Teko Porã sai da rotina dos vagões e ferve na Casa das Caldeiras

Por Carlos Bozzo Junior
Da esquerda para a direita, Maria Fernanda, Caio Gregory, Bia Rezende e Pablo Nomás, músicos do grupo Teko Porã (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Acontece no próximo domingo (19), na Casa das Caldeiras, em São Paulo, o evento Primavera Te Amo. Nele, comidas, grafites, artes circenses, bazar, cinema e música aglutina gente de todas as tribos.

Entre as atrações musicais do evento destaca-se o grupo Teko Porã, formado por Pablo Nomás, Maria Fernanda, Caio Gregory e Bia Rezende, que se apresentam regularmente nos vagões do Metrô de São Paulo e pelas ruas, avenidas e espaços públicos da cidade há cinco anos.

O Música em Letras esteve na Casa Barco (veja vídeo no final do texto), como é chamada pelos integrantes do grupo a casa de quatro andares em formato de embarcação, situada na Vila Anglo, em que vivem juntos três dos músicos do quarteto, além de uma constante população flutuante. “Aqui viajamos como se fossemos uma tripulação”, disse Pablo Nomás, músico fundador do grupo.

Leia, a seguir, quem são esses artistas que urbanizam música e poesia, com o intuito de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos da Paulicéia. Saiba também o que esse grupo apresentará na Casa das Caldeiras e no Teatro da Rotina, local onde se apresentam também no próximo dia 24 de março, para aquecer o coração das pessoas.

TRIPULAÇÃO DA CASA BARCO

O grupo Teko Porã já teve várias formações. Hoje, conta com quatro integrantes, sendo três deles moradores da Casa Barco onde compõem suas músicas e ensaiam.

Pablo Nomás, 32, mineiro de Muriaé, mora em São Paulo há cerca de cinco anos, tocando bandolim, violino e violão de seis e sete cordas, além de cantar e compor. Teve algumas aulas desses instrumentos quando mais jovem, mas se considera autodidata. Segundo Nomás, o nome da banda Teko Porã surgiu em 2012. “Estava rolando o suicídio coletivo dos índios guarani-kaiowá no Mato Grosso e vários textos sobre essa questão foram parar na mídia. Entre eles, um texto explicando o que é Teko Porã, uma filosofia bem ampla dos guaranis sobre como você deve levar a vida. Significa o bom caminho ou a boa maneira para se viver e se relacionar com você mesmo, com outros seres humanos, com as divindades e a natureza. É uma parada que abrange muitas áreas de nossas vidas, por isso é bem amplo.”

Outra integrante do grupo é Maria Fernanda, 24, paulistana, que toca violino e compõe, além de estudar muito. “Há oito anos me dedico ao violino. Já dei aulas, mas hoje apenas estudo e toco.”

Caio Gregory, 26, canta, compõe, toca bandolim, viola de orquestra, violino, violão de seis e de sete cordas. O músico nasceu em Niterói e mora em São Paulo há menos de um ano. Gregory passou um tempo junto aos índios guarani e deles recebeu sua “palavra alma”. “Não são os pais que batizam os filhos, mas sim os pajés que, por meio de um ritual, recebem espíritos que revelam o nome, ou a ‘palavra alma’, das crianças. Isso porque, para eles, cada pessoa é uma palavra encarnada”, explicou Gregory, ou melhor, Verá Mirin, que significa “pequeno trovão”, como foi batizado pelos índios.

Beatriz Silva de Rezende, 19, cantora, compositora e percussionista nasceu no Rio de Janeiro, mas mudou-se com a família ainda criança para São Paulo. Há sete meses integra o grupo. Contralto, Bia curte muito MPB e Hip Hop. Ela é a única integrante do Teko Porã que não mora na Casa Barco. Bia atua como Nerina, personagem do musical infantil “Nerina, a Ovelha Negra”, que estreou no último dia 11, no Sesc Pompéia. Trabalha no teatro cinco vezes por semana, e ensaia com o Teko Porã três vezes.

Grupo Teko Porã ensaiando na cobertura da Casa Barco (Foto: Carlos Bozzo Junior)

PALCOS SOBRE TRILHOS

O Teko Porã já se apresentou em Curitiba, Minas Gerais e outras cidades, mas onde mais realiza apresentações é dentro dos vagões do Metrô de São Paulo, onde tocam praticamente todos os dias da semana.

