Alto valor do silêncio ecoa em livro póstumo de Umberto Eco

Por Carlos Bozzo Junior
Capa do último livro de Humberto Eco “Pape Satàn Aleppe-Crônicas de uma Sociedade Líquida” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Ganhei de um amigo, na última sexta-feira, o livro “Papa Satàn Aleppe- Crônicas de uma Sociedade Líquida” (Record), do filósofo, semiólogo, crítico literário e professor Umberto Eco (1932-2016).

O texto impresso na quarta capa da obra alertou-me para a oportunidade desse post. Reproduzo-o a seguir.

“O silêncio está prestes a se tornar um bem caríssimo e, de fato, só está à disposição de pessoas abastadas que podem pagar mansões em meio ao verde ou de místicos da montanha com mochilas nas costas que ficam tão inebriados pelos silêncios incontaminados das alturas que perdem a cabeça e acabam caindo em alguma fenda, de modo que não demora para que toda área seja poluída pelo ronco dos helicópteros dos socorristas.

Ainda vamos chegar ao momento em que aqueles que não aguentam mais o barulho poderão comprar pacotes de silêncio, uma hora num quarto forrado como o de Proust ao preço de uma poltrona no Scala de Milão…”

Li com a voracidade desengatilhada pelo prazer, que só a ignorância promove, as 419 páginas de previsões, opiniões, leituras, reflexões e definições certeiras que abarcam, entre outros temas, política, racismo, literatura, internet, filosofia e som. Sim, o som; ou mais especificamente a preciosa ausência dele.

Escrita em 2000, “Compraremos pacotes de silêncio?” (pág. 135), a crônica cujo trecho foi reproduzido na quarta capa do volume, traz entre outras, a ideia de que a “linha do futuro será o contrarrumor, rumores agradáveis para sobrepor aos desagradáveis” e certifica que tal previsão “não se trata de futuro”, pois já estava acontecendo. Daí em diante, Eco alça voo sobre a balburdia dos rumores contemporâneos, a que nem Deus resiste, e nos carrega com ele. Um primor de clareza e fluxo de pensamento, como todas as outras crônicas reunidas no livro.

Sabe-se que o som pode servir para o bem e para o mal. São inúmeras suas utilizações. Adolf Hitler (1889-1945), por exemplo, registrou em seu “Manual of German Radio” que “sem o alto-falante, nunca teríamos conquistado a Alemanha”. Radiotelescópios “ouvem” camadas profundas do espaço, enquanto a ultrassonografia torna os diagnósticos mais precisos, além de permitir que uma mãe acompanhe o desenvolvimento de seu bebê, antes mesmo de ele vir ao mundo.

Contudo, em meio a tantos outros barulhos, o silêncio ecoa alto nessa última obra escrita por Eco e serve de isca para ouvirmos outros sons. O livro é música de alta qualidade para a mente.

O último livro de Humberto Eco, “Pape Satàn Aleppe-Crônicas de uma Sociedade Líquida” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

PAPE SATÁN ALEPPE- CRÔNICAS DE UMA SOCIEDADE LÍQUIDA
AUTOR Humberto Eco
EDITORA Record (429 pág.)
QUANTO R$ 59,90
AVALIAÇÃO Ótimo