Cid Campos lança “Emily” em show intimista

Por Carlos Bozzo Junior
Cid Campos compositor
O compositor Cid Campos (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Acontece amanhã (9), na Casa das Rosas, em São Paulo, o lançamento do CD “Emily”, com 13 poemas da poeta norte-americana Emily Dickinson (1830-1886), musicados pelo compositor Cid Campos, 59, filho do poeta e tradutor Augusto de Campos, 86, que no disco é quem lê os poemas.

O Música em Letras esteve no estúdio do Cid, entrevistando-o. Falamos sobre sua carreira, a produção do disco, a participação de seu pai nele, e o pocket show que o músico fará no lançamento do disco, entre outros temas envolvendo a música e a poesia.

No show, Cid, que canta e toca violão, será acompanhado por Felipe Ávila, na guitarra acústica, Moisés Alves, no teclado, e Fernando Rosa, no baixo acústico. No repertório, músicas do novo CD e de dois trabalhos anteriores: “O inferno de Wall Street – Profetas em movimento” (2015) e “Nem” (2014). “Talvez, o Augusto apareça, mas não para fazer leitura, só para assistir”, disse Cid.

O artista, que tem 44 anos de carreira- o primeiro cachê, Cid ganhou aos 15 anos -, já tocou e produziu mais de 30 discos. Entre eles, os de Tom Zé, Adriana Calcanhoto e Péricles Cavalcanti. De sua autoria, Cid tem sete discos.

Em 1971, Augusto de Campos foi convidado para lecionar em Austin, no Texas, e levou Cid. “Uma hora veio parar um violãozinho em minha mão e comecei a dedilhar. Não tocava, mas ouvia muita música em casa”, disse o artista que, aos 13 anos, presenciou, na sala do apartamento do seu pai, Gilberto Gil mostrando uma música que acabara de fazer: “Batmacumba”. Caetano Veloso, Tom Zé, Gal Costa e muitos outros artistas também tocaram na sala do apartamento da rua Bocaina, em Perdizes, na zona oeste de São Paulo.

Segundo Cid, o apartamento era frequentado por muita gente ligada à música. Nas reuniões se lia, se ouvia música e se tocava. “Lembro do Augusto e do Haroldo [de Campos, irmão de Augusto, também poeta e tradutor] ouvindo um pessoal que ia lá mostrar música e assimilar a informação que eles tinham para passar, como o Moraes Moreira e Tom Zé. Foram momentos especiais porque essas reuniões eram muito ricas.”

DO ROCK AO INSTRUMENTAL

Retornando dos Estados Unidos para o Brasil, Cid ingressou no Colégio São Domingos e conheceu Felipe Ávila, guitarrista que se aliou a Cid no baixo para tirar muita onda, fazendo som, montando grupos e participando de festivais. No repertório Beatles, blues, rock e música instrumental, principalmente jazz.

Charles Mingus (1922-1979) e Ray Brown (1926-2002) era o que Cid ouvia quando conheceu o ex-vocalista da banda de rock Titãs, Paulo Miklos, e seu companheiro de grupo Arnaldo Antunes. “Ficávamos no quarto tocando violão e lendo”, contou o músico que passou pela Fundação das Artes, em São Caetano do Sul. “Era bem interessante porque gente que não tinha acesso ou perspectiva de ir para a Berklee [Berklee College of Music, escola de música em Boston] tinha essa saída para estudar música”, falou Cid que aprendeu “alguma coisa” de contrabaixo com Rodolfo Stroeter.

Cid Campos em seu estúdio (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Cid também participou do festival mais paz e amor que o Brasil já viu: o Festival de Águas Claras. As quatro edições do evento musical aconteceram nos anos 1975, 1981, 1983 e 1984, na fazenda Santa Virgínia, na divisa de Reginópolis e Iacanga, municípios do interior de São Paulo. O shows reuniram nomes fortes como João Gilberto, Gilberto Gil, Luiz Gonzaga (1912-1989), Alceu Valença, Egberto Gismonti, Paulinho da Viola, entre outros. “Eu tocava na banda do dono da fazenda, o Leivinha [Antonio Checchin Junior, filho de Antonio Checchin, proprietário da Santa Virgínia]. Ficávamos lá uns dois meses preparando as coisas, era uma loucura.”

Grupos, Cid integrou alguns. Entre eles, o Natura, que fazia rock progressivo. O primeiro que o levou a fazer shows em teatros era o Papa Poluição, banda que gravou na trilha do filme “Sargento Getúlio”, dirigido por Hermano Penna. “Foi minha primeira entrada em estúdio, no estúdio Eldorado. Fazíamos bastante shows. Lembro que ficávamos um mês em um teatrinho do Bixiga. Não sei como isso acontecia, mas ficávamos”, contou rindo.

