Chorando em São Paulo

Por Carlos Bozzo Junior
Sexteto Panorama (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Acontece no próximo sábado (18) e domingo (19) o show de lançamento do CD “Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo- Volume 2”, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Durante as duas apresentações, 13 composições inéditas, compostas por músicos do naipe de Dominguinhos (1941-2013), Toninho Carrasqueira, Arismar do Espírito Santo e Gian Correa, entre outros, serão interpretadas por alguns de seus criadores, acompanhados por um grupo musical forte: o Sexteto Panorama.

Formado pelo som do clarinete de Alexandre Ribeiro; do sax e da flauta de João Poleto; do violão de 7 cordas, de Gian Correa; do cavaquinho e bandolim, de Henrique Araújo; e das miudezas percussivas- tamborim, reco-reco, triângulo, ganzá, além de pandeiros e surdo- de Yves Finzetto e Roberta Valente, o grupo conta ainda com a participação de instrumentistas igualmente poderosos, como o violonista João Macacão, no violão de 7 cordas, e a pianista Lea Freire.

O Música em Letras entrevistou a única mulher do grupo e uma das idealizadoras do projeto, a pandeirista paulistana Roberta Cunha Valente, 46, que gosta de tocar cavaquinho nas poucas horas vagas que lhe restam, pois também é uma ocupada produtora.

Assista, no final do texto, ao vídeo gravado exclusivamente para o Música em Letras, no qual o grupo interpreta “Passando a Bola”, de Mestrinho.

O PROJETO

A artista, chorona há 25 anos, desde que começou a tocar pandeiro, sempre teve o sonho de registrar as composições de seus amigos chorões. Foi de uma frustração que Roberta idealizou o projeto. “Eu via composições incríveis, totalmente inspiradas e não tinha nada disso registrado. Não havia CD, e nem um projeto que valorizasse o compositor de choro de São Paulo. Isso me frustrava bastante”, falou a pandeirista que, junto com Yves Finzetto, companheiro de sexteto, realizou o projeto.

A ideia é mostrar a cena do choro em São Paulo, na qual figuram sambistas e compositores de choro, como Maurílio de Oliveira e Everson Pessoa, e músicos ligados à música instrumental e ao jazz. Conseguiram.

PRIMEIRO CD

Capa do primeiro CD do grupo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Segundo Valente, para o primeiro CD do projeto foram escolhidas 16 composições de seus ídolos. Entre os mais conhecidos, Zé Barbeiro (violão de sete cordas); Alessandro Penezzi (violão de seis e sete cordas); Danilo Brito (bandolim); além de compositores tradicionais do gênero, como Izaías Bueno de Almeida (bandolim), Israel Bueno de Almeida (violão de 7 cordas) e Arnaldinho Silva (cavaco).

João Poleto, integrante do sexteto, também teve seu lugar garantido na bolachinha ao lado do violonista Edmilson Capelupi, do acordeonista Toninho Ferragutti e do pianista Laércio de Freitas. O violonista Ruy Weber, morto recentemente, também está no disco com sua composição “Choro 88”. O homem dos sopros, Proveta, e o violonista Edson José Alves, ambos da banda Mantiqueira, mostram respectivamente “Do coreto para Roberta” e “Canção Inesperada”. O bandolinista Miltinho Mori aparece com “Saudades de Radamés”, enquanto o trio Everson Pessoa, Luizinho 7 cordas e Maurílio Oliveira participaram gravando “Curioso”, uma parceria dos três.

SEGUNDO CD

Capa do segundo CD do grupo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

No segundo disco, que será apresentado nos shows deste final de semana, estão presentes 13 compositores, dois deles, Gian Correa e Henrique Araújo, integrantes do Sexteto Panorama. “Por um triz”, de Gian Correa é uma composição muito rica harmonicamente e que se aproxima da música contemporânea, “É um choro denso, lento e muito bonito. O modo dele compor é muito moderno, criativo e essa música tem uma influência erudita”, comentou a pandeirista.

“Vaqueiros dos Mourões”, do virtuose bandolinista Fábio Peron, é uma homenagem aos colegas de profissão que gostam de varar a noite bebendo e tocando. Segundo Valente, trata-se de uma música rápida e animada, com muita pressão e executada de modo virtuosístico.

O flautista Toninho Carrasqueira contribuiu com “Choro em Ubatuba”, mostrando ser muito influenciado pela música erudita, mas também ser um grande chorão. O choro cadenciado e melodioso recebeu da pandeirista a qualificação: “Lindíssimo”.

Segundo Valente, há no choro a tradição de compor para homenagear um amigo. Em “Sem dó nem piedade”, a flautista, pianista, arranjadora e compositora Léa Freire mata dois coelhos numa cajadada só, homenageando, ao piano, os irmãos chorões, Izaías Bueno de Almeida (bandolim) e Israel Bueno de Almeida (violão de 7 cordas). “Ela escreveu os arranjos para todos integrantes do sexteto e para o piano também. É um choro com uma harmonia sofisticada pra caramba”, disse Valente. Na mesma praia de homenagear um amigo músico, o violonista de 7 cordas Osvaldo Colagrande compôs “Pascaleando”, dedicada ao músico de sopro Paulo Pascale.

A música de Dominguinhos “Choro pro Luca”, também tem história. Segundo a percussionista, Beto Mendonça, proprietário do Estúdio 185, onde os dois CDs do projeto foram gravados, estava gravando uma série de músicas com o sanfoneiro e o presenteou com o primeiro disco do projeto. No dia seguinte, Dominguinhos, ao retornar ao estúdio, disse ter adorado o trabalho do sexteto Panorama e, por isso, havia composto um choro para eles. Mendonça gravou a sanfona de Dominguinhos. “Aí o Gian Correa ouviu e fez um arranjo para o sexteto, em que primeiro figura só o Dominguinhos tocando acordeom, da maneira como foi gravado, depois entramos tocando com ele.”

SHOW

Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo, show que acontece sábado e domingo, no Sesc Pompeia (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Embora o disco esteja pronto já há algum tempo, a agenda de tantos músicos importantes e requisitados impedia a realização do show de lançamento. A intenção de Valente era convidar todos os compositores que estão no disco para o espetáculo de lançamento do “Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo- Volume 2”.

Entretanto, dois deles, o sanfoneiro Dominguinhos e o violonista Osvaldo Colagrande, que acompanhou vários solistas, entre eles, Waldir Azevedo (1923-1980), Jacob do Bandolim (1918-1969) e Pixinguinha (1897-1973), morreram. Ou como diz Valente, citando Rolando Boldrin: “Foram embora antes do combinado”.

Uma pequena entrevista gravada com cada compositor do projeto, à exceção de Dominguinhos, morto antes de sua realização, será projetada antes da apresentação de cada música.

Ainda há muitos compositores que ficaram de fora desse projeto. “Não gravamos nem um décimo do que existe de ótimo em termos de composições em São Paulo”, disse Valente.


PANORAMA DO CHORO PAULISTANO CONTEMPORÂNEO – VOLUME 2
ARTISTAS Vários
QUANTO R$25
GRAVADORA Independente

SHOW DE LANÇAMENTO DO CD PANORAMA DO CHORO PAULISTANO CONTEMPORÂNEO – VOLUME 2
QUANDO Sábado (18), às 21h; e domingo (19), às 19h
ONDE Sesc Pompéia, r. Clélia 93, tel. (11) 3871-7700, São Paulo
QUANTO De R$ 9 a R$ 30