Sem Noção – “Pórva”, por Rui Torneze

Por Carlos Bozzo Junior

 

O músico Rui Torneze de Araújo ouvindo o CD “Pórva”, do violeiro Paulo Freire (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico Rui Torneze de Araújo ouvindo o CD “Pórva”, do violeiro Paulo Freire (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras convidou o músico Rui Torneze de Araújo para participar da audição às cegas do CD “Pórva”, do violeiro Paulo Freire, para a série Sem Noção.

Paulistano, Rui Torneze de Araújo, 53, estudou violão clássico, é maestro, professor, violeiro, arranjador e fundador da OPVC (Orquestra Paulistana de Viola Caipira), uma orquestra bem diferente dos grupos que utilizam esse instrumento de dez cordas de origem portuguesa.

Geralmente, orquestras de violas caipiras configuram-se dentro de um padrão. Pendura-se os instrumentos nos pescoços de cada um de seus integrantes, ridiculamente caracterizados de “Nhô” ou “Frô”, com chapéus de palha e camisas xadrezes. Sob o comando de qualquer um que saiba contar até três, tocam debilmente os mesmos acordes “básicões”, acompanhando com uma batida- que qualquer macaco pode fazer- melodias em uníssono, não menos chatas. Assistir a isso incita a eutanásia por deixar o ouvinte doente, como que atingido por uma afecção incurável que produz dores lancinantes e insuportáveis no ouvido e na alma. Em suma, um porre sem cura.

Já a OPVC lembra roça, mato, pinga, mas não mata e nem dá ressaca. Dividida em naipes, a orquestra executa arranjos bem elaborados, escritos por Torneze, para músicas clássicas, new age, MPB e, claro, a chamada “música de raiz”.

Conhecedor e especialista no instrumento, sua sonoridade, ritmos, e afinações- cebolinha, cebolão, natural, maxabomba, boiadeira e rio-abaixo, entre outras-, o maestro arregimenta a OPVC para apresentações em distintas formações como duplas, trios, quartetos, cameratas, além da própria orquestra que pode contar com a participação de doze a 45 integrantes. (Leia em breve post sobre a OPVC).

Torneze recebeu o Música em Letras em uma cozinha tipicamente caipira, com direito a fogão e forno a lenha, na casa que funciona como sede da OPVC, na Vila Centenário, bairro da zona leste de São Paulo.

Leia, a seguir, as impressões de Torneze sobre o novo CD instrumental do violeiro Paulo Freire, autor de todas as músicas. Esse é o primeiro disco solo do músico, que já gravou mais dez CDs autorais e realizou várias participações em outras bolachinhas. Neste disco, nove músicas são inéditas e três são regravações. “Pórva” foi lançado pelo selo Vai Ouvindo, com distribuição da Tratore. Gravado e mixado por Mário Porto em seu estúdio, o disco tem masterização de Homero Lotito, executada no Reference Mastering Estúdio. A capa ficou por conta de Eleusina Freitas, com fotos de Adriano Rosa.

Segundo Freire, o ‘Pórva’ começou a tomar forma em janeiro de 2015. “Parei de viajar a trabalho e sosseguei um tempinho. Fui ponteando a viola tranquilamente… no terraço, na sala, na cozinha, no quintal, sentindo o movimento de casa. As músicas foram surgindo a partir de pequenas ideias, pequenos rastilhos, que de repente eram incendiados e explodiam que nem pórva! Não tinha nenhum CD solo. Estava precisando dele. Quer dizer, a vida me encaminhou para ficar um pouco sozinho e a viola me fez companhia. Agora só falta o ‘siô’ e a ‘siora’ chegarem aqui pertinho.”

FAIXA 1 “Pórva”

“Não sei quem é o violeiro, mas ele tem uma pegada, de mão direita, de quem já foi guitarrista. Eu estava quase puxando uma bateria virtual, no telefone, para acompanhar. O toque é meio roqueiro. Ele está usando uma afinação aberta, em ré, para executar um tema que remete a uma trilha. Uma música bonita e de bom gosto, com harmonia de acordes simples, nada sofisticada. Essa música é principalmente boa para conquistar o gosto da garotada. Gostosa de ouvir.”

