Sem Noção- “Canção da Impermanência”, por Eduardo Gudin

Por Carlos Bozzo Junior
O compositor Eduardo Gudin ouvindo o CD “Canção da Impermanência”, de Guinga (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras convidou o músico Eduardo Gudin, 66, para participar da audição às cegas, na série Sem Noção, do novo disco de Guinga “Canção da Impermanência”.

Reconhecido por ter um trabalho musical de alta qualidade, Gudin, violonista, compositor, arranjador e professor, recebeu o Música em Letras em seu apartamento, na Vila Beatriz, São Paulo.

Atualmente, o músico divide seu tempo estudando piano e arregimentando atrações que se apresentam aos domingos, às 19h, em seu bar, o tradicional Bar Alemão, um oásis da MPB em São Paulo. Nas noites de apresentação, uma iluminação especial, direcionada apenas aos artistas, cria o clima de um palco teatral. Em apenas dois meses, pois o projeto é novo, já estiveram por lá Arrigo Barnabé e Dante Ozzetti, entre outros. O próprio Gudin está programando uma apresentação sua com Paulo Cesar Pinheiro, e de Théo de Barros com Renato Braz. Quem se apresenta no próximo domingo (21) é o baterista e sambista Wilson das Neves, 80, acompanhado pelo exímio Luizinho Sete Cordas, tocando músicas que fizeram parte da trajetória dos 62 anos de carreira do baterista.

Eduardo Gudin (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Gudin optou por escutarmos as 13 faixas do CD “Canção da Impermanência”, em seu carro, estacionado na garagem do prédio. “A moça ainda está limpando lá em cima. Depois, subimos para tomar um café”, justificou o artista. Com o carro coberto de flores, o músico comentou “despoeticamente” que a árvore, cuja copa fica em cima da vaga de seu carro, é “ingrata”, por despejar flores em cima do veículo. No entanto, o compositor concordou que a espatódea (Spathodea campanulata), conhecida também por “chama da floresta” pois exibe uma belíssima florada vermelha misturada ao amarelo – lembrando as cores de labaredas- , é bonita e não tem culpa. A gravidade, sim.

Eduardo Gudin (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Leia, a seguir, as impressões de Gudin sobre o novo CD de Guinga. O disco, de violão e voz (apenas duas possuem letras), traz 12 faixas de autoria de Guinga, além de uma em parceria com Thiago Amud. Gravado pelo engenheiro de som Peter Finger, em maio e outubro de 2016, no estúdio Acoustic Music, em Osnabrück, Alemanha, o CD tem produção dividida do engenheiro de som com Luis Carlos Pavan; fotografia e capa de Manfred Pollert. Segundo declaração do próprio Guinga, na capa do disco, esse é um “retrato sem retoque: mais verdadeiro é impossível. Eu sou assim: nem mais nem menos”.

FAIXA 1 “Meu Pai”, de Guinga

“É o Guinga. Acho que não vou errar nisso, né? É ele cantando com o violão, com um jeito que torna a música uma coisa muito própria dele. Ele compõe com uma estrutura que ninguém no mundo da música popular faz igual. Não tem quem componha com essa liberdade harmônica, porque ele compõe a harmonia. O Guinga tem um sentimento para harmonia, para [criar] o caminho harmônico igual ao da melodia. Embora as duas fiquem juntas, uma abraça a outra e caminham juntas. Ele sempre teve esse sentimento com relação à harmonia e isso não é de agora. Conheço Guinga desde adolescente; ele é um gênio. Essa música é muito bonita e interessante, porque tem uma melodia aparentemente simples, mas com uma coisa muito brasileira.”

FAIXA 2 “Trenzinho do Corcovado”, de Guinga

“Essa segue a linha do Guinga em lidar com ritmos brasileiros. Parece uma toada, um baião com aquela coisa meio do Norte, mas com uma leitura mais moderna. Ele tem um violão com muita personalidade, porque no instrumento ele também toca de maneira diferente, até tecnicamente. As escolhas técnicas dele se diferem porque, entre outras coisas, ele é canhoto, mas um canhoto que não muda [a ordem] as cordas do violão. A mão esquerda dele é a direita, então ele faz coisas incríveis com essa mão. Ele não usa a técnica do apoio, toca sem apoio. Desde que eu o conheço ele toca dessa maneira e a harmonia sempre sai para ele de um jeito diferente. Nessa faixa fica bem claro isso.”

