Sem Noção – “A Gata Café”, por André Marques

Por Carlos Bozzo Junior
O músico André Marques ouvindo o CD "A Gata Café", de Toninho Ferragutti Quinteto (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico André Marques ouvindo o CD “A Gata Café”, de Toninho Ferragutti Quinteto (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Acontece domingo (26), no Sesc Belenzinho, em São Paulo, o show de lançamento do CD “A Gata Café”, do Toninho Ferragutti Quinteto, formado por Toninho Ferragutti (acordeon e composições), Vinícius Gomes (guitarra e violão), Cássio Ferreira (saxofones), Cleber Almeida (bateria) e Thiago do Espírito Santo (baixo). Uma prévia desse som rola hoje (24), a partir da meia-noite, no Jazz nos Fundos.

Aproveitando a oportunidade, o Música em Letras convidou André Pereira Marques, 40, para participar da audição às cegas da série Sem Noção, do CD do Toninho Ferragutti Quinteto, o décimo do acordeonista.

Marques é pianista, compositor, arranjador, professor e integrante do grupo de Hermeto Pascoal. O músico exibe larga experiência, com diversas formações em sons “agrupados”. Dos 12 CDs lançados, apenas quatro são dele. Os demais são registros de seu trabalho com o Trio Curupira,Vintena Brasileira e André Marques Sexteto. Com este último, Marques acaba de realizar uma turnê pela Argentina e Chile, onde apresentaram sete concertos, além de oficinas com grande sucesso de público e de mídia. “Tivemos mais espaço que o Paul McCartney”, contou rindo o músico que foi destaque nos jornais, rádios e emissoras mais importantes desses países. No “Tiempo Argentino”, jornal de Buenos Aires, Marques ocupou quase uma página inteira, não fosse um pequeno texto intitulado “Paul McCartney inicia su tercera visita a La Argentina”, no final da página.

Marques recebeu o Música em Letras no apartamento de seu pai, o guitarrista Natan Marques, em Perdizes, bairro da zona oeste de São Paulo, para a audição às cegas das 10 faixas do CD “A Gata Café”.

Leia, a seguir, as impressões de Marques sobre o novo CD do acordeonista Toninho Ferragutti, que tem composições e direção musical assinadas por ele, além de dividir a produção com sua mulher Cinthia Camargo responsável também pela ilustração de capa, com reprodução de Laura Del Rey. A produção executiva ficou a cargo de Ceará 202; gravação, mixagem e masterização de Adonias Junior; fotografia, Jabuticaba Filmes; e projeto gráfico de Bruna Schuch e Laura Del Rey.

FAIXA 1 “Com a Búlgara Atrás da Orelha”

“Não conheço a música. Pelo tipo de música e ouvindo mais, talvez eu saiba quem são alguns dos músicos que estão tocando. Esse primeiro tema parece ter uma influência de música árabe ou de músicas do Leste europeu, para mim está próximo disso. Está muito bem tocado. Estou com dificuldade para identificar os músicos, mas posso dizer que todos são todos muito bons. Achei bem bacana.”

FAIXA 2 “Egberto”

“Muito bonito. Essa faixa já mostra um lado bem brazuca do CD. Tem toda uma base mais simples, mas em cima disso eles vão colocando outras coisas que dá essa cara mais contemporânea, principalmente no final da música. Achei bem legal. Os músicos são muito bons mesmo.”

FAIXA 3 “Santa Gafieira”

“Essa faixa é mais convencional, com inspiração em um som mais antigo. O que estou achando legal é que, até agora, as faixas são bem diferentes umas da outras. Isso é uma coisa que eu gosto muito. Nas coisas que eu faço, gosto de pensar assim também, porque aí não fica cansativo. Essa faixa também é muito legal.”

FAIXA 4 “Cortejo do Rio do Peixe”

“Também é muito boa essa faixa. Continua mostrando bastante diferença de uma faixa para a outra. Esse é um tema que, a princípio, parece ter influência do maracatu e que por um bom tempo parece manter a harmonia mudando, mas com um pedal [som contínuo sobre o qual é construída uma estrutura harmônica e melódica]. Achei bem legal as vozes do saxofone com a sanfona que se abrem na melodia. Gostei.”

FAIXA 5 “A Gata Café”

“Essa música mantém a ideia de diferentes estilos entre as faixas. Não sei se o disco é de um músico ou de um grupo, mas a ideia parece ser mostrar mais arranjos que improvisos. Tem bastante improviso, mas são curtos e eu acho isso bem legal. Apesar de ter um arranjo contemporâneo, me fez lembrar de uma coisa mais antiga, mas legal.”

FAIXA 6 “Beduína”

“Essa música também tem influência de música árabe com música flamenca. Ela é uma mistura disso que, às vezes, sai um pouco dessas influências e vai para o sul do Brasil, lembrando mais um chamamé antes de voltar para a Arábia novamente. Ela é bem legal e bem dentro do que o Hermeto chama de Música Universal, uma mistura de tudo, sem rótulo.”

