O poder do som e o som do poder

Por Carlos Bozzo Junior
Fotomontagem: Carlos Bozzo Junior

Hannah Baker, personagem do seriado “13 Reasons Why”, exibido pela Netflix, utiliza para engendrar a história 13 fitas cassetes gravadas e destinadas a pessoas que têm alguma relação com seu suicídio.

Na semana passada, em Arequipa, no Peru, o engenheiro industrial Franco Alonso Lazo Medrano, 23, não suportou uma desilusão amorosa e se atirou do quarto andar do prédio onde morava.

Antes de morrer, o jovem parece ter “plagiado” a ideia de deixar mensagens como no seriado “13 Reasons Why”, que já foi criticado por fazer apologia ao suicídio.

Contudo, não foram fitas cassetes que o desiludido morto deixou, mas sim mensagens em áudio, no seu computador, com a mesma finalidade, ou seja, para serem entregues às pessoas supostamente relacionadas ao fato de ele ter se matado.

SOM NA CAIXA

Atualmente, há de tudo um pouco registrado em áudio. Piadas, livros, pornografia e até legislação, com gravações das leis mais cobradas em concursos públicos para ávidos concurseiros.

Embora a música seja o item que mais se serve do conjunto de técnicas usadas para registrar, reproduzir e transmitir o som, o diálogo entre os homens, registrados eletronicamente, ganhou manchetes nas últimas semanas. O dito em palavras- gravadas e reproduzidas- voltou a valer tanto quanto o escrito, perpetrando os versos “Palavra de homem racha, mas não volta diferente”, de “Correio da Estação do Brás”, composição de Tom Zé.

Portanto, não foi à toa que o ex-deputado Eduardo Cunha, preso na capital paranaense e condenado em março a 15 anos de prisão, pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) para adiar a oitiva, que significa audição e no processo penal refere-se ao ato de ouvir as testemunhas ou as partes de um processo judicial.

Cunha tem depoimento marcado para as 11h desta quarta-feira (14), na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, para o inquérito que investiga o presidente Michel Temer.

Segundo delatores da JBS, o ex-deputado recebeu “bola”, “molhadura”, “pedágio”, “café”, “cervejinha”, “jabá’, “lambuja”, “gruja”, “comissão”, “xixica”, “mata-bicho”, ou seja, propina na prisão para ficar em silêncio. De acordo com executivos e donos do frigorífico, os repasses feitos pela JBS tinham o aval de Temer, que, como Cunha, nega as acusações.

Joesley Batista, um dos donos da JBS, atacou de técnico de som e gravou o presidente Michel Temer, em março, no Palácio do Jaburu, mas a defesa de Temer sustenta que o áudio foi editado.

A polícia federal realizará uma perícia na tal gravação e tem até quarta-feira próxima (21) para concluir o inquérito do caso.

A nação nunca esteve com seus ouvidos tão abertos . Nunca houve tantos “ouvidores”. Afinal, o som está aí para provar que falar é despender, e escutar é adquirir provas.