Sem Noção – “Finalmente”, por Daniel D´Alcantara

Por Carlos Bozzo Junior
O trompetista Daniel D´Alcantara ouvindo o CD “Finalmente” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras convidou o músico Daniel D´Alcantara, 42, para participar da série Sem Noção, que realiza audições às cegas de discos recém-lançados no mercado brasileiro.

D´Alcantara é professor de trompete popular, direcionado para a improvisação, na EMESP (Escola de Música do Estado de São Paulo – Tom Jobim), na EMMSP (Escola Municipal de Música de São Paulo), além de ensinar prática de conjunto na faculdade Souza Lima.

Autor de “Canção Para Tempos Melhores”, disco de concepção jazzística em que o trompetista toca com Cuca Texeira (bateria), Vitor Alcantara (sax tenor), Bruno Migoto (contrabaixo) e Edson Santana (piano), D´Alcantara recebeu o Música em Letras em sua casa, no Alto da Lapa, em São Paulo, para a audição às cegas proposta.

O trompetista ouviu, sem ter nenhuma dica de quem ou de que se tratava, o CD “Finalmente”, do trompetista e compositor Tião Bazotti, que é acompanhado por Silvia Goes (arranjos e piano), Thiago Espírito Santo (baixos), Cuca Teixeira (bateria), Walter Pinheiro (sax tenor, alto e flauta), além de um convidado especial, o saxofonista tenor Flávio Sandoval.

Leia, a seguir, as impressões de D´Alcantara sobre “Finalmente”, CD independente do trompetista Tião Bazotti, que teve as gravações de bases (trio) realizadas no BRC Estúdios, por Bruno Cardoso; e gravações de sopros, mixagem e masterização, no Estudio Arsis, por Adonias Junior. Na capa e no encarte, desenhos de Tião Bazotti e design gráfico de Marcelo Castilha. Todas as composições são de Tião Bazotti

FAIXA 1 “A Cidade”

“Esse é um tema com uma sequência harmônica que me parece difícil de improvisar na forma ABA, com a segunda parte sendo um afro. É uma forma longa tanto o A quanto o B. Tem dois solos nessa música, um de flauta e outro de trompete com surdina Harmon Wah Wah, que usamos para fazer efeitos sonoros jocosos. Essa surdina tem um caninho, que o Miles Davis tirou e eternizou esse som que tem tipo um zumbido. Quando você toca no microfone com essa surdina, no microfone, há um efeito maravilhoso, parece que você está tocando no ouvido da pessoa. Gostei da composição, achei interessante melodicamente, e harmonicamente mais ainda. A impressão que tive é de que o grupo está tocando essa música pela primeira vez. Parece que eles estavam muito confortáveis com a composição, principalmente nos solos de trompete e de flauta. Eles estavam tateando a harmonia, como se estivessem no escuro. Não sei quem são e nem de quem é a composição, se é do trompetista ou de alguém da ‘cozinha’. ”

FAIXA 2 “Quase Palpável”

“A música tem uma melodia alegre e a harmonia próxima do usual, com uma sequência harmônica que dá mais possibilidades para o solista. É como se fosse um standard. Achei que os solos foram muito curtos e continuo achando que os sopros estão tímidos em relação à ‘cozinha’. Minha impressão é de que a ‘cozinha’ gravou primeiro e depois gravaram os sopros. Apesar de a cozinha estar soando superbem, tenho a impressão de que os músicos não sabiam o que seria feito depois. Então não dá para esquentar a chaleira. Está uma gravação fria. Outra coisa é que para o recurso do trompetista e do saxofonista, como improvisadores, está faltando um pouco mais de assunto. Você vê que são dois caras musica is, têm criatividade, mas falta recurso no discurso. Em uma faixa como essa, com uma harmonia mais simples, você vê o que o solista pode fazer em cima disso. Vê o quanto de vocabulário ele tem e como pode aplicar; fiquei esperando, mas não veio. Foram solos curtos, honestos, sem notas erradas, nenhuma delas esbarra e rítmica está ok, mas sinto falta na poesia, no encadeamento de um acorde para outro, de uma frase para a outra, embora sejam solos curtos. O solo do piano foi mais rico de construção, de conversa. ”

FAIXA 3 “Flávia”

“Nesse tema pensei na ‘cozinha’. Um tema com duas sessões distintas, um ostinato, que são frases ou notas que se repetem ou se deslocam através da sequência harmônica, e uma outra sessão com um jazz. O som está muito parecido com o do Thiago Espírito Santo, inclusive com uma condução e um solo incríveis de baixo. Você vê que é um solista, com recurso, ideias melódicas e rítmicas, que toca com segurança. Esse baixista tem uma fluência de frases. O que me chama atenção quando escuto um solista é a capacidade dele emendar uma frase na outra. É o discurso do solista. Tem solista que é mais harmônico, outros mais melódicos, outros mais rítmicos, e outros que juntam tudo isso, que é o caso desse baixista que desconfio ser o Thiago. O baterista, pelo timbre e pela maneira de condução, me parece o Cuca Teixeira.”

