Sem Noção – “Dois tempos de um lugar”, por Tom Zé

Por Carlos Bozzo Junior

 

O compositor Tom Zé ouvindo o CD “Dois tempos de um lugar”, de Dandara e Paulo Monarco (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O compositor Tom Zé ouvindo o CD “Dois tempos de um lugar”, de Dandara e Paulo Monarco (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Acontece no próximo domingo (14), no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, o show de lançamento do CD “Dois tempos de um lugar”, da cantora e compositora Dandara, 26, e do compositor, violonista e cantor Paulo Monarco, 28. No espetáculo, ambos que já amealham cerca de 30 premiações em festivais e lançaram esse CD na Alemanha, tocam guitarras e cantam.

Aproveitando a oportunidade, o Música em Letras convidou o compositor baiano Tom Zé para participar da audição às cegas do CD da dupla.

Tom Zé, que em outubro próximo completa 80 anos, recebeu o Música em Letras no seu estúdio, e depois em seu apartamento, ambos em Perdizes, bairro da zona oeste de São Paulo, para a audição.

Contudo, como reza o manjado ditado popular “Em casa de ferreiro o espeto é de pau”, no estúdio não conseguimos a colaboração do equipamento que fizesse surgir o som. Era muito bom para tocar CD. Um aparelho portátil de Neusa, mulher de Tom Zé, surgiu para salvar o trabalho, mas qual o que. Tinhoso, não funcionou. O computador de Tânia- secretária do casal- não entrou na roda para rodar o disco, porque ela só podia nos emprestá-lo por pouco tempo. Sugeri fazermos a audição no equipamento de som do carro do compositor. Indo para a garagem do prédio, Neusa nos interpelou, e fomos levados para o apartamento do casal, onde um computador Macintosh resolveu a situação.

Leia, a seguir, as impressões de Tom Zé sobre o novo CD de Dandara (voz, composição) e Paulo Monarco (composições, voz, violões de aço e nylon), que tem músicas autorais e de outros compositores. Entre eles, Celso Viáfora, Maurício Pereira, Marcelo Segreto e Zeca Baleiro. O disco foi produzido por Swami Jr. e Tó Brandileone; mixado por Ricardo Mosca; masterizado por Carlos Freitas; gravado em abril de 2015, por Thiago Baggio no estúdio Gargolândia; com fotos de capa de Manuela Oristanio; manipulação de Patrícia Black; concepção e projeto gráfico dela com Uibirá Barelli.

FAIXA 1 “Ame”, de Paulo Monarco e Kleuber Garcêz

“Fiquei interessado e muito curioso. É uma música fora do comum com uma letra impressionantemente bonita. Por isso existe rima no mundo, para vermos a repetição do som de uma palavra, e aqui elas surgem com palavras completamente inesperadas. Assim, vale a pena haver rimas no mundo, para se ouvir coisas tão bonitas.”

FAIXA 2 “Pra acordar”, de Paulo Monarco e Suely Mesquita

“Aqui, a gente começa a torcer pelo disco e se perde a capacidade de ser juiz. Essa dupla tem uma voz muito interessante e a colocam em uma região audível. Eu sou velho, tenho 80 anos e ouço muito mal, mas estou ouvindo praticamente tudo da letra, uma coisa muito interessante, bonita e estranha. Agora eu passo a torcer pelo disco.”

FAIXA 3 “Uni duni tê”, de Paulo Monarco e Marcelo Segreto

“Nessa faixa já fica claro um pouco do método. Pode-se dizer que essa música não tem texto, tem situações concretas, palavras como se fossem traves fincadas no chão e a gente fica correndo em volta delas se equilibrando, pulando. É uma maneira nova de trabalhar a palavra, que eu não me lembro de ter visto ainda em canção.”

