Gigante do clarinete, Alê Ribeiro lança CD em show

Por Carlos Bozzo Junior
Alê Ribeiro, o gigante do clarinete (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Alê Ribeiro, o gigante do clarinete (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Com um talento gigante, asseverado pela excelência como instrumentista, compositor e arranjador, o clarinetista Alexandre Messias Alves Ribeiro, 34, conhecido por Alê Ribeiro, faz show de lançamento do CD “De Pé Na Proa”, no Sesc Pompeia, amanhã (10), às 21h. O artista divide o palco com o quinteto Sujeito a Guincho e a dançarina Flaira Ferro.

O Música em Letras esteve na casa de Alê Ribeiro na última segunda-feira (6), conversou e gravou (assista ao vídeo no final do texto) o músico que nasceu em São Simão, cidade próxima a Ribeirão Preto, cerca de 280 km da capital paulista.

Atualmente, o artista desenvolve um trabalho com música popular brasileira, mas no início de sua carreira, há 20 anos, Ribeiro tocava em orquestra. No último ano do curso de música da UNESP, que daria a ele o título de Bacharel em Música, o clarinetista parou de estudar. “Nessa ocasião, eu já estava muito envolvido com música popular. Faltavam apenas duas disciplinas para terminar a faculdade, mas eu estava morando longe da universidade e já viajava muito para tocar. Por isso, optei por desistir”, falou Ribeiro que mora em São Paulo há 18 anos.

A discografia de Ribeiro inclui, além do primeiro disco, “Tributo a Altamiro Carrilho” (2007), com o grupo Ó do Borogodó, dois CDs em que atua como solista no Sexteto do Panorama, “Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo- Volume 1” (2011) e “Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo- Volume 2 ” (2015), um com o grupo Roda de Choro, “Quarteto Roda de Choro” (2015), dois CDs com o violonista Alessandro Penezzi, “Cordas ao Vento” (2009) e “Ao Vivo na Bimhauis-Amsterdam” (2011), e mais dois discos solo, “Alexandre Ribeiro Quarteto” (2014) e, agora, “De Pé Na Proa” (2016).

Além dos oito discos, Ribeiro participou de uma centenas de outros CDs, lapidando com seu som trabalhos de outros artistas. Entre eles, os das cantoras Tulipa Ruiz, Verônica Ferriani, Luciana Mello, Consuelo de Paula e Corina Magalhães.

Shows, Ribeiro já perdeu a conta de quantos realizou. As cantoras Dona Ivone Lara e Teresa Cristina, os cantores Toquinho, Jair Rodrigues (1939-2014) e Dominguinhos (1941-2013) tiveram o apoio de seu som. Mas um, entre tantos, o desconcertou. Foi o show com Pena Branca (1939-2010) que fazia dupla com o irmão, Xavantinho (1942-1999). “ Foi em Araraquara. Passando o som, tocamos ‘Jardim da Fantasia’, do Paulinho Pedra Azul, e entrei em contato direto com a simplicidade e grandiosidade daquele santo negro, que eu ouvia desde pequeno, e chorei muito. Tive que sair correndo do palco para o banheiro, por não conseguir segurar minha emoção. Não dá para tocar e chorar ao mesmo tempo, é impossível”, contou o clarinetista.

O clarinetista Alê Ribeiro em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O clarinetista Alê Ribeiro em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

NOVAS SONORIDADES

Na infância, mesmo sem se sentir especialmente atraído pela música, numa mesma tarde de domingo ouvia Tião Carreiro (1934-1993) e Pardinho (1932-2001), Madonna, Camisa de Vênus e Pink Floyd, sempre ao lado do pai, um eclético.

Ribeiro gosta muito de “fazer um som”. Passou por uma fase em que abraçou o preconceito. Tocando apenas choros, fechou os ouvidos e a alma para outros gêneros. Há cerca de três anos, trabalhando com Tulipa Ruiz, amadureceu ao perceber que gostava de outros estilos musicais, deixando para trás um universo engessado por um estilo musical. Assumiu o gosto por outras músicas, timbres, performances, tecnologia, se encantou, e trouxe tudo isso para mais perto de seu instrumento.

“Comecei a me interessar pelos sons de pedais de efeito, tipos de distorção, reverb, delay, e acabei comprando um pedal de looping que é muito útil para ‘loopar’ (repetir) uma base enquanto improvisamos. Passei a ficar horas assoviando, batendo palmas, tocando com esse brinquedo e fazendo um som. Quando percebia, tinha criado um groove gigante”, falou o músico que depois comprou um pedal harmonizador, para abrir outras vozes de seu instrumento, o clarinete.

Contudo, a experiência com a tecnologia não passava de uma brincadeira. “Por ter muito pudor, achava que para tocar com aqueles equipamentos e fazer aquele tipo de som eu precisaria mudar minha postura, inclusive vestir outras roupas, falar de maneira diferente e perder minha origem interiorana. Não conseguia juntar meu mundo do choro, minha forma de tocar, e aquele mundão novo que havia se aberto para mim”, contou o artista que no final de 2015, decidiu fazer um disco solo incorporando a nova sonoridade.

