Show reúne mais de 50 violeiros

Por Carlos Bozzo Junior
Ensaio da Orquestra Paulistana de Viola Caipira (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Comemorando 20 anos de existência, a OPVC (Orquestra Paulistana de Viola Caipira) apresenta-se com seus 55 componentes, na quinta-feira (31), em show no teatro Fernando Torres, no Tatuapé, em São Paulo.

O Música em Letras esteve com o músico, maestro, arranjador, professor, violeiro, idealizador e fundador da orquestra, o paulistano Rui Torneze de Araújo, 54, em um ensaio do grupo, aberto ao público, que acontece sempre, às terças-feiras, das 19h às 21h30, na sede da OPVC, na Vila Centenário, bairro da zona leste de São Paulo.

Mesmo repleto de qualidades que fazem dele um expert no instrumento, quando perguntado em suas andanças pelo interior se toca viola, Torneze diz, com sotaque caipira: “Não, só ‘preceio’ ”, contou rindo o músico que com o grupo já se apresentou em Portugal e realiza em torno de 40 shows por ano.

A missão da OPVC é formar público para a apreciação desse instrumento. Por isso, o repertório que abarcam é bem eclético. “Além da música tradicional caipira, que é chamada ‘música de raiz’, como ‘Chora Viola’, de Tião Carreiro e Pardinho, e ‘Pé de Ipê’, de Tonico e Tinoco, tocamos fado, tango, músicas clássicas, new age, rock e MPB. Entre elas, ‘Saudades do Brasil em Portugal’, que o poeta Vinícius de Moraes fez para Amália Rodrigues; ‘Tango para Évora’, de Loreena McKennitt; ‘Chovendo na Roseira’, de Tom Jobim; ‘Admirável Gado Novo’, de Zé Ramalho; ‘Hotel California’, dos Eagles; ‘Cowboy Fora da Lei’, de Raul Seixas, mais algumas músicas do cinema, como ‘La Calliffa’, do Ennio Morricone e ‘O Último dos Moicanos’, de Trevor Jones e Randy Edelmam”, disse o maestro que também toca música barroca e erudita com o grupo, passando por Johann Sebastian Bach (1685-1750) e Franz Peter Schubert ( 1797-1828), entre outros.

Assista ao vídeo, no final do texto, no qual parte da orquestra liderada por Torneze interpreta “Libertango”, de Astor Piazzolla (1921-1992), com exclusividade para o blog.

O maestro Rui Torneze diante da Orquestra Paulistana de Viola Caipira (Foto: Carlos Bozzo Junior)

ORQUESTRA DIFERENTE

Com integrantes de 13 a 83 anos de idade, entre homens e mulheres, a OPVC (Orquestra Paulistana de Viola Caipira), fundada em 1997, é uma orquestra bem diferente dos usuais grupos que utilizam esse instrumento de dez cordas, de origem portuguesa, para tocar ritmos brasileiros como toadas, cateretês, querumanas, recortados, modas campeiras, pagodes caipiras e cipós pretos, entre outros.

Geralmente, orquestras de violas caipiras configuram-se dentro de um padrão que deixa a desejar. Pendura-se os instrumentos nos pescoços de cada um de seus integrantes, caracterizados de “Nhô” ou “Frô”, com chapéus de palha e camisas xadrezes, para tocarem acordes “basicões”, acompanhando com uma batida banal melodias em uníssono. O resultado disso costuma gerar uma música enfadonha e pobre que dissemina uma ideia equivocada do que pode ser realizado com esse belo instrumento.

Estojos de violas dos integrantes da Orquestra Paulistana de Viola Caipira
Estojos de violas dos integrantes da Orquestra Paulistana de Viola Caipira (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Já a OPVC lembra roça, mato, pinga e poesia envolvida por música de qualidade. Dividida em naipes, e só com violas de dez cordas, além de uma percussão, a orquestra executa arranjos bem elaborados, escritos por Torneze.

“Tenho mais de cem arranjos escritos e registrados na FUNART, pois não existiam arranjos para uma orquestra de violas como os que faço. A intenção é deixar um legado para o futuro. Somos a única orquestra de viola do Brasil dividas em naipes. Estamos escrevendo um livro mostrando como é feita essa divisão e os arranjos”, falou o artista.

Rui Torneze no ensaio da Orquestra Paulistana de Viola Caipira
Rui Torneze no ensaio da Orquestra Paulistana de Viola Caipira (Foto: Carlos Bozzo Junior)

A orquestra tem CDs e DVDs gravados. Em 2010, 29 músicas foram gravadas ao vivo em Portugal para o “Viola sem Fronteira”, CD duplo. Anteriormente, em 2002, o grupo gravou no teatro São Pedro, em São Paulo, o CD e DVD “Orquestra Paulistana de Viola- Ao Vivo”, com grandes clássicos da música de raiz. Em 2009, gravaram mais um CD e um DVD, “Viola in Concert”, mostrando o lado eclético do grupo interpretando, além da música de raiz de alguns autores pouco conhecidos, como Antônio Boaventura de Oliveira, o Torrinha (1922-1988); Elísio Félix da Costa, o Canhotinho (1912-1965); e Nonô Basílio (1922-1997); alguns choros, como “Delicado”, de Waldir Azevedo (1923-1980), e MPB, como “Chovendo na Roseira”, de Tom Jobim (1927-1994); além de “Primavera”, de Antonio Lucio Vivaldi (1678-1741). Há ainda o CD, “Orquestra Paulistana – 15 anos”, com 16 faixas gravadas, em 2015, no auditório Ibirapuera, em São Paulo, com músicas autorais de integrantes do grupo e músicas de compositores conhecidos como Zé Geraldo. Todos os CDs e DVDs podem ser encontrados à venda, com preços entre R$20 e R$35, no site da orquestra:http://orquestradeviola.com.br/

Conhecedor e especialista no instrumento, sua sonoridade, ritmos, e variedade de afinações- cebolinha, cebolão, natural, maxabomba, boiadeira e rio-abaixo, entre outras-, o maestro, que também estudou violão clássico, é quem arregimenta a OPVC para apresentações em distintas formações, como duplas, trios, quartetos, cameratas, além da própria orquestra completa que pode contar com a participação de 12 a 55 integrantes.

“A maioria dos integrantes, apesar de morarem em São Paulo, são do interior. Tem gente de Catanduva, Presidente Prudente, Jales, Olímpia e de tudo quanto é canto”, falou Torneze, acrescentando que o show de amanhã é uma ótima oportunidade de conhecer a orquestra com todos os seus integrantes reunidos no palco.

Assista, a seguir, parte da OPVC interpretando “Libertango”, de Astor Piazzolla.


SHOW OPVC
QUANDO Quinta-feira (31), às 21h30
ONDE Teatro Fernando Torres, r. Padre Estevão Pernet, 588, Tatuapé, São Paulo, tel. (11) 2227-1025
QUANTO R$ 70 (inteira) R$ 35 (meia)