O baterista do grupo, Chiquinho, trabalhava em um estúdio em Pinheiros “Acho que era estúdio Bandeirantes, na [rua] Cunha Gago. Sei que gravávamos trilha, jingle e nessa formamos uma banda, esta sim mais profissional, a Sexo dos Anjos”, contou o artista que na formação empunhava um baixo e contava com Felipe Ávila (guitarra), Luis Brasil (guitarra), Chiquinho (bateria) e na percussão Guello ou Cabral.

Ensaiaram muito e tocaram praticamente em todos os nichos de música instrumental da cidade de São Paulo, além de festivais que abarcavam o gênero e no Fábrica do Som, programa produzido e exibido de 1983 a 1984 pela TV Cultura, gravado no Sesc Pompéia, que levou ao ar, entre outros, o som dos grupos Titãs, Ultraje a Rigor, Capital Inicial, Ira!, Os Paralamas do Sucesso, Cólera, e Barão Vermelho. O som da banda Sexo dos Anjos também ecoou dentro do Lira Paulistana, teatro que marcou a cena cultural paulistana nos anos 1980.

ESTÚDIO NA BOCAINA

Os espaços ficaram restritos para a música instrumental, os shows rarearam e os músicos do Sexo dos Anjos se dispersaram com o fim da banda. Cid caiu no rock com a banda Zipertensão, que se classificou no Festival dos Festivais (1985) da Globo com a música “Vamp Neguinha”, mas não abocanhou o prêmio que foi para a música “Escrito nas Estrelas”, interpretada por Tetê Espíndola. O grupo chegou a gravar um compacto pela gravadora Pointer, parte do plano que compreendia lançar um LP, mas a gravadora fechou. No compacto natimorto, de um lado “Víbora”, de Cid, e do outro “Que Moça” de Cid em parceria com o cantor Márcio Marinho. “Nessa época eu já compunha, mas não gostava de cantar. Tocava baixo e vinha da música instrumental, então achava que não tinha voz pra cantar.”

Antes disso, Cid excursionou pelo Nordeste, durante dois anos, tocando com Jorge Alfredo e Chico Evangelista, ambos da cena do reggae brazuca e responsáveis pelo grande sucesso “Rastapé”, música da autoria dos dois. Na bateria do grupo que acompanhava a dupla que tocava violão, Gigante Brasil (1952-2008), Cid no baixo e Dino Vicente no teclado. Paralelamente, Cid tocava com Gereba e Capenga por todo canto.

O músico Cid Campos (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Em 1988, a mulher de Cid foi estudar com a coreógrafa Pina Bausch (1940-2009). Juntos foram para Amsterdã onde moraram por dois anos, com Cid tocando música brasileira, jazz e música africana, tudo junto e misturado, em alguns grupos. Conheceu estúdios de gravação onde “aprendeu muita coisa”, antes de retornar em 1991.

De volta ao Brasil, Cid montou um estúdio no antigo apartamento da rua Bocaina. Lá gravaram, entre outros, Tom Zé e Itamar Assumpção (1949-2003). “Foi ali que começou a coisa de gravar os poetas”, falou o músico que gravou o disco “Poesia e Risco”, com o pai, no mesmo local. Livio Tragtenberg (saxofone, piano de brinquedo, fita e voz), Décio Pignatari (1927-2012) (texto e voz) e Wilson Sukorski (eletrônica, piano e voz) gravaram a ópera interativa “Temperamental” no mesmo local. A trilha sonora de Péricles Cavalcanti feita para o filme “Mil e Uma”, de Suzana Moaraes (1940-2015), foi gravada lá também.

Entre os anos 1992 e 1993, Cid participou da montagem do espetáculo multimídia, “Ouver”, com a presença dos poetas Augusto e Haroldo de Campos (1929-2003), Décio Pignatari (1927-2012) e Arnaldo Antunes, além do videomaker Walter Silveira e dos músicos Lívio Tragtenberg, Marcelo Brissac e Alberto Marsicano. Dado o problema de conciliar agenda, as apresentações aconteceram apenas três vezes, em três lugares diferentes: Curitiba; Santo André, onde inauguraram a Casa da Palavra; e Belo Horizonte. “Esse período foi interessante porque muita gente vinha no estúdio. Entres as pessoas, o Arnaldo [Antunes], o Arrigo [Barnabé], todo mundo gravando lá. Nessa época também fiz um monte de trilhas para documentários da TV Cultura”, disse o artista que depois mudou-se para um apartamento de cobertura, no prédio do outro lado da rua, por conta de não ter vizinhos ao lado. “Só quando Eduardo Nazário gravava com a bateria o vizinho de baixo reclamava”, contou rindo Cid, que há seis anos mudou-se, com o estúdio, para uma casa maior na Vila Ida. Lá ele tem um espaço adaptado para produção musical, com vedação e tudo o que é preciso para se gravar.

