Conheça e Assista- Lito Robledo

Por Carlos Bozzo Junior
O contrabaixista Lito Robledo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Conheça e Assista é a sessão do Música em Letras dedicada a perfis de artistas e profissionais relacionados à música. Muitos desses artistas, embora com carreiras estabelecidas e reconhecidas por seus pares, não têm seus nomes identificados imediatamente pelo público.

Mesmo para quem milita na área, como é meu caso, histórias e trajetórias de personagens que contribuem de modo relevante para nosso universo sonoro podem passar despercebidas. Por isso, aproveito para contar aqui como acontecem esses encontros, misto de atenção, acasos felizes, contatos e um pouco de sorte.

Conheça o paulistano Lito Robledo, 63, aqui registrado em letras, fotos e vídeos (assista-os no final do texto) captados no dia do 16º aniversário do Il Ristorante Walter Mancini, casa que reverencia músicos, fixando placas de metal com nomes de vários deles gravados, e ostenta um dos bares mais bonitos da noite paulistana. “Esta é a casa que emprega mais músicos em São Paulo. São mais de 20 trabalhando aqui. Muita gente da Europa e dos Estados Unidos, que vem aqui, afirma não conhecer lugar igual, com tantas atrações”, disse Robledo.

O restaurante fica na rua Avanhandava, revitalizada e reformada pelo proprietário, o empresário Walter Mancini. É lá que o contrabaixista Lito Robledo toca todos os dias da semana. Além disso, é ele o responsável pela programação musical dessa casa e de mais um estabelecimento do grupo Mancini, na mesma rua, o Restaurante e Pizzaria Famiglia Mancini, que conta com dois palcos.

PRIMEIROS CONTATOS

Conheci o contrabaixista Lito Robledo e seu humor inteligente e ácido nas noitadas paulistanas de minha juventude. Eu tinha 16 anos, momento que vivia em meio a muitos shows, estúdios de som, salões de sinuca; ouvindo muito jazz, choro, samba, rock; conhecendo outros músicos; saboreando os bifes à parmegiana feitos pelo cozinheiro Tibula, no bar do Alemão, e as bistecas do Sujinho, tudo acompanhado de chopp, cerveja e muita piada. Enfim, tudo o que tornava a vida em São Paulo algo muito mais musical, poeticamente suportável e segura do que hoje.

Nove anos mais velho do que eu, Robledo sempre trocou muita ideia comigo sobre vários tipos de som, música e instrumentistas. Com ele, conheci uma infinidade de nomes e sons de músicos instrumentistas, arranjadores, cantoras, temas, discos, gravações e mais do que uma bíblia de histórias hilárias, envolvendo música, a noite paulistana e seus ricos personagens, os músicos.

Robledo tocou em cerca de 50 casas noturnas de São Paulo, nos mais importantes hotéis e clubes da cidade (veja lista no final do texto), além de ter gravado e feito shows com muitos artistas. Entre eles, com Paulinho da Viola, Aracy de Almeida (1914-1988), Trio Mocotó, Dominguinhos (1941-2013), Hermeto Pascoal, Carlos Lyra, Ângela Maria, Elza Soares e Alfredo José da Silva (1929-2010), o Johnny Alf.

O contrabaixista Lito Robledo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

GÊNESE

O pai de Lito Robledo era um pianista, compositor e arranjador argentino, que veio de Córdoba, em 1944, para trabalhar no Parque Balneário, em Santos, um dos requintados cassinos da época, e ali permaneceu até 1948.

O nome escolhido, em castelhano, para batizar o pimpolho que nasceu em São Paulo, em 1954, sob o signo de Peixes, foi Rogelio Fernando Robledo, mais conhecido como Lito. “O diminutivo de Rogelio é Rogelito e por isso, abreviando, ficou Lito”, disse o ex-pimpolho que, hoje, pesa 130 quilos e tem 1,80 m. de altura.

Rotundo como seu som, o músico é fruto da união da argentina Angela Teresa Travesi de Robledo, que “tirava uma onda de acordeom”, e o maestro Antonio Rogelio Robledo, músico que gravou mais de 23 discos autorais e teve vários conjuntos e orquestras atuantes em night clubs e em emissoras de rádio e TV, no princípio da televisão no Brasil.

Maestro Robledo foi proprietário de um bar famoso, nos anos 1950, na rua General Jardim, no centro de São Paulo, em frente ao prédio do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil). Era o Robledo’s Bar, que rendeu, entre outros, um disco que traz a primeira gravação do baterista Toninho Pinheiro (1938-2004), que na ocasião tinha apenas 18 anos e era chamado de “Toninho Calça Justa”. Outras figuras que estão no disco são Caco Velho (1920-1971) e o baterista Gafieira. “O Gafieira morreu há muito tempo. Não me lembro de datas”, disse Robledo, o filho.

