Retrospectiva 2016 – Sons, músicas e ruídos do ano

Por Carlos Bozzo Junior
(Fotomontagem : Carlos Bozzo Junior)
(Fotomontagem : Carlos Bozzo Junior)

Na retrospectiva de 2016 do Música em Letras, você terá acesso a uma seleção de trechos e fotos de alguns dos 150 posts publicados, assim como a gravações das 130 realizadas com exclusividade para o blog.

O Música em Letras agradece quem o acompanha e deseja a todos um ano novo repleto de sons, músicas, ruídos, cantos, gorjeios, trinados, solos, graves, médios, agudos e bastante silêncio para ouvirmos tudo isso e o que mais vier.
Boa navegação e excelente 2017!

CHORA, TOM ZÉ

Sem Noção – “Dois tempos de um lugar”, por Tom Zé

O músico Tom Zé participando da audição às cegas para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico Tom Zé participando da audição às cegas para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

“Quando eu era pequeno não era moda chorar. A gente, que vivia no Nordeste, pensava que jamais alguém iria pinçar alguma coisa daquela vida, daquele tempo e daquele lugar. Quando era bem jovem e comecei a ler a primeira parte de ‘Os Sertões’, eu chorei e tremi, porque Euclides falava daquele povo que eu atendia no balcão da loja de meu pai. Naquele tempo, se pegassem uma criança chorando por essa razão, como não havia psicólogo nem nada, diriam que eu estava com um santo errado que baixou em mim, ou que eu não tinha uma cabeça certa, porque não se chorava à toa. Por isso, eu tinha vergonha de chorar, e agora também, mas estou chorando. Ainda tenho vergonha desse tipo de coisa, me respeito, mas o simplório aqui está arrodeado e é elevado a uma magnitude absurda. Principalmente nesse verso: ‘Eis que uma brusca mudança de cena/Leva os olhares lá pruma morena’. Que coisa bonita!”.

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 12/08/2016)

DIZER SÓ “OBRIGADO” VIROU ARTE

(Fotomontagem: Carlos Bozzo Junior)
(Fotomontagem: Carlos Bozzo Junior)

Quem procura agradar a todos, não agrada ninguém. Isso também vale para quem agradece? Sim.

Há muito virou praxe em finais de shows – geralmente antes do bis – , o artista agradecer às pessoas participantes do evento: “Quero agradecer ao Luiz da luz; ao Giba do som; à Lu, nossa produtora; ao Paulo, pela colaboração; ao Zé, nosso roadie; à dona Maria pelo café; ao seu Luís, por nos transportar; a essa equipe [sempre] ma-ra-vi-lho-sa daqui do [entra o nome da casa ou da organização que promoveu o evento], que nos acolheu de uma maneira [sempre] in-crí-vel. Luli, adorei! E, gente, obrigado por vocês terem vindo!”

Além de silenciar a música a que o público estava exposto, trazendo-o de maneira enfadonha de volta à realidade – cortando o barato, pisando na bola e estragando tudo -, perceba que ninguém nesses híbridos discursos de agradecimento tem sobrenome. Desnecessárias, essas falas veiculam informações sem qualidade. Qualquer um pode ser Zé, Maria, Giba, Paulo (que colaborou com o quê mesmo?), Lu e Luli (o que fez a Luli, pelo amor…!). Idem para Luiz, com “s” ou com “z”, com acento ou sem, tanto faz. Nem o aliterado “Luiz da luz” escapa. Tem uma pá deles pelos palcos do mundo. Dar sobrenome aos bois alongaria mais ainda a tortura. Mas, não é essa a questão.

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 15/09/2016)

MARLUI MIRANDA E O TRACAJÁ

A cantora e compositora Marlui Miranda ensaiando em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
A cantora e compositora Marlui Miranda ensaiando em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

A cantora, compositora e pesquisadora da cultura indígena brasileira Marlui Miranda, 67, apresenta hoje (19), no Auditório Ibirapuera, o show de seu CD “Fala de Bicho, Fala de Gente” (2014), com releituras de cantigas tradicionais da etnia juruna/yudjá, localizada na região norte do Parque Indígena do Xingu, Mato Grosso, e no baixo rio Xingu, Pará, na terra indígena Paquiçamba.