O compositor e instrumentista Alê Ribeiro na piscina de onde mora, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O compositor e instrumentista Alê Ribeiro na piscina de onde mora, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

POSIÇÃO DE COMANDO

O instrumentista passou a tocar botando o dente na palheta, com uma embocadura torta, além de tirar sons diversos recorrendo a uma técnica expandida no instrumento. Além disso, distorcia, repetia, harmonizava e colocava mais efeitos no que tocava. Tomou coragem e fez alguns grooves de samba e choro utilizando tudo isso. Surpreendeu-se com o resultado e ao lado do mago dos produtores, o violonista Swami Junior, entraram no estúdio e gravaram “De Pé Na Proa”, que tem esse nome por remeter a uma posição de comando. “É a posição de quem conduz o barco e nesse disco eu é quem conduzo meu som.”

O disco é uma mistura das descobertas sonoras de Ribeiro, com um som que já existia dentro dele, mas que o preconceito não deixava eclodir. “Esse disco é um marco para mim pelo fato de eu não ter que negar uma coisa para fazer outra, que é uma coisa que muitos artistas fazem. O cara, às vezes, para fazer um som pop, nega que tocava com a rapaziada do samba no gueto. Eu aprendi que você não precisa negar nada. Você só soma dentro de seu trabalho”, disse o artista que, agora, se sente livre produzindo um novo tipo de som e já pensa em gravar com o grupo Barbatuques.

Entre as dez faixas do disco, duas músicas são solo, “De Fianco” (assista ao vídeo), sem o uso de pedais, e “Lau e Joji”, que conta com um loop, mas só como ornamento. As demais, “Canto pras Almas”, uma releitura de domínio público, “O Andarilho”, “De Pé Na Proa”, “Obrigado”, “Na Trilha da Trilha”, “Chalumô” e “Clarinete Psicose”, são todas de autoria de Ribeiro. “Ranquei”, dele com Swami Junior e Thiago “Big” Rabello, foram compostas para esse projeto que engloba um nova e libertadora sonoridade do instrumentista.

Capa do CD "De Pé na Proa", de Alê Ribeiro (Foto: Carlos Bozzo JUnior)
Capa do CD “De Pé na Proa”, de Alê Ribeiro (Foto: Carlos Bozzo JUnior)

O SHOW

No show de amanhã, além das músicas do disco, há uma composição de Ribeiro escrita especialmente para o quinteto de clarinetes Sujeito a Guincho, “Vinheta dos Estilhaços”, anteriormente composta para a peça de teatro, “Garrincha”, de Bob Wilson. “Peguei essas vinhetas, que havia criado para a peça, e as transformei em uma peça para quinteto e solista”, contou o autor do disco que também utilizará o grupo na execução de “Canto pras Almas”, que no disco traz seis vozes humanas sendo transformadas em vozes de clarinetes, além da valsa superlenta “Obrigado”.

Surpresa garantida no show é o arranjo para “A Saudade Mata a Gente”, de Antônio Almeida e João de Barro, escrito por Luca Raele, um dos integrantes do quinteto de clarinetes, que convidará Ribeiro para executar a peça no palco.

A bailarina Flaira Ferro, que já dançou em improvisações de Ribeiro, fará no show uma performance com a música “A Bailarina”, que o clarinetista escreveu para sua filha Laura pensando em Flaira Ferro dançando-a. “Essa música começa com uma valsa, passa por umas coisas malucas, em que misturo sons com os pedais, antes de virar um frevo, passar por umas pirações em um outro compasso totalmente maluco e voltar para a valsa singela do início, em uma outra ambiência.”

Durante o espetáculo, Ribeiro toca clarinete, clarone e chalumeau, instrumento de sopro de madeira, precursor da clarineta.

O cientista inglês Isaac Newton (1643-1727) costumava dizer: “If I have seen further than others, it is by standing upon the shoulders of giants” (Se eu tenho visto mais do que outros, é por estar sobre os ombros de gigantes). Vá ao show, coloque-se nos ouvidos de Alê Ribeiro e ouça mais do que os outros.

A seguir, assista ao vídeo no qual o instrumentista interpreta “De Fianco”, peça solo que transita no universo da música contemporânea, escrita por Alê Ribeiro para clarinete. Nela o artista tenta tirar de seu instrumento todos os recursos e sons, por meio de técnica expandida e muita prática em cima de dinâmica, velocidade e notas agudas.

CD DE PÉ NA PROA

ARTISTA Alê Ribeiro                                                           GRAVADORA Borandá                                                               QUANTO R$ 25

SHOW DE LANÇAMENTO DO CD DE PÉ NA PROA
QUANDO Amanhã, sexta-feira (10), às 21h
ONDE Teatro do Sesc Pompéia, r. Clélia, 93, São Paulo, tel. (11) 3871-7700
QUANTO De R$ 6 a R$ 20