Sem Noção – “Bavini”, por Kiko Zambianchi

Por Carlos Bozzo Junior
O compositor Kiko Zambianchi ouvindo o CD “Bavini” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras convidou o cantor e compositor Kiko Zambianchi, 56, para participar da série Sem Noção (veja posts anteriores) que realiza audições às cegas de discos recém-lançados no mercado brasileiro.

Zambiachi, compositor de vários sucessos, entre eles “Primeiros Erros” e “Rolam as Pedras”, recebeu ontem (14) o Música em Letras em sua casa no Pacaembu, bairro da zona oeste de São Paulo, para a audição às cegas proposta. Contudo, foi dando um “rolê” pelo bairro, em seu carro, que o cantor ouviu as 13 faixas do CD “Bavini”, do cantor e compositor paulistano Marco Bavini, sem ter nenhuma dica de seus autores ou músicos.

Embora tenha bons equipamentos de reprodução de CD em casa, o artista preferiu escutar o disco em seu carro, alegando ter “uma referência melhor do som” por conta da aparelhagem instalada no veículo.

No momento, Zambianchi realiza turnê de shows por todo o Brasil. Sua agenda é bem cheia e achar um espaço nela para essa audição não foi fácil. Entre marcarmos e desmarcarmos nosso encontro por algumas vezes, houve tempo até para o artista se tornar um avô empolgado com a chegada de Filipe, seu primeiro neto, filho de Paola Zambianchi. O que mudou em sua vida com esse acontecimento? “Ainda não deu tempo para sentir. Na noite em que Filipe nasceu, estava indo para o carnaval, no sambódromo de São Paulo pela primeira vez, e tive de adiar, o que fiz com muito prazer”, contou o músico.

Leia, a seguir, as impressões de Zambianchi sobre “Bavini”, primeiro disco solo do cantor e compositor Marco Bavini, ex-vocalista da banda de rock pesado Anjos da Noite, e atualmente vocalista da banda de pop rock Tork, além de ser dono do estúdio profissional Bavini, que funciona em sua casa, na zona norte de São Paulo. Bavini também faz shows pelo Brasil cantando e tocando violão na banda do seu pai, Sérgio Reis, que no final dos anos 1970 deixou de lado a Jovem Guarda para ingressar na música sertaneja. Nesse disco independente, com 13 faixas autorais, Bavini, como o pai, sai de um gênero (hard rock) e abraça outro (pop folk).

Gravado nos Estúdios Bavini, o CD traz como técnicos de gravação o próprio Bavini, além de Atila Ardanuy (gravação de bateria); mixagem, gravação de cordas e piano nos Estúdios Gravodisc, com os técnicos Elcio Alvarez Filho e Guido Baldacin Filho, tendo como engenheiro de mixagem Elcio Alvarez Filho e, como assistente de mixagem, Gabriel Galvão Teixeira; coordenação de estúdio, Cristiane Feris; masterização, Classic Master, por Carlos Freitas.

FAIXA 1 “Um Sonho”, de Bavini e Marcus Ardanuy

“Muito bem gravado. A produção é muito boa e tudo é muito legal. Talvez eu tenha ouvido muito a palavra ‘você’ nessa música, parece que em todas as frases havia essa palavra. O cantor é superbom, mas parece que ele apelou para todas as formas do pop. Não que esteja mal feito, está bem feito. Prefiro ouvir um pop assim do que um cara falando besteiras e sacanagens como se fosse um adolescente. É legal, mas para mim é um pouco pop demais.”

FAIXA 2 “Instante”, de Marcus Ardanuy, Bavini e Gil

“Uma coisa que achei legal é que a músicas tem uma coisa para cima. Não fala de coisas ruins e isso para mim, nos dias de hoje, é um ponto positivo porque estou meio cansado de coisas ruins, protestos e sacanagens nas letras. É legal quando encontramos pessoas dispostas a fazer um som para cima como esse. Como a primeira faixa, é muito bem gravada, romântica e pop pra caramba, com uma boa produção e um cantor ‘afinadaço’. Vê-se que não tem muito efeito nessa voz, é o cara que está cantando mesmo, e isso é bem legal. ”

FAIXA 3 “Sorrindo”, de Marcus Vinicius, Fatima Taffo e Bavini

“Essa foi a melhor, até agora. No começo, parecia uma música dos Beatles, ‘In My Life’. Essa letra é bem melhor que as outras, a música e o arranjo também. Gosto de um pop assim, não tão explícito. Muita coisa lembra os arranjos que eu fazia no ‘Era das Flores’ [quarto álbum de Zambianchi, gravado e lançado em 1989 pela EMI-Odeon]. Novamente, produção, gravação e músicos são muito bons. Esses músicos são feras, não sei quem são, mas são bons. Parecem ser aqueles caras que sabem tudo de música pop, mas devem ouvir Metallica.”

