Sem Noção – “Dois Destinos”, por Chrystian Dozza

Por Carlos Bozzo Junior
O músico Chrystian Dozza ouvindo o CD “Dois Destinos ”, acompanhado de seu cão John Downland (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico Chrystian Dozza ouvindo o CD “Dois Destinos ”, acompanhado de seu cão John Dowland (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras convidou o músico Chrystian Dozza, 33, para participar da audição às cegas, da série Sem Noção, do novo disco do violonista Marco Pereira, 65, em que o instrumentista interpreta músicas do violonista, paulista de Guaratinguetá, Dilermando Reis (1916-1977), que neste mês de setembro completaria 100 anos.

Dozza, professor, violonista, compositor, arranjador e integrante do renomado quarteto de violões Quaternaglia, além do Trio Opus 12 recebeu o Música em Letras, em sua casa, no bairro da Vila Anglo Brasileira, zona oeste de São Paulo, para a audição.

O músico escutou as 12 faixas do disco ao lado de seu fiel companheiro John Dowland- um golden retriever mais do que boa-praça- batizado em homenagem ao compositor e alaudista da Renascença John Dowland (1563-1626), inglês reconhecido por “melancoliar” almas com suas músicas. O cão, ao contrário, alegra almas. É o que crianças, mulheres, adolescentes e até homens chamam de “fofo”. Impossível não sorrir ao presenciar Dowland, na sala, ouvindo o disco ao lado, em cima, ou aos pés de seu dono. O ser sensível parecia demonstrar, por meio do olhar, um gosto apurado para a arte de amealhar os sons.

O dono do bicho também é dono de uma bela carreira. Dozza tem três CDs autorais: “Songs from the Land” (2006), “Fantasia Mineira” (2010) e “Despertar” (2014). É professor da EMSP (Escola de Música do Estado de São Paulo) e dá aulas particulares para cerca de 20 alunos. Ensina iniciação, violão erudito e técnica violonística. Além de se apresentar com o Quartenaglia – neste ano estiveram em Portugal e Espanha- e com o Trio Opus 12, também de violões, Dozza faz vários concertos solo pelo mundo. A próxima viagem do artista acontece agora, em setembro. Dozza se apresenta em turnê solo na Austrália, em cinco cidades. “Vou tocar, dar masterclasses [curso intensivo de aperfeiçoamento] e participar da banca julgadora de dois concursos de violão, que acontecem em Brisbane e Melbourne”, disse o músico que, entre janeiro e fevereiro de 2017, se apresenta nos Estados Unidos e Canadá, realizando 28 concertos.

Leia, a seguir, as impressões de Dozza sobre o novo CD do violonista, arranjador e compositor Marco Pereira, que assina a direção musical e os arranjos da bolachinha lançada pela Borandá. A produção foi de Swami Jr.; gravação de base, no estúdio YB Music, por Carlos “Cacá” Lima, com os assistentes de estúdio, João Gabriel Rizk e Verônica Oliveira; gravação de violões no estúdio Cantareira, pelo engenheiro de gravação Ricardo Marui; mixagem, Luiz Ribeiro (Estúdio Casa Aberta), masterização Homero Lotito (Reference Mastering); criação de projeto, Marco Pereira e Gisella Gonçalves; produção executiva, Lígia Fernandes; fotos Tarita de Souza; projeto gráfico de Otávio Bretas. Todas as composições são de Dilermando Reis.

FAIXA 1 “Se ela perguntar”

“Já sei quem é. Bastou aquele baixão inicial da música, com aquele polegar inconfundível para eu saber que é o Marco Pereira. Esse é o CD com músicas do Dilermando [Reis], que acabou de sair e que ele me presenteou. Tive a alegria de contar com a participação dele em um show que fiz recentemente no Centro Cultural São Paulo. Comecei a tocar violão solo por causa do Dilermando. Na casa dos meus pais tinha uma fita K-7 do disco ‘Abismo de Rosas’, do Dilermando. E eu no meio do rock and roll, ouvindo e tocando Guns and Roses e Iron Maiden na guitarra, quando ouvi aquele troço quis saber como fazia aquilo tudo com um violão só. Daí fui atrás de aprender a fazer o violão soar como uma pequena orquestra e vim para São Paulo estudar e fazer o bacharelado em violão erudito. Essa música, ‘Se ela perguntar’ é a mais famosa das muitas e belas valsas lentas compostas pelo Dilermando. O mais legal nessa peça, que o Marco gravou solo, é que ele mudou um pouco as harmonias. O Marco é especialista nisso. Ele deu um toque ‘Marco Pereira’ na música, porém mantendo muito do que o Dilermando fez. A interpretação e som são maravilhosos. Essa faixa de abertura já ganha o ouvinte.”

