Selo de música instrumental comemora em show 20 anos de existência

Por Carlos Bozzo Junior
A compositora, arranjadora, flautista e dona do selo Maritaca, Léa Freire (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Acontece hoje (20), às 21h, no Auditório Ibirapuera, um show reunindo 26 artistas da música instrumental brasileira para comemorar 20 anos de existência do selo musical Maritaca. Criado em 1997, o selo já registrou obras do gênero em 45 discos.

“No total, são 51 CDs lançados, mas contabilizamos apenas 45 porque há discos que produzimos para terceiros. Entre outros, o disco para a Philarmonia Brasileira [orquestra] com músicas de Villa-Lobos”, disse a flautista, compositora, arranjadora, idealizadora e dona do selo, Léa Freire, 60, que concedeu entrevista ao Música em Letras em sua casa, na vila Ipojuca, bairro da zona oeste de São Paulo.

O primeiro CD lançado pelo selo Maritaca foi “Ninhal” (1997), obra da própria flautista, compositora e arranjadora. O último é “Arraial” (2017) do quinteto Vento em Madeira. O disco que mais vendeu- cinco mil cópias- foi “Antologia da Canção” (2004), da flautista com o trombonista Bocato, interpretando músicas de mestres como “As Rosas Não Falam”, de Cartola (1908-1980); “Andorinha”, de Tom Jobim (1927-1994);”Folha Morta”, de Ari Barroso (1903-1994); e “Nunca”, de Lupicínio Rodrigues (1914-1974), entre outras.

Já o disco que menos vendeu, nesses 20 anos, Freire não sabe dizer. “ É difícil, porque, por exemplo, o disco que produzi para o Jongo Trio vendeu menos por ser uma encomenda. Não vendi nada, produzi para um cliente e entreguei. Então não dá para saber.”

Em média, um CD leva três meses para ser produzido.“Depende do freguês. Se a pessoa for simples, é rápido, mas tem pessoas complicadas. Contudo, dá para fazer em três meses. Isso quando a pessoa já está com a pré-produção pronta, ou seja, já chega com o repertório todo ensaiado, com tudo pronto para gravar, mixar, masterizar e depois mandarmos para a fábrica.”

Perguntada se há algum disco “pendurado”, sem que tenha sido finalizado, a dona do selo disse, rindo: “Sim, tem um, mas é meu”. A artista tem um disco gravado, com o pianista Amilton Godoy, mas ainda não realizou a pós-produção por ter que se dedicar a outros projetos. “Acho que em janeiro gravo outro com o Amilton, aproveito e já finalizo os dois.”

CDS

De todos os lançamentos, o que mais demorou para acontecer foi exatamente o primeiro, “Ninhal”, CD da flautista que com essa obra iniciou o selo, ainda sem muita experiência. Segundo ela, por essa razão atrasou o lançamento da bolachinha. “Os discos que demoram mais para ficar prontos é por conta da agenda dos artistas, que viajam muito. O mais difícil é colocar o artista dentro do estúdio. Depois, se quem vai fazer o mix não viajar, coisa e tal, fica mais fácil.”

Léa Freire
Léa Freire (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Quanto aos famosos problemas de refação “ad aeternum”, provocados por artistas perfeccionistas que, além de buscarem a intangível perfeição, procuram pelos em ovos, chifres em gatos e sacis cruzando as pernas, a artista disse: “Não tenho esse tipo de problema porque trabalho com músicos excelentes. Se gravarem 20 takes, todos eles serão definitivos. São músicos que raramente dão na trave, isso acontece, mas ficarem achando problemas onde não há, não rola”, falou a artista sobre a indiscutível qualidade dos instrumentistas que gravaram pelo selo.

Léa Freire quase não dá pitacos nas gravações dos discos produzidos pelo selo Maritaca. “Muito pouco. Por exemplo, quem sou eu para dar palpite para o Arismar [Arismar do Espírito Santo], ele só faz o que ele quer! Uma única vez, eu disse que um disco dele estava comprido demais. Depois, saiu em toda imprensa que o disco era comprido, mas se ele está feliz, para mim está bom. No disco só tem música boa, para que encurtar? Se não quiserem, que não ouçam o disco inteiro”, disse rindo a compositora que, quando decide fazer um disco com alguém, já está implícito que irá registrar, por meio do som, “o que a pessoa é”.

Entre os discos mais rápidos de serem produzidos está o da tarimbada e criativa pianista Sílvia Goes. “Vários CDs ficaram prontos rapidamente. O da Silvinha, talvez porque era piano solo, facilitou o processo”, disse a flautista sobre a qualificada e experiente instrumentista que, em 2001, investiu no disco da instrumentista em torno de R$ 15 mil para a produção do seu belíssimo CD “Piano à Brasileira”.