As apresentações buscam evitar os horários de pico. “Antes da 9h não rola. Depois das 15h, começa a ficar difícil e se torna impossível das 16h até as 19h. Das 20h até meia noite fica viável. Tocamos em todas as linhas do Metrô e da CPTM, mas a linha Verde tem um capital maior”, disse Nomás sem revelar o valor que amealham.

Perrengues são considerados pelos integrantes da banda como situações isoladas, embora toquem todos os dias. “São bem poucos os problemas que enfrentamos com relação aos seguranças do Metrô, porque respeitamos e somos respeitados pela maioria. Entendemos que estão fazendo o trabalho deles”, falou o músico que, após tantos anos atuando em trens, já é conhecido e obedece ao comando dos seguranças, acatando-os apenas diante dos olhares de desaprovação. “Quando isso acontece, guardo o instrumento no ato e me retiro”, contou Maria Fernanda, afirmando que quando pegos são escoltados para fora da estação, tendo que pagar novamente o ingresso para voltar.

Além da costumeira abordagem dos seguranças dizendo que é proibido tocar no Metrô, há comentários do tipo “Vocês estão tocando aqui por não estudarem e não terem capacidade de tocar em um teatro”, contou Maria Fernanda, aluna do terceiro ano da EMMSP (Escola Municipal de Música São Paulo), que estuda violino há oito anos. Segundo a violinista, que com o grupo já se apresentou também em teatros, “o recurso para arte é tosco, mano, por isso temos que sair e tocar por aí para pagarmos nossas contas”.

Para a musicista, tocar na rua requer o que ela define como um “ataque enérgico instantâneo”. “Você precisa passar essa energia para as pessoas de uma maneira que elas entendam que o que você está mostrando é arte. Por isso, entramos para trampar no vagão ligados nessa energia, para cima. Tocar em teatros e bares é bem diferente.”

Para Nomás, tocar em teatros se difere de tocar nas ruas e no Metrô porque já se pressupõe que haverá uma disponibilidade do espectador em ouvir ou se divertir. “No teatro, a pessoa vai com o astral preparado e isso já é meio caminho andado. Na rua ou dentro do vagão, você lida com todo tipo de ser humano, idades, classes sociais, opiniões e direcionamentos políticos. Tudo misturado. E como é uma parada para a qual ninguém nos chamou, enfrentamos todos os tipos de reações.”

Teko Porã (Foto: Carlos Bozzo Junior)

TRANSFORMANDO O ASTRAL

Segundo o músico, durante as apresentações nos vagões acontece uma movimentação invisível nos cinco sentidos e muitas vezes isso faz com que as pessoas se transformem. “É mais do que ser apenas um músico de rua, pois existe um embate em que doamos e recebemos energias de todos os lados. Uma pessoa pode estar mal com seus problemas cotidianos e, de repente, ao nos ouvir ela passa a vibrar em outra frequência, fazendo com que aquele momento transformador permaneça com ela durante o resto do dia.”

Maria Fernanda é taxativa. “Sem hipocrisia nenhuma, é lógico que precisamos fazer isso pela grana, mas o prazer que temos ao ganhar um bilhete de agradecimento ou qualquer outra forma de reconhecimento é muito bom. Conseguimos ver o astral de um vagão inteiro mudar com nossa música. Acho que nossa missão real ali dentro do vagão é a de transformar esses padrões de vibrações astrais. É de pegar uma parada de ‘bad vibe’ e fazer com que fique para cima. Sair de um vagão com todo mundo te olhando, sorrindo e te dando um tchau é muito bom.”

Os integrantes não têm um ritual antes de “atacarem” nos vagões como forma de proteção das más energias. “Acontece de nos olharmos desejando que tudo dê certo, mas como fazemos isso todos os dias vira rotina e acaba se tornando um trampo normal. Muitas vezes, chegamos e fazemos nosso trabalho como operários da música, sem romantizar o negócio”, disse Nomás.