FAIXA 2 “Xodó da Bahiana”

“Um show. Um arranjo sutil, mas muito rítmico com essa formação que tem um grave, acho que de um sax [clarone], baixolão e percussão. Eles deram uma ‘salsada’ na música e o Marcão conseguiu enfiar uma citação da música ‘Segura o Tchan’, no meio da história toda. Muito bacana essa faixa.”

FAIXA 3 “Gente boa”

“Essa tem um baita clima também. A música é bem conhecida, mas sou péssimo para guardar nomes. O arranjo é super-refinado e sutil, em que o Marco manteve bem a ideia do Dilermando.”

FAIXA 4 “Caxinguelê”

“Esse sambinha faz soar mais Marco Pereira que Dilermando. O Marco explorou mais uma vez a harmonia, com a sanfona do Toninho Ferragutti e a flauta do Toninho Carrasqueira. Essa é uma formação com mais instrumentos e o bacana nessa música, além do arranjo, é que o Marco abre um improviso que faz a gente sempre pensar se aquilo que ele tocou foi composto ou improvisado. A gente nunca sabe, de tão bom que é.”

FAIXA 5 “Flor de aguapê”

“Muito legal como o Marco dispôs a ordem das faixas. Começou com violão solo, foi crescendo e adensando os arranjos e retoma, nessa faixa, uma valsa lenta, com violão solo, que faz a gente lembrar novamente o que é o Dilermando, o que sua música transmite para nós que é essa nostalgia. Há uma coisa melancólica nas valsas do Dilermando; nessa faixa há uma sonoridade de uma beleza incrível. É um respiro no CD, com uma peça solo que dá uma quebrada no clima. O Marco tira um som muito bonito do instrumento, e aqui está muito bem gravado. É uma valsa que não é frequentemente tocada, pode-se dizer que é um ‘lado B’ das valsas do Dilermando.”

FAIXA 6 “Tempo de criança”

“Essa faixa é um clássico do Dilermando. Muito legal o arranjo e depois da faixa anterior, com o violão solo, parece que o Marco que chamou a galera toda de volta. Aqui há uma introdução muito boa, criação do Marco. Na versão do Dilermando não tem, começa no tema dentro de uma forma de choro tradicional. Aqui tem a levada ‘Pereira’, que só ele é quem faz, alternando polegar com indicador para produzir um suingue incrível. Isso é uma coisa que ele inventou. Além disso, o contraponto do contrabaixo com o violão fazendo a melodia é muito bonito. A conversa desses dois instrumentos ficou muito boa.”

FAIXA 7 “Feitiço”

“Não lembro o nome desse sambinha canção. Parece uma bobagem a atuação e o papel da percussão nessa faixa, mas não é. Ela está quase que minimalista na música, mas dá todo um colorido para o arranjo. Supersutil, a percussão deixa o violão ‘cantar’, enquanto ela e o baixolão acompanham. É uma cozinha refinada e delicada que deixa o Marco à vontade para manter o Dilermando de sempre.”

FAIXA 8 “Vê se te agrada”

“Muito legal esse arranjo em que a flauta comanda. O som da flauta do Toninho Carrasqueira é demais. É de uma leveza e com uma afinação e fraseados lindos. Aqui o violão atua mais como um acompanhamento para a flauta fazer a melodia de uma maneira leve, que lembra um pouco Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth.”

FAIXA 9 “Dr. Sabe-tudo”

“Outro clássico do Dilermando. O Marco mandou muito bem na escolha da instrumentação dessa música, com a sanfona do Toninho Ferragutti. Impressionante como o Marco faz tudo com qualidade. Quero ser igual ao Marco quando eu crescer.”

