A música poliglota do Mawaca

Por Carlos Bozzo Junior
O grupo Mawaca, da esquerda para a direita, Valeria Zeidan, Angélica Leutwiller, Zuzu Leiva, Magda Pucci e Cris Miguel (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O grupo Mawaca, da esquerda para a direita, Valeria Zeidan, Angélica Leutwiller, Zuzu Leiva, Magda Pucci e
Cris Miguel (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O grupo brasileiro Mawaca realiza em torno de cem shows por ano. O próximo será “As Muitas Vozes do Mundo”, que acontece na próxima quarta-feira (8), no teatro Itália, em São Paulo. No show, as seis cantoras do grupo utilizam apenas instrumentos de percussão (pandeiros italianos, árabes e gongos, entre outros) para se acompanharem e cantarem cerca de 13 músicas, em mais de dez línguas diferentes.

Há 21 anos, o Mawaca encanta plateias no Brasil e no exterior. Entre outros países, já se apresentaram na Espanha, Alemanha, Grécia, França, Bolívia e Portugal. Na China, estiveram três vezes – na primeira, realizaram 24 shows- todos com bastante sucesso.

O Música em Letras esteve no último ensaio do grupo, no Estúdio Mawaca, na Chácara Santo Antônio, bairro da zona sul de São Paulo.

Assista aos vídeos no final do texto e saiba mais sobre o próximo espetáculo, o Mawaca, seus CDs, e esse espaço da cidade que abriga excelente programação musical e didática para quem é interessado em música, arte, conteúdo e entretenimento.

Leia, a seguir, a entrevista concedida ao blog pela integrante fundadora do Mawaca, Magda Pucci, que além de ter mestrado em antropologia, cursou composição e regência na USP (Universidade de São Paulo).

VOZES DO SHOW

Em “As Muitas Vozes do Mundo”, a formação do grupo remete ao seu início, composto só por cantoras. São seis vozes no total: Magda Pucci, 51, meio-soprano, integrante fundadora; Valeria Zeidan, 51, soprano, integrante desde 1998; Angélica Leutwiller, 53, meio-soprano, no grupo desde 1997; Zuzu Leiva, 47, integrante desde 1997; Cris Miguel, 45, soprano, no grupo desde 1997; Rita Braga, 40, soprano e a última a entrar no grupo, em 2012.

Quanto aos tipos de vozes existentes no Mawaca, soprano é a mais aguda e com maior alcance vocal. Entre alguns nomes do universo pop, têm esse tipo voz Christina Aguilera, Mariah Carey, Celine Dion, Sandy, Anitta e Zizi Possi. Já meio-soprano é a voz feminina mais comum, intermediária entre soprano e contralto, que apresenta um timbre mais encorpado. Entre os nomes que se expressam com essa voz, temos Ângela Maria, Beyoncé, Whitney Houston e Maria Gadú.

“Sou uma meio-soprano, mas canto muito como contralto quando precisa. Faço o que é necessário, sou coringa no grupo. Às vezes, se está faltando um grave, eu vou para o grave; se faltar agudo, vou para o agudo”, disse Pucci sobre contralto, voz feminina mais baixa e pesada, com menor tessitura e mais rara. Algumas cantoras pop (Adele, Alicia Keys, Katy Perry), da MPB (Maria Bethânia, Elis Regina, Ivete Sangalo), do soul e do rhythm and blues (Amy Winehouse, Etta James) e do jazz (Nina Simone) são contraltos.

Ensaio do grupo Mawaca (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Ensaio do grupo Mawaca (Foto: Carlos Bozzo Junior)

GRUPO BEM CASADO

A maior parte dos arranjos e transcrições das músicas do Mawaca são feitos por Magda Pucci. “Oitenta por cento das música têm partituras e 20 só tem as letras. Quando é uma coisa muito simples, com uma melodia que se repete, faço um arranjo bem intuitivo com [intervalos de] quartas, quintas e terças, não escrevo a partitura. Esse show, em particular, tem arranjos bem complexos, com harmonias mais difíceis, mas isso não quer dizer que sempre sigamos as partituras, porque podemos mudar tudo”, contou rindo a arranjadora revelando que “elas [as integrantes do grupo] ficam loucas comigo, porque nunca é exatamente o que está escrito”.

Das maiores dificuldades em manter o grupo, a cantora cita a movimentada agenda de seus integrantes, que dificulta ensaios e apresentações. “Quando estávamos no início, com menos compromissos, nos reuníamos até duas vezes por semana. Agora, apenas uma, e mesmo assim para marcar ensaio e shows é uma novela, é muito complicado.”

A convivência das integrantes, há tanto tempo juntas, gera uma rusga aqui, outra acolá. Contudo, o grupo engana quem pensa que é formado um monte de egos femininos, disputando para ver quem aparece mais. As cantoras se combinam e muito bem, sabendo ocupar o espaço que cada uma tem para expressar seu talento. “Dividimos bem isso dando um solo para uma, uma música para outra. Pelo tempo que estamos juntas, até que dosamos isso bem”, falou Pucci, afirmando já ter sido bem “chata, exigente e linha dura”. “Melhorei bastante. Agora, estou tentando relaxar um pouquinho.Teve muitos estresse e brigas, mas nada que não fosse contornável.”

