Partitura perdida de Rogério Duprat estreia em São Paulo

Por Carlos Bozzo Junior
Itamar Vidal diante da partitura de “Antinomies I” peça de Rogério Duprat (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O compositor, arranjador e maestro carioca Rogério Duprat (1932-2003), nome forte da música brasileira ligado à Tropicália, terá sua peça “Antinomies I” executada pela primeira vez sexta-feira (2), no Auditório Ibirapuera. Entre os músicos que participam do concerto, instrumentistas da banda Mantiqueira, da OSESP, da Jazz Sinfônica, da Banda Sinfônica, além das cantoras Anna Tréa, Cris Miguel e do cantor Roberto Gava.

O Música em Letras esteve com o clarinetista, arranjador e compositor paulistano Itamar Vidal Junior, 55, um dos responsáveis pelo evento, para saber mais sobre essa partitura, que foi perdida pelo próprio Duprat durante uma viagem à Europa, em 1962, ano em que escreveu a peça.

Segundo Vidal, para Duprat foi um alívio ter perdido a partitura, embora ele reconhecesse sua importância. “Ele dizia isso porque não teve que mostrá-la para ninguém. Em seu diário, ao citar uma peça anterior, “Organismo”, ele afirma que teve uma liberdade muito maior em ‘Antinomies I’ porque nela não teve de determinar as notas. Por isso, ela era considerada muito importante por ele mesmo”, contou Vidal.

Um amigo e parceiro de trabalho de Vidal, o percussionista Ricardo Stuani, 45, descobriu a peça inédita do Rogério Duprat, reescrita em 1966. Por algum motivo, ela ficou novamente perdida numa gaveta qualquer no acervo da família de Duprat. “Apesar de várias teses e livros sobre o compositor, pouco ou quase nada se sabia sobre ela até a gente resolver estudá-la a sério para mostrá-la ao mundo”, disse Vidal sobre a partitura garimpada há cerca de três anos.

Segundo o músico, “a peça é incrível e traz as bases do que seria a contribuição de Duprat para a música brasileira, seja no movimento Música Nova, seja no próprio tropicalismo. Não tem pentagrama, são só desenhos”, falou mostrando a partitura e executando uma nota, em vídeo gravado com exclusividade pelo blog (assista no final do texto).

Vidal disse ter mostrado a peça para Arnaldo Baptista. Nas palavras do Mutante, a composição tem tudo a ver com o que eles falavam e criavam em 1967, contou Vidal.

O projeto de montagem para execução da composição foi premiado pelo Itaú Cultural, no programa Rumos 2016. A primeira audição de “Antinomies I” encerrará o concerto no Auditório Ibirapuera, que contará com outras obras de Duprat. “Para complementar o programa, decidimos tentar um repertório que desse uma amostra do gênio que foi o Duprat e preparasse a audiência para a sonoridade dessa peça bem louca que ele escreveu”, disse Vidal.

O show começará com a abertura do filme “Noite Vazia” (1964), de Walter Hugo Khouri (1929-2003), cuja trilha de Duprat é muito interessante, pois inclui músicas eletrônica, acústica, erudita e jazz, executadas originalmente pelo Zimbo Trio. Segundo Vidal, a trilha estabelece uma relação entre as pessoas e a cidade de São Paulo, onde o filme se passa. “Há uma relação muito legal entre vida urbana, pessoal e social das pessoas nessa trilha. Ela é uma aula de música para cinema”, contou o artista. Na ocasião haverá uma projeção das imagens iniciais da película e a música será executada, ao vivo, pelo som do piano de Lidia Bazzarian e da percussão de Stuani.

Itamar Vidal mostra “Antinomies I”, peça de Rógério Duprat, no computador (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Uma apresentação do arranjo original de “Panis et Circencis”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, escrito por Duprat para os Mutantes, também consta da apresentação. Peça mágica do disco homônimo e um dos marcos do Tropicalismo, do qual Duprat participou, o arranjo é marcado pela superposição de efeitos de estúdio, sintetizadores, sonoplastia e performance. “É um happening dentro de um disco, e a gente vai realizá-lo ao vivo, sem nenhuma sonoplastia. Será um cover do arranjo no palco”, contou Vidal, que pretende realizar todas as intervenções e colagens que o Duprat fez em estúdio, tornando a peça quase uma performance ou um happening, gênero característico do trabalho de Duprat. Nesse momento, entram no palco as cantoras Cris Miguel e Anna Tréa para reforçar o caldo. “Procurei muito as pessoas certas para esse trabalho. A Anna Tréa conheci através do seu blog, o Música em Letras. Ela é muito boa”, revelou Vidal que ainda conta com Mané Silveira e Mario Manga entre os músicos participantes do concerto.

A terceira peça será “Eric Dolphy Memorial Barbecue”, de Frank Zappa (1940-1993), gravada pelo The Mothers of Invention. “O Duprat conheceu o Zappa em 1962, e foi o Zappa que apresentou o John Cage ao Duprat, fato decisivo na vida dele. Além disso, o tema dessa peça é uma reflexão do Zappa sobre a questão de, no meio comercial artístico, os músicos só serem devidamente reconhecidos e aclamados postumamente”, contou Vidal.

“Antinomies I”, a cereja do bolo, foi escrita por Duprat para 15 instrumentistas. Para executá-la, Vidal e Stuani montaram uma superbanda, com alguns dos melhores músicos de São Paulo. No decorrer da apresentação, pinturas de Arnaldo Baptista serão utilizadas em várias manipulações gráficas. “Isso porque a relação imagem-som é o cerne do trabalho”, falou o músico sobre a composição que dialoga com o tempo e parece ter ficado perdida de propósito para ser apresentada, agora, com o auxílio do computador.

Vidal avisa que quem for ao concerto terá contato com a obra de um gênio. “O Duprat foi um cara que detonou as relações tradicionais com a música erudita, popular e o rock, fazendo música com uma genialidade e generosidade únicas. Tudo sem nenhum preconceito ou frustração por não ter sido reconhecido. E fez do melhor jeito possível.”

Assista o vídeo, a seguir, no qual Vidal mostra a partitura de “Antinomies I” de Rogério Duprat

ANTINOMIES I – A PARTITURA PERDIDA DE ROGÉRIO DUPRAT

ONDE Auditório Ibirapuera, parque do Ibirapuera , Av. Pedro Álvares Cabral, tel. (11) 3629-1075
QUANDO Sexta-feira (2), às 21h
QUANTO De R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)