Músicos de rua de São Paulo ganham festival próprio

Por Carlos Bozzo Junior
A compositora e cantora Lílian Jardim, que se apresenta no 1º Busker Fest (Foto: Carlos Bozzo Junior)

“Busker” é o termo em inglês usado para identificar o artista de rua. Busker Fest é o nome do evento que acontece pela primeira vez amanhã (20), às 21h30, no Bourbon Street, em São Paulo. O evento foi criado com o objetivo de abrigar músicos que tocam nas ruas de São Paulo no palco da casa com estrutura, aconchego e segurança que as ruas não oferecem.

O Música em Letras esteve ontem (18) com Lílian Jardim, uma das quatro atrações do festival, na calçada da casa das Rosas, na avenida Paulista, onde entrevistou e gravou a artista mandando o seu recado. (Veja vídeo no final do texto).

Tocando nas ruas de São Paulo há cerca de dois anos, a cantora e compositora Lílian Carla Benincasa Jardim, 38, se considera “uma verdadeira vira-lata”, por conta de suas diferentes ascendências: espanhola, italiana, austríaca e portuguesa. Nasceu em Araraquara, interior do Estado, onde se formou em direito e há 18 anos, “vive de música”. Em São Paulo, está há oito anos.

A cantora nunca exerceu a profissão de advogada.“Toquei na minha formatura de direito, ganhei cachê, e ainda levei a família inteira com convites gratuitos. Nessa ocasião, eu já vivia de música”, disse a artista que atacou com um trio tocando violão, pandeiro e cantando, no jantar do evento, além de integrar o grupo de baile que animou a festa no dia seguinte.

O caminho da artista é inverso ao de quem vem das ruas. Ela se profissionalizou nos palcos, e deles foi para as ruas.“Toquei em muitos bares, casas noturnas, restaurantes e teatros, além de ter feito bastante baile, antes de tocar na rua. Hoje, faço rua e palco”, disse a cantora que teve sua primeira experiência tocando na rua, desengatilhada pelo tédio.

“Em uma tarde, de terça-feira, já morando em São Paulo, eu estava muito entediada assistindo uma novela qualquer. Eu só tocava e cantava de quinta-feira a domingo. Senti muita necessidade de atuar nos outros dias, e sugeri para a minha baterista que fossemos tocar na rua. Dias antes, tinha visto um pessoal do sul tocando muito bem e fiquei com vontade de fazer o mesmo. Juntei as coisas e fui.”

A cantora passou a mão em seu violão, uma aparelhagem de som e alguns de seus discos. Sim, Lílian Jardim já tinha dois CDs gravados: “A Palavra Chave” (2005) e “Boca Sonora” (2013). Os dois discos, vendidos a R$ 10 cada um, trazem 11 faixas autorais cada. Entre elas, os sambas “Revelando Caminhos” e “Em Sampa tem samba”; além de “O que é que você acha?”, que segundo a autora é “Bem MPB”. Há também o blues “Esse tal de blues” e a pop rock “Boca Sonora”.

Capas dos CDs de Lílian Jardim (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Munida de sua tralha, Lílian Jardim pediu aos engraxates da praça Antônio Prado, em frente ao prédio da Bolsa de Valores, no centro de São Paulo, para que a deixassem usar um pouco da energia elétrica do quiosque onde trabalham, pois pretendia plugar seu violão e amplificar também a voz. Consentiram, e a moça começou a cantar e a tocar músicas como “Lanterna dos Afogados”, de Herbert Vianna, e “Me Chama”, de Lobão. “Uma senhora se aproximou, tirou dinheiro de sua bolsa e comprou meu CD. Muita gente fez o mesmo e vejo que daí adquiri o vício de tocar na rua, não pela grana, mas pelo contato direto com as pessoas, que muitas vezes, não vão ao teatro por não terem dinheiro para isso ou por pouco saírem de casa.”

A cantora se sente muito acolhida apresentando-se nas ruas. “Já ganhei dinheiro de morador de rua, de uma pessoa doente e viciada em crack. A arte inverte valores. E isso faz girar um fluxo de energia boa, diferente. Mas também amo tocar nos palcos. Chego nos locais e tem tudo, luz, som e uma estrutura pronta para o show acontecer”, falou a artista.

A rua, no entanto, tem suas desvantagens. Lílian Jardim já foi furtada duas vezes. “Perdi dois geradores. Um foi na Paulista. Olhei pro lado e quando fui ligar ele havia sumido. Quarenta e cinco quilos desapareceram em um segundo, como fumaça”, contou a compositora que também já teve problemas com algumas pessoas inconvenientemente bêbadas ou “chapadas”.

A visibilidade da cantora aumentou quando passou a tocar nas ruas da cidade. Por conta disso, passou a ser chamada para realizar shows em palcos. “Como, por exemplo, no Bourbon Street”, disse a artista que por tocar na rua já tocou e cantou no Ministério da Fazenda, fez várias apresentações em ambientes coorporativos, em festivais de música, e em unidades do Sesc.

Lílian Jardim em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

No show do Busker Fest, a artista conta com o som da baterista Priscila Novaes e do contrabaixista e violonista Anderson Senapeschi. Em 40 minutos de show, a cantora que também toca violão, gaita e percussão, mostra, além de suas músicas, algumas releituras como “Azul da cor do mar”, de Tim Maia (1942-1998), e “O samba e o pandeiro”, de Jackson do Pandeiro (1919-1982), esta gravada na entrevista pelo Música em Letras. (Veja vídeo no final do texto)

Além de Lílian Jardim há mais artistas talentosos, batalhadores e grupos com lugares garantidos no espetáculo: Lucia Zorzi, Street Blues e Kick Bucket.

Lucia Zorzi é cantora, compositora, além de ter cursado artes cênicas no Teatro Escola Macunaíma. Graduada em Letras pela USP a artista teve formação em teatro e arte-terapia, enquanto concluía o mestrado em filosofia em Paris. Foi na capital francesa, em locais de Montmartre e Le Marais, que atacou de violão e voz. Seu repertório mistura bossa nova ao jazz com canções em inglês e francês. Zorzi pode ser assistida em https://www.youtube.com/watch?v=VbpvUm1CHS8

Street Blues é duo formado pelo gaitista e baterista Leandro Street Blues e pelo guitarrista e vocalista Thiago Aoki. Os dois tocam blues há cerca de dez anos pelas ruas de São Paulo. Uma de suas performances pode ser conferida no https://www.youtube.com/watch?v=XIrJqx1jKrE

Kick Bucket é o nome da banda formada por Bruno Kioshi, que toca, como um baterista, baldes de plástico; Thiago Nascimento, clarinetista, saxofonista; e El Cid arranjador e tecladista. O som da banda pode ser conhecido em https://www.youtube.com/watch?v=qtHRjPiV5qQ

Essa é uma ótima oportunidade de se assistir no conforto de uma casa de espetáculos o que acontece de bom nas ruas de São Paulo. Segundo Lílian Jardim, as pessoas devem ir ao festival para curtir a música. “Vamos mostrar o melhor de nós para que todos saiam felizes do show.”

Assista, a seguir, ao vídeo gravado com exclusividade pelo Música em Letras, no qual Lílian Jardim interpreta “O samba e o pandeiro”, de Jackson do Pandeiro.

1º BUSKER FEST

O QUE Festival com músicos de rua
ONDE Bourbon Street, r. dos Chanés, 127, Moema, São Paulo, Tel. (11) 5095-6100
QUANDO Quinta-feira (20), às 21h30
QUANTO R$ 45,00