Música Sagrada- O Canto Bizantino na Igreja Ortodoxa

Por Carlos Bozzo Junior
O bispo dom Romanós, na Catedral Metropolitana Ortodoxa, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O bispo dom Romanós na Catedral Metropolitana Ortodoxa, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Qual a função da música na igreja ortodoxa? Onde escutá-la? Como ela é? Quem a executa? Quem a compõe? Essas e outras respostas você vai ler na entrevista concedida ao Música em Letras por dom Romanós Daowd, bispo auxiliar da Igreja Ortodoxa Antioquina de São Paulo, sediada na Catedral Metropolitana Ortodoxa, no Paraíso, bairro de São Paulo.

Esta matéria faz parte da série Música Sagrada, cujo intuito é mostrar, de maneira didática, como músicas, sons, letras, instrumentos e poesia se relacionam com religiões, seitas e cultos.

A primeira matéria da série abordou a música executada em templos e terreiros de umbanda (veja post do dia 02/02/2016). A matéria seguinte abordou a música que se escuta nas mesquitas, templos da religião muçulmana (veja post do dia 24/03/2016).

Leia, a seguir, a terceira matéria da série e conheça a relação da música com Deus na igreja ortodoxa.

Assista, no final do texto, ao vídeo gravado com exclusividade pelo Música em Letras no qual o bispo dom Romanós entoa um cântico de sua autoria, que celebra a ressurreição de Cristo.

A MÚSICA NA IGREJA ORTODOXA

Na igreja ortodoxa, a música é chamada bizantina ou canto bizantino. Ela dirige os fiéis à penitência, à alegria espiritual, ao arrependimento e os ajuda na oração.

Segundo dom Romanós, o melhor coral de música bizantina é grego e seu som está registrado no CD “Os Mestres da Arte dos Salmos Bizantinos- Os Cânticos da Ressurreição”. Esse coral é masculino, mas há também corais femininos. “Eu acho que a música bizantina foi criada para homens, mas não podemos proibir as mulheres de cantar”, disse dom Romanós que também reconhece o valor dos corais femininos.

Ao contrário das manifestações musicais de outras igrejas, a música bizantina não muda com o tempo. Sua estrutura e finalidade são as mesmas, podendo ser ouvida em qualquer um de seus templos pelo mundo. Contudo, há uma variação de intervalos de som que distingue entre as que são executadas por corais dos países orientais e ocidentais. Em um exercício de poesia, diz-se que a notação da música bizantina é capaz de descrever esses intervalos e nuances em detalhes. É tão precisa e avançada que permite grafar no papel, por meio de símbolos, sinais, letras, números e ícones, o som das folhas de uma árvore ao vento.

Assista ao vídeo abaixo e confira a dificuldade de transcrever para o papel o farfalhar de copas de árvores ao vento.

A IGREJA

A igreja ortodoxa, que tem aproximadamente dois mil anos de existência, possui no Brasil paróquias pelos Estados de São Paulo, Goiás, Paraná, Minas Gerais e Pernambuco, além do Distrito Federal. O registro da primeira missa (divina liturgia) celebrada pelos ortodoxos em São Paulo é de 1897. Há cerca de 260 milhões de cristãos ortodoxos no planeta. O censo demográfico do Brasil, de 2010, contou 131.571 cristãos ortodoxos no país. Embora a doutrina baseie-se nos princípios básicos do cristianismo, ortodoxos não aceitam o papa como chefe universal da igreja. Eles têm como chefe de cada igreja um patriarca. Não usam estátuas, e sim ícones, que são considerados de suma importância e janelas para Deus. Geralmente retratam Jesus Cristo, santos e acontecimentos cristãos. Alguns padres dessa ordem são casados. O matrimônio é permitido antes da ordenação. Já os bispos são sempre celibatários. Padres celebram missas, batismos e casamentos. Bispos são responsáveis pelas ordenações.