O Música em Letras acompanhou o ensaio do espetáculo e conversou com a artista, que no show canta e toca violão. Perguntada se, como no disco, iria tocar casco de tracajá, instrumento musical indígena feito com o casco dessa tartaruga de água doce em risco de extinção, disse que não. “É proibido por lei portar esse instrumento, porque é feito de parte de um animal. É um instrumento com o qual que você não pode viajar porque pode ser confiscado por autoridades nos aeroportos e o portador sofre uma penalidade. Usei na gravação apenas”, contou a cantora sobre o instrumento cujo som varia de acordo com o tamanho do casco. “Quanto menor o tamanho do animal, mais agudo será seu som, e quanto maior, mais grave.”

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 16/11/2016)

MACUMBA DE VADICO

Resgatado no Sebo – “Por trás do contrabaixo-Copacabana 1950/1960”, as décadas de ouro das boates cariocas

Capa do livro “Por trás do contrabaixo - Copacabana 1950/1960”, de Dalton Vogeler (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do livro “Por trás do contrabaixo – Copacabana 1950/1960”, de Dalton Vogeler (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Também, segundo o autor do livro, foi Vadico (1910-1962) parceiro de Noel Rosa (1910-1937) quem chegou em um bar vagabundo da avenida Princesa Isabel, onde funcionava um dos pontos de encontro de músicos no Rio de Janeiro, e distribuiu charutos e cinco garrafas de cachaça aos companheiros de labuta para serem consumidos ali, no ato. Tarefa acordada e cumprida, um dos músicos sugeriu ao autor de “Pra que mentir”, parceria com Noel Rosa, que da próxima vez comprasse mais cachaça e mais charutos para ninguém “bronquear” que eram poucos, ao que Vadico respondeu: “Comprei coisa nenhuma. Eu apanhei todo esse troço numa macumba enorme ali no cruzamento da rua Padre Antônio Vieira com Augusto Sampaio”.

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 03/11/2016)

BARULHO NA EXPOMUSIC

Mostrador de um decibelímetro do celular do repórter marcando, na feira o nível do ruído de 89 db, equivalente ao de uma motocicleta  (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Mostrador de um decibelímetro do celular do repórter marcando, na feira o nível do ruído de 89 db, equivalente ao de uma motocicleta (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras visitou, no último sábado (24), a 33ª Feira Internacional de Música, a Expomusic 2016, no pavilhão de exposições do Anhembi, em São Paulo, onde não se ouvia nada, além de muito barulho.

Encerrada no domingo (25), a mostra reuniu durante cinco dias cerca de 130 empresas expositoras de instrumentos e equipamentos musicais – que representam mais de 300 marcas nacionais e estrangeiras. As vendas realizadas no período ficaram em torno de R$ 240 milhões, entre instrumentos, equipamentos eletrônicos, acessórios, tecnologia e outros produtos e serviços.

Contudo, o elevado número de visitantes, além do alto nível de ruído no local – com várias pessoas tocando diversos tipos de instrumentos, cantando e dando palestras ao mesmo tempo, sem isolamento acústico algum- fizeram da visita uma experiência insuportável.

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 27/09/2016)

CYRO BAPTISTA DECOLA ALMAS

O percussionista e compositor Cyro Baptista (Foto: Divulgação)
O percussionista e compositor Cyro Baptista (Foto: Divulgação)

Após três anos de elaboração, produção e gravação, o percussionista Cyro Baptista, 65, lança “BlueFly”, CD incrível que decola almas levando-as pelas orelhas, mas sem doer, a viagens musicais de primeiríssima classe.

Se você está cansado de percorrer os mesmos caminhos sonoros, que levam aos mesmos e manjados destinos por meio da música, esse disco e esse artista irão surpreendê-lo. Cyro Baptista é brasileiro, há muito radicado em Nova York, mas seu som, talento e criatividade são de outro planeta.

O Música em Letras entrevistou, por e-mail, o artista que é músico veterano de bandas lideradas por Paul Simon, Sting, Herbie Hancock, Yo-Yo- Ma e Laurie Anderson, além de atacar com o descolado trio de jazz Medeski Martin & Wood, entre outros. Em suas bandas, BanquetoftheSpirits e Beat theDonkey, Baptista serve a dose de loucura exata para pirar o cabeção de seus músicos e fazer com que toquem alucinados pela exímia e certeira condução do líder. O resultado? Sempre surpreendente e fantástico.

