelo – lembrando as cores de labaredas- , é bonita e não tem culpa. A gravidade, sim.

FAIXA 6 “Domingo de Nazareth”, de Guinga

“Ele está mais como cancionista nessa faixa, também com os caminhos harmônicos dele. Eu dava um curso de composição na ULM [Universidade Livre de Música] explicando essa coisa da música com letra. Havia uma abordagem mais técnica nesse curso, sobre harmonia, em que eu analisava músicas do Tom Jobim entre outros compositores. Nas músicas do Guinga, havia muita dificuldade de realizar essas analises harmônicas, às vezes até de encontrar a tonalidade. Em uma delas havia um acorde que ninguém conseguia explicar, nem eu. Na aula seguinte, levei a explicação. Os alunos ficaram espantados e me perguntaram como eu havia descoberto aquilo e eu disse que havia telefonado para o Guinga. Ele me explicou, pois era a única maneira. Ele disse que havia um acorde e um outro, e no meio deles, um dedo foi buscar um som do violão, aquilo juntou tudo. O Guinga usa muito essa questão do cromatismo e tensões que ele mesmo cria. É uma composição realmente muito livre, mas ele sempre sabe onde está. Essa música é típica disso, além de ser provavelmente outra canção para ser letrada.”

FAIXA 7 “Rádio Nacional-Prefixo” , de Guinga

“Essa música lembra uma viagem que o Guinga faz, às vezes, por standards americanos. Ele tem muita paixão, gosta muito da música de orquestra de Duke Ellington, Miles Davis e toca isso com originalidade, com uma harmonia bem livre. ”

 

CONSIDERAÇÕES GERAIS

O compositor Eduardo Gudin identificou o autor do disco ao ouvir a primeira faixa, nos primeiros acordes. Contudo, após a audição às cegas, foi confirmada a Gudin a autoria das músicas, assim como todas as outras informações sobre o disco, seus participantes, ficha técnica, capa e encarte.

“O que mais me surpreende é que essa é a primeira vez que ouço um disco do Guinga, só com voz e violão. Outra coisa que me surpreende é a quantidade de músicas novas. Eu não conhecia nenhuma delas. As letras que ele fez também são surpreendentes, por serem muito bem escritas, com muito vocabulário e muita técnica. O Guinga é um cara que tem vários parceiros bons, mas pode se ver que ele é capaz de fazer suas próprias letras, e bem.”

Perguntado se há espaço para o disco no mercado, Gudin respondeu: “O mercado, hoje, só tem lugar para o sertanejo, né? Há nichos de mercado segmentados e temos que saber explorar isso. O Guinga, como eu, já tem o seu mercado dentro de um segmento. A internet ajuda a explorarmos e lidarmos um pouco com isso porque temos como informar as pessoas. No fundo, temos que aprender a lidar bem com isso.”

Quanto à escolha desse disco para ser avaliado, Gudin disse: “Que bom! Não podia ser melhor. Ter um disco do Guinga para falar é fácil, porque eu não gosto, na minha posição de artista e compositor, de criticar a obra de alguém. Mas o Guinga eu só elogio, então essa escolha está de colher para mim”.

AVALIAÇÃO DE EDUARDO GUDIN
“Ótimo”

(Trecho de matéria postada dia 19/05/2017)

VENTO SOPRA MÚSICA
Vento em Madeira lança “Arraial” em show

Quinteto Vento em Madeira e a cantora mônica Salmaso (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Mônica Salmaso, segunda à esquerda, e integrantes do quinteto Vento em Madeira (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Acontece amanhã (7), no teatro do Sesc Pinheiros, às 21h, o show de lançamento de “Arraial”, terceiro CD do quinteto Vento em Madeira, com a participação da cantora Mônica Salmaso.

O Música em Letras esteve hoje (6) no ensaio do grupo, no estúdio da flautista, pianista e compositora Léa Freire, uma das integrantes do grupo. Além de entrevistar a artista, gravou o quinteto interpretando dela, “Pintou um Grilo”, uma das nove composições autorais do disco que está no repertório do show. (Veja vídeo no final do texto)

Além de uma festa para os ouvidos, “Arraial” é um primor de disco. Não é para menos, pois a bolachinha, que sai pelo selo Maritaca, teve direção musical do experiente flautista e saxofonista Teco Cardoso- também integrante do quinteto-, e foi estruturada pelos acurados ouvidos do “homem morcego”, Homero Lotito, mais do que um engenheiro de som, um músico.

