Cyro Baptista decola almas com BlueFly

Por Carlos Bozzo Junior
O percussionista e compositor Cyro Baptista (Foto: Divulgação)
O percussionista e compositor Cyro Baptista (Foto: Divulgação)

Após três anos de elaboração, produção e gravação, o percussionista Cyro Baptista, 65, lança “BlueFly”, CD incrível que decola almas levando-as pelas orelhas, mas sem doer, a viagens musicais de primeiríssima classe.

Se você está cansado de percorrer os mesmos caminhos sonoros, que levam aos mesmos e manjados destinos por meio da música, esse disco e esse artista irão surpreendê-lo. Cyro Baptista é brasileiro, há muito radicado em Nova York, mas seu som, talento e criatividade são de outro planeta.

O Música em Letras entrevistou, por e-mail, o artista que é músico veterano de bandas lideradas por Paul Simon, Sting, Herbie Hancock, Yo-Yo- Ma e Laurie Anderson, além de atacar com o descolado trio de jazz Medeski Martin & Wood, entre outros. Em suas bandas, Banquet of the Spirits e Beat the Donkey, Baptista serve a dose de loucura exata para pirar o cabeção de seus músicos e fazer com que toquem alucinados pela exímia e certeira condução do líder. O resultado? Sempre surpreendente e fantástico.

Cyro Baptista, que está lançando o CD "BlueFly", de sua autoria (Foto: Divulgação)
Cyro Baptista, que está lançando o CD “BlueFly”, de sua autoria (Foto: Divulgação)

BLUEFLY

Para Baptista, o disco tem como espírito central o “planejamento de um milagre”. Em suas palavras, o CD é “uma mosca azul que saiu pela janela do banheiro e grudou no rabo de um cavalo puro-sangue que estava passando por ali na maior vula! Então, ela foi parar num lugar a centenas de milhas dali!”.

A bolachinha saiu pela gravadora Tzardik, do compositor, arranjador, produtor e multi-instrumentista John Zorn, 63, considerado pela revista “Down Beat” um dos compositores norte-americanos mais importantes. As composições de Zorn abraçam vários gêneros musicais, como jazz, clásssico, rock, surf music, metal, o que o coloca no nicho da música de vanguarda. Zorn é fã de Baptista.

Perguntado como é o contrato que tem o norte-americano, Baptista respondeu com humor: “É um contrato do tipo até que a morte nos separe, assinado com sangue suor e lágrimas”. Pelo selo de Zorn, Baptista só gravou discaços: “Vira Loucos”, “Beat the Donkey”, “Love the Donkey”, “Infinito”, “Banquet of the Spirits – Antropofagia”, “Banquet of the Spirits – Caim” e agora “BlueFly”. Entretanto, o músico também tem trabalhos gravados em outros selos. “Fiz discos para outras gravadoras, quando isso ainda era possível!”

Perguntei a Baptista por que o CD levou tanto tempo para sair e sob quais circunstâncias ele foi gravado: “Gravamos, overdubamos e mixamos em mais de dois anos. Tudo demorou muito porque a primeira gravação foi uma jam que fizemos na minha casa, depois de um almoço, durante um intervalo de uma turnê com Sting. Estávamos eu, Ira Coleman no baixo, Vincent Segal, no violoncelo, e Tim Keiper no ngoni [instrumento de cordas africano]. Foi um desses momentos divinos em que o céu se abre e faz tudo acontecer. Muitas ideias maravilhosas tiveram que ser resgatadas, regravadas e expandidas. Cadu Oliveira fez o impossível possível, tanto como engenheiro de som, como músico, como nos arranjos. Foi tudo muito trabalhoso porque cada um mora num canto do mundo.”

Baptista pretende trazer esse trabalho para mostrar no Brasil, mas reconhece a dificuldade que isso implica. “Sempre tenho o Brasil na cabeça! Esse projeto não é simplesmente o de uma banda fazendo uma turnê. Tem certos aspectos que tornam a produção mais complexa, mas a esperança é a penúltima e a última que morre.”