FAIXA 4 “Vento e Pó”

“A faixa é um bolero samba-canção à la João Donato. Me parece um pouco esse estilo. Na primeira parte, em que o trompete expõe o tema, a melodia me parece bem interessante e bonita. Depois, ele mantém a sequência harmônica, mas muda a melodia. Isso não ficou muito bem encaixado com o que ele fez antes. Mais uma vez, me parece que a ‘cozinha’ está tocando uma coisa e não está sabendo o que vai acontecer com o solista. Nesse ponto fica nítido que eles gravaram antes e colocaram os sopros depois. Novamente nos solos dos sax e trompete existe a falta de recurso melódico, ou até mesmo harmônico, na construção e no desenvolvimento das ideias. A impressão é de que são solistas que não têm experiência, que não estão acostumados com a música instrumental. Na exposição do tema, tanto pelo trompete e pelo sax, falta um pouco de expressão na conexão das notas, às vezes até um vibrato mais sutil para dar um pouco mais de intensidade. Parece que estão todos tocando na zona de conforto, sem se arriscarem porque não sabem se vão conseguir se expressar daquela forma. Às vezes, na música instrumental é importante arriscar porque assim você mostra sua cara. É arriscando que se mostra a personalidade. Se você fica com medo de tocar por alguma insegurança, de dar na trave, você perde. Por que dar na trave, às vezes, é ter a indicação de um caminho criativo. Aqui não tem trave. A ‘cozinha é muito boa’. Não sei como foi o processo de gravação, mas se for o que está soando e quem estou pensando na ‘cozinha’, daria para ter explorado muito mais. Poderiam ter dado mais espaço com mais solo da ‘cozinha’ e deixar com que eles fervessem mais.”

FAIXA 5 “Fabrícia”

“Um baião com duas sessões, duas partes. Acho que a forma é ABB e volta para o A e para o B de novo, se não me engano. Um excelente solo do pianista, que acredito que seja a Silvia Goes pela maneira interessante de improvisar que ela tem. Parece que ela improvisa em uma camada acima das notas convencionais dos acordes e isso gera uma sensação de elevação. Ela cria uma tensão muito interessante. Ela é melódica e utiliza com bom gosto os elementos rítmicos da música brasileira, sem ser caricata. Às vezes, escutamos uns caras que ficam enchendo o saco na figura rítmica, achando que isso é improvisar. Quando isso acontece, você está escutando uma percussão com uma nota e isso elimina a fluência melódica. A Silvia, se for ela, usa isso com maestria. O solo dela é bem fluente. Depois vem um solo de baixo muito bom do Thiago, acredito que é ele pelo timbre e pela fluência, com um forte pendor para o bebop, através obviamente da influência que ele tem do Jaco Pastorius. Quando ele improvisa, ele não pensa como um baixista. Ele tem esse veio de improvisador independentemente dos maneirismos de um baixista. Ele é um tremendo baixista com o domínio absoluto do instrumento e se vê que pelas frases dele que escuta vários solistas. Tem um pouco de Keith Jarrett, do saxofonista Johnny Griffin e de outros que trazem diversidade para a música dele. É bem característica a rítmica no tema, que é bem esquematizado, com as sessões bem fortes. Se não me engano, na parte A, mais uma vez, o compositor usou o ostinato, com frases repetidas proporcionado um veículo bem interessante para os solos de baixo e de piano. Acho que não teve solos de sopro, mas [a faixa]vale a pena por conta dos solos do baixo e do piano.”

FAIXA 6 “Samba de Igreja”

“Essa é um samba de gafieira, com a harmonia propícia para abrir para o solo. Até agora, o melhor solo do trompetista no disco. Ele está mais desenvolto, seguro e mais solto. No sax alto, não sei se é o mesmo músico do tenor e da flauta. Pareceu um solo mais agressivo e mais intenso ritmicamente. Gostei muito da condução de samba da bateria. Me lembra o Cuca. Muita gente conhece o Cuca em outras vertentes da música instrumental e pouco se comenta sobre ele tocando música brasileira, e eu adoro. Além do timbre, da condução e da firmeza, ele é um baterista muito criativo e cheio de ideias. Gosto muito de tocar com ele, não importa o estilo, porque sei que ele vai colocar sua personalidade no som, sem interferir na música. Ele é sempre pró-música, a favor d a música e do coletivo. O samba do Cuca é com groove, desenvoltura e com a marca dele. A condução dele com o Thiago mostra um entrosamento perfeito que contribui para o solo dos metais.”