Dom Romanós, em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Dom Romanós em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

ELOS DA CORRENTE

A cantora e atriz Cris Miguel foi o elo entre o Música em Letras e o padre Pedro, ordenado pela igreja ortodoxa de São Paulo. “Conheço uma pessoa ideal para você entrevistar para a serie Música Sagrada”, disse a atriz, certeira na dica.

Pedro Henrique Marsiglia, 62, nascido em Roma, veio ainda bebê para o Brasil e cresceu em São Paulo. Cursou engenharia civil na Universidade Presbiteriana Mackenzie e depois trabalhou, até se aposentar como coronel, no Corpo de Bombeiros da cidade. Padre Pedro desmistifica a imagem sisuda há muito conferida a religiosos. Entre algumas curiosidades em sua vida consta o fato de ele morar na casa que foi da cantora Elis Regina (1945-1982), na serra da Cantareira, tocar saxofone tenor e andar de moto. “São Paulo de carro é impraticável”, disse o padre fiel à mobilidade de uma Harley Davidson 1.600 cilindradas, vermelho metálico, ano 2014, modelo Dina Super Glide. “A Maria Clara, minha mulher, adora nossos passeios de moto”, falou o padre que armou para o Música em Letras a entrevista com dom Romanós, legítimo conhecedor de música bizantina e bispo da Igreja Ortodoxa Antioquina de São Paulo.

Dom Romanós, antes de cantar para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Dom Romanós antes de cantar para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O BISPO E O SANTO

O bispo dom Romanós Daowd, 38, nasceu em Latakia, Síria, distante cerca de 350 quilômetros da capital Damasco. Há quatro anos, o bispo mora no Brasil.

Dom Romanós herdou o nome de São Romanós, “O Melodista”, que viveu no século 5, foi ordenado diácono e tornou-se professor de música sacra. Até sua morte, em 556, compôs quase mil hinos litúrgicos, muitos ainda são cantados. “Recebi esse nome do arcebispo que me ordenou para que eu tenha um exemplo de vida. Devo seguir os passos de São Romanós”, disse o bispo.

São Romanós não era dono de uma boa voz, mas era o que mais desejava para cantar para a mãe de Deus. Durante uma vigília, com sono, adormeceu. Sonhou com a mãe de Deus e de suas mãos recebeu um doce com a instrução de, após comê-lo, se levantar e cantar. Acordou, levantou e começou a cantar com uma voz maravilhosa. Naquele momento, a mãe de Deus deu a ele, além da voz, talento para escrever e compor. Perguntei se o bispo já havia presenciado um milagre ou sonhado com algo parecido. “Infelizmente não”, respondeu.

Dom Romanós gosta de música desde criança. Tocava vários instrumentos. Entre eles, o quanun, instrumento árabe de cordas do século 10. O bispo admite ter uma voz (barítono) não muito boa, mas capaz de executar os cantos bizantinos.

Quando dom Romanós tinha 13 anos, um padre da igreja ortodoxa visitou sua casa para abençoá-la. Ouvindo o garoto cantar, imediatamente convidou-o para que fosse à igreja aprender música bizantina. Após três anos, o adolescente tornou-se líder do coral formado por 25 vozes. Permaneceu por cinco anos como chefe desse coral e realizou várias apresentações em sua paróquia e em outras cidades da região.

O mesmo padre que o convidou para aprender música, acabou por incentivá-lo a se tornar também padre. “Ele me perguntou porque não ser um padre para servir a igreja, pois eu tinha uma boa voz, além de amor a Deus”, contou o bispo que, com 22 anos, foi para o Líbano estudar no Instituto de Teologia da Universidade de Balamand, durante cinco anos.

Igrejas ortodoxas geralmente comportam dois corais: um coral à direita e um coral à esquerda. Dom Romanós era chefe do coral esquerdo, quando um decano da instituição convidou um professor da faculdade de música de Atenas para dar aulas no Instituto de Teologia. Ao ouvir dom Romanós cantar, o professor sugeriu que ele fosse para a Grécia fazer doutorado. Convite aceito e mais cinco anos de estudos de música, que culminaram com o título de doutor em música bizantina.