FAIXA 7 “Nem sol, nem Lua”

“Essa música começou me lembrando uma trilha sonora de um filme e depois passou por alguma coisa que lembra o tango, sem que isso fosse claro e óbvio. Mais um tema bem tocado, superensaido com todos tocando para caramba e mantendo um pouco dessa coisa do improviso curto. Mas fiquei com vontade de ouvir um pouquinho mais. Principalmente o acordeonista, que começou solando bonito e de repente parou deixando aquela sensação na gente de querer ouvir mais. Bacana.”

FAIXA 8 “Bipolar”

“Essa é um frevo da pesada. Na primeira parte, lembra um frevo mais tradicional e depois mistura outras coisas com umas tercinas [alteração rítmica da divisão regular das notas executando-se três notas no tempo de duas] antes de ir para o final mais em bloco. Essa música é bem difícil. Difícil para caramba para o sanfoneiro, deve ser de autoria dele.”

FAIXA 9 “O Mancebo”

“Bacana. Uma gafieirona, mantendo o contraste de uma música para outra e, como as outras faixas, muito bem tocado.”

FAIXA 10 “Chapéu Palheta”

“Muito bom. Essa é a única faixa que foge do padrão das faixas diferentes entre si no CD. Ela tem o mesmo estilo do choro gafieira da música anterior. O pessoal ‘quebrou’ tudo. ”

O músico André Marques realizando audição às cegas para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico André Marques participando da audição às cegas para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

AVALIAÇÃO PONTUAL

INTÉRPRETES
“Ótimo.”

COMPOSIÇÕES
“Ótimo.”

HARMONIA
“Ótimo.”

RITMO
“Ótimo.”

MELODIA
“Ótimo.”

ARRANJO
“Ótimo.”

SOM (CAPTAÇÃO, MIXAGEM E MASTERIZAÇÃO)
“Ótimo.”

CONSIDERAÇÕES GERAIS

“Parece ser o CD de um grupo. Tenho desconfiança de alguns músicos, mas não dá para eu adivinhar quem são. Como estou acostumado a usar o termo, eu diria que é um disco de Música Universal. Dá para sentir que o disco tem um pé no Brasil, mas com uma mistura grande de ritmos, aberto para a influência de outros países. Apesar de ter influência de gêneros musicais mais antigos, é um disco bem contemporâneo. Percebo que foi bastante ensaiado porque está muito bem tocado, por músicos muito bons e que improvisam muito bem. Mas não consegui identificar quem são. Às vezes penso que é um músico, mas quando muda de faixa acho que não é mais a mesma pessoa, então rola uma dúvida.”

CD REVELADO

Após a audição às cegas, foram reveladas as informações sobre o CD “A Gata Café”, décimo disco do sanfoneiro Toninho Ferragutti, também autor das músicas. Outros dados sobre o disco, seus participantes, ficha técnica, capa e encarte também foram mostrados para Marques.

Diante das revelações, Marques complementou sua avaliação: “ Suspeitei do Ferragutti [acordeon] e do Cleber Almeida [bateria], mas não tive certeza. Do Thiago do Espírito Santo [baixo] não desconfiei porque ele se comportou demais tocando. Não conheço todo o trabalho do Ferragutti, mas dos que ouvi, talvez seja o que eu mais eu tenha gostado. É uma linha diferente. Conheço todo o pessoal que está com ele. São grandes músicos. Conheço o Cássio Ferreira [saxofones] tocando um repertório jazzístico, mas tocando esse som brasileiro me surpreendi porque é difícil para o músico passear por essas linguagens. O disco soa como um trabalho de grupo. O Ferragutti deixou bastante espaço para todos, sem dar destaque maior para ele, e isso é bem legal. O disco é muito bom.”

Perguntado se há espaço para esse CD no mercado, Marques respondeu: “Dentro do mercado de música instrumental com certeza há lugar para esse disco. A música instrumental tem sempre que buscar outros caminhos. Esse CD faz isso. O Ferragutti já tem um nome e isso facilita. Com certeza há um bom lugar para esse som, não só aqui no Brasil, mas no mundo todo. Adorei que você tenha escolhido esse disco para eu fazer a avaliação porque, além de gostar do som, fui surpreendido.”

AVALIAÇÃO DE ANDRÉ MARQUES
“Ótimo”

capa
Capa do CD “A Gata Café” de Toninho Ferragutti Quinteto (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CD “A GATA CAFÉ

ARTISTA Toninho Ferragutti Quinteto
GRAVADORA Independente
QUANTO R$ 30

SHOW DE LANÇAMENTO DO CD “A GATA CAFÉ”

QUANDO Domingo, dia 26 de junho, às 18h
ONDE Sesc Belenzinho, Rua Padre Adelino, 1000 , tel. (11) 2076 9700, São Paulo
QUANTO R$ 7,50 R$ 12,50 e R$ 25

ESQUENTA PARA O SHOW DE LANÇAMENTO DO CD “A GATA CAFÉ”
QUANDO hoje, sexta-feira (24), meia-noite
ONDE Jazz Nos Fundos, r. João Moura, 1076, Pinheiros, tel (11) 3068-0947
QUANTO R$ 25, R$ 35 e R$ 45