FAIXA 4 “Mais Uma Noite”, de Carlos Catuipe e Bavini

“Meu, quero gravar violão onde esses caras gravaram, porque esse som está bom pra caramba. A impressão aqui nessa música é a mesma: esses caras são do rock and roll, mas resolveram fazer um trabalho pop. Aí tem um problema, porque mesmo no pop não utilizamos todas as características possíveis do pop juntas, para não ficar tão pop. Tivesse uma dose disso aqui seria mais legal. De resto, está tudo bem feito, não tem o que falar.”

FAIXA 5 “Feche Os Olhos”, de Wander Taffo, Fatima Taffo e Maurício Gasperini

“Agora, para mim, essa é a melhor faixa do disco. Diferente das outras, parece até outro compositor. Gosto mais desse som assim. É uma música bonita, pop, mas com coisas de MPB, rock, e a letra é melhor que as outras. Gostei bastante dessa música. Se o disco for mais nessa praia, vou achar mais legal.”

FAIXA 6 “Você Foi Você É”, de Bavini, Marcus Ardanuy e Israel Mattos

“Essa me lembra muito o estilo do Roupa Nova. Uma banda de músicos muito bons que trabalhava com um pop mais popular. Novamente, muito bem gravada , vai agradar quem gosta desse tipo de som que tem um pop bem popular. E, se o cara for bonito, vai ajudar bastante, porque essa música parece ser para um público mais feminino.”

FAIXA 7 “Pra Ser Feliz”, de Marcus Ardanuy e Bavini

“Aqui nessa faixa, me lembra o Sá e Guarabira, em uma mistura do Legião [Legião Urbana] com o Roupa Nova, mas a letra não entendi muito.”

FAIXA 8 “Seu Como A Canção”, de Atila Ardanuy, Julio Belodi, Bavini e Cristiano Brivilleri

“Pode ser impressão minha, mas ouço citações de outras músicas, principalmente as dos Beatles. Posso até estar me repetindo, mas essas músicas sempre falam sobre alguma coisa para cima, mostrando uma visão positiva, o que acho interessante. Ainda acho que essa não é a praia que o cara que está cantando gosta de escutar, mas está muito bem feito.”

FAIXA 9 “Um Dia”, de Bavini e Marcus Ardanuy

“Algumas letras ficam mais legais se fossem em inglês. Essa é uma delas. Além disso, as letras dessas músicas parecem se repetir em seus conteúdos, mas ainda está legal o trabalho.”

FAIXA 10 “SIM”, de Marcus Ardanuy

“Legal esse som. A música tem uma levada um pouco diferente e talvez por isso estaria entre as minha preferidas. Ela é pop, mas tem uma sacadinha interessante de vocal no meio dela. Parece ser bem gostosa de ser tocada ao vivo. Aliás, dá para perceber que, ao vivo, a banda deve tocar bem pra caramba.”

FAIXA 11 “Desse Lado Do Céu”, de Marcus Ardanuy e Bavini

“Outra faixa que lembra o Roupa Nova, principalmente quando sobe o tom e caracteriza ser uma música de emoção, que mostra que a esperança aconteceu. Continuo achando que são músicos que gostam de rock pra caramba, e que de repente resolveram fazer um trabalho pop. A boa qualidade é visível, o cara toca e canta muito, a guitarra e batera são boas, a produção impecável, mas com a dosagem de pop carregada, forçando um pouco a barra. Insisto em dizer que é legal, bem gravado, é para quem gosta desse tipo de som. Se foi uma escolha do produtor trabalhar um som pop mais popular, ele conseguiu. ”

FAIXA 12 “LUZ”, de Bavini, Atila Ardanuy e Carlos Catuipe

“Essa faixa lembra os discos solos que o Paulo Ricardo fez meio que nessa praia. Principalmente no começo, a voz nos leva a isso. E há uma novidade aqui porque tem uma parte meio funkeada. Talvez, por isso, tenham colocado no fim do disco, por destoar um pouco das outras. Legal também é que o disco é todo baseado em violão, que é muito bem feito. Os outros instrumentos e a produção também são impecáveis. Essas caras estão de parabéns porque mostram que do jeito que eles tocam estão atingindo exatamente o que pretendem. Acho que devem estar felizes com o resultado.”

