Papo Reto- A polêmica das demissões da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo

Por Carlos Bozzo Junior
A flautista Gabriela Machado, demitida ontem da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
A flautista Gabriela Machado, demitida ontem da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Papo Reto é uma nova seção do Música em Letras que aborda polêmicas na sociedade envolvendo música. A polêmica da vez é a demissão dos músicos da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. A banda foi criada em 1993 pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Desde 2011, o Instituto Pensarte é a organização social gestora que administra a Banda Sinfônica, além da Orquestra Jazz Sinfônica e da Orquestra do Theatro São Pedro.

Este Papo Reto foi realizado hoje (20) pela manhã, com a flautista Gabriela Machado, 45, paulista de Santo André, recém-demitida da Banda Sinfônica de SP após 10 anos de serviços prestados, realizando em média 40 concertos por ano.

O salário de Gabriela para trabalhar quatro dias por semana – ensaiando 48 horas mensais, sempre no período da manhã, e realizando concertos e viagens nos finais de semana-, era de R$ 3.600. A instrumentista estudou na Fundação das Artes de São Caetano do Sul, durante quatro anos, e após mais quatro anos formou-se bacharel em flauta pelo Instituto de Artes do Planalto – UNESP, em 1992.

A artista, que atua na área erudita e popular, abocanhou em 1991 o prêmio “Estímulo para Jovens Solistas” da Secretaria de Cultura de São Paulo. Gabriela já participou das seguintes orquestras: Juvenil do Estado de São Paulo, Sinfônica de Santos, Sinfônica de Santo André, Sinfonia Cultura, da Rádio e Televisão Cultura de São Paulo, e por último, integrou a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. A flautista foi ainda solista do grupo Choronas durante 19 anos.

O violoncelista Antônio Menezes, o percussionista Airto Moreira, o flautista Altamiro Carrilho (1924-2012), o saxofonista Paulo Moura (1932-2010), as cantoras Bárbara Hendrix e Diane Shure, além de Hermeto Paschoal, e do acordeonista Toninho Ferragutti, entre outros, foram acompanhados pelo som da flauta de Gabriela Machado, que, desde 2010, integra o grupo de música instrumental autoral Quarteto Quadrantes, que gravou os CDs “Passos Largos” (2013) e “Sinuosa” (2016).

ATO-CONCERTO

Está marcado para hoje (20) um ato-concerto, no hall da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, às 17h, com a presença dos 65 ex-integrantes da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. A ALESP fica na Avenida Pedro Álvares Cabral, 201, na zona sul da capital paulista.

A flautista Gabriela Machado que participa do ato-concerto na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
A flautista Gabriela Machado que participa do ato-concerto na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras cobriu o evento (veja vídeo no final do texto) em que o público presente clamou “Não será o último, não será o último…”, referindo-se ao concerto. Assista também ao vídeo no qual a flautista Gabriela Machado toca um trecho de “Bolero”, de Ravel, e convida a população da cidade para prestigiar o que pode ser um dos últimos concertos da Banda Sinfônica de SP.

Leia, a seguir, o que está “pegando” na polêmica da vez sobre a demissão dos músicos da Banda Sinfônica de SP, porque aqui é Papo Reto.

*

Papo Reto: Nesse papo que teremos, você representa os outros músicos da Banda Sinfônica de SP? Quantas comissões existem na banda cuidando dessa situação, quais são elas e a que se destinam?

Gabriela Machado: Sim, nessa entrevista represento os músicos da banda. Há três comissões. Uma destinada a acompanhar a situação e realizar ações na imprensa; uma para as mídias sociais e outra para as ações políticas.

PR: Qual é a do evento?

GM: Obter uma emenda parlamentar para conseguirmos verbas para que a banda não seja extinta.

PR: O que vocês pretendem com o ato?

GM: Pretendemos que a opinião pública saiba o que está acontecendo e que consigamos reverter a situação das demissões.

PR: Quantos músicos perderam o trampo?

GM: No total 82, pois já sofremos 17 demissões anteriormente.

PR: O que ocasionou as demissões? De quem é a responsabilidade por essas demissões? Elas estão dentro da lei?

GM: O Instituto Pensarte, que administra o grupo, disse ser um corte da verba repassada pela Secretária de Cultura do Estado de São Paulo. As demissões estão dentro da lei, mas estão extinguindo um patrimônio cultural muito importante para a cidade e para o Estado.

PR: As demissões poderiam ser evitadas? De que maneira?

GM: Sim. Na última reunião, ontem (19), quando recebemos nossa notificação de demissão, fizemos uma contraproposta de diminuição de carga horária e de remuneração, mas não foi aceita porque o advogado disse que isso era ilegal. Como eles dizem que é um período de crise, propomos ficar sem remuneração durante dois ou três meses para, quando entrar uma nova organização social, a banda permanecer inteira e não ser demitida. Existe um contrato com a empresa de rodagem CCR, e para cumprir esse contrato com a Pensarte, eles querem contratar uma banda. Para isso eles querem demitir todos os músicos, agora em janeiro, e em abril vão contratar músicos por cachê. Não sabemos que banda será essa. Não sabemos se, legalmente, como já trabalhamos para a Pensarte, se poderemos ser contratados temporariamente por esses cachês. Então está tudo muito indefinido nesse aspecto. O que não queremos é que a banda vire um grupo diferente a cada hora, perdendo identidade e sonoridade próprias. Seriam 27 anos de banda virando uma coisa disforme.

PR: Como foi a atuação do Sindmussp (Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado de São Paulo) diante dessas demissões?

GM: Eles estavam na reunião de ontem, sempre nos apoiando para buscarmos um melhor acordo.

PR: Qual foi a atuação da Ordem dos Músicos do Brasil (OMB-SP) diante das demissões?

GM: Não tenho como avaliar, pois não sei nem mesmo se há um representante da Ordem do Músicos nas reuniões.

PR: O que a OMB-SP deveria ter feito?

GM: A OMB deveria pressionar a Pensarte para que um organismo com tanta história não acabasse.

PR: O que vocês pretendem fazer?

GM: Continuar com a movimentação nas mídias. Nas mídias sociais, temos mais de 8 mil seguidores que nos apoiam. Temos uma petição com mais de 13 mil assinaturas, por isso percebemos que há um respaldo do público muito grande e pretendemos que isso cresça.

PR: Qual a importância da Banda Sinfônica de SP?

GM: Ela mantém e traz à tona a tradição das bandas de sopro do Estado de São Paulo. São mais de 500 bandas no Estado e a Banda Sinfônica do Estado de SP é uma referência para todas elas. Estamos recebendo dezenas de vídeos de bandas do interior que nos apoiam e são fãs de nosso trabalho.

PR: O que a população perde com o desmonte da Banda Sinfônica de SP? Como isso afeta na população?

GM: A população perde um grupo que tem uma sonoridade própria, repertório próprio e estimula a criação de compositores, além de perder uma opção de cultura. Significa um estreitamento cultural para a população.

PR: Como vocês esperam que a população reaja diante dessa extinção?

GM: Esperamos que a população se manifeste e peça o retorno da banda inteira, sem demissões.

PR: Qual o repertório do ato-concerto?

GM: Além do “Bolero”, de Ravel, faremos alguns dobrados e algumas peças escritas exclusivamente para a formação de banda sinfônica. Entre elas, “Suíte Quebra Nozes”, de Tchaikovsky; “Caymiana”, de Cyro Pereira; “Aleluia”, de Haendel; “Festival de Natal”, de Victor Herbert”; e “A Home Alone Christmas”, de John Williams.