Sem Noção – “Nascente – A Música de Hermeto Pascoal e Guinga”, por Omar Izar

Por Carlos Bozzo Junior
O gaitista Omar Izar ouvindo o CD “Nascente”, em sua casa (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O gaitista Omar Izar ouvindo o CD “Nascente”, em sua casa (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras convidou o gaitista Omar Izar, 82, para participar da série Sem Noção que realiza audições às cegas de discos recém-lançados no mercado brasileiro.

Izar, que já gravou 16 discos- o primeiro foi “Omar Izar- Quem Tem ‘Gaita’ Faz Sucesso”, (1960) -, recebeu o Música em Letras em sua casa, na Vila Mariana, São Paulo, para a audição às cegas proposta. O músico ouviu, sem ter nenhuma dica de quem ou de que se tratava, o CD “Nascente – A Música de Hermeto Pascoal e Guinga”, dos instrumentistas Gabriel Grossi (gaita) e Félix Júnior (violão 7 cordas).

Izar ficou famoso por interpretar a peça “O voo do Besouro”, de Nikolai Rimsky-Korsakov (1844-1908), registrando a primeira execução da obra com gaita na América do Sul. Em 1962, gravou o tema musical do seriado de TV “Roy Rogers”. Dividiu o palco com Orlando Silva (1915-1978), Dorival Caymmi (1914-2008) e Silvio Caldas (1908-1998), entre outros. Tocou com o violonista Oscar Castro Neves (1940-2013) e o pianista Luiz Eça (1936-1992), além de ter realizado uma temporada teatral de muito sucesso com o espetáculo “A Gaita que Ri”, ao lado do humorista José Vasconcelos (1926-2011). Teve quatro programas exclusivos em diferentes emissoras de TV do país, o mais conhecido foi “O Homem da Gaita de Ouro”. Tocou na Europa, no Caribe e nos Estados Unidos, onde morou durante três anos em Nova York. Izar também foi proprietário de um bar (Obar), onde se reuniam músicos, cantores e compositores. “Fechei depois da lei antifumo. Ela acabou com o bar”, disse o músico protagonista do documentário “Sempre no Meu Coração”, de Andréa Pasquini.

O artista escutou as 10 faixas do CD em seu estúdio, montado em uma sala na garagem de sua casa, após relutar muito em fazê-lo por não saber de quem se tratava. “Não quero cometer injustiça, nem ser indelicado, mas se for uma coletânea de gaitistas e meu nome não estiver aí, não faço”, impôs o artista que se considera injustiçado no país, pelo mercado e pela mídia. Segundo ele, praticamente foi esquecido. “Fiz muito pela gaita e pelo Brasil, mas só falam do Edu da Gaita”, disse Izar, responsável por ter trazido ao Brasil, pela primeira vez, o cultuado gaitista belga Toots Thielemans.

Leia, a seguir, as impressões de Izar sobre o CD “Nascente – A Música de Hermeto Pascoal e Guinga”, dos instrumentistas Gabriel Grossi (gaita) e Félix Júnior (violão 7 cordas). O disco da gravadora Biscoito Fino traz os músicos realizando leituras e arranjos para quatro composições de Guinga, quatro de Pascoal, além de duas composições próprias homenageando esses compositores. Entre as composições de Guinga, parcerias com Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc e Celso Viáfora. Há ainda a participação especial de Dudu Maia (bandolim) na faixa 7. A direção musical e arranjos são de Gabriel Grossi e Félix Junior. O CD foi gravado, mixado e masterizado por Dudu Maia; o projeto gráfico é de Eduardo Serra, com foto de João Paulo Barbosa.

FAIXA 1 (“Senhorinha”, de Guinga e Paulo César Pinheiro)

“Música boa, bonita e bem tocada. Se não for o Maurício [Maurício Einhorn, gaitista], é alguém imitando ele.”

FAIXA 2 (“Suíte Norte Sul Leste Oeste”, de Hermeto Pascoal)

“O som é meio parecido com o da primeira faixa, com uma música bem tocada e interessante. O solo também é bonito.”

FAIXA 3 (“Balaio”, de Hermeto Pascoal)

“Até agora, os temas são bonitos e bem tocados. O som da gaita é puro, sem variações. Esse estilo de tocar me lembra muito o Maurício Heinhorn e o Rildo Hora, mas de qualquer maneira é um trabalho muito bem feito.”