FAIXA 2 “Conversa de Lagartixa”

“A música é tocada na afinação rio-abaixo, focada em arpejos. Esse é um tema bem contemporâneo, não remete ao regionalismo, mas tem um pouquinho disso pela própria afinação. É um tema, como o outro, curto e simples, que cabe bem como trilha de uma cena com elementos nordestinos. É uma composição bem visual. A afinação rio-abaixo é mais instrumental e pouco utilizada, embora tenhamos músicas gravadas por Inezita Barroso, Tonico e Tinoco, Zilo e Zalo com esse registro. O tocador de viola tem que aproveitar o instrumento mais solto, mais livre. Essa afinação torna mais fácil manipular a viola, por exemplo, em músicas em tom de sol ou dó maior. Essa é uma afinação bastante utilizada na ilha da Madeira. Com ela, você toca o machete de quatro cordas, que é o cavaquinho; o rajão de cinco cordas, que é um pouco maior e mais grave que o cavaquinho, e a viola de cinco cordas duplas, a nossa viola caipira. No Brasil, essa afinação é mais divulgada no norte de Minas, em Urucuia [cidade mineira com pouco mais de 13 mil habitantes]. Geralmente, a afinação que mais se utiliza no país é o cebolão, em mi. Na verdade, o violeiro passa metade da vida afinando a viola e a outra metade tocando com ela desafinada.”

FAIXA 3 “Quieta”

“Pela profusão do grave me parece ser a afinação boiadeira, que é praticamente o cebolão, com o quinto par de cordas afinadas em tom um pouco mais grave. Essa música é melancólica e triste, em tom menor, que trabalha com acordes um pouco mais dissonantes e por isso tem uma harmonia mais complexa do que as outras. Sinto que o autor trabalhou mais a parte ‘visual’ da música deixando claro que o interesse dele está mais para compor uma trilha. São músicas curtas e que poderiam ser muito bem aproveitadas em um documentário, por exemplo. Por enquanto, o disco vai bem. Bom de escutar.”

FAIXA 4 “Buritizal”

“Mais uma música gravada com a afinação rio-abaixo. A cada música me convenço, pela pegada, de que esse violeiro é guitarrista. Ele mostra ter uma boa formação musical. A linguagem dessa faixa, com inserções pequenas e curtas, é bastante sofisticada. Não consegui fixar o tema porque ele não tem uma repetição melódica forte. Insisto que essas músicas poderiam estar em um documentário ou em uma novela. É uma música popular brasileira com um tema bem contemporâneo e uma linguagem até bem complexa para o instrumento.”

FAIXA 5 “De Leve”

“Essa música é de uma riqueza harmônica muito bonita. Em minha opinião, não existe público que consuma esse tipo de música. Se for uma pessoa que aprecia música erudita, ela vai querer uma música com começo, meio e fim. Uma coisa mais tradicional. Se for alguém mais simples, diria: ‘Toca uma boa aí!’. Agora, quem tem ouvido para o jazz, ou para usar essa música em uma trilha, vai gostar. Estou gostando da harmonia do trabalho. Se fosse cineasta, iria querer usar isso.”

FAIXA 6 “Ticutuco”

“Beleza, parece um choro. No começo parece que o músico está ‘chorando’ em uma Folia de Reis, mas com um toque mais contemporâneo. Essa deu para fixar mais e assobiar a melodia. Inspirado.”

FAIXA 7 “Gambeta”

“Essa música começou com uns arpejos bem leves e depois vai para uma pegada mais rock. Eu recomendo ao pessoal que trabalha com trilhas para filmes usar esse disco do rapaz. Ele leva você a enxergar algumas coisas. Eu estava enxergando o vento, ou algo de uma natureza conturbada; esses acordes dissonantes te fazem enxergar isso. Parece ser homem, e cabeludo, quem está tocando.”

FAIXA 8 “Segredo das Veredas”

“É a faixa que mais gostei até agora. A música parece ter uma letra. Quando a pessoa fez essa música, já devia existir uma letra. Eu percebi que o conhecimento dessa pessoa [violeiro] é bastante grande em termos de harmonia e música. Você nunca consegue adivinhar para onde vai a próxima nota; ela não é óbvia. Você não sabe aonde vai dar, mas sempre acaba em um caminho legal e inesperado. Gostei demais.”

FAIXA 9 “Levado do Lundu”

“É um batuque tocado com afinação rio-abaixo, que é muito usado no norte de Minas. Foi a que teve uma linguagem mais próxima do que se escuta com viola. Batuquinho gostoso para memorizar o tema, foi um pouquinho diferente do que o violeiro fez até agora. Essa música é mais voltada para a raiz do instrumento. Gostei.”