Além das datas, Robledo não lembra do bar de seu progenitor, mas soube que o pai o “bebera” com os amigos. “Por isso, obviamente, ele fechou”, contou o músico sobre o maestro que tomava uísque, mas era mais chegado a muitos copos de Campari. “Ele passava mal e botava a culpa nas coxinhas que tinha comido no Jockey Club. Um crime, porque aquelas coxinhas eram sensacionais e nunca fizeram mal a ninguém”, disse rindo o músico, que foi grande consumidor da iguaria, não mais disponível nos prados da Cidade Jardim.

Segundo Robledo, o pai e mais alguns músicos, considerados personagens hilários de São Paulo, como Chu Viana e o batera Dirceu – ambos mortos-, tinham cavalos no Jockey. “Eram todos azarões, só davam prejuízo. Meu pai dava um puta monte de dinheiro para cuidarem do cavalo. Sei que ele trabalhou no Jockey com uma banda dele durante oito anos, ganhando uma fortuna de salário, mas saiu de lá devendo para o clube.”

VACAS GORDAS, VACAS MAGRAS

O maestro Robledo teve seus momentos de glória e amealhou um bom dinheiro que o possibilitou comprar uma bela casa na rua Texas, no Brooklin, ter “um superautomóvel” com motorista, e um piano Steinwain. Para os padrões sociais de um músico, vivendo em São Paulo nos anos 1950 e 1960, era luxo. “Eles tocavam em rádios e em emissoras de TV. Baile era um atrás do outro, quase todos os dias. Como era muita variedade de trabalho entrava muito dinheiro”, lembrou o filho.

O contrabaixista Lito Robledo em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

A mãe de Robledo morreu em decorrência de um câncer no seio, aos 36 anos. A casa da família teve que ser vendida para custear o tratamento realizado sem sucesso, com remédios importados e carésimos. “Tenho fotos, com ela e com meu pai, quando fomos acompanhá-lo na Europa, com o conjunto dele”, disse o músico que perdeu a mãe quando tinha sete anos. “Ela ficou cinco anos se tratando na Santa Casa. Um puta sofrimento.”

Depois da morte da mãe, Robledo morou em diversos lugares, incluindo São Vicente, no litoral paulista, onde foi expulso de todas as escolas em que estudou. O motivo? “Mal comportamento. Soltava bomba no banheiro das meninas, roubava o lanche de não sei quem, contestava os professores… Eu era um cara muito inteligente. Tinha facilidade de aprender as coisas rapidamente, enquanto os outros demoravam. Agora, sou burro”, contou rindo o músico.

Sem a mãe, Robledo não tinha com quem ficar e acompanhava o pai que vivia de tocar, à noite, de bar em bar. “Nessa ocasião ele tocava em todos os puteiros do centro da cidade. Eu ia junto e as meninas cuidavam de mim. Depois, um pouco mais velho, mas ainda menor de idade, cuidei de quase todas elas”, disse rindo.

O músico lembra que durante a onda do iê-iê-iê, nos anos 1960, as vacas ficaram bem magrinhas e só chamavam para tocar isso. “Não podia tocar mais merda nenhuma, a não ser essa. Meu pai foi despejado e dispensado de onde tocava. Na rua Rêgo Freitas, quase chegando no largo do Arouche, tinha um hotel de putas chamado Hotel Neru, onde nós dois fomos morar. Eu tinha uns 11 anos.”

PRIMEIRAS LEMBRANÇAS DE MÚSICA

A memória musical de Robledo vai longe. “Sabe do que eu lembro? Quando eu era bem criança, com uns cinco anos de idade, era muito difícil para os músicos ouvirem um disco de jazz. Eram poucas as lojas. As que vendiam discos de jazz, então, eram raras. Funcionava assim: um milionário ia para os Estados Unidos e comprava um disco de jazz. Trazia o disco, e marcava um dia na casa dele, para a turma de músicos ir até lá e ouvir. Não tinha como gravar o disco nessa época. Geralmente, marcavam em um domingo para passar o dia inteiro ouvindo o disco. Eu me lembro disso porque era um acontecimento”, disse o músico que se recorda de ter ouvido um disco na ocasião, “novinho”, de Miles Davis (1926-1981).