FAIXA 4 “Toca aí”, de Túlio Borges

“Essa canção é de arrasar, bate fundo e forte. O texto aqui, orienta um pouco mais a gente, não é mais um espaço cheio de objetos, com os quais íamos nos batendo, pulando e se equilibrando. É claro que estou fazendo uma interpretação louca, mas é devido à música ser tão interessante . Olhe, esse livro do Flávio Desgranges [“A Inversão da Olhadela – Alterações No Ato do Espectador Teatral”, editora Hucitec] que é da USP [ Desgranges é doutor em Educação, diretor teatral e professor do Departamento de Artes Cênicas da ECA/USP], em um dos capítulos diz que uma das técnicas que existem hoje é mostrar, por exemplo, não um personagem de Shakespeare, mas o que uma atriz faz para incorporar e vestir Ofélia. Engraçado, porque essa canção parece fazer parte das outras três, o que faz com que se perca o senso aristotélico da organização racional. Isso de certo modo nos deixa um pouco desprotegidos. As canções anteriores nos prepararam para o sopapo dessa letra. Aqui a emoção está mais presente, parecendo mais uma letra tradicional. Depois de termos perdido o equilíbrio com as outras canções, como se estivéssemos andando em um espaço repleto de objetos no escuro, nessa música, de repente, acende um lado do espaço e você vê uma coisa humana nele.

FAIXA 5 “Tem dó”, de Paulo Monarco e Zeca Baleiro

“Aqui fica claro outra coisa. A gente não sabe qual tipo de visão de universo as criaturas que fizeram essas letras foram criadas. Por exemplo, tem hora que parece que foram criadas no mundo do candomblé, mas no mundo emocional do candomblé. Não é simplesmente botar uma palavra tipo orixá, xáxá, xoxó, xuxu. Parece que estamos lendo o antropólogo Viveiros de Castro [Eduardo Batalha Viveiros de Castro, 61, professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro] que tem uma coisa chamada perspectivismo ameríndio. É isso que o tempo todo se faz presente nessa canção.”

FAIXA 6 “Venha”, de Paulo Monarco e Celso Viáfora

“Esse disco me pegou em uma hora muito fraca. Passei o dia com minha atenção muito espoliada por mil coisas diferentes. Vou viajar amanhã, então tem gente que quer que eu dê entrevistas, elabore documentos, mais um monte de outras tarefas e de repente esse disco me tira de tudo isso de uma forma maravilhosa. Olhe que coisa linda essa rima de ‘luz’, com ‘Chicago Bulls’, quem poderia pensar que ‘Gagarin’ rima com ‘ares’? Oh meu Deus! Essa parte da letra que diz ‘Lá do céu a terra é sempre azul’, lembra bem a fase da briga dos comunistas com os capitalistas e os russos botaram o Gagarin [Yuri Alekseievitch Gagarin (1934-1968) cosmonauta soviético e o primeiro homem a viajar pelo espaço, em 12 de abril de 1961, a bordo da Vostok 1] em órbita e a primeira expressão dele foi ‘A terra é azul’ como quem diz: ‘Puta que o pariu, é tanto lero lero e essa porra é azul, é só isso’. Nossa senhora, me pegou, esse disco me pegou.”

FAIXA 7 “Contenteza”, de Paulo Monarco e Alisson Menezes

“Quando se fala de canção, refrão é o que bota a gente no chão. Aqui ele dá uma pista da educação dessas pessoas. Há fugas contrapontos e qualquer coisa assim, mas depois arrasta a gente de aluvião e faz com que naveguemos por diferentes situações. Muito bom esse disco.”

FAIXA 8 “Lá do outro lado”, de Paulo Monarco e Sandro Dornelles

“Quando eu era pequeno não era moda chorar. A gente, que vivia no Nordeste, pensava que jamais alguém iria pinçar alguma coisa daquela vida, daquele tempo e daquele lugar. Quando era bem jovem e comecei a ler a primeira parte de ‘Os Sertões’, eu chorei e tremi, porque Euclides falava daquele povo que eu atendia no balcão da loja de meu pai. Naquele tempo, se pegassem uma criança chorando por essa razão, como não havia psicólogo nem nada, diriam que eu estava com um santo errado que baixou em mim, ou que eu não tinha uma cabeça certa, porque não se chorava à toa. Por isso, eu tinha vergonha de chorar, e agora também, mas estou chorando. Ainda tenho vergonha desse tipo de coisa, me respeito, mas o simplório aqui está arrodeado e é elevado a uma magnitude absurda. Principalmente nesse verso: ‘Eis que uma brusca mudança de cena/Leva os olhares lá pruma morena’. Que coisa bonita!”

FAIXA 9 “Escuta”, de Paulo Monarco e Túlio Borges

“Aqui parece que se trata de um órgão sexual feminino, porque homem pensa só em órgão feminino, não sei pensar em outra coisa. Parece que tem uma vagina escancarada que o autor está chamando de ‘ouvido’, porque vagina ficaria censurável. Essas duas pessoas cantando juntas praticam uma arte refinada, com uma colocação de voz que se misturam, parecendo que são gêmeas. Isso é uma malandragem, muito boa. Quando acaba a música é inevitável se estar de pau duro.”