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 28/12/2016)

RAUL E SEU SOM AZUL

À esquerda, o autor do Música em Letras com Raul de Souza, na Berklee College of Music, em 1983 (Foto: Carlos Bozzo Junior)
À esquerda, o autor do Música em Letras com Raul de Souza, na Berklee College of Music, em 1983 (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras esteve na tarde de hoje (23) no apartamento do músico, na Vila Mariana, em São Paulo, onde reside metade do ano. “Na outra metade, moro em minha casa na França”, disse o artista que já tocou com os maiores nomes da música mundial, entre eles, Milton Nascimento, Sonny Rollins, Cannonball Adderley (1928-1975) e George Duke (1946- 2013).

O disco traz dez faixas autorais com temas que misturam o jazz e o samba com muita maestria. Entre eles “Descendo da Mangueira”, “Violão Quebrado”, “Ilha do Mel”, “Amigo JJ” e “Saudade do Frank”.
As duas últimas são em homenagem a dois amigos de Raul de Souza e excelentes trombonistas: J. J. Johnson (1924-2001) e Frank Rosolino (1926- 1978), ambos suicidas.

Perguntado qual a razão do suicídio desses dois brilhantes artistas, que o brasileiro conheceu intimamente, a resposta foi: “Depressão”.
Raul de Souza conheceu Rosolino quando o norte-americano participou, no início dos anos 1970, de um show beneficente organizado pelo sindicato dos músicos de Los Angeles para angariar fundos, no intuito de ajudar o trombonista brasileiro, que havia sido atropelado por um taxi em L.A. e teve o fêmur fraturado, permanecendo cerca de três meses hospitalizado. “Eu o convidei pelo telefone e ele topou na hora. Parecia que éramos amigos há séculos. No show, que participei em uma cadeira de rodas, a cada solo meu ele saía do naipe da orquestra e vinha me beijar. Nossa amizade era muito forte”, disse o trombonista que trouxe o “chapa” Rosolino para uma apresentação no festival de jazz do Anhembi, em São Paulo, no ano de 1978, meses antes de sua morte. “Ele se matou e atirou nos dois filhos por conta da depressão. A mulher dele havia morrido e ele nunca se recuperou”, falou Raul de Souza, afirmando ter sido a morte da mulher a mesma razão da depressão que pôs fim à vida de J. J. Johnson.

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 23/09/2016)

A MORTE EM TRÊS POSTS

João Borba em entrevista ao Música em Letras, em maio de 2015 (Foto Carlos ozzo Junior)
João Borba em entrevista ao Música em Letras, em maio de 2015 (Foto Carlos Bozzo Junior)

Morre o sambista, cantor e compositor João Borba.
Três posts no Facebook, na página do cantor e compositor João Borba, abalaram a todos de ontem para hoje.

No primeiro, o anúncio de que algo estava atravessando bem fora do compasso: “Oi meus amigos infelizmente estou internado no hospital Personal na Mooca”.

No segundo: “Boa noite aqui é a Salete esposa do Borba, as notícias não são tão boas o meu marido se encontra na UTI , é muito grave , estou muito triste porque os médicos não me deram esperanças . Estou usando este meio de comunicação porque ele pediu para avisar os amigos e eu não estou com cabeça para lembrar de todos obrigado a todos”.

No terceiro, às 5h de hoje, a confirmação: “Meus queridos amigos aqui quem publica e Salete Do Borba aos amigos do João Borba uma notícia muito triste recebi a notícia que ele acaba de falecer”.

Como é incerto em que parte a morte nos espera, devemos esperá-la em toda parte, até no Facebook.

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 20/09/2016)

HILDO HORA E O MESTRE CARTOLA

Rildo Hora,diretor musical do espetáculo Cartola- O Mundo é um Moinho (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Rildo Hora,diretor musical do espetáculo Cartola- O Mundo é um Moinho (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O musical “Cartola – O Mundo é um Moinho”, que retrata vida e obra do cantor e compositor carioca Cartola (1908-1980), autor, entre outras, de “As Rosas Não Falam” e “O Mundo É um Moinho” e fundador do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, estreia sexta-feira (9) próxima (só para convidados), no teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.