Dom Romanós voltou à Síria para dar continuidade a sua missão de ensinar. Depois de oito anos, veio para Brasil. Desde sua chegada, utiliza a língua portuguesa no canto bizantino, mas confessa que não é fácil, embora já tenha composto 25 cantos nesse idioma.

O bispo da Igreja ortodoxa Antioquina de São Paulo no interior da catedral (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O bispo da Igreja Ortodoxa Antioquina de São Paulo no interior da catedral (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CORAIS

São três corais que atendem a igreja ortodoxa no bairro do Paraíso, formados por sete a 11 pessoas que não usam microfones. Segundo padre Pedro, que participou da entrevista acompanhando dom Romanós, “não são corais essencialmente bizantinos, mas seus integrantes aprendem esse tipo de canto para as cerimônias da igreja, tanto na liturgia quanto em matrimônios”.

“No ocidente, a melodia bizantina é adaptada. Há duas distâncias na música ocidental, maior e menor. Na oriental há várias. Além disso, quem quiser cantar ou compor música bizantina tem que ter formação teológica e musical. Tem que saber expressar os significados dos textos”, explicou dom Romanós.

A idade dos integrantes dos corais, que contam com homens e mulheres, é de 40 anos para cima. “Todos têm formação musical ocidental. Por isso, não conseguem emitir os intervalos musicais cantados no oriente”, disse o bispo, que formou um grupo com duas pessoas sírias e duas brasileiras para “fazer o som como deve ser feito”. “Não é uma tarefa fácil, precisamos começar do básico”, falou sendo complementado pelo padre Pedro, “o floreado, que é oriental, os corais não conseguem fazer”.

Dom Romanós escreveu uma oração que deve ser realizada no período da quaresma. Na Síria, esse ofício é cantado diariamente por várias vezes. “O arcebispo disse que não havia esse ofício em português. Escrevi no idioma e compus a melodia”, disse o bispo que junto ao seu seleto grupo vocal de quatro pessoas já apresentou esse cântico e obteve “muito sucesso”.

Segundo dom Romanós, os tons na liturgia são variados para que possam oferecer a Deus um “buquê de flores diferentes”, e assim realizar um feito que combine com a grandeza do culto. “Por isso tem que ser uma música bem feita”, falou o bispo justificando apenas o uso das vozes. “Nenhum instrumento pode passar a penitência como a voz humana, instrumento feito pela mão de Deus.”

Dom Romanós  diante da Porta Real(Foto: Carlos Bozzo Junior)
Dom Romanós diante da Porta Real (Foto: Carlos Bozzo Junior)

TEMPLO DO CANTO BIZANTINO

A Catedral Metropolitana Ortodoxa de São Paulo é uma réplica, sete vezes menor, da Basílica de Santa Sofia. Contudo, não deixa de ser imponente como o edifício construído entre 532 e 537, no Império Bizantino, para ser a catedral de Constantinopla, atualmente Istambul, na Turquia.

Aos domingos, cerca de 250 fiéis comparecem ao templo que acomoda 300 pessoas sentadas. Entretanto, boa parte da missa, que leva em torno de uma hora, deve ser celebrada de pé. “Na igreja ortodoxa russa não há bancos, mas nas gregas sim”, disse o bispo. Na catedral, há uma lâmpada vermelha que quando acesa sinaliza que todos devem permanecer de pé. Apagada, dá o aval para o fiel sentar. Segundo dom Romanós, assistir a uma missa, na maior parte do tempo em pé, certifica o respeito que devemos ter quando estabelecemos um diálogo com Deus.