Entretanto, o custo de produção de um CD varia muito, e atualmente varia de R$ 30 a mais de R$ 100 mil. “Depende, entre outras coisas, da quantidade de pessoas que participam, mas pode-se dizer que nessa faixa é possível fazer um disco com qualidade. Por exemplo, o CD ‘Cartas Brasileiras’, de 2005, teve a participação de 62 pessoas e por isso foi o disco mais caro feito pelo selo Maritaca. Na ocasião, custou em torno de R$ 85 mil, mas hoje não sairia por menos de R$120 mil.”

Quando perguntei a Léa Freire qual CD ela mais aprecia ou qual ela considera especial, ela respondeu rindo: “Ah, vai falar de filho, agora? Tenho que escolher o filho que mais gosto? Não vou fazer isso”.

MÚSICA NO PAPEL

A ideia inicial de Léa Freire compreendia, além da realização de CDs, a edição de um livro com partituras que acompanhasse cada obra fonográfica lançada. Contudo, apenas dois livros foram feitos: “Música Instrumental Brasileira – vol 1”, referente ao CD “Quinteto” (1999), do grupo homônimo, e “Música Instrumental Brasileira – vol 2”, referente ao CD “Caderno de Composição” (2001), de Mozar Terra (1950-2006).

Os livros de partituras do Maritaca tinham como objetivo preencher uma das muitas lacunas no mercado editorial, ou seja, facilitar o acesso a obras inéditas de compositores contemporâneos brasileiros. No intuito de facilitar a leitura e o manuseio durante a performance do músico-leitor, o projeto gráfico do livro permitia que a obra não se fechasse durante a execução, e que as partituras pudessem ser completamente abertas, sem a necessidade de virar as páginas durante a execução.

A encadernação foi criada de maneira a se evitar a deterioração, além de facilitar a busca da música a ser executada. Para tal, optou-se por um formato contemplando as qualidades da brochura e do espiral.

No entanto, o sonho do material impresso acabou. “Parei de produzir os livros com partituras porque é outro mercado, outra história. É como se você tivesse outro negócio, e com ele duas empresas, não uma. São universos completamente diferentes, com mercado, leis e impostos distintos. Não consegui me multiplicar no meio dessa confusão”, disse a artista que parou no impresso, mas não parou no som.

Léa Freire
Léa Freire (Foto: Carlos Bozzo Junior)

ARTISTA E MECENAS

Em 20 anos de existência, a proprietária pensou várias vezes em desistir do negócio, que, segundo ela, nunca foi rentável. Perguntada o que a fez continuar, respondeu: “Dormir. Ficava puta, ia dormir, passava e eu continuava. Continuei sem nunca ganhar dinheiro, mas não levei prejuízo. A uma certa altura, resolvi que queria tocar mais, compor mais, e vender CDs não mais. Só gravar”, contou Freire, que se intitula uma “espécie de mecenas” por ter doado, além dos direitos fonográficos, todo o estoque de discos para seus respectivos artistas, no intuito de que eles os vendam em seus shows.

“Achei que era uma pena ficar com aquele estoque todo em casa, parado. Doei quase tudo porque prefiro que a música deles [artistas do selo] fique viva por aí do que dentro de um armário apodrecendo e embolorando. Mantive apenas alguns exemplares de cada CD. Doei inclusive os direitos fonográficos para todos eles porque, na verdade, esse é um privilégio meu, pois eu posso fazer isso. Para mim deixou de ser um business. Virei mecenas. Prefiro ser mecenas do que ficar fazendo nota fiscal. Virei um espécie de PAC [Programa de Ação Cultural, formato que permite ao contribuinte patrocinar financeiramente a produção artística e cultural paulista, com benefício fiscal]”, falou rindo a flautista.

Quanto ao valor total do investimento feito no selo nesses 20 anos, a proprietária do Maritaca não tem dúvida: “Tenho bem a ideia de quanto foi investido, mas, mas não vou falar. Prefiro não dizer”.

Para a artista, a maior lição que teve nesse período em que “tocou” o selo junto com a carreira musical foi: “Escolher uma única causa e ir atrás dela. Se você escolher várias, acaba não fazendo nada direito. Outra coisa é fazer tudo para você mesmo, e não esperar nada de ninguém. Assim você baixa a expectativa. O único critério que tenho é fazer por querer. Fiz porque quis. Se eu gosto, eu faço”.