Robledo ouviu “Kind of Blue” (1959), um dos dezenove discos gravados por Davis na Columbia Records, durante 1955 e 1975, período artístico e financeiramente mais bem sucedido da carreira do trompetista. “Deve ter sido, não me recordo do nome, mas lembro que os músicos ficavam ouvindo e tecendo comentários. Ninguém tocava junto, ou anotava ou gravava; você tinha que reter em sua memória tudo que acontecia naquele disco. Era assim que os caras aprendiam as músicas e o que vinha com ela.”

O primeiro instrumento musical que Robledo aprendeu a tocar foi violão. “Como eu gostava do som grave, abaixava uma oitava as quatro primeiras cordas do violão (mi, lá, ré, sol) e tocava com elas assim. Ouvia rádio e ficava tirando os baixos com o som desse violão. Quer dizer, violão mesmo não sei tocar”, contou o instrumentista que na ocasião tinha 9 anos.

O contrabaixista Lito Robledo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

SABÁ E O BAIXO FILHO PRÓDIGO

Na casa do pai de Robledo, a presença do contrabaixista Sebastião Oliveira da Paz, o Sabá (1927-2010), e do baterista Rubinho Barsotti, do Zimbo Trio, eram constantes. “Como tocavam na banda do meu pai, esses caras ficavam tocando e tirando repertório durante os ensaios.”

Sabá foi contrabaixista, entre outros, do Jongo Trio e do Som Três. Era irmão de Luiz Chaves (1931-2007), baixista do Zimbo Trio. Tocou com Deus e o mundo. Teve programas de rádio, gravou bastante e foi figura de destaque durante a bossa nova trabalhando com vários artistas. Entre eles, Dick Farney (1921-1987), Alaíde Costa, Elis Regina (1945-1982) e Wilson Simonal (1938-2000). “Ele deixou para mim, em testamento, o baixo acústico que usou a vida inteira. A bossa nova inteira está naquele baixo. É um instrumento alemão com mais de cem anos. Fica no meu quarto e não sai de lá. Tem, inclusive, a capa original com o endereço e telefone do Sabá”, disse o músico que reformou o instrumento depois de adquiri-lo.

A reforma foi por conta das avarias sofridas, quando um tombo levou Sabá direto para cima da relíquia. “Ele já estava doente, desequilibrou e caiu em cima do baixo, mas um luthier arrumou direitinho pra mim”, contou Robledo que, só depois de herdar o instrumento, soube que o tal “alemão” era de seu pai. “A Ivete, viúva do Sabá, contou que meu pai emprestou esse baixo para o Sabá. Segundo ela, o instrumento ficava na casa do meu pai para eles ensaiarem. O Sabá nunca contou isso para ninguém. Só a Ivete sabia dessa história. Sei que depois de tantos anos, o baixo voltou para mim.”

DE OFFICE BOY A MÚSICO

Entre os 13 e 15 anos, Robledo, que morava na esquina da avenida Vieira de Carvalho com a rua Aurora, trabalhou como office boy da L’Oréal Paris, em um prédio da rua Araujo, no centro de São Paulo, enquanto estudava a noite. “Levava documentos e entregava perfumes para as demonstradoras que trabalhavam nas farmácias. Não me lembro onde estudava, mas lembro que meu pai ganhava por dia o que eu ganhava por mês. Foi por isso que comecei a tocar”, contou o músico que iniciou sua carreira tocando com o pai, mas sob uma condição. “Meu pai era severo e me disse: ‘Enquanto você não souber tocar comigo não toca’. O pior, é que ele nunca me ensinou nada. Fui aprender com outros músicos.”

O primeiro professor de Robledo foi “um gordo, bêbado, baixista da noite e um cara muito legal chamado Djalma. Só muito depois fui aprender música mesmo, notação musical e o escambau com o João Godoy. Tio do Amilton Godoy, do Zimbo Trio”, contou o músico que perdeu o pai para uma cirrose hepática, em 1975.

Aos 15 anos, Robledo já havia aprendido o básico do contrabaixo e começou a tocar com o pai na Badalo, casa noturna da Alameda Lorena, em São Paulo, que foi de propriedade da atriz e humorista Consuelo Leandro (1932-1999). “Éramos um trio, meu pai, no piano; o Jurandir, na bateria; e eu, no baixo elétrico. Grande parte de meu imenso repertório vem dessa ‘gig’ na qual tocávamos um monte de músicas norte-americanas antigas. Depois, toquei com um monte de pianistas como o Luis Melo e o Evaldo, ampliando meu repertório. Esses caras tocam fácil umas três mil músicas; aprendi muito com eles”, contou o músico que dificilmente deixa de atender o pedido de música de um cliente por não conhecê-la.

