“Deu Onda”, a musa do verão

Por Carlos Bozzo Junior
(Fotomontagem: Carlos Bozzo Junior)
(Fotomontagem: Carlos Bozzo Junior)

– Zozzo, você viu, ouviu, dançou ou cantou “Deu Onda”, do MC G15?

Era um daqueles músicos puristas e chatos, no telefone, fazendo o que alguns deles fazem: cobrar do Música em Letras uma posição diante da tal música obrada para ser sucesso neste verão.

– Sim, e senti o cheiro também.

– Sério, Zozzo! Você precisa falar que isso é uma zosta!

– Pera lá, eu disse obrada, mas não que era uma zosta. Nem cheiro disso ela tem. Ela cheira a nada.

– Como assim?

– Leia a letra:

“Deu Onda- Meu pau te ama”

Eu preciso te ter
Meu fechamento é você, mozão

Eu não preciso mais beber
E nem fumar maconha
Que a sua presença me deu onda

O seu sorriso me dá onda
Você sentando, mozão, me deu onda

Que vontade de ter [aqui “ter” escamoteia a palavra cantada, “foder”], garota
Eu gosto de você, fazer o quê?
O pai [aqui “o pai” escamoteia o que é cantado, “meu pau”] te ama

Que vontade de ter [foder], garota
Eu gosto de você, fazer o quê?
Meu pai [meu pau] te ama, é

Meu pai [meu pau] te ama
Meu pai [meu pau] te ama, é
Meu pai [meu pau] te ama

 

– Não preciso ler, já conheço –, disse o chato abreviando a charla.

– Ótimo, então perceba sua eficiência. Clara e direta, “Deu Onda” foi composta para você repetir, sem precisar nem mesmo se dar ao trabalho de decorar. Ela é feita para isso, para nada.

– E daí?

– Daí, nada. Se ela é nada, talvez seja, zen…

– Mas você não vai falar nada sobre ela no seu blog?

– Falar sobre o nada? Ok. No nada há frases, só isso. Capciosas, aproveitam da similaridade dos sons das palavras para causar o manjado efeito, no ouvinte, de que ele é esperto e descolado por perceber a brincadeira “supermegainteligente” do autor. Brincadeira igual àquela de dizer rápido as palavras: “vivo, lixo, pano”. Ritmo, melodia, harmonia e timbre, tudo passa longe de uma música de qualidade, mas não deixa de ser a musa deste verão, que embala dancinhas coreografadas, gravadas e postadas por celebridades e anônimos de todo o território nacional. Na real, ela é o nada e, sendo o nada, talvez seja zen, zen ruim e zoa ao mesmo tempo. Sei lá…

– Ok, Zozzo.