Há algum artista que Léa Freire ainda não gravou, mas pretende fazê-lo? “Todo mundo que tem gravadora não me interessa. Eu escolho o que quero gravar. Não adianta me mandar projeto que não faço. Um belo dia, chego para quem gosto do trabalho e digo: ‘Quer fazer um disco?’ Muita gente me procurava antes para que eu fizesse um CD, mas com o tempo as pessoas perceberam que não é assim que funciona. Só faço o que gosto, o que quero e quando quero.”

MEIO ELEMENTO

Por ser uma arte viva, a música instrumental brasileira passa por constantes mudanças e renovações. Sobre aquelas mais importantes relacionadas à música e ao mercado desse gênero, a artista revelou que “a tecnologia mudou, levando a música ao preço zero. E a música, que era feita de três elementos [ritmo, harmonia e melodia], hoje é feita de meio elemento. Não há harmonia, a melodia é falada e o ritmo é bem simplão”.

Léa Freire
Léa Freire e Gorilinha, sua cadelinha (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Tratando-se de música instrumental o que é mais difícil na comercialização? “A difusão. Porque a indústria do hardware comprou a mídia e ela só veicula o que ela mesma produz. O negócio da música sempre foi o hardware e não o software. Antes, o negócio era vender vitrola, depois toca-discos, pickups, vídeocassetes, toca-CDs e, agora, celulares. E, como sempre, quem faz o conteúdo [música] está no final da lista, quando se trata de ser remunerado. Antes de tudo, há o marketing do hardware, depois um monte de advogados recebendo uma grana do direito autoral e, por último, o músico e o compositor, que ficam na rabeira, pois não recebem nada, nunca. O fato de a música ter se tornado gratuita é simplesmente uma redundância para a maioria dos mortais, para alguns poucos não. Até compositores mais estabelecidos estão tendo prejuízos consideráveis. Fora isso, a mídia tomou conta do universo. Estamos vivendo na ‘Idade Mídia’, que traduzindo é Idade Média. A última durou mil anos, essa de agora começou há 30 anos e já mostrando que a coisa iria ficar mais para o lado do medíocre. Algumas pessoas se armam de vários discursos, dizendo que é uma coisa mais democrática, mas eu acho medíocre mesmo.”

Perguntada se o selo Maritaca já lançou ou pretende lançar seus discos no exterior, a empresária respondeu: “Não, já tentei, mas é muita burocracia e não tive paciência para ir até o final. Começou a aparecer tudo que deveria ser feito para lançar discos no exterior e me deu uma preguiça medonha. Talvez um dia retome isso. Por enquanto, vou ficando por aqui mesmo.”

Os próximos passos do selo incluem registrar o som de um novo grupo, o Camaranova. Projeto da flautista com o músico Felipe Sena, o grupo formado por 14 músicos que tocam sopros (flautas, clarinete, trompete, saxofones, eufônio, tuba, trombone, fagote), quatro cordas (três violinos e um violoncelo), e eventualmente um piano, tem por finalidade gravar um repertório totalmente autoral. O grupo estreia no show do dia 20 e grava no ano que vem.

SHOW

Entre os artistas e grupos que irão se apresentar no show estão os pianistas Amilton Godoy e Sílvia Goes, o multiinstrumentista Arismar do Espírito Santo, o violonista e cantor Filó Machado, além do quinteto Vento em Madeira, com a participação especial da cantora Mônica Salmaso.

No show, o público poderá escutar músicas de 14 CDs lançados pelo selo. Entre elas, as do primeiro disco de Léa Freire, “Ninhal”; “Piano à brasileira” (2001), da pianista Silvia Goes; e do último lançamento do selo, “Arraial” (2017), do quinteto Vento em Madeira, formado por Teco Cardoso (flautas e saxofones), Tiago Costa (piano), Fernando DeMarco (baixo acústico), Léa Freire, (flautas), Edu Ribeiro, (bateria) e Mônica Salmaso (voz), que participa abrilhantando o disco.

Para quem for ao espetáculo, a flautista alerta que o som de qualidade a ser apresentado tem uma função: “Esse tipo de música serve para sensibilizar as pessoas, pois permite que você reinvente um enredo mais bonito para sua vida e passe a ter mais confiança no que sente.”

SHOW 20 ANOS DO SELO MARITACA
ARTISTAS Vários
QUANDO Sexta-feira (20), às 21h
ONDE Auditório Ibirapuera Oscar Niemeyer, av. Pedro Álvares Cabral, s/n – Portão 2 do Parque do Ibirapuera (Entrada para carros pelo Portão 3), São Paulo, tel. (11) 3629-1075
QUANTO R$ 20 e R$ 10 (meia entrada)