Elvis Presley (1935-1977), Jovem Guarda, Beatles, Rita Pavone, entre outros, reinavam quando Robledo começou a tocar profissionalmente, e por isso abandonou os estudos. “Muitos anos depois, cursei o Supletivo Santa Inês, entrei na faculdade de medicina, mas a primeira vez que vi sangue me senti muito mal, desmaiei e desisti.”

Robledo aprendeu a ter repertório, além de harmonia, com gente do ramo. “Meu pai era um pianista bom e jazzista. Ele e o Johnny Alf me ensinaram muito de repertório e harmonia. Sem falar do Zé Bicão, do Luiz Melo e de mais alguns pianistas da noite, como o Ricardo Júnior, que morreu recentemente, marido da Dóris Monteiro e que tocava como o Bill Evans”.

Dos contrabaixistas, o músico destaca dois: Mathias e Carlinhos Monjardim. “Bicho, o Monjardim, na Baiuca, passava vaselina no braço do instrumento e, quando a gente ia tocar, escorregava a mão, e som que é bom nada.”

O contrabaixista Lito Robledo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

PRIMEIRA GIG NA GRINGA

Robledo estava com 18 anos quando ingressou no Trio Mocotó e realizou sua primeira apresentação no exterior, em Nova York. “Era eu no baixo; o Alemão [Olmir Stocker, 80], guitarra; Nelson Panicalli, piano; e os do trio Fritz, Nereu e Joãzinho [João Parayba, percussão; Nereu Gargalo, pandeiro; e Fritz Escovão, cuíca]. Nessa ocasião, menor de 21 anos não podia viajar sozinho, e o Fritz, que era mais velho, teve que ser responsável por mim.”

O músico foi escalado para integrar o Trio Mocotó em um dia que estava comprando cordas para seu baixo, na antiga loja da Del Vecchio, na rua Aurora, centro de São Paulo. “O Alemão me encontrou lá e disse que estava precisando de um baixista para tocar com esse trio. Lembro que fui em um ensaio, numa casa enorme que era do João. Ele era milionário, o pai dele [Severo Gomes], que morreu no acidente de helicóptero com o Ulisses Guimarães, era dono dos Cobertores Parahíba. Cheguei lá e os caras estavam ouvindo ‘Return To Forever’, LP de 1972 do Chick Corea, que tem ‘Spain’. Ouvi aquilo e falei quase indo embora: ‘Puta merda, que som é esse ai? Caralho! É isso que nós vamos tocar? Porque isso eu não sei”, lembrou rindo o músico que depois de saber que iriam tocar “samba rock, meu irmão” se acalmou e passou a integrar a banda.

Na época, Robledo nunca havia tocado samba rock, mas, segundo ele, quando você toca jazz fica meio fácil fazer o resto. “Eles começaram a tocar e saí tocando junto. Deu tudo certo. Tocamos nos Estados Unidos, Japão e México, fazendo muitas temporadas nesses lugares”, contou o músico que permaneceu durante oito anos com o trio que gravou- pouca gente sabe- com a lenda do jazz norte-americano e um dos criadores do bebop, o trompetista Dizzy Gillespie (1917-1993).

O disco “Dizzy Gillespie no Brasil com Trio Mocotó”, gravado em 1974, foi lançado, 36 anos depois, pela gravadora Biscoito Fino. São seis faixas registradas no Estúdio Eldorado, de São Paulo, em agosto de 1974, reunindo o quarteto de Dizzy e o Trio Mocotó. Entre as músicas, “Evil Gal Blues”, composição de Leonard Feather (1914-1994) e Lionel Hampton (1908-2002); além de “Samba” e “The Truth”, do pianista e compositor “Mike” Longo, que trabalhou com Gillespie. “Eu assisti essa gravação, mas gravei só em outros discos do trio”, disse Robledo.

O contrabaixista Lito Robledo em um dos palcos da pizzaria do grupo Mancini (Foto: Carlos Bozzo Junior)

PRESENÇA DE JOHNNY ALF

O contrabaixista não lembra exatamente como conheceu o autor de “Eu e a Brisa”, mas se recorda que, em 1972, começaram a tocar juntos no Chez Regine, casa noturna que funcionava na rua Santa Isabel, no centro de São Paulo.

No Chez Regine, o time de músicos que se revezavam durante a noite não era fraco. Tito Madi Trio e Johnny Alf Trio estavam presentes todas as noites para tocar para uma plateia lotada de músicos e artistas. “Uma noite, chegamos e o Bill Evans [1929-1980], junto com Marty Morell e o Eddie Gomez, estavam esperando para nos ouvir tocar. Quando olhei, na primeira mesa e os vi, falei pro Johnny não tocar nenhuma valsinha, e o filho da puta só tocou valsas, deixava solos pra mim e dava risada”, contou o músico. “Agradamos bastante os gringos. Esses caras eram e são de outro planeta. Supermúsicos.”