FAIXA 3 “São Dorival”, de Guinga

“Eu senti que essa é uma música feita para ter letra. Inclusive ele pronuncia algumas palavras, cantarola algumas silabas. É uma boa música que está pedindo uma boa letra.”

FAIXA 4 “Despedida do Garoto”, de Guinga

“Essa quarta faixa me lembra um Guinga muito inspirado. É difícil a pessoa manter essa inspiração ao longo dos anos. Normalmente isso se perde, ou a inspiração é mais própria da juventude, mas o Guinga com essa música mostrou que ele ainda tem essa guia intuitiva”

FAIXA 5 “Doido de Deus”, de Guinga e Thiago Amud

“Mais uma faixa de canção talvez esperando por uma letra. É difícil fazer letra para o Guinga porque tem que ficar à altura de suas músicas, que têm muita vida sem letra, e a letra não pode de nenhum jeito tirar isso. Ele compõe de uma maneira diferente de um músico instrumental, embora ele também faça isso. Mas quando ele faz uma canção há uma lógica da música com letra. Às vezes, os músicos não entendem esse aspecto particular da música com letra, mas o Guinga se diferencia muito por essa razão. É pela melodia que ele se guia, e as coisas vão nascendo junto com a harmonia. Ele é um grande melodista. Nos meus estudos de música clássica, percebi a dificuldade dos professores quando abordavam a melodia. Sempre se fala sobre a melodia como se ela fosse uma coisa para costurar a estrutura da música, quando eu acho que é meio ao contrário. Isso acontece para mim nos grandes compositores clássicos. Se você pegar Ravel, um grande e espetacular melodista, você percebe que, se não fosse a melodia do ‘Bolero de Ravel’, que é tão bonita, por mais que ele mexesse na estrutura de arranjo a gente não aguentaria ouvir aquela música repetitiva. Ouvimos porque aquele trecho melódico é genial, e é ele que faz com que gostemos das variações.”

FAIXA 6 “Domingo de Nazareth”, de Guinga

“Ele está mais como cancionista nessa faixa, também com os caminhos harmônicos dele. Eu dava um curso de composição na ULM [Universidade Livre de Música] explicando essa coisa da música com letra. Havia uma abordagem mais técnica nesse curso, sobre harmonia, em que eu analisava músicas do Tom Jobim entre outros compositores. Nas músicas do Guinga, havia muita dificuldade de realizar essas analises harmônicas, às vezes até de encontrar a tonalidade. Em uma delas havia um acorde que ninguém conseguia explicar, nem eu. Na aula seguinte, levei a explicação. Os alunos ficaram espantados e me perguntaram como eu havia descoberto aquilo e eu disse que havia telefonado para o Guinga. Ele me explicou, pois era a única maneira. Ele disse que havia um acorde e um outro, e no meio deles, um dedo foi buscar um som do violão, aquilo juntou tudo. O Guinga usa muito essa questão do cromatismo e tensões que ele mesmo cria. É uma composição realmente muito livre, mas ele sempre sabe onde está. Essa música é típica disso, além de ser provavelmente outra canção para ser letrada.”

FAIXA 7 “Rádio Nacional-Prefixo” , de Guinga

“Essa música lembra uma viagem que o Guinga faz, às vezes, por standards americanos. Ele tem muita paixão, gosta muito da música de orquestra de Duke Ellington, Miles Davis e toca isso com originalidade, com uma harmonia bem livre. ”

FAIXA 8 “Rádio Nacional”, de Guinga

“Como as anteriores, essa música está agrupada por um tipo de sentimento. Parece ter um parentesco com as outras. O disco apresenta músicas meio que na mesma onda, que ele domina. A gente poderia ouvir essa música com ele e um trompete bem tocado, quem sabe o Chet Baker, se fosse possível.”

FAIXA 9 “Lacrimare” , de Guinga

“Aqui há uma canção já com letra. Dá para sentir a obra completa. Me parece que é com aquele letrista novo com quem ele trabalha, mas não me lembro nome dele. Não sei se estou acertando, mas a letra é muito boa, combina muito bem com música. Acho que está tudo certo aí porque a música chegou na intenção final dela.”