Com idealização do ator e produtor Jô Santana, direção e encenação de Roberto Lage, dramaturgia de Artur Xexéo, coreografia de Alex Morenno, além dos atores Flávio Bauraqui, Virgínia Rosa, Adriana Lessa e grande elenco, o espetáculo conta com a direção musical de um amigo de Cartola, o maestro Rildo Hora.

Rildo Alexandre Barreto da Hora, 77, o Rildo Hora é pernambucano de Caruaru e dono de vários atributos. Gaitista, violonista, cantor, compositor, arranjador, maestro e produtor musical, Hora ocupa lugar de destaque na história da música brasileira. Toca gaita desde os seis anos de idade, ocasião em que morava em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro. Estudou com o maestro Guerra Peixe (1914-1993). Foi “chapa” de Cartola (1908-1980) e tocou muito violão para o autor de “O Mundo é um Moinho” e para a divina Elizete Cardoso (1920-1990), entre outros artistas. Produziu discos para Antonio Carlos e Jocafi, João Bosco, Martinho da Vila, Maria Creuza, Luiz Gonzaga (1912-1989) e Zeca Pagodinho, entre tantos. Hora continua na ativa, compondo e produzindo, sempre transbordando vigor e musicalidade.

Filho de um dentista alagoano com uma pernambucana, Hora começou aprendendo com a mãe, por meio do piano, os princípios fundamentais da música, mas o violão até hoje é o seu maior mestre. “O violão é minha bíblia”, disse o maestro em entrevista ao Música em Letras, concedida no espaço onde elenco e músicos do espetáculo ensaiavam na última quarta-feira (31).

Leia, a seguir, sobre o espetáculo, os músicos, as músicas, e saiba mais sobre esse verdadeiro “homem-música” chamado Rildo Hora e seu fiel assistente Guilherme Terra, que prepara as vozes do elenco. Assista, no final do texto, a trechos em vídeo de um aquecimento vocal com os atores e partes do ensaio.

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 05/09/2016)

ELA FAZ A CABEÇA DAS CANTORAS

Gil Almeida em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Gil Almeida em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Gildete São Pedro de Almeida, 51, a Gil Almeida, é cabeleireira de artistas, modelos, atrizes e, principalmente, de cantoras da MPB.
Gil atende vários nomes da música nos mais diferentes locais- de residências a camarins, passando por estúdios e caminhões de trios elétricos-para deixar cabelos prontos, “montados”, e no ponto exato para ficarem bonitos quando “desmontam”. Tudo na maior discrição, pois foi essa atitude que lhe rendeu a confiança da seleta clientela. “Vou, faço meu serviço, ouço e falo só quando solicitada. Meu negócio mesmo é o cabelo dessas cabeças”, disse.

O Música em Letras esteve no salão onde Gil Almeida trabalha há 37 anos, no Jardim Paulista, zona oeste de São Paulo. Foi lá que Gil concedeu uma entrevista contando como é o trabalho de “fazer a cabeça” de estrelas da MPB. Entre elas, Rita Lee, Ivete Sangalo e Maria Gadú.

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 22/07/2016)

MÚSICA SAGRADA – O CANTO BIZANTINO NA IGREJA ORTODOXA

Dom Romanós e, ao fundo, o iconostácio da Catedral Metropolitana Ortodoxa, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Dom Romanós e, ao fundo, o iconostácio da Catedral Metropolitana Ortodoxa, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Qual a função da música na igreja ortodoxa? Onde escutá-la? Como ela é? Quem a executa? Quem a compõe? Essas e outras respostas você vai ler na entrevista concedida ao Música em Letras por dom Romanós Daowd, bispo auxiliar da Igreja Ortodoxa Antioquina de São Paulo, sediada na Catedral Metropolitana Ortodoxa, no Paraíso, bairro de São Paulo.

Esta matéria faz parte da série Música Sagrada, cujo intuito é mostrar, de maneira didática, como músicas, sons, letras, instrumentos e poesia se relacionam com religiões, seitas e cultos.

