Sem gatos na tuba

Por Carlos Bozzo Junior
Capa dos CDs "A Gata Café" e "Ludere" ( Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa dos CDs “A Gata Café” e “Ludere” ( Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras constatou ontem, dia 2 de maio, por meio de fortes evidências ou coincidências, que não há mais gatos dentro de tubas. Todos parecem ter saído do avantajado instrumento metálico de sopro, munido de uma enorme campânula, para ocupar seus espaços em discos, composições, shows e no inconsciente coletivo.

Tudo teve início, pela manhã, durante sessão realizada na casa do acordeonista Toninho Ferragutti, 57, que ouviu às cegas um CD para a série Sem Noção do blog (leia post em breve). Ferragutti aproveitou para mostrar seu mais novo disco, com o agateado título “A Gata Café”, décimo CD de sua carreira.

Além de um superdisco, ou melhor, discaço, gravado pelo acordeonista ao lado de talentos fabulosos da música contemporânea- Cassio Ferreira (sax alto, soprano e tenor), Cleber Almeida (bateria), Thiago do Espírito Santo (baixo elétrico) e Vinicius Gomes (violão e guitarra)-, Ferragutti resolveu homenagear, entre as dez faixas de sua autoria, uma gata que apareceu em sua casa. A suposta felina ganhou uma ilustração belíssima feita para a capa do disco por Cinthia Camargo (artista e mulher do músico) e até hoje frequenta o local dando canjas com seus miados.

“Há uma veterinária, minha vizinha, que cuida dos bichos que vão aparecendo. Um dia, ela arrumou um cachorro e esse gato não se deu bem com o cão. O felino passou a circular pelas casas da vizinhança. Principalmente aqui. Ele começou a arranhar o capacho da entrada e depois a dormir em cima do carro, disparando o alarme. Veio para dentro de casa e hoje dorme na cama. Só dorme em lençol branco. Sério, outro dia coloquei uma colcha verde e ele recusou; coloquei uma toalha branca, ele veio e encostou a cabeça na hora. Além disso, ele aproximou muito a vizinhança toda. Conheci melhor alguns de nossos vizinhos por conta dele. Pensei, tomara meu CD tenha esse poder de aproximar as pessoas, como esse gato fez”, disse o músico. Intrigado, perguntei: afinal, o bicho é um gato ou uma gata? “Gato”, respondeu Ferragutti. Mas por que o título do disco e da música homônima aparecem com o bicho no feminino? “Sabe como é, né? O tempo foi passando, as coisas mudam e descobri que ela é ele”, disse rindo o experiente acordeonista, que de música saca muito, mas de sexo em felinos deixa bastante a desejar.

O músico Toninho Ferragutti, em seu estúdio, com o gato Café (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico Toninho Ferragutti, em seu estúdio, com o gato Café (Foto: Carlos Bozzo Junior)

A segunda constatação de que felinos estão saindo da tuba ocorreu durante o excelente show realizado também ontem, no Instrumental Sesc Brasil, em São Paulo, para o lançamento do disco “Ludere”, de Philippe Baden Powel (piano), Rubinho Antunes (trompete e flugelhorn), Bruno Barbosa (contrabaixo) e Daniel de Paula (bateria). Uma das músicas apresentadas foi composta por Philippe para sua filha, quando ela tinha apenas cinco anos de idade. A composição tinha por intuito atrair a criança para a música. Funcionou. Hoje, segundo o pianista, a garota com 13 anos, neta do violonista Baden Powell (1937-2000), gosta da arte de amealhar os sons, toca e estuda violão. O nome do tema composto pelo pai? “Garfield”.

Da esquerda para a direita, à frente, o músico Proveta curtindo o solo do saxofonista Josué dos Santos, da banda Mantiqueira (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Da esquerda para a direita, à frente, o músico Proveta curtindo o solo do saxofonista Josué dos Santos, da banda Mantiqueira (Foto: Carlos Bozzo Junior)

A terceira constatação aconteceu em outro show, no mesmo dia. No teatro Commune, agora a casa das big bands em São Paulo (veja post de 08/03/2016), o Música em Letras foi conferir o som da Banda Mantiqueira.

“Cats” (gatos), na gíria do jazz, em meados dos anos 1930, era o termo utilizado por músicos que se enquadravam no gênero. Na banda Mantiqueira, não se vende “cats” por lebre. Seus músicos se distinguem por serem supercapacitados e criativos. Tanto que ontem, desmentiram fácil o homem que tinha música nas palavras e instrumento no nome, Millôr Viola Fernandes, mais conhecido como Millôr Fernandes (1923-2012). Em “Provérbios Prolixizados” (1959), o gênio escreveu: “Quando o sol está abaixo do horizonte a totalidade dos animais domésticos da família dos felídeos são de cor mescla entre branco e preto”, referindo-se ao também falacioso dito “À noite todos os gatos são pardos”. No entanto, quem ouve a Mantiqueira sabe distinguir fácil um “cat” do outro, embora todos tenham muita musicalidade em comum. São únicos em uma banda também única. Sensacional.

Está tudo domi(n)ado. Miau!

Obervação: Este post é uma homenagem ao gato Ramsés (Raminho) e à gata Khadija, que miam fora das tubas e tumbas, no céus dos gatos.