Segundo Robledo, Alf fazia shows de três horas só tocando músicas dele. “Cada uma melhor do que a outra. Lembro que tinha que ler partituras, o que na noite não era comum. Era muita música, e ele escrevia todas. Ele inclusive tocava lendo a letra, harmonia e melodia ao mesmo tempo. Muitas vezes, ele estava tocando e mudava uma segunda parte da música para meio tom abaixo, e eu tinha que me virar.”

Segundo o contrabaixista, todas as músicas que Alf compôs foram feitas para homens. Perguntado sobre a homossexualidade de Alf, Robledo confirmou, que o compositor tinha preferência pelo sexo masculino, mas era muito reservado. “Ele não chegava às vias de fato; ficava na dele. Dizem que ele fez ‘Ilusão à Toa’ para um baterista que você conhece”, contou revelando para o repórter o nome do músico, mas pedindo sigilo.

Robledo comentou que, certa vez, Alf ficou apaixonado por um sujeito que estava na cadeia e compunha. “Não lembro o nome do cara, mas o que ele fazia era tudo ruim, umas merdas de músicas. O Johnny cismava em cantar aquelas musiquinhas ruins desse cara porque estava apaixonado. Era um porre.”

De acordo com Robledo, Johnny Alf morou muitas vezes em hotéis ruins, de quinta categoria. “Eu convivia muito com ele, e ele nunca me ‘cantou’. Era um cara muito inteligente e culto. Nos lugares em que morava tinha sempre uma infinidade de discos, livros e partituras. Ele gravou muitas fitas de discos para mim. Tenho até hoje”, disse o músico, que cita a harmonia como a grande lição que tirou do tempo em que trabalhou com o artista.

Uma curiosidade sobre um dos grandes sucessos de Alf foi contada por Robledo: a música “Eu e A Brisa” foi proibida de ser tocada em um casamento. “Ele fez essa música para a cerimônia de casamento de um amigo. O padre não deixou, e a música ficou esquecida em uma gaveta, até que a cantora Marcia a defendeu em um festival da Record; ninguém gostou e acabou sendo desclassificada. Essa música é fodida, não é pra burros.”

O contrabaixista Lito Robledo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

INFLUÊNCIA DO ALÉM

Ao assistir o trio de Johnny Alf, a cantora Sarah Vaughan (1924-1990) se encantou e queria fazer uma temporada com o grupo nos Estados Unidos. Contudo, um “despacho” parece ter impedido a o acontecimento.

“O Johnny falou que iríamos com a Sarah Vaughan para os Estados Unidos, só depois de passarmos, os três juntos, em um lugar, no Jabaquara, ‘para limpar o trio’. Ele era muito ligado nessas coisas de umbanda, que atrapalhavam muito a carreira dele. O tal lugar era um terreiro de umbanda, com chão de cimento queimado vermelho. Fazia um frio danado e uma baiana falou para tirarmos o sapato. Pegamos uma fila e começaram a jogar pipoca nas nossas cabeças. Eu não entendia porque algumas pessoas saíam pulando quando as pipocas caiam nelas. Em mim, não aconteceu nada, acho até que comi algumas. Depois, tiraram a gente dessa fila e nos colocaram diante de um altar cheio de pequenas estátuas para fazermos nossos pedidos. Quando isso acabou, caminhamos os três até um cara, negro e bem alto, que disse que tínhamos que tirar a roupa para nos banhar. O banho era dado na gente com a mistura de um pó com cerveja. Tínhamos que tirar a roupa e ficarmos de pé dentro de uma bacia. Pô, cerveja gelada naquele frio já era demais; só que o pior é que eu não uso cueca, e fiquei literalmente nu. Como quem não morre, não vê Deus, topei e passei pelo ritual todo. No final, o cara pegou aquele líquido misturado com o pó, cerveja e a pipoca, fez um pacote e falou para eu jogar em uma encruzilhada de quatro ruas. Só que assim que nos enfiamos no taxi, abri a janela e dispensei o lance. Sei que nunca mais ouvi falar da Sarah Vaughan; o Duda, baterista que estava com a gente, tinha acabado de comprar um apartamento na Vila Guilherme, mas acabou perdendo o imóvel; e o Johnny sumiu, acho que foi para o Rio, porque pararam com a gente no Chez Regine. O resultado foi péssimo, fui tocar em uma casa típica de tango, longe pra cacete. Queria fazer um monte de coisas durante as músicas, porque tinha tocado com o Johnny, e o cara do bandoneon me falava com um sotaque portenho:‘No me haga variaciones’.”