FAIXA 7 “O Aroma da Manhã”

“É uma bossa nova com harmonia bonita e interessante, que dá margem para o improviso, mas a melodia é totalmente estranha para o que está rolando. Parece que o cara bolou uma harmonia bacana e depois pensou ‘Preciso botar uma melodia’, e ficou estranho. Jogou um trem diferente. Ele [o trompetista] interpretou de uma maneira sentimental, está afinado. Se eu tivesse feito uma harmonia como essa, não teria colocado tema, se não fosse algo interessante para colocar. Seria melhor se ele saísse improvisando, porque tinha mais margem para isso. Tem um solo de piano lindíssimo, porque a harmonia favorece isso. A sequência harmônica da música é muito melhor do que a melodia que ele criou em cima.”

FAIXA 8 “Finalmente”

“Um samba com uma melodia interessante. Uma forma AB, se não me engano. Gostei do solo do sax tenor. O melhor dos solos de tenor até agora. O músico conseguiu escorrer as ideias através da harmonia com uma boa desenvoltura. O trompete achei mais tímido, ele poderia ter explorado um pouco mais a harmonia. Se ele for o compositor da música, dava para ele ter tocado um pouquinho mais com a ‘cozinha’. O tenorista consegue isso, interagindo mais Tenho impressão de que o compositor deve tocar algum instrumento harmônico, pois você percebe que a sequência é inteligente sempre, nem sempre a melodia condiz com a harmonia. Nesse samba, rolou uma combinação melhor entre elas do que na faixa anterior. Um disco não precisa ter tantas faixas. Isso é um erro que algumas pessoas cometem quando vão gravar. Quando escuto um disco de música instrumental, quero escutar o que os integrante têm a dizer. Solos mais curtos, para poder gravar mais faixas, porque às vezes a pessoa tem muitas composições, fica parecendo um coito interrompido. O solista podia ter mais espaço para poder dizer alguma coisa. No caso, poderia ser mais explorado o solo de baixo, de batera e do piano, que só vai acrescentar e o disco só vai ganhar em ideias. Como é difícil gravar um disco e juntar o pessoal, às vezes querem gravar tudo de uma vez só, mas não têm tempo de desenvolver uma ideia. Prefiro escutar um disco com meia hora, mas com quatro músicas com espaço para se desenvolver.”

FAIXA 9 “Célia”

“Essa faixa é um choro lento e mais uma vez não entendo a combinação da harmonia com a melodia. Parece uma colagem. Não faz sentido melodicamente para mim. Está bem tocado. A articulação que o trompetista usa é coerente. A afinação existe, ele está afinado. O solo do sax está um pouco mais desenvolto que o do trompete. Falta recurso do solista como improvisador. O solista não precisa ser um bom improvisador. Ele pode ser um bom melodista. Por exemplo, um trompetista da antiga, que não era um bom improvisador, mas um excelente solista, era o Maurílio [Maurílio da Silva Santos], do Rio de Janeiro. Ele tinha um som lindo, colocava as coisas nos lugares certos. Sabia a hora de oitavar e tinha um som ‘gordo’ no grave e cintilante, com um brilho bonito, no agudo. Dos solistas que improvisam bem e têm desenvoltura posso citar o Jericó, que tem um recurso melódico acima da média. Aqui no disco está faltando para o solista um banho de improvisação, com recursos de improvisação. Ele precisaria estudar mais improvisação, com mais seriedade, para poder expressar o que quer. Com certeza, deve ter muita coisa na cabeça dele. Tecnicamente, está correto, mas acho que falta segurança como solista tanto na interpretação da melodia e principalmente na hora de improvisar. Falta conhecimento de improvisação, de como ele quer improvisar, e aí entra estudar transcrições de solo, escutar bastante e estudar o desenho dos grandes solistas. Não é só tirar as frases dos grandes solistas, porque as vezes você tira as frases , mas não sabe como montar. Tem que entender o gráfico do solo. Você pega o solo do Coltrane [John Coltrane] e percebe que, às vezes, ele sai do nada e entrega no tudo. Por exemplo, o Clifford Brown era lírico, mas tinha explosão. Então tem que estudar como esses caras começam o solo e desenvolvem a ideia antes de arrematar o solo. É um discurso e acho que falta um pouco desse recurso para o trompetista.”