O CD “EMILY”

Cid tomou contato com a poesia de Emily Dickinson por meio das traduções feitas por Augusto de Campos para o livro “Não Sou Ninguém”, lançado em 2003. Entusiasmou-se com a poesia compacta, sensível e densa da poeta do século 19. “Me chamou a atenção a poesia moderna, deslocada naquele momento, dessa mulher que escrevia em uma época de patriarcado pesado e oprimida por aquela situação. Li, via as frases pequenas e pensava: isso aqui vai dar música, e comecei a compor”, contou Cid, que tem larga experiência em musicalizar poemas. Entre os poetas, ele também compôs para os concretos Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari.

Inspirado pela poesia de Dickson, Cid compôs mais de 20 músicas, das quais 13 estão registradas no CD “Emily”, que amealha ritmos como blues, jazz, bolero, samba-canção e bossa nova. Imitando a vida reclusa e intimista da poeta, Cid propõe o mesmo em termos de sonoridade. Chamou Augusto de Campos para fazer as leituras dos poemas que ora entram no começo, ora aparecem intercalados com o canto, e às vezes, no final, em cima de uma cama instrumental. O clima de trabalho entre ambos, segundo Cid, é ótimo. “Temos muitas afinidades. Ele é exigente, mas é muito tranquilo trabalhar com ele”, disse o compositor que reconhece ser diferente compor para uma letra feita para música e para um poema.

Cid Campos (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Cid se sente muito à vontade no ambiente da poesia. “Não sei se é por ter nascido ouvindo poemas, ou por ter participado de muitas reuniões de leitura, mas a maior parte do que faço é para poesia. Para musicar uma letra, por exemplo, tem a sacada do refrão, que já te dá um caminho harmônico e facilita contar uma história que culmina com ele. Depois tem um fechamento e pronto. O poema, algumas vezes até se encaixa ou se aproxima de uma letra, mas ele não tem essa regra. O poema te dá toda uma liberdade para se pensar em uma frase que não é, ou pode até ser, um refrão, mas não tem A nem B, é diferente.”

O CD “Emily” conta com produção musical, arranjos, voz, violões, guitarras acústicas, slide e resonator, baixo e programações de Cid Campos, além da participação de Augusto de Campos, na leitura dos poemas, e de Felipe Ávila (guitarras e violões), Moisés Alves (teclados) e Alê Damasceno (bateria).

Alguns CDs de Cid Campos, no meio deles, “Emily” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O músico comentou algumas faixas do disco. Entre elas, a primeira, “Pouco, mas muito” e “Ruas sem som serviam”. “A primeira faixa é a mais experimental do disco. Ela seria a última, mas o Augusto gostou tanto dessa experimentação, com um pouco de delay, que a coloquei para abrir o disco. Quanto a ‘Rua sem som serviam’ foi inspirada nas canções do Lupicínio Rodrigues. Fiz um DVD com a Adriana Calcanhoto, que gravamos em Porto Alegre, só de canções do Lupicínio Rodrigues, de quem eu sempre gostei muito das harmonias. Então são aquelas coisas que ficam na cabeça da gente e depois você vai espalhando pelo seu trabalho.”

Segundo Cid, as pessoas que forem ao show poderão entrar um pouco no mundo solitário e intimista de Emily Dickinson, por meio de um show que embora apresenta a estranheza da musicalização da poesia, mas irão ouvir canções. “Não é um show de música experimental”, falou.

Assista ao vídeo, a seguir, no qual Cid Campos interpreta com exclusividade para o Música em Letras “Ata-me- eu canto assim”, música dele para o poema de Emily Dickinson,


POCKET SHOW CID CAMPOS LANÇAMENTO DO CD “EMILY”

ARTISTA Cid Campos
QUANDO Sábado (9), às 18h30
ONDE Casa das Rosas, Avenida Paulista, 37, Paraiso, tel. (11) 3285-6986
QUANTO Gratuito

CD “EMILY”, DE CID CAMPOS
ARTISTA Cid Campos e Augusto de Campos
GRAVADORA Independente
QUANTO R$20