A primeira matéria da série abordou a música executada em templos e terreiros de umbanda (veja post do dia 02/02/2016). A matéria seguinte abordou a música que se escuta nas mesquitas, templos da religião muçulmana (veja post do dia 24/03/2016).

 

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 15/06/2016)

MERDA NANÁ, MUITA MERDA PARA VOCÊ

O percussionista Naná Vasconcelos em entrevista ao Música em Letras, em 2015 (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O percussionista Naná Vasconcelos em entrevista ao Música em Letras, em 2015 (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Quando morre um músico, é uma merda. Quando morre um músico amigo, são duas merdas. Quando um músico amigo deixa de sofrer para morrer, é tanta merda, que penso ser melhor comemorar, cantar, tocar, batucar para não chorar. Chorar, só se for de alegria. Alegria por ter conhecido- bem de perto- Juvenal de Holanda Vasconcelos, o Naná Vasconcelos (1944-2016), morto ontem (09/03), vitimado por uma parada cardiorrespiratória.

Conheci o percussionista, compositor e arranjador Naná Vasconcelos muito antes de ele me conhecer. Conhecia-o de ouvido, por meio de seu som- facilmente identificado- nos discos de Milton Nascimento e Raimundo Fagner, entre outros. O som de Naná, independente de quem ele acompanhava, trazia sempre seu CIC e RG. Era único.
Os LPs “Dança das Cabeças” (1977), com Egberto Gismonti; “Sol do Meio Dia” (1978), de Egberto Gismonti, do qual Naná participa; “Codona” (1979), “Codona 2” (1982) e “Codona 3” (1983), os três com os músicos Don Cherry (1936-1995) e Collin Walcott (1945-1984), semearam minha cabeça transformando-a com relação à música. Portas se abriram.

Em 1983, estudei na Berklee College of Music, em Boston, passando a apreciar mais ainda o som com o qual a “gringaiada” pirava. O som de Naná. Colegas perguntavam se eu o conhecia, mas na ocasião, só de ouvido.

Em 1992, morei em Londres, onde, além de tocar na rua e em alguns bares, “atacava” de garçom no Royal Festival Hall. Em um dia de folga, presenteado com ingressos pelo gerente, que perdeu uma aposta achando que o teatro não lotaria, fui assistir ao show “lotadaço” de Caetano Veloso, Circuladô. Ali, no intervalo, no foyer do teatro, avistei sozinho, quase escondido em um canto, Naná. Não resisti e fui até ele. Confirmado, era o homem, o artista e um dos caras mais humildes que conheci. Ficamos amigos.

De volta ao Brasil, já trabalhando na Folha e cobrindo um dos PercPans (Panorama Percussivo Mundial), ouvi de uma jovem redatora da Ilustrada que o editor da ocasião havia solicitado para “darmos” uma foto “daquela” tal de Naná Vasconcelos na capa. Caímos na risada, inclusive Naná, que depois soube por mim da história e disse bem humorado, “Deveria ter enviado uma foto minha de baby-doll”.

Passei a encontrar Naná com mais frequência em gravações, shows, festivais, festas e muitas carraspanas. Sim, eu e Naná sempre comemorávamos nossos encontros assim, com muita alegria, humor e irreverência.

Em 2013, fui a Recife com o intuito de realizar um perfil de Naná para a Ilustríssima, publicado no dia 11 de maio do mesmo ano. Permanecemos dia e noite juntos. Em um desses dias, me vi ao lado do então governador Eduardo Campos (1965-2014), que ladeado de seguranças estava totalmente blindado e avesso a entrevistas.

Quando disse em voz alta que eu era da Folha e só queria declarações dele sobre Naná, o homem mandou baixar a guarda e se deixou ser entrevistado. Fui o único a entrevistá-lo naquele momento. Era Naná abrindo mais portas para mim.

Depois, nos encontramos mais vezes quando o músico vinha para São Paulo. A última, em um show com Badi Assad, no Sesc Pompéia, mas já sem carraspana; a quimioterapia não permitia. No entanto, comemoramos do mesmo jeito, com muita alegria, humor e irreverência.

Agora não será diferente. Muita merda pra você, Naná!