FAIXA 4 (“Di Menor”, de Guinga e Celso Viáfora)

“O som continua o mesmo, com bastante técnica. Acho que essas músicas foram todas tocadas com uma gaita de quatro oitavas, de 64 vozes. Os temas são parecidos e, mais uma vez, se não for o Mauríco Heinhorn ou o Rildo Hora, é alguém querendo imitá-los”

FAIXA 5 (“O Farol que nos Guia”, de Hermeto Pascoal)

“Como nas outras faixas, o nível de sopro, som e técnica é muito bom.”

FAIXA 6 (“Domingo Pascoal”, de Gabriel Grossi e Félix Júnior)

“Quanto ao vocal, invocaram o espírito do Hermeto Pascoal. Mas esse tema é um pouquinho cansativo, meio monótono.”

FAIXA 7 (“Selva de Pedra”, de Félix Júnior e Gabriel Grossi)

“Essa faixa como todas as outras é muito monótona. O clima não muda. Mas isso não tira o mérito da beleza da música e da técnica na execução, salvo uma notinha ou outra que às vezes aparece com um vibratinho que lembra o do Carlos Galhardo.”

FAIXA 8 (“Fátima”, de Hermeto Pascoal)

“Como todas, apresenta o mesmo clima e o mesmo som de gaita. Mas acima de tudo, é um trabalho bem feito.”

FAIXA 9 (“Exasperada”, de Guinga e Aldir Blanc)

“Música bem bonita e bem tocada. Quero elogiar nessa e nas outras faixas a qualidade e sutileza do solista de violão.”

FAIXA 10 (“Baião de Lacan”, de Guinga e Aldir Blanc)

“Parece que o gaitista deixou para o final uma faixa mais viva. Também muito boa. ”

Omar Izar, em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Omar Izar, em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

AVALIAÇÃO PONTUAL

INTÉRPRETES

“Muito bom.”

COMPOSIÇÕES

“Muito bom, porém um pouco monótonas. São muito parecidas, com o mesmo clima.”

HARMONIA

“Muito bom.”

RITMO

“Muito bom.”

MELODIA

“Muito bom.”

ARRANJO

“Muito bom.”

SOM (CAPTAÇÃO, MIXAGEM E MASTERIZAÇÃO)

“Muito bom.”

CONSIDERAÇÕES GERAIS

“Classifico esse disco entre muito bom e ótimo.”

CD REVELADO

Após a audição, foi revelado ao gaitista Omar Izar que “Nascente” é o primeiro disco dos instrumentistas Gabriel Grossi e Félix Junior juntos, assim como a autoria das músicas. Um breve histórico sobre as carreiras dos dois artistas também foi fornecido a Izar e todas as outras informações sobre o disco, seus participantes, ficha técnica, capa e encarte.

Diante das revelações, Izar complementou sua avaliação. “Eu falei que era alguém imitando o Maurício Heinhorn; o Gabriel foi aluno do Maurício, ele está imitando o Maurício na sonoridade. Mas ele tem mais técnica. Ele imita o Maurício inclusive com aqueles vibratinhos que lembram o Carlos Galhardo. Eu sou fã do Gabriel Grossi, mas nesse disco eu o achei diferente. Talvez seja um tributo ao Maurício. De qualquer maneira, o violonista Félix Júnior e o Gabriel estão muito bem nesse disco. Muito bom.”

Perguntado se há espaço para esse disco no mercado, Omar Izar respondeu: “Estamos vivendo uma fase que parece que o país acabou em todos os sentidos. Não se divulga cultura. A mídia mostra o mais fácil, o mais medíocre. Então é difícil, mas o que vale é termos o prazer de gravar para a gente e para algumas pessoas de bom gosto.”

AVALIAÇÃO DE OMAR IZAR DO CD “NASCENTE – A MÚSICA DE HERMETO PASCOAL E GUINGA”

“Muito bom”

Capa do disco “Nascente- A Música de Hermeto Pascoal e Guinga”, de Gabriel Grossi e Félix Júnior (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do disco “Nascente- A Música de Hermeto Pascoal e Guinga”, de Gabriel Grossi e Félix Júnior (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CD NASCENTE – A MÚSICA DE HERMETO PASCOAL E GUINGA

ARTISTAS Gabriel Grossi e Félix Júnior

GRAVADORA Biscoito Fino

QUANTO R$ 26