Depois do relato, Robledo confessou que não tem religião, mas disse acreditar em Deus “sem fanatismo”.

O contrabaixista Lito Robledo diante do bar do Il Ristorante Walter Mancini (Foto: Carlos Bozzo Junior)

LISTAS QUASE COMPLETAS

Lito Robledo gravou, além de muitos jingles e trilhas para rádio, TV e cinema, alguns discos acompanhando o Trio Mocotó, e muitos outros com um céu de estrelas da música brasileira.

A pedido do Música em Letras, o contrabaixista fez uma lista com o nome de artistas com quem tocou e gravou. Confira, a seguir, parte dela: Alaíde Costa, Adyel, Agnaldo Rayol, Ângela Maria, Astrid, Ana Mazzoti, Aracy de Almeida, Antonio Carlos e Jocafi, Carlinhos Vergueiro, Carlos Lyra, Celia, Cesar Costa e Filho, Chico César, Dominguinhos, Dóris Monteiro, Elza Soares, Elton Medeiros, Ed Motta, Eduardo Gudin, Jane Duboc, Johnny Alf, Fátima Guedes,Hermeto PascoaI, Isaura Garcia, Leo Robinson, Jane Morais, Fafá de Belém, Maysa, Ivan Lins, Mieli, Lucinha Lins, Nora Ney, Lucio Alves, Paulinho da Viola, Marília Medalha, Rosa Maria, Miriam Batucada, Miltinho, Nana Caymmi, Peri Ribeiro, Sara Chretien, Silvio César, Tito Madi, Toquinho, Vânia Bastos, Wanderleia, Walter Franco, Wilson Simonal, Vinicius de Morais, Zezé Motta e Vânia Bastos.

Também não foram poucas as casas noturnas em que Robledo atuou. A lista a seguir pode ser considerada um registro da história da noite paulistana nos últimos cinquenta anos: Antiquarius, Antonio’s Bar, Avenida, Azul da Meia noite, Anexo, Bar da Virada, Blend, Baiuca (cidade e Jardins ), Bar da praia, Blue Note, Bar Porque Não, Black Horse, Biblo’s Bar, Charles, Chez Regine, Catedral do Samba, Cotton’s Club, Clube do Choro, Clyde’s, Engenho e Arte, Faces, Gallery, Igrejinha, L’absinthe, Leonis, Lei Seca , Moustache, Mezzaluna Bar, Moinho Santo Antonio, Mis, Opus 2004, Opera Room, O Badalo, Pensilvânia, Persona Bar, Penicilina, Piu Piu, Paddock (Jardins e cidade ), Plano’s bar, Stardust (cidade e Jardins ), Sanja, Sampa, Saudosa Maloka, Tambar, Tamatete, Tasting’s, Via Brasil, Viva Maria, Victória Bar, Vou Vivendo e Zais

O contrabaixista Lito Robledo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

MANCINI

No dia 29 de março deste ano, o Il Ristorante Walter Mancini completou 16 anos de existência. Quem tocou em sua inauguração? Lito Robledo, com Luiz Melo, no piano, e Jorge Saavedra, que toca bateria, até hoje, na casa. Logo depois, Daniel D’Alcântara, no trompete, e Wilson Teixeira, nos saxs, passaram a engrossar o som. O trio virou um quinteto e permaneceu na casa cerca de dois anos.

O restaurante tem placas com nomes grafados de músicos que estiveram e tocaram no local. Entre eles, o contrabaixista Ron Carter, a cantora Flora Purim, o baterista Ayrto Moreira, o guitarrista Heraldo Do Monte, e Hermeto Pascoal, que chegou a compor uma música em homenagem ao estabelecimento. A prova?
Está registrada em uma das placas.

Placa com a música “Palinha pro Walter”, de Hermeto Pascoal (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Paulinho da Viola é um dos nomes fortes que frequenta o restaurante. Mas todos são simpáticos e dão canjas? “O Paulinho já cantou com a gente. Até o Michel Teló cantou uma música do Djavan. Quando acabou ele falou pra gente: ‘Ó, eu não entendi nada do que ocês (sic) tocaram, mas é bom prá caraío (sic)’”, contou rindo o diretor musical do estabelecimento. Sim, atualmente é Lito Robledo quem coordena a parte artística das duas casas de Mancini.