VOZES DO MUNDO

O show de quarta-feira (8) representa duas coisas. Uma volta ao início do Mawaca, que começou com uma vontade de Pucci de trabalhar vozes dentro de registros sonoros diferentes. A cantora sempre regeu corais e estava acostumada com uma colocação vocal característica de coral. Ouvia músicas búlgaras, africanas e do Leste europeu, que ficavam “pululando”, em sua cabeça. Montou um grupo com ex-coralistas e amigas, com o intuito de experimentar essas referências sonoras vindas de distintos lugares do planeta. Após experimentar bastante, o Mawaca ganhou proficiência e se transformou um grupo profissional. Portanto, a gênese do Mawaca é vocal, antes de ser a banda que é com 13 elementos, reunindo, além das vozes, instrumentos como acordeon, baixo e de sopro.

“Estava com saudade desses momentos em que tínhamos só vocais femininos, que nos levam para outra pegada. Fiquei com vontade de voltar um pouco nessa história e explorar mais à fundo a sonoridade das vozes, com arranjos vocais mais diferenciados e um repertório mais sofisticado, consequentemente mais difíceis para nós. É um desafio”, disse Pucci que conta com a ajuda de Juvenal de Moura, fonoaudiólogo e professor de canto, para trabalhar os timbres vocais diferentes do grupo.

A artista salientou que o momento de crise impossibilita viagens com o grupo completo que, além dos 13 músicos, ainda conta com uma equipe técnica, totalizando 17 pessoas. “Em termos logísticos, isso acaba inviabilizando viajarmos com todos. Nessa formação menor, temos as seis cantoras, um técnico de som e a produtora. Mesmo assim é bastante gente. Às vezes, éramos chamados para fazer shows em lugares pequenos e mais intimistas em que o grupo não cabia. Percebemos que perdíamos apresentações por isso. Acho que é o momento de nos adequarmos à situação e recuperarmos a gênese do grupo.”

INSTRUMENTOS 4
O grupo Mawaca interpreta canções em mais de dez idiomas (Foto: Carlos Bozzo Junior)

MÚSICAS E LÍNGUAS

Entre as 13 músicas que serão interpretadas no espetáculo “As Muitas Vozes do Mundo”, “Tant Deman” será cantada em occitano, língua românica falada no sul da França e em alguns vales alpinos, na Itália, e no Val d’Aran, na Espanha. A música, embora tenha uma “cara” de tradicional dessa região, é uma composição contemporânea de Manu Théron, integrante e diretor do grupo francês vocal masculino Lo Cor de la Plana, uma das muitas referências absorvidas pelo Mawaca. “Essa música fala da morte. É uma negociação com ela; diz que ela pode chegar em algum momento, mas agora não, deixa para depois”, falou Pucci.

Outra música que remete aos primórdios do Mawaca é o tema búlgaro “Sabrali Sa”. “Oposto ao que conhecíamos das vozes búlgaras antes, com aquele som gutural duro, mais ardido, que tornou conhecido o coro das mulheres búlgaras, essa música é extremamente suave, com uma harmonia muito interessante, cheia de dissonâncias, mas que soa muitíssimo bem”, disse a cantora sobre a peça que fala da condição feminina, trazendo à luz a situação de um possível namorado, que pode chegar ou não.

“As canções búlgaras têm muito essa coisa meio romântica ou reclamona, tipo eu não vou conseguir namorado ou quem vai ser o próximo. São canções camponesas que foram arranjadas por compositores de vanguarda. Por isso, eles exploram essas dissonâncias, que já eram tradicionais no canto camponês, em [intervalos de] segundas menores. Os compositores amplificaram essa forma de cantar em arranjos muito mais sofisticados, e isso acabou por se transformar em uma identidade musical que se espalhou pelo mundo inteiro”, disse Pucci que utiliza esse mesmo procedimento de sair um pouco do universo tonal em “Ladainhas”, canto da Lapinha, pastoril do Nordeste.

Fundir músicas de lugares diferentes é mais uma característica do Mawaca. O grupo consegue reunir, por exemplo, sons indianos com nordestinos; e música espanhola com baião. “Quando o ritmo sugere fazemos essas conexões, sem forçar a barra”, disse Pucci.

Solada por Angélica Leutwiller e Valéria Zeidan, “Min Bêryia Te Kyriye”, é um canto do Curdistão. A música versa sobre a saudade da mulher amada. Por ter uma levada muito parecida com a do coco, no espetáculo, a música se funde a “Grande Poder”, coco composto pelo alagoano Mario Francisco de Assis, mestre Verdelinho (1945-2010), que desde 8 anos de idade tirava da rima seu sustento em feiras do nordeste e portas de cinema. Segundo Ariano Suassuna (1927-2014), Verdelinho foi “um dos maiores poetas populares que já conheci”. Nesse tema de Verdelinho, “Deus corrige o mundo pelo seu dominamento”.

