Mulheres da Jazzmin’s Big Band tocam tão bem quanto homens

Por Carlos Bozzo Junior
Jazzmin's Big Band
Jazzmin’s Big Band, grupo feminino que toca no evento Jazz na Fábrica, no Sesc Pompéia, em São Paulo (Foto: Divulgação)

Sim, o título acima é preconceituoso. Reflete e incita, de maneira deselegante e equivocada, o mito da incapacidade de mulheres desempenharem funções tradicionalmente designadas ao sexo masculino, inferiorizando-as. Foi grafado nesse post no intuito de chamar a sua atenção para tamanha atrocidade, tacanhice e equívoco.

Contudo- pasme caro internauta-, é isso que a maioria das 17 integrantes da Jazzmin’s Big Band, que se apresenta gratuitamente, no próximo domingo (13), às 16h, dentro da programação da sétima edição do Festival Jazz na Fábrica, no Sesc Pompéia, costuma ouvir. Sim, na música ainda existe invisibilidade e exclusão para mulheres.

O Música em Letras esteve na segunda-feira (7) no ensaio aberto realizado pelo grupo, formado na maioria por professoras, alunas e ex-alunas da EMESP (Escola de Música do Estado de São Paulo), no auditório da instituição para entrevistá-las.

Além da entrevista, o blog gravou com exclusividade um vídeo no qual a banda interpreta “7×1”, um samba composto pela contrabaixista Gê Cortes, 57, que teve como inspiração o fatídico jogo para o Brasil contra Alemanha da última Copa do Mundo, para as integrantes do grupo esbanjarem suingue, técnica e bom gosto. (Veja vídeo no final do texto)

A banda, formada no final de 2016, apresenta um repertório totalmente dedicado à música popular com arranjos de jazz. Cada música tem um arranjador. Nos temas autorais, o arranjo fica por conta dos próprios compositores. Entre eles, “Fácil Vem”, um jazz pop, de Nilton Carneiro, e “Quando te Vejo”, um jazz contemporâneo de Rodrigo Morte.

Jazzmin’s Big Band ensaiando (Foto: Carlos Bozzo Junior)

É sabido que quando se empodera uma mulher, o mundo muda. Quando se empodera 17 mulheres em uma big band de jazz o que muda?

“Ainda não temos essa experiência. Não sabemos se há diferença no tipo de sonoridade, mas no convívio há. Existe uma sensação de tranquilidade de se poder dizer o que tem que ser dito, um conforto psicológico por conta de nos sentirmos menos pressionadas”, falou a pianista Lis Carvalho, 57, endossada pelas outras integrantes da banda. Entre elas Paula Valente, 53, saxofonista que afirmou existir uma pressão constante em big bands por não ser comum nessas formações a presença de mulheres. “Parece que a mulher tocando é sempre uma musicista de segunda categoria”, falou a saxofonista.

A veterana baterista Lilian Carmona, 63, que tocou nos anos 1980 na big band do 150 Night Club, famosa casa noturna do hotel Maksoud, em São Paulo, compartilha da mesma opinião de sua colega. “Desde aquela época, a pressão é violenta. A dificuldade maior era se manter no lugar conquistado. Fizeram de tudo para me botar para fora e colocar um homem no meu lugar, mas o doutor Roberto Maksoud não deixou isso acontecer”, disse a baterista.

Como a imagem de coelhos na Páscoa, mulheres que tocam têm as suas exploradas no dia 8 de março. “É comum, por exemplo, uma vez por ano apenas, pedirem para formarmos uma banda de mulheres para nos apresentarmos. Depois acaba, não há continuidade por melhor que você seja. Somos sempre uma segunda opção”, falou Paula Valente.

Entre os gêneros musicais, segundo Lis Carvalho, a música popular é a que apresenta mais preconceito. “Por incrível que pareça, o preconceito contra a mulher é maior nesse gênero, incluindo os Estados Unidos. Há menos mulheres que homens fazendo jazz. No departamento de jazz da Julliard [renomada escola de música em Nova Iorque], há apenas duas mulheres, uma baixista e uma saxofonista, entre vários homens.”

Jazzmin's Big Band
Ensaio da Jazzmin’s Big Band, na última segunda feira, no auditório da EMESP (Foto: Carlos Bozzo Junior)

De acordo com as integrantes da Jazzmin’s a discriminação existe com relação a instrumentistas, compositoras e arranjadoras. “Só muda para cantoras. Essa é a única função dentro da música em que não rola preconceito contra mulheres”, falou Lis Carvalho.

Mesmo assim, é comum instrumentistas serem preconceituosos com cantoras chamando-as pejorativamente de “canários”. “Isso é uma depreciação de cantores em geral, não só para mulheres”, disse Paula Valente sobre o termo que serve também para inferiorizar homens que cantam.

Instrumentos também são alvo de preconceitos. “O piano e a flauta, por exemplo, são tradicionalmente considerados, na cultura brasileira, instrumentos femininos, os outros não”, falou a pianista.