FAIXA 10 “Magoado”

“Superclássico do Dilermando, e para mim totalmente nostálgico por fazer parte das músicas que estavam naquela fitinha K-7 que eu escutava com 14 anos de idade. A versão do Dilermando dessa música é muito marcante. Ela conta com dois violões, o do Dilermando e outro que não sei quem era. Mas é muito boa. A versão do Marco traz uma modernizada na harmonia, mas sempre muito sutil e sem descaracterizar a simplicidade do Dilermando, que compunha belíssimas melodias sem complicar muito a vida de quem vai tocá-las. Ele se preocupava em fazer música bonita e clean, sendo refinado e com poucas notas. A preocupação dele não era mostrar virtuosismo ou conhecimento harmônico, e agradava a todos.”

FAIXA 11 “Noite de lua”

“O que é esse rasqueado no final? É uma voadora no peito. Nessa faixa o Marco mudou o caráter da música. As notas estão aí, mas ele fez em um andamento muito mais ágil. Isso fez com que a valsa, que é melancólica, se tornasse uma peça mais viva, saltitante. Parece um ritmo de guarânia que o Marco usa para mostrar um pouco do virtuosismo que ele tem, e de sobra. Nessa e em outras peça tem umas ‘pereiradas’ que se encontram nas finalizações, nas codas [seção com que se termina uma música]. Muito bom!”

FAIXA 12 “Dois destinos”

“Ele encerra o CD com essa valsa lenta de uma maneira maravilhosa. O Marco tem muita classe tocando. Esse clarone tem um som muito bonito. Uma vez escrevi para o Marco Pereira comentando a levada ‘Pereira’, que ele faz na música ‘Círculo das Cordas’. Há no som dessa música algo que não existe nas notas escritas na partitura. Ele me disse que geralmente as pessoas perguntam que cordas ou que violão ele usa, sem se tocarem que não é isso que importa. O som de cada violonista é diferente porque depende de uma série de coisas. Entre elas, se a unha está lixada, o ângulo de ataque da mão direita e acima de tudo o som do nosso ouvido interno, que é o som que a gente busca. Mesmo assim, eu pergunto: ‘Marco que corda que você usa? E esse violão aí qual é?”
ABRE 2
AVALIAÇÃO PONTUAL

INTÉRPRETE

“Ótimo.”

COMPOSIÇÕES

“Ótimo.”

HARMONIA

“Ótimo.”

RITMO

“Ótimo.”

MELODIA

“Ótimo.”

ARRANJO

“Ótimo.”

SOM (CAPTAÇÃO, MIXAGEM E MASTERIZAÇÃO)

“Ótimo.”

CONSIDERAÇÕES GERAIS

Ao ouvir a primeira faixa de “Dois Destinos”, o violonista Chrystian Dozza identificou o disco e seu intérprete, o violonista Marco Pereira. Após a audição às cegas, foram reveladas todas as informações sobre o disco, seus participantes e ficha técnica.

“Esse é um disco impecável. Para mim ele tem um significado muito especial, porque foi o Dilermando que me fez começar a estudar violão e porque o Marco Pereira é um ídolo para mim. Ouvir essas peças rearranjadas com extremo cuidado por ele, me faz ter uma nova visão, sem perder a essência do Dilermando.”

Perguntado se há espaço para o disco no mercado, Dozza respondeu: “Sim, porque além do Dilermando ser um cara muito importante para o violão brasileiro há essa maneira moderna de rever suas músicas, com novos arranjos e uma interpretação com a qualidade que só o Marco poderia dar. Além disso, o público desse CD é formado por quem compra por conta do Dilermando, e por quem quer ouvir o Marco Pereira. Tem mercado aqui e no mundo todo. Adorei a escolha desse disco para eu escutar. Foi uma surpresa ótima e um prazer re-ouvir esse trabalho maravilhoso”

AVALIAÇÃO DE CHRYSTIAN DOZZA

“Ótimo”

Capa do disco “Dois Destinos – Marco Pereira toca Dilermando Reis ” (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do disco “Dois Destinos – Marco Pereira toca Dilermando Reis ” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CD DOIS DESTINOS – MARCO PEREIRA TOCA DILERMANDO REIS
ARTISTA Marco Pereira
GRAVADORA Borandá
QUANTO R$ 30