Resgatado no Sebo- “Um Cara Bacana na 19ª”, de Aldir Blanc

Por Carlos Bozzo Junior
Capa do livro “Um Cara Bacana na 19ª”, de Aldir Blanc (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do livro “Um Cara Bacana na 19ª”, de Aldir Blanc (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras traz mais uma matéria da série Resgatado no Sebo, com o registro de livros, discos, fitas e objetos relacionados a música garimpados em sebos.

Nesse post, o destaque vai para o livro “Um Cara Bacana na 19ª” (1996), de autoria do compositor Aldir Blanc, com desenhos de Chico Caruso e texto de quarta capa de Chico Buarque. A apresentação, intitulada “Aldir, um Bom Sacana”, escrita em Londres em 1996, ficou por conta do jornalista e escritor Ivan Lessa (1935-2012), filho de Orígenes Lessa (1903-1986).

O exemplar resgatado traz ainda uma curiosidade digna de ser mencionada. Na folha de rosto, uma dedicatória autografada do autor, com local e data: “Rio, XI/96”.

“Um Cara Bacana na 19ª” reúne 14 contos, 23 crônicas, 26 letras de músicas e 27 poemas “aldiris”, que são mesmo a cara – e expressão – do autor. Ou como explica Chico Buarque, no texto da quarta capa: “Aldir Blanc é uma glória das letras cariocas. Bom de se ler e de se ouvir, bom de se esbaldar de rir, bom de se aldir”.

CRÔNICAS

Nas crônicas, Aldir Blanc mostra o incrível poder de relatar e nos fazer rir do possível e do impossível. Em “Palavra de Homem”, por exemplo, fica irremediavelmente grávido de seus próprios netos; é capaz também de sumir com o tal Macaco Tião em “Bodas de Ouro”, para depois encontrá-lo (escondido do Moacyr Luz) em um banheiro, fazendo com que o leitor ria para sempre. Sim, parece papo de louco. E é.

Louco como o acontecido no Caso Brasdócimo, uma das ocorrências descritas em “Escândalos”, em que um renomado economista depois de ter dado “…um estouro em uma corretora, matou a amante a golpes de panetone nacional, escondeu o dinheiro no cadáver e mandou o pacote pra Miami dentro de um freezer. O canalha teve a ousadia de escrever no papel da alfândega o conteúdo do freezer: loura gelada. Um fiscal, a fim de roubar a cerveja, descobriu tudo ao levantar a tampa. Durante o julgamento, o criminoso declarou: ‘Meu erro foi não usar um isopor escrito Kaiser. Ninguém chegaria perto…’”.

PERSONAGEM

Craque em retratar frequentadores de botequins, com fidelidade e muito humor, o autor de “Entre o torresmo e a moela” os chama de “sócios-atletas”. E é um desses “sócios-atletas”, da vida real, que Blanc invoca para inserir jocosamente em uma fantasiosa e engraçadíssima “Viagem ao fundo do mar de Lamas”.

O personagem é o produtor musical J. C. Botezelli, o Pelão, responsável pela gravação do primeiro disco de Cartola, em 1974, e relizador de outros projetos de grande valia para a música brasileira.

“Sócio-atleta” do Bar do Alemão, daqui de São Paulo- também citado na crônica-, Pelão,“aparência de viking da Mooca”, com “voz tonitruante se fez ouvir: Com trinta e seis cuba-libres, eu afundo!”

Em determinado momento da narrativa, dizem que Pelão havia operado a vesícula. O que é prontamente contestado pelo autor. “Vi-me na obrigação de revelar a verdade: a vesícula do Pelão não foi ‘operada’ coisíssima nenhuma. Suicidou-se. Imolou-se como um bonzo- o que não foi difícil, com a quantidade de álcool que passava por ali. Entrou em combustão auto-induzida, ou seja, no jargão popular: ateou fogo às vestes.”

LETRAS E POESIA

As letras das manjadas e amadas “Dois pra Lá, Dois pra Cá”, “O Bêbado e a Equilibrista”, “Violeta de Belford Roxo”, “Bodas de Prata” e “Bandalhismo”, todas em parceria com João Bosco, figuram no livro. “Exasperada” e “Universos”, ambas de Blanc com Maurício Tapajós; e “Me Gusta a Lagosta”, “Lendas Brasileiras”, “Simples e Absurdo”, “Nítido e Obscuro”, “1.001 “Noites no Botequim”, “Chá de Panela” e “Samba de um Breque”, todas dele com Guinga, também garantem a diversão para quem gosta de ler o que geralmente é escutado. Há ainda parcerias com Edu Lobo, Moacyr Luz e o escambau.

Dos poemas, “Poemíscuo” é, no mínimo, polêmico.

Faz escuro mas eu cancro.
Vou-me embora de Pasárgada.
Lá, eu furniquei com o Rei: chutei uma drag queen, sobre o peixe vomitei.
Que as belas sirvam a Vinicius
pra fazer letra com o Tom.
Cu de empregada é que é bom.

CONTOS

Os contos não deixam por menos, e cada qual faz jus ao nome: o leitor entra de “Férias”, passa por “Ossos do Ofício”, “A Girafa”, entre outros, antes de chegar em “Caderno”.

Todos contos com histórias que talvez ficassem perdidas, não fosse o registro de mais um livro Resgatado no Sebo pelo Música em Letras, por R$ 15.

Foto da dedicatória com autógrafo do autor, na folha de rosto do livro “Um Cara Bacana na 19ª” (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Foto da dedicatória com autógrafo do autor, na folha de rosto do livro “Um Cara Bacana na 19ª” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

UM CARA BACANA NA 19ª (1996)
AUTOR Aldir Blanc
EDITORA Record
QUANTO R$ 15 (238 páginas)
ONDE Sebo Paulistano, Rua Aurora, 704, Centro, São Paulo, tel. (11) 3214-5132, aberto de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h00; aos sábados, das 10h às 14h; aos domingos é fechado