Resgatado no Sebo- “Música Popular”, de Otto Borges

Por Carlos Bozzo Junior
Capa do livro “Música Popular”, de Otto Borges (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do livro “Música Popular”, de Otto Borges (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Nesse post da série Resgatado no Sebo, com o registro de itens relacionados a música garimpados em sebos, o destaque vai para o livro “Música Popular” (1968), escrito pelo cantor e compositor Otto Borges.

A promessa de capa do “Música Popular” é de trazer conselhos e ensinamentos aos cantores e compositores que se iniciavam na música popular nos anos 1960. Promessa cumprida.

Otto Alves Borges foi um dos fundadores e líder do grupo Anjos do Inferno, sexteto cheio de suingue criado em 1934, no Rio de Janeiro. O nome do grupo era um chiste com a orquestra Diabos do Céu, cujo diretor era Pixinguinha (1897-1973).

O grupo de seres das plagas luciféricas gravou 75 discos e 148 músicas. Foi tão popular nos anos 1940, que atuou numa pá de cassinos e para as maiores emissoras de rádio do país, antes de realizarem uma tournê pela América Latina e pelos Estados Unidos. Na terra do Tio Sam, o grupo atacou com a portuguesa Carmem Miranda (1909-1955).

Quando escreveu esse livro, Borges estava com 55 anos de idade, sendo 40 de vivência no meio artístico atuando como cantor, compositor, apresentador e produtor de programas para a televisão, rádio e shows. O homem tinha cancha suficiente para transmitir a conduta certa, além de alguns macetes para cantores e compositores iniciantes. Opinativo, Borges critica a Censura Federal do regime militar por não olhar, com atenção, as letras que estavam sendo submetidas a ela, além de atribuir ao órgão regulamentador o fato de aprovarem que “coisas burras e erradas sejam divulgadas e até gravadas”.

Borges sugere ainda a criação de um órgão que “depois de um exame criterioso, fornecesse a carteira de autorização para o exercício da profissão de cantor e que nos espetáculos públicos só fossem apresentados cantores portadores dessa carteira”. Quanto à Ordem dos Músicos, Borges é taxativo: “Existe a Ordem dos Músicos. Entretanto, este órgão não está aparelhado e, acredito, se dedica mais aos músicos. Assim mesmo não funciona como devia”.

PRIMEIRA PARTE

Na primeira parte da obra, Borges dedica-se a proferir conselhos e ensinamentos aos cantores. Entre toques e dicas, o autor aborda o traje que o artista tem de usar; o uso do microfone; a escolha do tom e do repertório; saber entender as preferências do público; saber dosar a apresentação; ter bom timbre e bom material de voz; ter ritmo e boa pronúncia (dicção); saber respirar nos intervalos apropriados; saber gesticular; ter boa expressão fisionômica; saber interpretar; não se apresentar sem os devidos ensaios e a formar sua personalidade artística.

“Prefiro aconselhar os que não tiverem bom ouvido para a música a que, em vez de insistirem decorando cada uma das músicas do seu repertório, procurem outra profissão.”

SEGUNDA PARTE

Na segunda parte, Borges ensina novatos que enveredam pelo mundo das composições. Entre os assuntos abordados, letra e melodia da música; o casamento (encaixe); temas e rimas; o sabor popular; lapidação; parceria; um teste para sentir a composição; o que é um intérprete certo e como realizar o lançamento do que se criou.

“O povo em geral não gosta das músicas dissonantes e difíceis; isto é muito bom para músicos e maestros.”

CONSELHOS FINAIS

Tanto a primeira quanto a segunda parte do livro findam com conselhos pragmáticos do autor, alguns obviamente datados, pueris e, em alguns casos, engraçados, como esse, a seguir, direcionado aos cantores: “Não é aconselhável incluir no repertório música que não lhe agrade ou não seja do seu estilo, somente em atenção a alguém. Preferível encontrar uma desculpa”.

Todos conselhos que talvez ficassem perdidos, não fosse o registro de mais um livro Resgatado no Sebo pelo Música em Letras, por R$10.

MÚSICA POPULAR (1968)

AUTOR Otto Borges
EDITORA INDC (Instituto Niteroiense de Desenvolvimento Cultural)
QUANTO R$ 10 (150 páginas)
ONDE Germinal Sebo, Viaduto Nove de Julho, 156, Centro, São Paulo, tel. (11) 3159-2766/2767