Morre dona Maria Esther, embaixatriz do samba paulista

Por Carlos Bozzo Junior
Dona Maria Esther, embaixatriz do samba paulista (Foto: reprodução)

Morreu ontem (16), terça-feira, aos 93 anos, dona Maria Esther de Carmargo Lara, a embaixatriz do samba paulista, mulher de fibra que não se cansava de repetir: “Idade não regula, o que importa é o rebolado”.

O Música em Letras entrevistou, por telefone, João Mario, zabumbeiro há mais de 10 anos do grupo de samba de roda de Pirapora do Bom Jesus, do qual a artista fazia parte.

Segundo o percussionista, dona Maria Esther sofreu uma queda, no último dia 10, na casa onde morava sozinha. Foi socorrida pelos integrantes do grupo e levada ao hospital. A cantora se recuperou, após dois dias, e voltou para casa. No entanto, passou a se sentir mal, com dores. Dona Maria Esther foi novamente levada para o hospital e lá permaneceu para se recuperar. Contudo, há cerca de seis dias, a embaixatriz do samba contraiu uma pneumonia e morreu ontem (16), por volta de 20h.

“Ontem, o médico falou que seria difícil ela sobreviver. Como a gente a conhecia, porque dona Maria era ‘pedra 90’, não amarelava fácil não, e achamos que ela ia passar por essa. Mas sabe como é pessoa de idade, né?”, disse o músico.

O velório e sepultamento aconteceram no Cemitério Municipal de Pirapora, hoje (17), às 14hs, ao som do samba de bumbo do grupo, com a presença de Oswaldinho da Cuíca .

O último samba que dona Esther participou foi na cidade de Piracicaba, no dia 6 de maio. O grupo deveria se apresentar no próximo domingo, às 10h, no Anhembi, como parte das atrações elencadas da Virada Cultural de São Paulo.

“Não decidimos ainda se faremos a apresentação, mas como o samba de bumbo é uma manifestação de origem banto, nessa cultura quando um mestre morre é feita uma festa. A morte é comemorada não de uma maneira ruim, mas feliz. Nessa cultura, há um outro entendimento da passagem de vida para a morte”, falou o músico que lidera o grupo.

Pirapora do Bom Jesus, onde morava dona Maria Esther, é cidade da região oeste do Estado de São Paulo, considerada o berço do samba de roda, também alcunhado de samba paulista, samba caipira, samba rural ou samba de bumbo.

Esse tipo de samba surgiu na região centro-oeste do estado, durante o século 18, antes de migrar para o sul de Minas Gerais e para a capital paulista, no século 19 e 20. O nome samba de bumbo vem do conhecido instrumento de percussão, embora a zabumba também seja como o bumbo um dos principais instrumentos utilizados nessa modalidade de samba para improvisarem, enquanto caixas fazem a marcação rítmica.

Dona Esther foi uma das fundadoras, nos anos de 1940, do grupo de samba de roda de Pirapora do Bom Jesus, referência na preservação do samba paulista original e da cultura popular do Estado.

Em uma de suas apresentações, fui subitamente abordado e abençoado por ela, que disse: “Você gastou e perdeu muito dinheiro com mulheres. Daqui pra frente, isso vai mudar. Vou te abençoar, benzer, e você vai ficar muito rico. Pode acreditar no que eu estou te falando. Sua vida vai mudar para melhor. Não esqueça que fui eu que te falei isso”.

Ok, dona Esther. Não me esquecerei. Obrigado, e vá sambar onde não há chão. Que sua arte chegue a muito mais corações do que chegou aqui.

Dona Maria Esther (Foto: Carlos Bozzo Junior)