FAIXA 10 “Canto Louvado Canto”

“De longe, é a faixa mais bonita do disco, com essa introdução linda de flauta. A melodia lembra um pouco as músicas do Milton [Nascimento], com uma melodia no agudo. É uma moda caipira, com tratamento harmônico simples, mas que tem a ver com o que está na melodia. Se o compositor é o mesmo, ele acertou a mão nessa música. Acho que ele podia seguir, em um próximo disco, em uma linha mais nesse sentido. Com relação às outras faixas, me parece que ele quis compor uma coisa em cada estilo, um samba, um choro, um baião, uma salsa. Às vezes, isso tira um pouco da identidade do que ele é. Nessa música ele foi muito feliz. Uma bela maneira de encerrar um disco. Um solo de piano lindo; uma condução do contrabaixo muito interessante, com as inversões de baixo e um caminho criativo. Simples, mas direto ao assunto. Ficou uma coisa que me tocou. Gostei muito dessa faixa. A combinação do timbre da surdina com o da flauta sempre funciona muito bem. São timbres que se complementam. A melodia é simples, mas é emotiva e me tocou no sentido da mensagem que ele quis passar. Fiquei realmente feliz com essa faixa. O disco vale a pena para mim nessa faixa.”

O trompetista Daniel D´Alcantara no estúdio de sua casa, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

AVALIAÇÃO PONTUAL

INTÉRPRETE

“Regular.”

COMPOSIÇÕES

“Regular.”

HARMONIA

“Bom.”

RITMO

“Bom.”

MELODIA

“Bom, pela última faixa, mas no geral regular.”

ARRANJO

“Bom.”

SOM (CAPTAÇÃO, MIXAGEM E MASTERIZAÇÃO)

“Muito bom.”

CONSIDERAÇÕES GERAIS

“ Desconfio que seja o Tião Bazotti tocando trompete. A impressão que tenho é que essa é uma ‘cozinha’ muito boa, que acho que ficou presa ao sistema de gravação usado. Se foi gravado separado, foi mal aproveitado nesse sentido. O solista pode melhorar. Ele precisa entender o que ele quer como solista e o que precisa para chegar no ponto que ele quer. Nesse sentido, ele me soa ainda um solista imaturo. Que sirva para ele poder trabalhar o que não deu certo, para ele desenvolver. Ele tem potencial para crescer muito. O fato de ele chamar bons músicos- a cozinha é melhor do que ele-, no sentido de experiência, deve ser usado para puxá-lo mais para cima. Ele deve se inspirar nisso e crescer como solista, como músico e compositor. A ideia de chamar músicos top é admirável, uma coragem que ele tem que manter.”

CD REVELADO

Após a audição às cegas, foi revelado ao trompetista Daniel D´Alcantara que “Finalmente” é o CD, com 10 músicas autorais, de seu companheiro de instrumento, Tião Bazotti, que chama o que toca de “Brazilian Jazz”. Também foram reveladas todas as informações sobre o disco, seus participantes, ficha técnica, capa e encarte.

Diante das revelações, D´Alcantara complementou sua avaliação. “Continuo mantendo o Bom em minha avaliação. O Tião é um amigo meu de longa data. Eu o conheço há muitos anos, desde que estudamos juntos na Escola Municipal de Música. Ele é um batalhador. Ele vinha de madrugada de uma cidade próxima a São José do Rio Preto para ter aulas de manhã e voltava no mesmo dia. A atitude dele em chamar essa ‘cozinha’, com esses músicos, para um primeiro CD é corajosa, extremante louvável. Sou a favor da ideia de que temos que tocar sempre com músicos melhores do que nós. Um CD é um registro permanente. Que ele use isso como um ponto de partida. Ele tem que se desenvolver mais como solista e como improvisador, como falei antes de saber que o disco era dele, para poder se expressar melhor. Sei que há uma série de coisas dentro dele que não estão nesse CD. Talvez ele precise tocar mais. Não escuto muito do Tião no cenário da música instrumental. Se dá muita importância para um trabalho autoral, só que o cara esquece que, antes de ser autoral, ele é um intérprete. Então, por que não gravar músicas conhecidas? Pode ser autoral, mas você tem que estar muito pronto para isso. Tocar o que é consagrado talvez facilite o caminho para ele se expressar. O disco é bom, mas ficou faltando o lado dele como solista.”

Perguntado se há espaço para esse disco no mercado, D´Alcantara respondeu: “Sim. Ele precisa adquirir mais horas de voo como solista. Talvez, ele precise fazer mais sons como side man, pois isso vai trazer mais som para o som dele. Ele é um cara assíduo como espectador, mas não o vejo tocando. Tem que montar um time que queira tocar mais com ele. Talvez se ele tivesse feito isso antes de gravar o disco teria outro patamar. Gostei da escolha desse CD para avaliar. Fiquei contente por Tião ter gravado com esse time muito bom, e desejo que ele consiga deslanchar na carreira como intérprete e solista.”

AVALIAÇÃO DE DANIEL D´ALCANTARA

“Bom”

Capa do disco “Finalmente”, de Tião Bazotti (Foto: Carlos Bozzo Junior)

FINALMENTE

ARTISTA Tião Bazotti
GRAVADORA Independente
QUANTO R$ 25