Entre os famosos instrumentista, um pianista, compositor e arranjador brasileiro costuma entrar no local, sem olhar na cara de quem está tocando, e se sentar no fundo do salão. A razão? “Tem medo, né? Sabe que aqui ninguém é trouxa. O Evaldo [pianista da casa] toca 25 vezes mais que ele, porque é pianista mesmo. É medo, sempre vou na mesa dele, e o convido, mas ele diz que está sempre muito cansado…sei”, disse rindo sem mencionar o nome do acanhado, mas afirma: “E olha que ele toca bonito, bicho, mas é medroso.”

Os músicos das casas da Avanhandava frequentemente recebem elogios sinceros de companheiros de profissão, como Wagner Tiso e Hermeto Pascoal, que vão lá e ficam a apreciar o som. “Somos em mais de vinte músicos para atender os dois palcos da pizzaria e o palco do restaurante. São três sons acontecendo ao mesmo tempo. Desde piano solo, trio, quarteto, e agora tem um músico que faz uma entrada tocando violão e cantando”, contou o diretor musical das casas em que o jazz e a MPB soam pelas mãos de músicos excelentes.

Atendem pedidos? “Pra caralho!” Qual é a música mais pedida? “’New York, New York’ e ‘My Way’, fora o ‘Parabéns pra você’, é claro.” Pedem muito? “Puta, prá caralho. Não tem uma noite que não peçam. Invariavelmente tem um ‘Parabéns’ ou mais por noite.”

Segundo o músico, uma pessoa fica, em média, de duas horas a duas horas e meia ocupando a mesa do restaurante. Nesse tempo, é possível ouvir quatro ou cindo atrações diferentes. “Antigamente, ficávamos tocando direto, duas horas e meia. É um saco porque fica o mesmo grupo, tocando a mesma coisa. Por isso, fiz esse rodízio. Agora, o cliente ouve piano solo, trio, quarteto, ou seja, formações diferentes e assim não enjoa quem toca e quem escuta.”

Bons músicos tocaram na casa, mas houve um que passou a arrumar confusão com cliente porque não tocava “New York, New York”, e se o cliente gostasse das músicas do rei Roberto Carlos, era taxado pelo ex-funcionário como “imbecil”.

Robledo gosta de jazz. “Ninguém gosta mais de jazz do que eu. Pode ter igual, mas mais do que eu não tem. Incluindo as pessoas nos Estados Unidos. Eu não me incomodo de tocar ‘New York, New York’, porque é um momento do cara que pede. Às vezes, ele conheceu uma mulher ou casou…não interessa”, disse o músico que, no trabalho, toca diversos gêneros musicais.

O contrabaixista Lito Robledo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

A VOZ E O SOM DA EXPERIÊNCIA

O diretor musical recebe toda semana pedidos de músicos para trabalhar. Como ele seleciona? “Ah, eu conheço. Se eu não conheço, dá pra ver na internet o trabalho da pessoa. Se eu não conheço, é difícil ser coisa boa”, disse, sempre rindo, o dono da voz da experiência.

Certa ocasião, a casa passou a empregar músicos estudantes, dando a eles, além de repertório, muita experiência. “Peguei gente que nunca tinha tocado baixo acústico. Hoje, são os melhores do país. Tiago Alves [contrabaixo], Sidiel Vieira [contrabaixo], a Louise Woolley [piano] tocaram aqui. Uma pá de músicos bons, já passaram por aqui.” Segundo Robledo, seus colegas ao trabalharem nas casas do grupo Mancini sempre foram avisados de que iriam “tocar, ganhar uma grana e aprender. É um estudo pago.”

Diariamente, das 19h às 2h, as duas casas oferecem música. Das 19h às 20h, começam os pianos solo. Das 20h em diante, começam trios e quartetos. O almoço também tem música. Dias de semana das 13h às 15h, e finais de semana de 13h às 16h30.

Fregueses não estão inclusos no corpo musical da casa, ou seja, não podem cantar ou tocar. “Só abrimos para canjas com músicos profissionais, mas selecionamos bem isso. Não é qualquer músico que pode ir chegando e tocando aqui.”

Por vários anos, a música apresentada nas duas casas era apenas instrumental, mas hoje há quem as cante. Alba Santos é uma das pessoas que atacam cantando jazz e MPB, às quartas, quintas e sextas-feiras, além de mais uma cantora, Mirna, que no repertório interpreta músicas italianas e francesas.