Nem todos os passageiros gostam da presença desses artistas em suas viagens. “É difícil acontecer, de cem pessoas uma reclama. Já rolou de um cara mandar eu parar dizendo que ali, dentro do vagão, não era lugar de fazer música. Respeitamos e paramos no ato, mudando de vagão”, contou Maria Fernanda que também já recebeu entre muitos bilhetes de agradecimento, frutas, sorvetes e um buquê de rosas dos usuários do Metrô.

Mesmo se considerando anarquistas, todos os integrantes do grupo Teko Porã pagam o valor de R$ 3,80 da passagem para ingressarem no Metrô. Perguntados sobre essa contradição, Nomás respondeu que “nessa estrada temos que ser vaselina. Tenho dois filhos, um de 8 anos e outro de um ano e meio, além de aluguel e outras coisas para pagar. Não posso bater de frente com algumas coisas e zoar os plantões dos caras. Se eu pular a catraca, eles vão me marcar e com certeza terei muito mais trabalho, mais do que já tenho, para fazer meu próprio trabalho”.

Nos vagões, o grupo se divide. “É mais divertido e melhor para todos nós tocarmos juntos, mas em duo recebemos mais”, completou Nomás.

Teko Porã (Foto: Carlos Bozzo Junior)

NOS PALCOS

Nos shows que serão realizados na Casa das Caldeiras e no Teatro da Rotina, o Teko Porã apresentará seu trabalho autoral e, segundo Nomás, talvez algumas músicas de outros autores, entre elas, “São Jorge”, de Juçara Marçal e Kiko Dinucci

Entre as autorais, “Lamento dos Degolados”, de Caio Gregory, peça com influências de música medieval e irlandesa, que será apresentada com o acompanhamento de um violão de sete cordas, um bandolim de oitava (instrumento com oito cordas da família do bandolim, afinado uma oitava abaixo), violino e voz. A letra traz o ponto de vista de um povo colonizado. “No caso, os índios brasileiros que estavam aqui antes da chegada dos europeus. Essa música tem uma letra bem imagética, relatando o que aconteceu realmente durante a colonização, abordando exploração, matança, covardia e violência contra eles e também contra os negros trazidos para cá”, falou Nomás.

Outra música é “Navio Canção”, de Marilia Calderon, vocalista que integrava o grupo em formação anterior. “Essa canção fala do mar, em homenagem a essa casa que moramos com formato de barco, além de versar sobre os processos internos das pessoas, suas escolhas e caminhos que devem ser seguidos entre dúvidas e incertezas”, disse Nomás.

Ao ser perguntado sobre o estilo musical do grupo, Nomás explicou que o som do Teko Porã é chamado de MPB Cigana. “É como se ciganos resolvessem tocar música popular brasileira como uma música tradicional, primitiva. Esse rótulo explica um pouco, mas nosso som não se aproxima muito de nenhum estilo específico.”

Como trabalham apresentando essa música em espaços públicos e em vagões do metrô, acrescentaram humoradamente ao rótulo de Música MPB Cigana os adjetivos “anarco” e “simpática”. “Por trabalharmos nessas condições, anarquizando um pouco ao fazermos o que não pode [tocar no metrô é proibido], temos que ser simpáticos e demonstrar carisma.”

O recado de Nomás para quem for ao show é que “as pessoas tenham em mente que essa é uma banda nova, independente, com um som não rotulado e que tem muito para mostrar, além do que dá para ser feito num vagão.”

Assista, a seguir, aos vídeos em que o Teko Porã interpreta com exclusividade para o Música em Letras, do alto da Casa Barco duas músicas. No primeiro vídeo, “Portas e Janelas”, de Nomás e Bia Rezende. No segundo registro, a instrumental “Velha Nova”, composição que surgiu de improvisações nos primórdios do grupo, quando este ainda era um trio formado por Nomás, e os ex-integrantes Fábio Morales e André Ladeia.

SHOWS TEKO PORÃ

CASA DAS CALDEIRAS
QUANDO Dia 19 de março, domingo, às 15h
ONDE Avenida Francisco Matarazzo, 2000, Água Branca, tel. (11) 3873-6696
QUANTO R$10 antecipado e R$15 na porta

TEATRO DA ROTINA
QUANDO Dia 24 de março, sexta-feira, às 21h
ONDE Rua Augusta, 912, Consolação, São Paulo, tel.(11) 3582-4479
QUANTO R$20