FAIXA 13 “Raro”, de Atila Ardanuy, Renato Teixeira, Bavini e Marcus Ardanuy

“Também gostei dessa faixa. É um pouco diferente das outras. Parece que as mais diferentes ficaram para o final do disco, e essa me lembra também um pouco do Boca Livre, com uma produção muito boa de vocais e o cara cantando muito. Bem legal. ”

O cantor e compositor Kiko Zambianchi no seu carro (Foto: Carlos Bozzo Junior)

AVALIAÇÃO PONTUAL

INTÉRPRETE
“Muito bom.”

COMPOSIÇÕES
“Bom.”

HARMONIA
“Bom.”

RITMO
“Bom.”

MELODIA
“Bom.”

ARRANJO
“Muito Bom.”

SOM (CAPTAÇÃO, MIXAGEM E MASTERIZAÇÃO)
“Ótimo.”

CONSIDERAÇÕES GERAIS

“Legal, pois o disco se propõe a ser um pop bem popular. O cara que canta é muito bom e as música lembram o que já disse, ou seja, o grupo Roupa Nova, um pouco do Paulo Ricardo quando estava sozinho, o Boca Livre, tudo com um toque de Beatles e letras românticas falando de amor mais para cima. Também tem muito de cantores gospel, que cantam músicas que puxam sempre para esse espírito de esperança. Mas os caras são bons pra caramba e, se conseguirem trabalhar isso com o público adequado, vai dar certo. E, se o cara for bonito, há grandes chances de o público feminino se encantar com esse som.”

CD REVELADO

Após a audição às cegas, foi revelado ao cantor e compositor Kiko Zambianchi que “Bavini” é o primeiro disco solo, na onda pop folk, de Marcos Bavini. Um breve histórico sobre a carreira do artista também foi fornecido a Zambianchi, assim como todas as outras informações sobre o disco, seus participantes, ficha técnica, capa e encarte.

Diante das revelações, Zambianchi complementou sua avaliação.“Ah, meu Deus, sou amigo dele. Isso é muito engraçado porque eu conheço o Marco [Bavini], mas não conhecia o disco. Estive outro dia gravando no estúdio dele com o Henrike, vocal da Blind Pigs [banda de punk rock de 1993 formada em Alphaville, na Grande São Paulo] com quem gravei uma faixa. Foi muito legal você me colocar para ouvir um disco de um amigo sem saber. Espero que ele não fique bravo comigo. Ele fazia rock n’ roll, a praia dele era bem outra, muito mais voltada para o rock e pelo menos nisso eu acertei. Ele fez uma mudança de estilo, como o pai que saiu da jovem guarda para o sertanejo e deu supercerto. Quem sabe não acontece a mesma coisa com ele, né? Boa sorte Marco! Gostei bastante e não desconfiei que era você em momento algum.”

Perguntado se há espaço para esse disco no mercado, Kiko Zambianchi respondeu: “É complicado a gente saber o que será um sucesso. Sempre falo que se soubéssemos o que será sucesso e se fosse uma coisa tão mecânica não existiriam outras profissões em que as pessoas não são tão favorecidas porque todo mundo seria superstar. Então não sei se esse disco entra ou não no mercado, mas se tiver um empresário que dê uma força para esse disco junto com o show que tenho certeza que será bom para caramba, penso que há lugar no mercado para esse trabalho, sim. Os músicos [James Muller, percussão; irmãos Busic, Ivan (bateria) e Andria (baixo), entre outros] eu conheço e sei que são excelentes instrumentistas. Legal ver que eles estão nesse disco junto com o Marco. Boa sorte para todos nessa nova empreitada. E precisando estou aí com composições também para ajudar.”

Sobre a escolha desse disco para ser avaliado, Zambianchi comentou “gostei sim, pelo menos não foi um funk ou aquelas coisas horrorosas que não consigo nem ouvir direito como aquela que diz ‘Meu pau te ama’. Esse disco do Marco [Bavini] dá para se discutir. O Marco está começando bem com esse trabalho e dá para ir melhorando, com o tempo, esse estilo que para ele é novo. Gostei mesmo dessa escolha.”

AVALIAÇÃO DE KIKO ZAMBIANCHI

“Muito Bom.”

Capa do disco “Bavini”, do compositor, cantor e instrumentista Marco Bavini (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CD BAVINI
ARTISTA Marco Bavini
GRAVADORA Independente
QUANTO R$ 25