CAIXINHAS GENEROSAS

Caixinhas são deixadas para os músicos sempre. Variam entre R$100 a sem limites. “Uma vez, uns políticos deixaram um cheque de R$ 1.800 de caixinha. Tinha um cara que vinha aqui também, e só queria ouvir ‘Conceição’. Era tocar essa música, quando ele estava na casa, para levantar R$ 500 ou R$ 600 de caixinha. Ele sumiu”, falou o músico sem revelar os nomes dos políticos ou do generoso cliente.

Uma história engraçada aconteceu com Evaldo, pianista da casa e professor do instrumento. Ao chegar no restaurante, no princípio da noite, o pianista pediu para trocarem por dinheiro o cheque de um aluno. Como não havia dinheiro em caixa, pois ainda era cedo, o gerente ficou de enviar a quantia mais tarde. Horas depois, o garçom levou o dinheiro, mas o pianista sem lembrar que era referente ao seu cheque achou que fosse caixinha e dividiu com os companheiros de trabalho. Só se deu conta do engano no dia seguinte, quando cobrou o gerente e recebeu como resposta que era o dinheiro que o garçom havia entregue a ele na noite anterior.

Muitos são os clientes que dizem frequentar as duas casas pela música, embora a comida seja o forte em ambas. “Fazem esse elogio sempre, mas a comida aqui também é excelente”, disse Robledo, acrescentando que há um cardápio especial, e muito bom, feito apenas para os músicos que trabalham na casa.

TOLERÂNCIA ZERO

Entre as regras de ouro do Il Ristorante e do restaurante e Pizzaria Famiglia Mancini está a de que o músico deve usar terno e sapatos, e as mulheres devem estar vestidas socialmente. Intimidades com clientes, ou sentar nas mesas com eles, não são bem-vindas. Contudo, faltar ou “mandar o Lima”, como se diz no jargão para o músico que não aparece no compromisso, é proibido. “O cara não aparece, não liga e não avisa, eu mando embora. Tolerância zero, porque se não for assim ninguém te respeita”, falou Robledo.

Outra atitude em que a tolerância é zero é beber ou usar drogas. “Não pode, de jeito nenhum. Já mandei embora um pianista que tocava superbem, agradava muito e era uma estrela na casa, mas bebia. Um dia ele chegou, entrando meio que cambaleante, foi até o pianista que estava tocando e perguntou: ‘Que horas eu tenho que entrar?’. A resposta do colega foi: ‘Volta pra casa que hoje é sua folga’.”

Cantadas são comuns. “Recebemos muitas cantadas. A orientação é que dentro do restaurante não pode acontecer nada. Saiu daqui, cada um faz da vida o que quiser. Algumas mulheres mandam papéis com o telefone anotado. Uma vez, recebi um papel com telefone, liguei e marquei de encontrar a pessoa, uma mulher já coroa. Ela marcou um almoço e chegou em um Mercedes preto enorme. Quando perguntei com o que ela trabalhava, ela respondeu que trabalhava com presunto. Perguntei a marca, e ela disse que era gente morta. Ela tinha uma funerária. Levantei e fui embora”, falou ao repórter, que depois dessa fez o mesmo.

Uma escala com horários, local e o nome dos grupos e integrantes que tocam nos estabelecimentos pode ser conferida em http://www.famigliamancini.com.br/escala-de-musicos/

Assista, a seguir, aos vídeos nos quais o contrabaixista Lito Robledo interpreta, com exclusividade para o Música em Letras, e acompanhado pelo pianista Weidy Morazi, no Il Restorante Walter Mancini, “Straight no Chaser”, além de um solo de “Round Midnight”, ambas composições de Thelonious Monk (1917-1982) .

 

IL RISTORANTE WALTER MANCINI
ONDE Rua Avanhandava, 126, Bela Vista, São Paulo, tel. (11) 3258.8510
QUANDO Domingo das 11h30 às 0h00; de segunda a quarta-feira, das 11h30 à 01h00; de quinta-feira, das 11h30 às 01h30; e de sexta e sábado, das 11h30h às 02h30.
QUANTO Couvert musical diurno de segunda a sexta (exceto feriados)  R$ 9  por pessoa; couvert musical diurno – sábados, domingos e feriados  R$ 19  por pessoa; e couvert musical noturno – todas as noites R$ 29 por pessoa.

RESTAURANTE E PIZZARIA FAMIGLIA MANCINI
ONDE  Rua Avanhandava, 25, Bela Vista, São Paulo, tel. (11) 3231.0033
QUANDO Música a partir das 19h30; no domingo das 11h30 à 0h00; segunda a quarta-feira, das 11h30 à 01h00; quinta, das 11h30 às 01h30; sexta e sábado, das 11h30h às 02h30.
QUANTO Couvert musical, R$ 18