Na semana em que o Música em Letras realizou a entrevista com Baptista, ele estava atacando, em dois shows, com o trio Medeski Martin & Wood, em comemoração aos 25 anos de existência do grupo, além de estar trabalhando na produção de um supervídeo sobre a banda em Cleveland e de estar finalizando outro CD do Banquet of the Spirits, que será lançado em 2017, com oito composições inéditas de Zorn.

Como se preparar para ouvir “BlueFly”? “Tá aí uma coisa difícil de fazer; com esse disco você vai ter que sentir, vai ter que imaginar… Don’t think about just listen! [Não pense, apenas escute!]”, disse o artista, que a seguir comenta faixa a faixa seu novo trabalho.

Capa do CD "BlueFly" (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do CD “BlueFly” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

FAIXA A FAIXA POR CYRO BAPTISTA

1)“Menina”

“Menina foi a primeira música que gravamos. Eu tinha a melodia principal no berimbau, como um lamento do recôncavo baiano, mas a partir do momento que o violoncelo e o ngoni entraram na história a porta escancarou e fomos parar no Marrocos e no Mali. Vincent mostra com que facilidade navega com o seu violoncelo pelos vocabulários brasileiro e do norte da África. Nessa gravação, foi utilizado o som de uma escultura de vidro.”

2) “Trovão”

“Eu nunca vou me cansar de escutar a introdução dessa música. Esse trovão, na verdade, foi um raio que partiu nossos corações.”

3) “Kong”

“Kong sem dúvida veio do outro lado…um presente onírico! Saiu tudo de uma vez, em apenas um ‘take’. Kevin Breit e sua orquestra de bandolins completaram o trabalho.”

4) “Bala”

“Essa música tem violoncelo, ngoni e duas guitarras, e só Deus sabe como tudo encaixou! Samba é a cura da humanidade! Viva Romero Lubambo [o músico participa nessa faixa tocando violão]!”

5) “Tarde”

“Paisagismo melódico da minha infância.”

6) “Hammer”

“Meu amigo Osvaldo Golijov me pediu para fazer um minuto de percussão para um filme de horror. Naquele momento eu estava desmontando um piano e tocando as cordas com ferramentas, um som bem apavorante. Gravei, mandei e logo me ligaram do estúdio do Coppola pedindo mais. Hammer foi uma dessas músicas. Usamos uma bass jewharp [harpa de boca] nessa faixa. E o Kevin Breit gravou a guitarra.”

7) “Aguidavi”

“ ‘Aguidavi’ é uma trilha sonora de um filme que acabou não sendo feito. Nela, o mestre Cabello [percussão] engrossou o caldo.”

8) “From de Belly”

“Aqui há o ngoni de Tim Keiper mostrando uma perspectiva de dentro das tripas do demônio. Sons dentro do estômago são gongos tocados na gelatina. Os vocais são de Leni Stern.”

9) “T Rex Costituition”

“Esta vem dos arquivos do ‘Beat the Donkey’, com a participação de Ikue Mori e seu laptop.”

10) “Love Song”

“Esta é uma estória de amor antropofágica.”

11) “Under the Influence”

“Quando descobri o Facebook, fiquei fascinado com as possibilidades de interagir com aquelas pessoas que se diziam meus amigos e que, na verdade, na maioria eram músicos. Postei um pedido para que cada pessoa me mandasse cerca de 5 segundos de um som com uma imagem. Muita gente respondeu mandando coisas incríveis. Baixei isso tudo no Pro Tools e saí tocando junto. O vídeo também é muito bom.”

12) “Menina Interlude”

“Só um interlúdio sonhador…”

Imagem do interior da capa do CD "BlueFly" (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Imagem do interior da capa do CD “BlueFly” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CD BLUEFLY

ARTISTA Cyro Baptista

GRAVADORA Tzardik

QUANTO  Importado, preço nos Estado Unidos US$16.00