Belchior some de vez e seu legado surge para sempre

Por Carlos Bozzo Junior
O cantor e compositor Belchior (Foto: Reprodução internet)

O cantor e compositor cearense Belchior, 70, morreu na noite de sábado (29), em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul. A causa da morte foi uma dissecção da aorta, rasgo da parede da principal artéria do corpo humano, causando grande perda de sangue. O corpo será levado para o Ceará, onde ocorrerá o sepultamento, em Fortaleza, na terça-feira (2), no cemitério Parque do Paz.

Primeiramente o velório acontece na cidade de Sobral, onde o artista nasceu no dia 26 de outubro de 1946, e foi batizado como Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Depois, o corpo segue para Fortaleza, onde ocorre outro velório, no centro cultural Dragão do Mar, antes de ser sepultado em enterro, restrito ao famíliares.

O Música em Letras entrevistou hoje (30), por telefone, o contrabaixista e arranjador João Mourão, 59, integrante da banda Radar que acompanhou Belchior entre 1984 e 1992, além de Hélio Rodrigues, empresário, produtor e mecenas de Belchior durante 33 anos.

Hélio Rodrigues ficou sabendo da notícia da morte de Belchior pela “boca do povo”, mas não acredita em sua veracidade. “Uma notícia tão pequena pela grandiosidade desse poeta faz com que eu não acredite e desconfie. Só vou acreditar quando vir o corpo no caixão.”

Atualmente, o empresário “cuida”, entre outros artistas, da carreira de Anastácia, 77, ex-mulher de Dominguinhos (1941-2013), com quem compôs mais de 250 músicas, além de autora de mais de mil, algumas gravadas por Luiz Gonzaga (1912-1989) e Gilberto Gil. “A Anastácia não tem o reconhecimento que deveria ter. Cuidei da carreira do Belchior durante 33 anos, até que houve um desentendimento entre eu e uma amante que ele tinha e parei de trabalhar com ele”, falou Rodrigues que trabalhou com o compositor de “Apenas um Rapaz Latino-Americano”, desde 1978.

Para Rodrigues, o artista era uma pessoa “extremamente fácil e dócil para trabalhar”. “Ele era também uma pessoa extremamente dedicada ao trabalho, e culta. Não tenho nada para reclamar dele. Em mais de 5 mil shows, ele nunca falhou em nenhum. Sempre, mesmo doente, compareceu aos seus compromissos.”

Perguntado sobre o sumiço do artista, o empresário respondeu haver um “grande mistério sobre essa questão. Se ele sumiu eu respeito essa atitude dele como amigo. Ele deve ter tido os motivos dele e não ser questionado por isso. Quem pode responder por isso é ele… seria ele. Está entendendo?”

Diego Ribeiro Figueiredo, 33, violonista e guitarrista nascido em Franca, no interior do Estado de São Paulo, considerado pelos guitarristas George Benson e Pat Metheny um excelente instrumentista, também está sob a tutela do empresário Hélio Rodrigues. “As temporadas dele são todas nos Estados Unidos e Europa, porque no Brasil pouca gente sabe quem ele é. Ele foi o último guitarrista do Belchior. Eu descobri o Diego no prêmio Visa e o convidei para trabalhar com o Belchior. Isso foi quando o Belchior parou com a banda Radar e começou a fazer shows solo, porque o Belchior não tocava bem violão. Ele usava o violão mais para compor. Ficamos mais de cinco anos viajando nesse formato solo, com o Diego Figueiredo”, disse o empresário sobre o instrumentista que tem mais de 30 CDs gravados.

BANDA RADAR

A banda Radar, que acompanhou Belchior era formada por João Mourão, 59, no contrabaixo; Arnaldo Parron, na bateria; Sérgio Zurawski, na guitarra; Léo Zurawski, no sax alto e flauta; e Glauco Sagebin, no teclado. “O Glauco morreu há uns seis anos”, falou Mourão.

João Mourão, que integrava e banda Radar gravou cinco discos com Belchior, – o último foi “Baihuno” (1993) -, fazia mais de 100 shows com o artista por ano, incluindo o exterior. “Fizemos nos Estados Unidos duas vezes, foram mais de dez shows”, falou o músico que “parou no som”, com o artista pelo fato de Belchior ter dispensado a banda para iniciar uma fase em que realizava shows apenas de voz e violão, acompanhado por Diego Figueiredo. “Nessa ocasião, o Gilberto Gil e o Belchior começaram a atacar sozinhos para fazerem essa onda mais intimista de voz e violão nos shows. Por isso, a banda deixou de tocar com ele”, disse o músico que atualmente integra o trio Trigais, formado por ele no baixo acústico; Humberto Zigler, na bateria; e Elton Ricardo, voz e piano. “ Nesse trio tiramos toda a roupagem que músicas conhecidas e muito tocadas em rádios têm e as tocamos em sua essência.”

Segundo Mourão, Belchior era um “cara muito gentil e aberto”. “Na verdade, o Belchior era um cara muito fácil de trabalhar e sempre aberto a sugestões, mudanças e novos arranjos. Às vezes, na hora em que subíamos no palco, falávamos que iríamos tocar tal música em ritmo de reggae ou mais rock ‘n’ roll, e ele entrava em todas. Ele nunca disse: ‘ Eu fiz essa música assim e ela tem que ser assim até morrer’. No palco, ele era um cara da banda e não o Belchior artista.”

Mourão disse que como pessoa Belchior era um cara “muito relax”. “Super relax e na dele. Nas viagens, que eram longas e de ônibus, o tempo inteiro ele estava lendo, esse era o grande vício dele, além do charuto. Charuto e livro sempre estavam com ele”, disse o músico acrescentando que Belchior era “caretaço”, pois nunca usava drogas ou bebidas, apenas um vinho e não era sempre.

Sobre o sumiço de Belchior, Mourão nada tem a acrescentar. “Nunca soubemos o porquê dele ter sumido. Pode ter sido por conta de dívidas, mas não sei. Perdemos contato, depois do começo dos anos 2000. Chegamos a nos encontrar para falarmos de uma gravadora que ele tinha e queria reativar, mas depois não nos vimos mais.”

O músico remontou a banda Radar para alguns shows. Um desses shows aconteceu há dois anos no Centro Cultural de São Paulo. “Brincávamos falando que seria demais se o Belchior aparece do nada, mas ele nunca apareceu”, disse o músico que nesse show, chamado de “Radar canta Belchior”, contou com o cantor Enzo Ballarini (Magoo), no lugar de Belchior e com o tecladista Roger Ferrer, no lugar de Glauco Sagebin.

Mourão recorda que nas últimas apresentações que fez com Belchior, o artista estava muito “ligado em um lances com caligrafia. Ele estava pirado nessa, tanto que algumas capas de disco ele que escrevia. No disco ‘Baihuno’ , foi ele que criou a caligrafia que está na capa. Ficava o tempo todo desenhando letras. Ele era um intelectual. A onda dele era essa, a de ser um intelectual amigo de vários poetas, artistas e professores. Ele tinha muita amizade com gente dessas áreas. Um cara legal e honesto pra caramba.”

O contrabaixista disse ainda que o mundo está perdendo um superartista e produtor musical. “Até hoje, todo mundo canta as músicas dele. Porque ele produzia arte e música verdadeira. Com esse sumiço, perdemos a possibilidade de termos novos e bons sucessos feito com música boa.”

A pauta está morta, mas pelo visto, vivido e ouvido, tanto o personagem Belchior quanto suas músicas viverão para sempre. Que assim seja.

A seguir, veja fotos do artista.

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