Eduardo Gudin é um dos finalistas do Grammy Latino 2016

Por Carlos Bozzo Junior
O compositor Eduardo Gudin, que teve seu CD indicado para o Grammy Latino (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O compositor Eduardo Gudin, que teve seu CD indicado para o Grammy Latino (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O CD “Eduardo Gudin & Notícias dum Brasil 4” (Dabliu Discos), do compositor, cantor, violonista e arranjador paulistano Eduardo Gudin, 65, é um dos cinco indicados na categoria Melhor Álbum de Samba/Pagode, da 17ª edição do Grammy da música ibero-americana 2016, que acontece no dia 17 de novembro, em Las Vegas.

Com ele competem “De Bem Com A Vida” (Sony Music), de Martinho da Vila; “Tem Mineira No Samba”, (Tratore), da cantora mineira Corina Magalhães; “Na Veia” (Warner Music Brazil), da dupla Rogê & Arlindo Cruz; e “Sambas Para Mangueira” (Biscoito Fino), que reúne sambas em homenagem à verde-e-rosa interpretados por vários artistas liderados pelo gaitista e produtor Rildo Hora.

Disco em que a tristeza é externada por uma musicalidade extremamente feliz, “Eduardo Gudin & Notícias dum Brasil 4” traz 13 músicas compostas com parceiros antigos e alguns mais novos de Gudin. Dos habituais, Paulo César Pinheiro, com “Olhos Sentimentais”, e Paulinho da Viola, com “Nem no Samba Eu Vou”. Das novas parcerias, Carlos Lyra, com “O Amor e a Canção”, e Théo de Barros, com “Não era Assim”, entre outros.

Em seu 16º álbum, Gudin toca violão, canta e é acompanhado por quatro percussionistas e quatro cantores. Nas vozes, Ilana Volcov, Karine Telles, Maurício Sant´Anna e Cezinha Oliveira. Na percussão, Raphael Moreira, Oswaldo Reis, Ewerton de Almeida e o sensacional Jorginho Cebion. Os arranjos vocais são um primor e a percussão e o violão não deixam por menos. Um clipe da música “Olhos Sentimentais”, que abre o disco, pode ser visto em https://www.youtube.com/watch?v=E_TZAzCn4iA

O Música em Letras entrevistou o compositor, no Bar do Alemão, do qual é um dos donos, no bairro da Água Branca, em São Paulo. Gudin falou sobre a indicação de seu CD ao prêmio e a relevância desse evento, entre outros assuntos.

Eduardo Gudin em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Eduardo Gudin em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Leia, a seguir, trechos da entrevista e assista, no final do texto, ao compositor interpretando com exclusividade para o Música em Letras um trecho de “Armistício”, samba dele e Adoniran Barbosa (1910-1982), uma das 13 músicas do CD indicado ao Grammy Latino.

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Música em Letras– Como soube da indicação ao prêmio?

Eduardo Gudin- Não sabia que havia sido inscrito. O pessoal da gravadora fez a inscrição, mas não me falaram nada. Só me avisaram há uma semana. Recebi um e-mail dizendo que eu havia sido indicado e que estava entre os cinco finalistas da categoria. Fiquei muito contente.

ML– Você pretende ir à premiação?

EG– Não sei como funciona. Se vai só quem ganha, se dão o resultado antes. Preciso me inteirar mais sobre isso com a gravadora e minha produtora.

ML– Qual a importância desse prêmio?

EG– Como foi uma novidade, pois eu não esperava, na hora não dei muita importância. Depois, foi caindo a ficha, e vi que ele é muito importante para o artista; ainda mais para esse tipo de música, que não toca mais no rádio. Funciona como uma vitrine, né? Além de aumentar bastante o campo de trabalho, dá uma satisfação. Porque esse disco precisa ser apreciado direito. Eu gosto muito desse trabalho, mas eu não contava com essa indicação.

ML– O que se ganha com esse prêmio?

EG– Concretamente acho que deve trazer muito resultado, principalmente de trabalho. Acho que talvez aumente as possibilidades de sair do país, pois é um prêmio reconhecido internacionalmente. E sempre é um incentivo para se fazer mais música. Porque o artista precisa de incentivo.

Capa do CD “Eduardo Gudin & Notícias dum Brasil 4” (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do CD “Eduardo Gudin & Notícias dum Brasil 4” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

ML– Vê chances de ganhar?

EG– Não sei.

ML– Você está de acordo com os critérios da escolha?

EG– Não conheço os critérios de escolha. Deixo isso para o pessoal da gravadora e minha produtora. Minha preocupação é com o trabalho, se ele está bom ou não. Tudo que estiver fora disso, como diria o Faro [Fernando Faro (1927-2016), produtor musical ]: “É ruído”.

ML– Comente sobre seus concorrentes?

EG– Sei quem são, mas não conheço esses discos. Não tive oportunidade. Mas só de estar ao lado deles já é muito importante.

ML– Por que o seu disco deveria ganhar?

EG– O que eu faço é um trabalho diferente, em termos de concepção. Há uma questão relacionada ao violão. O disco tem muito a ver com o meu violão. Se tivesse outro violão, que não o meu, não seria do mesmo jeito. Meu trabalho é autoral também na parte instrumental. Por exemplo, se você fizer um disco do João Bosco com outra pessoa tocando violão no lugar dele, não é um disco do João Bosco. Eu também sou desse tipo. Nesse disco, gostei muito da maneira como o violão resultou com a percussão. Tecnicamente, também fiquei muito satisfeito com a mixagem. É um trabalho muito pessoal. Faço um samba, um pouco diferente do habitual, mais específico, sempre tem um pé em uma linha que vem do Baden Powell, Nelson Cavaquinho e até de Tom Jobim, quando compôs “A Felicidade”, com o Vinícius, por exemplo. Sempre fui arranjador de orquestra e tenho essa coisa de estar ligado ao estudo da música. Estudei muito violão clássico e esse lado acaba aparecendo.

ML– Qual o melhor prêmio que um sambista pode receber?

EG– Assistir às pessoas cantarem o samba na rua. Esse é o melhor prêmio. Você entrar em um lugar, ver e ouvir as pessoas cantando. Outro dia, fui ao Rio de Janeiro, no Samba da Ouvidor [roda de samba que acontece aos sábados, às 17hs, na esquina da rua do Ouvidor com a rua do Mercado], e ouvi o pessoal cantando minha música. Isso é que é legal no samba, gente cantando coletivamente. As pessoas procuram aprender a música e hoje a internet ajuda muito nisso. Uma das sensações mais incríveis foi quando participei do Festival dos Festivais, da Globo [1985]. A Leila Pinheiro ganhou o terceiro lugar com “Verde” [música de Gudin e J.C. Costa Netto] e o Maracanãzinho inteiro cantou com ela, porque teve um espaço de dias entre a eliminatória e a final e deu tempo para as pessoas aprenderem a música. Parecia uma igreja, aquele som e as pessoas com os papéis da letra nas mãos. É inesquecível. Esse é o maior prêmio.