Em meio aos idiomas que serão utilizados pelas vozes das seis cantoras, o público irá ouvir mais de dez deles. Entre eles, occitano, búlgaro, finlandês, curdo, espanhol argentino, hebraico, mongol da Mongólia e a língua dos pigmeus do Congo, na África, além de “grecanico”, que mistura a língua grega com a italiana.

Para a cantora, o público, no show, deve abrir mentes, corações e ouvidos para o que não está tocando no rádio nem na televisão. “É realmente uma sonoridade muito diferente, mas ao mesmo tempo com uma performance muito intensa e viva, pois fazemos isso com muita paixão, carinho e uma força muito grande. Mesmo que não se entenda uma palavra sequer do que estamos cantando, acho que alguma coisa de positivo e interessante conseguimos passar para o público. As pessoas se emocionam muito nesse show”, disse a cantora que no espetáculo mostra, de maneira sensível e tocante, a faceta intimista do Mawaca.

Cinco das seis integrantes do Mawaca na sede do grupo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Cinco das seis integrantes do Mawaca na sede do grupo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CDS E DVDS

O grupo tem sete CDs lançados: “Mawaca-Plus” (1998); “Astrolábio Tucupira.Com.Brasil” (2000); “Mawaca-Remix 2.0” (2000); “Os Lusíadas” (2001); “Mawaca Pra Todo Canto” (2004); e “Rupestres Sonoros” (2009).

O CD e DVD “Inquilinos do Mundo” (2013) apresenta melodias e ritmos dos povos nômades, refugiados, exilados e ciganos do mundo. “Pra Todo Canto” (2005) é o primeiro DVD da banda que marcou dez anos de existência do grupo. No repertório, mantras indianos, cocos, cordéis, entre outros sons.

“Rupestres Sonoros” (2009) é DVD que rende, por meio de arranjos contemporâneos, homenagem à diversidade musical dos povos indígenas, com canções tradicionais dos pakaa novos, de Guaporé; kayapó, do Xingu; suruí, de Rondônia; e kaxinawá, do Acre, entre outros. Há ainda as brilhantes participações das cantoras Marlui Miranda e Tete Espíndola.

“Ikebanas Musicais” (2012) é o terceiro DVD do grupo, que busca a relação entre o processo de criação das canções tradicionais japonesas, com a arte dos arranjos florais.

ESTÚDIO MAWACA

Sede do grupo, o Estúdio Mawaca é um belo espaço, com pé-direito duplo, que abriga a produtora do grupo, o local onde ensaiam e guardam seus instrumentos e materiais. Há um mês, o espaço é utilizado para oficinas de música que culminam em apresentações.

As oficinas acontecem uma vez por semana, sempre aos sábados, das 9h às 16h, com uma hora de intervalo para almoço. Acoplados às oficinas, há shows temáticos ligados aos temas abordados, que acontecem a partir das 17h. Oficinas e shows custam, cada um, R$ 20, e professores da rede pública de ensino não pagam.

A oficina realizada em 28 de maio, “Introdução às Músicas do Mundo”, foi seguida de um show do Mawaca direcionado às crianças, que realizaram, com o grupo, uma viagem pelo mundo através da dança e dos sons.

A próxima oficina, no dia 4 de junho, “Vivência e Aprendizado de Ritmos Brasileiros”, com os percussionistas Ari Colares e Eder “O” Rocha, será precedida pelo show “Brasil Tambor e Fole”, com os dois músicos, e Gabriel Levy, acordeonista do Mawaca.

No dia 11 de junho, é a vez da oficina “Músicas Indígenas nas Escolas”, com a participação de Ibã Sales, representante do povo huni kuin do Acre, que mostra seus cantos e desenhos, antes do espetáculo, “Rupestres Sonoros”, do qual também participa. “Fizemos uma turnê passando por seis comunidades indígenas da Amazônia e uma delas era o grupo do Ibã. Nos tornamos amigos e sempre que conseguimos trazê-lo para São Paulo, ficamos bem felizes”, falou Magda Pucci.

SHOW AS MUITAS VOZES DO MUNDO

ARTISTA Grupo Mawaca

QUANDO Próxima quarta-feira, dia 8 de junho, às 21h

ONDE Teatro Itália, sala Drogaria São Paulo, Avenida Ipiranga, 344 (Edifício Itália) centro, São Paulo, tel. (11) 3255 1979

QUANTO R$ 20 e R$ 40

OFICINAS E SHOWS ESTÚDIO MAWACA

ARTISTAS Vários, veja programação em www.estudiomawaca.com

QUANDO Todos os sábados, oficinas das 9h às 16h; shows, às 17h

ONDE Estúdio Mawaca, rua Inácio Borba, 483, Chácara Santo Antônio, tel, (11) 5181 5099

QUANTO R$ 20 oficinas e R$ 20 shows