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 10/03/2016)

MORRE VINICIUS DORIN

O músico Vinícus Dorin durante passagem de som do grupo de Hermeto Pascoal, em 2015, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico Vinícus Dorin durante passagem de som do grupo de Hermeto Pascoal, em 2015, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O saxofonista, flautista e pianista Vinícius Dorin, 53, morreu na manhã dessa quinta-feira (28). Seu corpo será cremado amanhã, na cidade de Campinas, interior de São Paulo. Dorin estava em tratamento para se curar de uma cirrose hepática, desde a metade do ano passado.

Dorin era homem de sopro forte, não só do grupo de Hermeto Pascoal, mas da música.

É por conta de músicos como ele que a arte de amealhar os sons se mantém viva, dinâmica e sempre apaixonante. Sua técnica e maneira de improvisar não só emocionavam e surpreendiam quem o escutava como elevavam o som de instrumentos como o saxofone e a flauta a uma categoria única de beleza onde a harmonia é tratada com respeito e devoção. Sim, Vinícius Dorin era um sacerdote da mãe da música: a harmonia.

Quando eu o conheci, em 1978, ele estava tocando piano em uma das salas do CLAM (Centro Livre de Aprendizagem Musical), absurdamente bem. Na moita de uma janela dessa sala fiquei observando suas inversões, o jeito que ele montava acordes, os caminhos que percorria harmonicamente e “chapei”. Tanto que pensei ser ele pianista e dos bons.

Quando o vi tocando sax, quase não acreditei e “chapei” novamente. Só depois de um tempo, entendi que tocar daquele jeito, com fraseado bonito, articulação precisa e expressando suas idéias sonoramente de maneira clara, forte e única só poderiam vir de alguém que se dedicava e pensava adiante de seu tempo.

Com o sopro de Vinícius, por vezes a música inflava sua vela e navegava por mares pouco navegáveis, de águas revoltas e instigantes. Na calmaria de algumas baladas é que o bicho pegava. O sujeito ia mais do que fundo e de maneira surpreendente expunha a alma de um artista que tinha o poder de interromper nossas próprias respirações. Cuidado! É bem fácil ficar sem ar ouvindo Vinicius Dorin tocando. Difícil é reconhecer que a cada dia que passa menos gente trabalha e muito para isto como ele fazia.

No fundo Vinícius Dorin era um trabalhador, um operário que namorava a música e ela com ele. O fruto disto tudo era um p…. som!

Que bons ventos o levem.

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 28/01/2016)

EXECUÇÃO CENTENÁRIA

Capa do livro "Nos quintais do samba da Grande Madureira" (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do livro “Nos quintais do samba da Grande Madureira” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Para quem ainda não percebeu, atenção! O que completa cem anos no próximo domingo (27) é a gravação da música “Pelo Telephone”, de Donga (1890-1974), assim como sua primeira execução pública, e não o gênero musical criado pelos escravos africanos, símbolo da tradição cultural brasileira e Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, reconhecido pela Unesco em 2005.

O samba, na verdade, é mais velho e tem a origem de seu nome em “semba”, que em dialeto africano designa umbigada, uma dança. O samba brasileiro é um ritmo sincopado de compasso binário, que evoluiu do maxixe com uma megainfluência africana, entre elas das danças angolanas e congolesas. E, para ser exato, “Pelo Telephone” é um maxixe, filho da polca europeia com o lundu africano.

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 25/12/2016)

PRÊMIO DE CANÇÃO

(Fotomontagem :Carlos Bozzo Junior)
(Fotomontagem :Carlos Bozzo Junior)

Anualmente, o prêmio Grão reúne artistas pouco conhecidos da cena nacional para valorizar e promover o gênero canção em todas as regiões do país.

O resultado pode e deve ser conferido por meio da excelente coletânea, disponibilizada gratuitamente em http://premiograodemusica.com.br/coletaneas/

Ouvindo-a com atenção, fica clara a intenção do prêmio em valorizar e divulgar compositores e intérpretes da música brasileira de diferentes gerações, cuja criação poética e musical contempla as características e sotaques locais, regionais e nacionais.

Perguntada sobre qual a importância desse prêmio, Lira, que nasceu em Brejo da Cruz, cidade da Paraíba, respondeu que ele é importante pelo que se propõe a fazer, e tem feito, no sentido de identificar, promover e referendar obras e trajetórias artísticas nem sempre divulgadas ou vistas pela crítica especializada. Assim como pela energia criativa que reúne.