FAIXA 10 “Dois tempos de um lugar”, de Celso Viáfora

“Que autoridade sou eu? Fui pego em um dia fraco, estou emocionado e acho que dizendo bobagem, mas isso aqui parece poesia mesmo. Puxa vida, que belo disco, viu? Que bom que você me mostrou isso. Melhorou meu dia. ”

FAIXA 11 “Trovoa”, de Mauricio Pereira

“Parece que vai ser só um texto, mas tem tanto eco nessa canção que surpreende. É poesia pura. Sensacional! ”

FAIXA 12 “Madrigal”, de Paulo Monarco, Dandara e Bruno Batista

“Outra faixa linda. Adorei. ”

O músico Tom Zé participando da audição às cegas para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico Tom Zé participando da audição às cegas para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

AVALIAÇÃO PONTUAL DE TOM ZÉ

INTÉRPRETES

“Ótimo.”

COMPOSIÇÕES

“Ótimo.”

HARMONIA

“Ótimo.”

RITMO

“Ótimo.”

MELODIA

“Ótimo.”

ARRANJOS

“Ótimo.”

SOM (CAPTAÇÃO, MIXAGEM E MASTERIZAÇÃO)

“Ótimo.”

CONSIDERAÇÕES GERAIS

“Esses intérpretes parecem dois manhosos que vieram não sei de onde – um vindo de Marte e outro de qualquer parte – que descobriram ser donos de um segredo sonoro contido na colocação da voz. Vozes paralelas são comuns na música popular, mas eles valorizam isso mostrando o que é o ser humano cantando. As composições são estranhas e ótimas, assim como os ritmos, as harmonias e as melodias. Os arranjos… É melhor chamar de estranhos do que de ótimos… mas não deixam de ser ótimos. São como uma poeirinha que apoia uma nuvem ou um vento que passa de manhã e leva algumas poucas folhas de um galho. Isso faz com que eles ajudem as palavras serem significantes. Muda, abre e bota luz no significado delas. Hoje em dia é comum não se escutar muito bem os elementos dos discos, mas nesse se escuta tudo. A captação, mixagem e masterização desse trabalho são perfeitas. Se ouve tudo e muito bem. Esse disco é todo ótimo.”

CD REVELADO

Após a audição, revelei ao compositor Tom Zé que “Dois tempos de um lugar” é o disco da dupla de cantores e compositores Dandara e Paulo Monarco. Um breve histórico sobre as carreiras das artistas também foi fornecido a Tom Zé, assim como todas as outras informações sobre o disco, seus participantes, ficha técnica, capa e encarte. Lembrei Tom Zé que Dandara, entre outros trabalhos, foi a cantora que gravou, em 2010, “Pavana Para Uma Terra Viva”, música dele com André Lima.

Diante das revelações, Tom Zé complementou sua avaliação “Não identifiquei as pessoas, mas gostei muito desse disco. Eles estão de parabéns. Transmita a eles minhas felicitações. Gostei muito desse disco.”

Perguntado se há espaço para esse CD no mercado, Tom Zé respondeu: “Para esse disco há lugar sim, porque ele é tão inesperado que surpreende qualquer um. Esse disco é uma coisa íntima, bonita e está cheio de finuras e sofisticações. Que Deus os ajude. Que bom você ter me mostrado esse CD. Há muito tempo não ouço uma coisa dessas. Muito obrigado por ter pensado em mim para avaliar esse trabalho.”

AVALIAÇÃO DE TOM ZÉ

“Ótimo”

Capa do CD “Dois tempos de um lugar”, de Dandara e Paulo Monarco (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do CD “Dois tempos de um lugar”, de Dandara e Paulo Monarco (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CD “DOIS TEMPOS DE UM LUGAR”

ARTISTAS Dandara e Paulo Monarco

GRAVADORA Independente

QUANTO R$ 30

SHOW DE LANÇAMENTO DO CD “DOIS TEMPOS DE UM LUGAR”

QUANDO Domingo, dia 14 de agosto, às 19h

ONDE Auditório Ibirapuera, Av. Pedro Alvares Cabral, s/n – Portão 2 do Parque do Ibirapuera, tel. (11) 36291075, São Paulo

QUANTO R$20 e R$10 (meia entrada)