A contrabaixista Gê Cortes contou que, ao substituir um músico em certa ocasião, ocasionou espanto. “Afinei o instrumento e quando íamos começar a tocar, um cara na plateia disse: ‘Mas é você quem vai tocar? Pensei que você estava só afinando’. Ou seja, eu poderia afinar, equalizar o instrumento para um homem tocar, mas eu não poderia tocá-lo”, contou, acrescentando que o mesmo aconteceu também com sua amiga, a baterista Vera Figueiredo.

A baterista Lilian Carmona teve experiência similar a de suas companheiras, quando foi realizar um show com o pianista Adilson Godoy e a cantora Silvia Maria. “O show era de noite e fui de tarde montar a bateria. Percebi a presença de dois moleques que foram comprar ingressos e conseguiram entrar no local. Ouvi a conversava deles: ‘Pela altura dos pratos, esse batera deve ser alto’, coisa e tal. Quando foi na hora do show, eles estavam na primeira fileira e não acreditaram que era eu quem iria tocar”, falou.

Entretanto, para Lis Carvalho, a pior parte disso é a “fala muda”. “Muitos não falam, mas muitas vezes sentimos o preconceito por parte de homens, sem que eles digam uma palavra.”

SHOW

Pela primeira vez, a banda se apresenta para o público. No repertório da estreia, 11 músicas. Entre elas, “Doralice”, de João Gilberto, “Kamba”, de Moacir Santos (1926-2006), “Sete Anéis”, de Egberto Gismonti, e “Bebê”, de Hermeto Pascoal, essa com arranjo do jovem trombonista Welbert Miranda Dias,18, aluno da EMESP.

O trombonista e arranjador Welbert Miranda Dias acompanha o ensaio da Jazzmin’s Big Band (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Perguntado se é mais fácil trabalhar com mulheres ou com homens, o jovem respondeu “São pessoas. Tem homens que são chatos pra caramba e mulheres também.”

Segundo a guitarrista Renata Montanari, 54, as pessoas devem ir a esse show com a mente leve e aberta para ouvirem o clima do som. Para Paula Valente, “a banda existe não só porque somos mulheres. É uma oportunidade de abrir uma porta para muitas pessoas que nunca tiveram a chance de tocar, e a partir daí termos nossos trabalhos expandidos e ouvidos”, disse a saxofonista sobre a banda intergeracional com profissionais de idades que vão de 18 a 63 anos.

As demais integrantes da Jazzmin’s Big Band são Marta Ozzetti (flauta), Laís Marina Francischinelli e Fabrícia Medeiros (clarinete), Beatriz Pacheco, Taís Cavalcanti e Mayara Almeida (saxofone), Estefane Santos e Grazi Pizani (trompete), Kelly Vasconcelos (trompa), Joyce Peixoto Pasti e Sheila Batista (trombone), Glaucia Vidal (vibrafone).

Essa é uma excelente oportunidade de assistir uma banda que suinga, toca e emociona o ouvinte sem se desmilinguir após um único evento. A Jazzmin’s veio para ficar, mas sua permanência também depende de você. Compareça, prestigie e faça sua parte ao curtir e disseminar esse som, sem preconceito.

Confira a programação completa do festival que traz 17 atrações nacionais e internacionais, além de oficinas formativas inéditas, na página do Sesc https://www.sescsp.org.br/programacao/39950_JAZZ+NA+FABRICA+2017#/content=programacao

Assista, a seguir, ao vídeo no qual a Jazzmin´s interpreta “7×1”, de Gê Cortes, que explica sua composição.

“Estive em um evento no qual toquei o choro ‘1×0’, [de Pixinguinha e Benedito Lacerda], que é sobre o resultado de um jogo de futebol. Logo em seguida, pensei em fazer uma música para o ‘7×1’ que sofremos da Alemanha. Cheguei até a procurar se alguém havia composto algo a respeito e não achei. Resolvi, então, fazer justamente uma música em [compasso de] sete, que não é uma coisa de suingue brasileiro e sim mais próxima a uma coisa mais travada. Fiz a música, mudando o tempo todo com acordes sobrepostos como se os caras estivessem tentando de tudo para fazerem um gol”, contou a compositora sobre o tema que tem em seus improvisos a “jogada” de uma instrumentista “passar a bola” para a outra. Inicialmente, Paula Valente (sax) joga com Renata Montanari (guitarra), e depois a jogada passa para Estefane Santos (trompete) e Glaucia Vidal (vibrafone). Segundo a compositora, “há sete acordes esquisitos, que representam os sete gols da Alemanha, depois entra um solo de bateria e termina com o nosso gol”.

FESTIVAL JAZZ NA FÁBRICA
ARTISTAS Vários
SHOW Jazzmin´s Big Band
QUANDO Domingo (13), 16h
QUANTO Gratuito (outras atrações têm ingressos pagos)
ONDE Deck do Sesc Pompéia, R. Clélia, 93, Pompeia, São Paulo, tel. (11) 3871-7700