O CD conta ainda com um dos mais brilhantes arranjadores e compositores da atualidade, Tiago Costa, que acompanhado por Edu Ribeiro na bateria e Fernando Demarco no contrabaixo acústico, conduzem a festa com maestria.

A cantora Mônica Salmaso foi convidada para mostrar, com seu lindo timbre, que a voz é instrumento primordial, único, humano. “A Mônica funciona como as cordas, e também faz naipe de flautas, engorda os timbres e faz os destaques necessários”, disse a flautista Léa Freire.

No quinteto cada um desempenha um papel. Léa Freire é compositora, produtora executiva, e “dou palpite na música dos outros”. Teco Cardoso é uma espécie de diretor musical, encarregado das produções das gravações, mixagens e da masterização. Tiago Costa é compositor e arranjador excepcional, além de, segundo a flautista, “responsável por palpites superinteressantes; foi ele quem nomeou os dois últimos CDs do quinteto”. Para a compositora o exímio baterista Edu Ribeiro é compositor e provedor de soluções rítmicas inusitadas, enquanto Fernando Demarco, “é chão, base, referência. Apoia de várias formas, alternando parcerias com os demais”.

Capa do CD “Arraial” do quinteto Vento em Madeira (Foto: Carlos Bozzo Junior)
No disco, um encarte descreve faixa a faixa as músicas gravadas. Sobre “Pintou um Grilo”, música que o Música em Letras gravou no ensaio, registra: “É um experimento visual de um grilo pulando, que acabou gerando compassos estranhos, mas que soa muito natural, quase pop, divertido e desafiador, bom de tocar, bom de ouvir. A parte mais difícil foi descobrir que raio de compasso era aquilo. Edu Ribeiro foi preciso: 31/16″.

Segundo Léa Freire, “Quem for ao show vai encontrar uma música muito sensível, muito boa de ouvir e muito elaborada. A gente busca beleza, sensibilidade, humor, e viajar no som. Nos encontramos na música, e queremos nessa música encontrar as pessoas para viajarmos juntos”.

Viajar com essa trupe, e por esse som, é certeza de uma excelente jornada. Compareçam relaxem e desapertem os cintos, porque com esses artistas o som rola solto.

Assista ao vídeo, no qual o quinteto, com a participação especial de Mônica Salmaso, interpreta “Pintou um Grilo”, de Léa Freire, com exclusividade para o Música em Letras.
(Trecho de matéria postada 06/07/2017)

FOTOS

Vista da janela do ônibus em movimento (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Paisagem vista da janela do ônibus em movimento (Foto: carlos Bozzo Junior)

Paisagem vista da janela do ônibus em movimento (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Sabrina Parlatore
Sabrina Parlatore (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Carlos Navas e Guga Stroeter (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Camila Brasiliano e Felipe Borim
Camila Brasiliano e Felipe Borim (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Toninho Horta em entrevista ao Música em Letras
Toninho Horta em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Fernando Melo e Luiz Bueno, violonistas do Duofel (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Wallace Ronney, trompetista que lidera o Wallace Ronney Quintet (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O compositor e escritor Carlos Henry (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O contrabaixista Lito Robledo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Foto: Carlos Bozzo Junior
Thadeu Romano (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Chrystian Dozza, que faz concerto na terça-feira (25) no auditório da biblioteca Mario de Andrade (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Fabio Torres, pianista, compositor, arranjador e autor do CD “De Cara pro Sol” (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Vários tipos de chocalhos expostos no Conjunto Nacional (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O cantor e compositor Kiko Zambianchi no seu carro (Foto: Carlos Bozzo Junior)
A flautista e integrante da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, Gabriela Machado (Foto: Carlos Bozzo Junior)

 

VÍDEOS

 

FELIZ 2018!