Cem anos tinha a minha avó!

Por Carlos Bozzo Junior
Capa do livro "Nos quintais do samba da Grande Madureira" (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do livro “Nos quintais do samba da Grande Madureira” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Para quem ainda não percebeu, atenção! O que completa cem anos no próximo domingo (27) é a gravação da música “Pelo Telephone”, de Donga (1890-1974), assim como sua primeira execução pública, e não o gênero musical criado pelos escravos africanos, símbolo da tradição cultural brasileira e Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, reconhecido pela Unesco em 2005.

O samba, na verdade, é mais velho e tem a origem de seu nome em “semba”, que em dialeto africano designa umbigada, uma dança. O samba brasileiro é um ritmo sincopado de compasso binário, que evoluiu do maxixe com uma megainfluência africana, entre elas das danças angolanas e congolesas. E, para ser exato, “Pelo Telephone” é um maxixe, filho da polca europeia com o lundu africano.

Contudo, mesmo sendo mais velho do que aquela gravação, o samba permanece viril, não demonstra fadiga e continua a gerar descendentes que guardam no nome o registro da origem. Entre eles, o samba balada, o samba batido, o samba bolero, o canção, o samba choro, o de breque, o de quadra, de rua, de embalo, de terreiro. Tem ainda o samba exaltação, o enredo, o partido-alto, o rural, o traçado, o samba jazz, o samba rock. Com tanta variedade, é difícil discordar do sempre repetido bordão das coberturas de carnaval pela TV: “O samba está animado e festa não tem hora para terminar…”

GÊNESE BRAZUCA DO ANIVERSARIANTE

A história que gera confusão com o aniversário do samba é a seguinte: o Departamento de Direitos Autorais, da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, recebeu, em 6 de novembro de 1916, uma petição de registro para o samba “Pelo Telephone”, de Ernesto dos Santos, o Donga. Dedicada a dois foliões carnavalescos, Peru e Morcego (Mauro de Almeida e Norberto Amaral), a partitura de “Pelo Telephone”, manuscrita pelo mestre Pixinguinha (1897- 1973) teve a ela anexado um atestado- pelo mesmo Donga, dez dias depois-, afirmando que o samba “Pelo Telephone” havia sido executado pela primeira vez em 25 de outubro de 1916, no Cine-Teatro Velho. Com o número 3.295, o registro da obra só foi efetuado no dia 27 de novembro de 1916 pela Biblioteca Nacional. No carnaval do ano seguinte foi um enorme sucesso.

Tudo isso e muito mais sobre o gênero musical, como partituras, livros, gravações, você encontra na Divisão de Música e Arquivo Sonoro e no arquivo do Acervo de Música e Arquivo Sonoro da Biblioteca Nacional, onde se pode escutar, entre vários sambas, o aniversariante e centenário “Pelo telephone”, com o conjunto regional de Donga e Zé da Zilda, em gravação da Odeon, de 1938.

LIVRO

O Música em Letras recebeu um belo livro e o indica como uma ótima leitura para celebrar o centenário da gravação da obra de Donga. Recém-lançado, “Nos quintais do samba da Grande Madureira”, editora Olhares, traz, além de fotos históricas, imagens atuais clicadas por Edu Monteiro (fotógrafo) e textos didáticos e bem escritos por Myrian Sepúlveda dos Santos (socióloga), Maurício Barros de Castro (doutor em história), Maria Alice Rezende Gonçalves (professora com experiência em antropologia de populações afro-brasileiras), Ana Paula Alves Ribeiro (antropóloga) e Gabriel da Silva Vidal Cid (sociólogo).

A obra celebra, por meio da memória, da história e de imagens de ontem e hoje, as práticas e tradições relacionadas às origens desse ritmo na Grande Madureira, como é conhecida a região da zona Norte do Rio de Janeiro.

No texto de abertura, a organizadora Myrian Sepúlveda dos Santos mostra, por meio de uma narrativa que se guia pela música “O Samba É meu Dom”, de Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro, um quadro das tradições a partir dos quintais da Grande Madureira. Maurício Barros de Castro faz um relato histórico, sobre as “tias do samba” cariocas, os quintais da Grande Madureira e a construção de um “berço” do samba.

Maria Alice Rezende Gonçalves trata da feira das Yabás (que acontece todo segundo domingo do mês, comandada por 17 ‘tias cozinheiras’), mulheres negras abençoadas pelos orixás femininos, além de resgatar a culinária local deixando o leitor com água na boca. Gabriel da Silva Vidal Cid traz à luz o patrimônio cultural da região, enquanto Ana Paula Alves Ribeiro abarca a transmissão das tradições culturais entre gerações a partir do caso da Escola Mirim Império do Futuro.

Duas das escolas de samba mais tradicionais do carnaval carioca – Portela e Império Serrano – surgiram na Grande Madureira. Em seus quintais, ainda há samba, macumba, candomblé, jongo e uma culinária afro-religiosa riquíssimos. Conhecer parte da história, por meio desse livro, além de dar prazer e trazer conhecimento assegura que cem anos é pouco para esse miscigenado e viril ancião.

Portanto, desejar vida longa ao samba, que é bem mais velho do que se pensa ou se comemora, não deixa de ser redundante, assim como datar sua idade. O samba não tem idade e contraria a lei da impermanência. O samba é para sempre. Ah, e cem anos tinha a minha avó!

NOS QUINTAIS DO SAMBA DA GRANDE MADUREIRA
AUTORES Myrian Sepúlveda dos Santos (org.), Maurício Barros de Castro, Maria Alice Rezende
Gonçalves, Ana Paula Alves Ribeiro, Gabriel da Silva Vidal Cid, Edu Monteiro (fotografia).
EDITORA Olhares
QUANTO R$ 80 (160 páginas), capa dura, 17 x 23cm