Roupas como bermudas, saias curtas e vestidos não são muito apreciadas dentro da catedral, mas toleradas na medida do possível. “Estamos editando um livro de ética que visa esclarecer alguns detalhes. Por exemplo, mulheres não devem usar batom ao comungar para não manchar o tecido que utilizamos nessa celebração”, falou padre Pedro. Sobre som, haverá um item abordando a questão de ruídos durante a liturgia. “Muitos fiéis chegam atrasados e começam a falar alto, cumprimentando os outros. Portanto, não se deve socializar no decorrer da liturgia.”

A arquitetura e disposição das imagens nas igrejas ortodoxas também seguem regras. O iconostásio ortodoxo, parede decorada com ícones, é igual em todos os templos dessa ordem. Contudo, os ícones e suas posições podem variar. A porta central do iconostásio é chamada Porta Real e terá sempre a sua direita um ícone de Cristo, e à esquerda, o ícone da mãe de Cristo. Um dos ícones que variam é o do patrono de cada igreja, sempre representado ao lado da mãe de Cristo. O que ocupa esse nicho na catedral do Paraíso é São Paulo.

Dom Romanós e, ao fundo, o iconostácio da Catedral Metropolitana Ortodoxa, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Dom Romanós e, ao fundo, o iconostásio da Catedral Metropolitana Ortodoxa, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

A MÚSICA BIZANTINA POR DOM ROMANÓS

Estudioso dedicado à música bizantina, dom Romanós escreveu especialmente para o Música em Letras um texto no qual define conceitos e funções dessa arte. Leia, a seguir, trecho desse texto.

“A música bizantina provém da música grega antiga. As distâncias entre os tons, os modos e o sistema de notação vieram dessa música desenvolvida no Império Bizantino.

A música no mundo oriental, em geral, e no grego antigo, em particular, teve sempre uma importância especial e um significado divino. Obviamente que na metodologia grega, a atribuição da arte da música à deusa Musa é uma evidência clara do grande prestígio que os antepassados davam a ela. A música formava seus filhos e propiciava aprendizagem aos escravos, por conta do respeito e reverência dados a seu altíssimo valor. Sendo assim, o papel do musicólogo era proeminente e único, constituindo um significado profundo, divino e espiritual.

Desse mundo, a igreja adotou esta percepção da música, e em seguida a desenvolveu e a dirigiu para sua verdadeira finalidade, dando a ela o objetivo de unir o homem a Deus. Portanto, a música, segundo o conceito eclesiástico, é uma arte religiosa exclusivamente de culto, que serve aos requisitos litúrgicos da igreja, bem como às necessidades religiosas dos fiéis.

O musicólogo não é o cantor, compositor, nem a pessoa portadora do conhecimento musical, mas é aquele que entrega a exclamação humana pela melodia aos ouvidos de Deus. Ele é de alguma forma um sacerdote ou mediador entre homens e Deus.

Sabendo que a música é o vestido da palavra, percebemos porque na liturgia de nossa igreja não há música sem palavras. Entendemos a importância dela para as palavras, bem como, a das palavras em relação à música. Justificamos, às vezes, o uso de longas melodias nas grandes festas da igreja, pois a noiva em seu casamento veste-se de um véu comprido, mostrando a alegria desse dia.

É assim que concedemos à música sua beleza e glória, quando não a cantamos como algumas melodias que nos alegram, mas como uma oração que liga o homem a Deus. Carregamos entre as suas notas as súplicas, os sentimentos, as dores e as gratidões dos fiéis, colocando-os diante do divino tribunal de Cristo.

A música então, em si mesma, nunca constitui objetivo, mas um meio, de cujo uso depende o sucesso ou a falha de alcançar o motivo acima mencionado. Essa é a grandeza da música na igreja, sendo ela não uma arte humana, mas uma missão nobre e divina. Amém.”

MÚSICA BIZANTINA NA CATEDRAL METROPOLITANA ORTODOXA DE SÃO PAULO

ONDE Rua Vergueiro, 1515, Paraíso, tel. (11) 5907 – 8610, São Paulo

QUANDO Missas, aos domingos, às 10h30

QUANTO Gratuito