FAIXA 10 “Dona Carmelita”, de Guinga

“Esse tipo de choro parece a primeira música do Guinga, que o MPB 4 gravou; acho que o nome é ‘Conversa com o coração’, dele com o Paulo César Pinheiro. Logo depois, ele aparece tocando violão no meu disco ‘O Importante é que nossa emoção sobreviva- 2’. Essa faixa é isso, um choro na onda dele. Fiz quatro músicas nessa onda: ‘Proezas do Coração’, ‘Águas Passadas’, ‘Te Rever’ e ‘Paulista’, todas tem muito a ver com essa coisa do Guinga. Quando falo isso para ele, ele fica meio quieto. Mas o Guinga adora o ‘Águas Passadas’, que nasceu desse estilo dele. Vejo e ouço um Guinga jovem fazendo esse choro que é muito lindo.”

FAIXA 11 “Tom e Vinícius”, de Guinga

“Nessa faixa, nota-se que ele volta para a música canção, típica dele mesmo. Ela pede uma letra, são canções para ter letra. Acho que essa é a ideia dessa composição. Como já falei, é difícil colocar letra na música do Guina. Tem que ter um jeito para que ele fique satisfeito. Lembro de uma letra dele, acho que foi a primeira que ele fez, falando de um subúrbio do Rio de Janeiro, muito interessante. O Guinga tem todas as informações para fazer letra. Já fiz letras para ele [“Conversa Comigo” e “Etérea”], e quando as mostrei, notava como ele entende bem a questão literária, gostando do que eu havia feito e apontando onde precisava mexer.”

FAIXA 12 “Canção da Impermanência”, de Guinga

“A música já tem letra e a gente vê que a obra chega no final. Quando ouvimos uma música do Tom e depois a ouvimos instrumentalmente, como ‘Garota de Ipanema’, temos a letra na cabeça. Nunca mais você consegue ouvi-la sem a letra. Não tem como dissociar. Essa música do Guinga é isso, ela chegou no final da intenção. Muito boa e bonita a letra. Não sei se é daquele menino. Se for do Guinga, como ele está escrevendo bem, né?”

FAIXA 13 “Chapiliniana”, de Guinga

“Uma valsa fechando o disco. Ótima essa faixa. Linda e muito viva. Lembra um pouco música de filme, como se o Nino Rota tivesse estudado acordes.”

AVALIAÇÃO PONTUAL

INTÉRPRETES
“Ótimo.”

COMPOSIÇÕES
“Ótimo.”

LETRAS
“Ótimo.”

HARMONIA
“Ótimo.”

RITMO
“Ótimo.”

MELODIA
“Ótimo.”

ARRANJO
“Ótimo.”

SOM (CAPTAÇÃO, MIXAGEM E MASTERIZAÇÃO)
“Bom.”

CONSIDERAÇÕES GERAIS

O compositor Eduardo Gudin identificou o autor do disco ao ouvir a primeira faixa, nos primeiros acordes. Contudo, após a audição às cegas, foi confirmada a Gudin a autoria das músicas, assim como todas as outras informações sobre o disco, seus participantes, ficha técnica, capa e encarte.

“O que mais me surpreende é que essa é a primeira vez que ouço um disco do Guinga, só com voz e violão. Outra coisa que me surpreende é a quantidade de músicas novas. Eu não conhecia nenhuma delas. As letras que ele fez também são surpreendentes, por serem muito bem escritas, com muito vocabulário e muita técnica. O Guinga é um cara que tem vários parceiros bons, mas pode se ver que ele é capaz de fazer suas próprias letras, e bem.”

Perguntado se há espaço para o disco no mercado, Gudin respondeu: “O mercado, hoje, só tem lugar para o sertanejo, né? Há nichos de mercado segmentados e temos que saber explorar isso. O Guinga, como eu, já tem o seu mercado dentro de um segmento. A internet ajuda a explorarmos e lidarmos um pouco com isso porque temos como informar as pessoas. No fundo, temos que aprender a lidar bem com isso.”

Quanto à escolha desse disco para ser avaliado, Gudin disse: “Que bom! Não podia ser melhor. Ter um disco do Guinga para falar é fácil, porque eu não gosto, na minha posição de artista e compositor, de criticar a obra de alguém. Mas o Guinga eu só elogio, então essa escolha está de colher para mim”.

AVALIAÇÃO DE EDUARDO GUDIN
“Ótimo”

Capa do disco “Canção da Impermanência”, de Guinga (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CD CANÇÃO DA IMPERMANÊNCIA
ARTISTA Guinga
GRAVADORA Independente
QUANTO R$ 63