Fique de olho no apito, o som de uma manifestação

Por Carlos Bozzo Junior
O vendedor de apitos Claudio Jesus de Sousa (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras esteve ontem, sexta-feira (31), na assembleia dos professores municipais reunidos em frente à Prefeitura de São Paulo, que interditou o Viaduto do Chá, para protestar contra as reformas da previdência e trabalhista.

Na manifestação, além do caminhão de som, entre os cerca de 10 mil manifestantes, Claudio Jesus de Sousa, 57, vendia apitos coloridos de plástico por R$ 2 (veja vídeo no final do texto). “Vendo de 20 a 60 apitos por manifestação, mas hoje está fraco. Não vendi nenhum e hoje é meu aniversário. Quer um?”, perguntou ao repórter deste blog o vendedor que mora em Cangaíba, bairro da zona leste da capital, e se desloca para o centro toda vez que tem manifestação. “Essa já é quarta manifestação que venho. Daqui a pouco, o pessoal começa a comprar, o movimento vai melhorar.”

Mas qual o impacto do som de um apito diante dos muitos watts expurgados pelas caixas de som do caminhão do som, reverberando, entre outros, a voz de Cláudio Fonseca, presidente do Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo (SINPEEM)? Quase nenhum, mas simbolicamente o magro som de um apito parece representar bastante e ter uma função importante.

Á esquerda, Helena Martins Silva e Juliana dos Reis Domingues, professoras da rede municipal de ensino (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O PODER DO SOM

Segundo a paulista Juliana dos Reis Domingues, 35, atualmente vice-diretora de uma escola municipal da capital, há dezoito anos professora, e uma das manifestantes presentes no evento, o barulho do gerador e a fumaça do caminhão incomodam muito mais que os apitos. “O pior sobre o som é a maneira como as pessoas se manifestam no caminhão, pois produzem um volume muito alto desnecessariamente. Elas já dispõem de microfones, portanto não é preciso que gritem. Quanto ao som do apito, não me oponho, porque é uma forma de quem está ali se manifestar a favor ou contra as pautas apresentadas.”

Companheira de luta de Juliana, desde os tempos dos panelaços que realizavam quando ainda eram estudantes da PUC, a mineira Helena Martins Silva, 38, professora municipal de língua portuguesa há 14 anos, não utiliza o apito para se manifestar, mas qualifica sua importância pelo fato de a traquitana produzir um ruído importante. “Esse tipo de ruído nas ruas não é só necessário, mas urgente. O ruído é importante para lutarmos contra uma série de coisas impostas historicamente. Aguentamos um ruído muito maior, que se naturalizou para a gente. Precisamos nos apropriar desse tipo de ruído produzidos pelos apitos e outros instrumentos, porque ele permite que tenhamos nossa própria voz colocada. Esse é um ruído que tem por objetivo uma transformação social”, disse a professora que já utilizou caixa, tambor, surdo e megafone em manifestações.

Entre outros ruídos considerados necessários, as educadoras lembraram as palavras de ordem. Das que mais escutam ultimamente, destacam “Fora Temer”, “Não vai ter arrego”, “Nenhuma confiança em Dória” e “Contra a reforma da Previdência! Querem nos matar de trabalhar”.

Juliana disse ainda que sente falta de instrumentos de percussão, tão comuns em outras manifestações, pois era sempre atrás deles que ela se manifestava cantando e protestando. “Esses instrumentos, caixas, surdos, tambores e bumbos, assim como os apitos, são nossas vozes utilizadas para nos manifestarmos a favor ou contra uma posição, reforçando nosso desejo político. Só apitos não são suficientes. Quando saímos em passeata, os instrumentos de percussão, aliados aos apitos, dão um suporte maior para que nossas reivindicações sejam ouvidas.”

Conclui-se, portanto, que, atualmente, quem se manifesta parece compactuar com o que há muito foi versado na música “Camisa Molhada”, de Carlinhos Vergueiro:
“Fique de olho no apito,
Que o jogo é na raça
E uma luta se ganha no grito…”

Assista, a seguir, o vendedor Claudio Jesus de Sousa atuando em meio aos manifestantes.