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 17/11/2016)

ALDIR BLANC, UM CARA BACANA

Resgatado no Sebo- “Um Cara Bacana na 19ª”, de Aldir Blanc

Capa do livro “Um Cara Bacana na 19ª”, de Aldir Blanc (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do livro “Um Cara Bacana na 19ª”, de Aldir Blanc (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Aldir Blanc mostra o incrível poder de relatar e nos fazer rir do possível e do impossível. Em “Palavra de Homem”, por exemplo, o personagem fica irremediavelmente grávido de seus próprios netos; é capaz também de sumir com o tal Macaco Tião em “Bodas de Ouro”, para depois encontrá-lo (escondido do Moacyr Luz) em um banheiro, fazendo com que o leitor ria para sempre. Sim, parece papo de louco. E é.

Louco como o acontecido no Caso Brasdócimo, uma das ocorrências descritas em “Escândalos”, em que um renomado economista depois de ter dado “…um estouro em uma corretora, matou a amante a golpes de panetone nacional, escondeu o dinheiro no cadáver e mandou o pacote pra Miami dentro de um freezer. O canalha teve a ousadia de escrever no papel da alfândega o conteúdo do freezer: loura gelada. Um fiscal, a fim de roubar a cerveja, descobriu tudo ao levantar a tampa. Durante o julgamento, o criminoso declarou: ‘Meu erro foi não usar um isopor escrito Kaiser. Ninguém chegaria perto…’”.

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 10/11/2016)

FLATULÊNCIA MUSICAL

Livro "Le Petomane" regatado no sebo, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Livro “Le Petomane” regatado no sebo, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras inicia neste post a série Resgatado no Sebo, com o registro de livros, discos, fitas e objetos relacionados a música garimpados em sebos, ou seja, lojas que comercializam livros e outros itens culturais usados.

Na matéria que abre a série, o destaque vai para o livro “Le Petomane” (1967). A obra, em inglês, conta a história de um homem que fazia música com o ânus.

Seu nome era Joseph Pujol (1857-1945), mas o flatulista- dono do talento de emitir sons ritmados e com melodias por meio de puns- ficou conhecido como uma das maiores bilheterias do cabaré parisiense Moulin Rouge sob a alcunha de “Le Petomane”. O nome artístico era um chiste, referência ao verbo francês “péter” (flatular, peidar, soltar pum).

O francês Pujol desenvolveu o bizarro talento por conseguir puxar o ar para o reto e depois liberá-lo, usando o esfíncter anal a seu bel prazer. O pum vira som quando, ao sair, o ar faz vibrar os músculos que circundam o ânus, conhecido na linguagem acadêmica como esfíncter. Dependendo da pressão que o músculo emprega apertando e relaxando o “furico”, além da velocidade com que o ar é expelido, o som se configura grave, agudo, forte ou fraco.

Entretanto, é errado dizer que o artista Pujol simplesmente “peidava”, pois o que caracteriza um “traque” é a expulsão de gases intestinais pelo ânus, e os emitidos pelo artista, além de terem uma trajetória e origem diferentes, eram completamente isentos de odor.
(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 10/08/2016)

DEMISSÕES

Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, em ato concerto realizado no último dia 20, no Hall Monumental da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, em ato concerto realizado no último dia 20, no Hall Monumental da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Papo Reto é uma nova seção do Música em Letras que aborda polêmicas na sociedade envolvendo música. A polêmica da vez é a demissão dos músicos da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. A banda foi criada em 1993 pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Desde 2011, o Instituto Pensarte é a organização social gestora que administra a Banda Sinfônica, além da Orquestra Jazz Sinfônica e da Orquestra do Theatro São Pedro.

Este Papo Reto foi realizado hoje (20) pela manhã, com a flautista Gabriela Machado, 45, paulista de Santo André, recém-demitida da Banda Sinfônica de SP após 10 anos de serviços prestados, realizando em média 40 concertos por ano…

(Trecho de matéria postada no Música em Letras, dia 20/12/2016)

VÍDEOS

 

 

FELIZ 2017!