Resgatado no Sebo – “Por trás do contrabaixo-Copacabana 1950/1960”, as décadas de ouro das boates cariocas

Por Carlos Bozzo Junior
Capa do livro “Por trás do contrabaixo - Copacabana 1950/1960”, de Dalton Vogeler (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do livro “Por trás do contrabaixo – Copacabana 1950/1960”, de Dalton Vogeler (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras traz neste post mais uma matéria da série Resgatado no Sebo, com o registro de livros, discos, fitas e objetos relacionados a música garimpados em sebos.

Nessa matéria, o destaque vai para o livro “Por trás do contrabaixo-Copacabana 1950/1960”, do músico Dalton Vogeler (1926- 2008).

Esgotado, o livro traz uma curiosidade digna de ser mencionada. Espalhados em suas páginas, carimbos o identificam como item do “Acervo Arley Pereira”, do jornalista e escritor paulistano Arley Pereira Gomes de Oliveira (1935-2007), que morreu em São Paulo em decorrência de problemas no coração. Pereira foi dos maiores especialistas em música brasileira, trabalhando em diversos jornais, revistas e em programas de TV.

A obra de Vogeler registra parte das inesgotáveis histórias que têm como pano de fundo as noites cariocas, durante os anos de 1950 e 1960 – segundo o autor, as “décadas de ouro” do Rio de Janeiro –, aqui relatadas pelo músico que tocou nas principais boates da cidade.

MÚSICA NO SANGUE

Vogeler, além de autor do livro, contrabaixista, compositor e produtor de discos, foi músico da noite e um grande defensor do direito autoral. Sua composição de maior sucesso foi “Balada Triste” (1959), em parceria com Esdras Silva, canção com mais de cem gravações e versões para vários idiomas, mas que ganhou destaque nas interpretações de Agostinho dos Santos (1932-1973) e de Ângela Maria.

A música estava no sangue de Dalton Vogeler. O avô paterno foi o maestro Henrique Vogeler (1888-1944), braço direito de Villa-Lobos (1887-1959). É de Dalton o comando de várias gravações do flautista Altamiro Carrilho (1924-2012), e do bandolinista Déo Rian, entre outros músicos de choro. Em 1964, chefiou a sétima Caravana Oficial da Música Popular Brasileira, que viajou por nove países europeus divulgando essa relíquia nacional. Além de atuante na noite carioca, Dalton foi professor de industrialização e comercialização da música e psicoacústica e música funcional, no Instituto Villa-Lobos durante cinco anos.

Entre grupos, conjuntos e orquestras, o músico atacou com Zingar e sua Orquestra, Waldir Calmon, Djalma Ferreira, Steve Bernar, Bob Fleming, Waldir Azevedo, Orquestra Tabajara e com Carlito e seu Conjunto; apresentando-se no Copacabana Palace, nas boates Sacha’s, Vogue e na boate Au Bon Gourmet.

RELATOS DE ÉPOCA

O livro de Vogeler traz uma coletânea de episódios com cenas cômicas, ridículas, melancólicas e amorais, presenciadas pelo autor, mas que perdem parte do significado e importância por omitir seus principais protagonistas, tratando-os ora por “um chefe da casa civil da presidência da república”, “um médico de renome”, ou apenas pelas inicias de seus nomes como “… plays-boys (sic), dentre os quais C.T, e S.P”.

Alguns relatos, contudo, revelam-se saborosos, mesmo com a omissão da identidade dos envolvidos e com o preconceito explícito no texto. São várias as palavras que atestam um desnecessário e equivocado juízo de valor. Entre elas o neologismo “morata”, segundo o autor uma combinação das palavras “morena” e “mulata”, além dos diminutivos “negrinha” e “mulatinha”.

Uma das histórias curiosas trata da injusta reclamação de um “anônimo” frequentador da boate Sacha’s. Indignado, ele chamou aos berros o proprietário da casa, Sacha Rubin, para se queixar do pianista “sem categoria” da casa. Tudo começou porque o cliente perguntou ao instrumentista Oswaldo Gogliano de Almeida se ele sabia tocar as músicas de Noel Rosa. O pianista respondeu que as músicas de Noel eram pouquíssimas. Imediatamente qualificado de “medíocre” pelo frequentador, o músico teve em sua defesa o dono da boate, que disse ao cliente: “E quem lhe disse que ele desconhece o próprio repertório?”. O pianista Oswaldo Gogliano de Almeida era o Vadico (1910-1962), autor da maioria das músicas atribuídas a Noel, que era autor das letras.

Também, segundo Vogeler, foi Vadico quem chegou em um bar vagabundo da avenida Princesa Isabel, onde funcionava um dos pontos de encontro de músicos no Rio de Janeiro, e distribuiu charutos e cinco garrafas de cachaça aos companheiros de labuta para serem consumidos ali, no ato. Tarefa acordada e cumprida, um dos músicos sugeriu ao autor de “Pra que mentir”, parceria com Noel Rosa, que da próxima vez comprasse mais cachaça e mais charutos para ninguém “bronquear” que eram poucos, ao que Vadico respondeu: “Comprei coisa nenhuma. Eu apanhei todo esse troço numa macumba enorme ali no cruzamento da rua Padre Antônio Vieira com Augusto Sampaio”.

Em outro relato, Vogeler lembra que o condescendente e sempre “muito elegante” compositor Ataulfo Alves (1909-1969), quando em meio a boêmios e intelectuais, limitava-se a comentários lacônicos tais como “lógico”, “claro”, “certo”, “correto” e “absolutamente”.

Consta também das páginas do livro uma preciosa lista com nomes de estabelecimentos, endereços, atrações e músicos que neles se apresentavam durante o período.

A vida de porteiros de algumas boates famosas, delegados de polícia, músicos, cantoras, prostitutas, jornalistas e estabelecimentos, em suas trajetórias de apogeu e declínio, são descritos por Vogeler como testemunha ocular da própria história.

História essa que talvez estivesse perdida, não fosse o registro de mais um livro Resgatado no Sebo pelo Música em Letras, por apena R$ 15.

Fotos do carimbo Acervo Arley Pereira em uma das páginas do livro de Dalton Vogeler (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Fotos do carimbo Acervo Arley Pereira em uma das páginas do livro de Dalton Vogeler (Foto: Carlos Bozzo Junior)

LIVRO “Por trás do contrabaixo- Copacabana 1950/1960” (1983), 133 páginas, fotos em preto e branco, Dalton Vogeler

EDITORA Gráfica Editora do Livro Ltda

QUANTO R$ 15

ONDE Livraria Sebo Machado de Assis, Rua Álvares Machado, 50, Liberdade, São Paulo, tel. (11) 3115-2516,  aberto de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h30