Clave, sol e solidariedade

Por Carlos Bozzo Junior
O autor do blog, com gesso (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Cooperação mútua entre duas pessoas, gerada pela solidariedade, traz conforto. Principalmente se você estiver em pé, dentro de um ônibus ou do metrô de São Paulo, com o quinto metacarpo quebrado (um dos 27 ossos principais da mão), o braço direito engessado e precisando usar o assento preferencial .

Embora haja avisos fixados próximos de tais assentos, com ícones da descrição “Destinado para idosos acima de 60 anos, gestantes, pessoas com deficiência, pessoas com criança de colo”, além de informar os números das leis (10.048/00, 10.741/03) e do decreto (5.296/04), ambos federais, poucos cidadãos os respeitam.

Pessoas aparentemente em melhores condições físicas que as minhas e geralmente mais jovens parecem ter sido picadas pela mosca tsé-tsé, pois fingem dormir, não liberam o assento. Embora no metrô uma voz avise constantemente que os assentos devem ser respeitados, não adianta. Não respeitam, e como na letra da música “Estrangeiro”, de Caetano Veloso, os passageiros ficam como o compositor “…cego de tanto vê-la, de tanto tê-la…”.

Assim, não exercer minha cidadania à força com quem não sabe urbanizar no transporte público paulistano, passou a ser minha missão nesses dias de imobilidade.

OSSO DURO DE ROER

Atuando em conjunto, os ossos da mão promovem a conhecida ação de pinça entre o polegar opositor e os outros dedos. O movimento apreensor nos permite, entre outras atividades, tocar instrumentos musicais ou “tocar” um Uber (dirigir um carro). A ação de pinça entre o polegar opositor e os outros dedos permitiu-nos evoluir como espécie e chegarmos à civilização. Entretanto, embora a habilidade proporcionada por esse conjunto de ossos tenha nos favorecido para construirmos civilizações, quando se trata de sermos civilizados é que o osso fica duro de roer.

Fratura no quinto metacarpo, da mão direita, do autor do blog (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Descrita como fratura do boxer ( ou pugilista ), a fratura do colo do quinto metacarpo é frequente na prática clínica, e representa cerca de 5% das fraturas do membro superior e 20% das fraturas da mão. Geralmente, ela é resultado de trauma direto da mão fechada em uma superfície rígida. A minha, consegui atingindo com força uma porta que, igual a alguns usuários do transporte público, se fez de surda, muda e cega.

Um japa adolescente, com pinta de malaco, entre as estações Paraíso e Santa Cruz do metrô, fingia dormir, mas levou um totó de meu pé. Não adiantou, não acordou. Toquei-o no ombro com o gesso e nada. Falei no ouvido dele a palavrinha mágica seguida da frase: “Por favor, você pode se levantar e deixar que eu usufrua o que me é de direito?”. O malaco acordou, resmungou, mas levantou. Logo em seguida, uma senhora embarcou e cedi meu lugar para ela, dizendo pro japa: “É assim ó”.

Contudo, percebi que não poderia continuar assim, aborrecendo-me por ser desrespeitado e correndo o risco de me envolver em conflitos, apenas por tentar exercer minha cidadania.

“De quatro a seis semanas de gesso”, disse o médico. Passei duas delas com o gesso em branco, sem nenhuma frase, assinatura ou desenho. Pensei em escrever: “Área, este lugar é meu”, “Se gentileza gera gentileza, imagine a solidariedade”, “Vaza!” , “O dono do rosto que me deu este gesso, sentava onde não devia”, entre outras. Desisti, ofensivo demais.

A SOLUÇÃO

Resolvi adesivar, no branco gesso, uma clave de sol. Por que a clave? Na loja, que comercializava adesivos, essa era a melhor opção entre a fartura de emblemas de times de futebol, além de “Aluga-se”, “Extintor”, “Saída”, “Entrada”, “Mulheres” e “Homens”.

O autor do blog sentado no ônibus (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Ao verem a clave negra no gesso branco, usuários dos coletivos passaram a dizer: “Olha que bonito! É o símbolo da música, né?”, “Eu também toco”, “Eu canto”, “Você é músico?” e por aí afora, antes de levantarem e me cederem o lugar.

Afinal, a clave de sol desperta solidariedade? Não sei dizer, mas de alguma maneira colocou-me numa tribo e ajudou-me a exercer minha cidadania sem conflitos.

O autor do blog sentado no metrô (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Tirei o adesivo duas semanas depois e o substitui por uma linda, colorida e pequena pintura de um sol no gesso. O resultado? Passei novamente a viajar de pé.

Concluí que um sol pode ser nada sem sua clave. Uma grande parte da civilidade consiste em aturar a incivilidade, faça chuva ou faça sol.

O autor do blog, viajando em pé (Foto: Carlos Bozzo Junior)