FAIXA 10 “Borá Lá”

“Esse violeiro é guitarrista. Esse cara é novo. Me lembrou uma coisa, que nem deve ser do tempo dele, aquela banda Bachman-Turner Overdrive. Legal, com um toque bem ‘guitarreado’. É importantíssimo saber dominar essa linguagem do rock na viola. É bom apresentar isso para o público.”

FAIXA 11 “Teiú do Jarau”

“Ela começou com uns toques que lembram algo com influência ibérica. Depois, no meio da música, foi para um estilo latino-americano lembrando aqueles fundos musicais que a Mercedes Sosa fazia. Essa tem uma melodia bonita, principalmente quando passa para a parte mais latino-americana. Bonita música.”

FAIXA 12 “Mão na Jaca”

“Já a pegada dessa faixa é bem de jazz-rock. São acorde abertos e esses fraseados são quase um riff de guitarra mesmo. Mostrou bem a raiz do violeiro que, mais voltado para o jazz rock, poderia ser classificado como um violeiro mais urbano, com características bem definidas de tendência e pegada. ”

O músico Rui Torneze participando da audição às cegas para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico Rui Torneze participando da audição às cegas para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

AVALIAÇÃO PONTUAL

INTÉRPRETE

“Bom.”

COMPOSIÇÕES

“Bom.”

HARMONIA

“Muito bom.”

RITMO

“Regular.”

MELODIA

“Regular.”

ARRANJO

“Muito bom.”

SOM (CAPTAÇÃO, MIXAGEM E MASTERIZAÇÃO)

“Bom.”

CONSIDERAÇÕES GERAIS

“Tenho a impressão de que esse disco é o primeiro trabalho de um intérprete com músicas autorais. Não conheço nenhuma delas, nem o intérprete, que quis apresentar a natureza de seu trabalho no disco. Em algumas faixas, ele se mostrou ter o conhecimento da raiz do instrumento. Tenho a impressão de que deve ser um músico mineiro, não um músico de São Paulo, pela afinação que utiliza. Ele usa a viola como instrumento de expressão, mas teve o jazz e o rock na sua formação e contou com uma boa educação musical.”

CD REVELADO

Após a audição às cegas, foram reveladas as informações sobre o CD “Pórva”, décimo primeiro disco do violeiro Paulo Freire, também autor das músicas. Outros dados sobre o disco, seus participantes, ficha técnica, capa e encarte também foram apresentados a Torneze.

Diante das revelações, Torneze complementou sua avaliação: “Eu nunca acharia que era um disco do Paulo Freire, porque está mais voltado para outra linguagem. O Paulo como músico, e como falei antes de saber que era ele, tem bagagem. É um músico de bagagem, mas o disco deixa a impressão de que se trata de alguém chegando agora no mercado. Por isso fiquei surpreso de ser ele. São músicas curtas com a preocupação de mostrar um conhecimento harmônico, e o Paulo tem um trabalho mais voltado para o regional, mas mantém a característica de fazer uma música ‘visual’. Achei que o artista era um garotão. O Paulo sempre surpreende; ele deve estar com o espírito bem novo, e de cabelão. A música dele também surpreende e sempre acaba bem, o que é próprio da sua genialidade.”

Perguntado se há espaço para esse CD no mercado, Torneze avaliou: “Não. Não há lugar para esse disco no mercado do público violeiro, do consumidor de discos de viola. Acredito que seria um disco muito bem utilizado como trilha em documentários ou filmes. O público de viola é o mesmo tipo de público da música erudita. É um público mais ‘quadrado’, digamos. O disco do Paulo é mais de músico para músico. Tudo é uma questão de linguagem. É como você escutar uma palestra em russo e saber que o cara está falando de economia e não de culinária. Do mesmo jeito, o cara que entende música compreende a linguagem desse CD e para onde ela vai. O público brasileiro infelizmente não tem essa educação. Esse disco faria sucesso na Alemanha, na França, lugares onde há um refinamento em termos de escutar e de entender a música. Gostei da experiência e da escolha desse CD para minha avaliação. Foi surpreendente.”

AVALIAÇÃO DO CD “Pórva” POR RUI TORNEZE 

“Bom”

Capa do CD “Pórva” de Paulo Freire (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do CD “Pórva” de Paulo Freire (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CD “Pórva”

ARTISTA Paulo Freire

GRAVADORA Independente

QUANTO R$ 30