Sem Noção – “Trio Corrente – Volume 3”, por Amilton Godoy

Por Carlos Bozzo Junior
O músico Amilton Godoy ouvindo, às cegas, o CD “Trio Corrente - Volume 3” (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico Amilton Godoy ouvindo, às cegas, o CD “Trio Corrente – Volume 3” (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Acontece amanhã (30) o show de lançamento do disco “Trio Corrente – Volume 3”, no Auditório Masp Unilever, em São Paulo.

Aproveitando a oportunidade, o Música em Letras convidou o músico Amilton Godoy, 75, para participar da audição às cegas, da série Sem Noção (veja post do dia 21/04/16), do novo disco do trio formado por Edu Ribeiro (bateria), Fábio Torres (piano) e Paulo Paulelli (contrabaixo).

Godoy, pianista, compositor, arranjador e ex-integrante do Zimbo Trio, com quem gravou mais de 50 discos, recebeu o Música em Letras em sua escola de música, o CLAM (Centro Livre de Aprendizagem Musical), em Indianópolis, São Paulo, para a audição às cegas proposta.

O músico escutou as 14 faixas do começo ao fim, em seu carro, estacionado diante do estabelecimento de ensino. “O som do meu carro é bom”, justificou o experiente pianista, que tem ouvido absoluto.

Godoy estava certo. O som, além de bom, pode ser apreciado com menos ruído por conta do “isolamento acústico” proporcionado dentro do veículo, que permaneceu com as portas fechadas, à exceção da que dava acesso a este repórter, quase claustrofóbico e portador de fogachos desde que nasceu.

Leia, a seguir, as impressões de Godoy sobre o novo CD do Trio Corrente. O disco teve produção executiva de Jacques Figueras; gravação e mixagem de Adonias Junior; masterização de Helik Hadar; fotografia de Claus Lehman; design de Vini Marson; e produção musical dos integrantes do trio, também responsável pelos arranjos das faixas 3,10,13 e 14. Os outros arranjos estão distribuídos da seguinte maneira: Fábio Torres, faixas 1, 2, 4, 5, 11; Paulo Paulelli, faixas 7, 8, 9; e Edu Ribeiro, faixas 3, 10, 13 e 14.

FAIXA 1 (“Desprezado”, de Pixinguinha)

“Não sei qual é o grupo, mas acho que conheço alguns músicos. É uma música em [compasso de] cinco, me lembra a primeira gravação que fizemos, acho no terceiro disco do Zimbo Trio, quando o maestro Cyro Pereira e o Mário Albanese fizeram ‘Jequibau’. Lembro que existia uma preocupação com esses compassos de números ímpares, cinco, sete, nove, que exigem do músico uma atenção redobrada, porque ele tem que fazer com que saia música disso e não só ficar fazendo contas. Esses três músicos estão fazendo música. Uma atmosfera de música bonita. Isso é uma coisa que valoriza demais o músico. Vê-se que é espontâneo, que superaram qualquer dificuldade que possam ter tido para tocar esse ritmo. Não sei de quem é a música, mas a composição está muito bem feita e muito bem executada. O pianista tem fluência de improvisação, as frases se completam dentro da música, sem nenhum problema. Saem naturalmente. Gostei da distribuição de acordes que ele faz com mão esquerda e a maneira como o baixo se funde nisso. O baterista, se é quem eu estou pensando, não me causa surpresa. É de uma delicadeza tocando, só pode ser o Edu Ribeiro, né? Ele é um cara que toca para a música, toca para o que está acontecendo. Ele não fecha os olhos e sai tocando o [compasso de] cinco, ele pensa em música. Por isso, acho que pode ser o Trio Corrente. É ou não é? [identificação confirmada]. Os caras desse trio têm essa linha. Receberam vários prêmios merecidamente. É de uma grandeza para o Brasil ter um grupo como esse.”

FAIXA 2 (“Maracangalha”, de Dorival Caymmi)

“Tive que pedir para repetir a introdução porque quando entrou o tema quis tentar descobrir o que eles pensaram. Uma ideia espetacular e genial, realizada com muita propriedade, e feita com muita disposição, espírito e jocosidade. Você sente ali até uma certa brincadeira na forma como eles estão tocando esse ritmo em [compasso de] sete. Ainda bem que a primeira começou em [compasso de] cinco, né? Agora essa é em [compasso de] sete. Não sei o que vem por aí, mas tenho certeza que é coisa boa.”

FAIXA 3 (“The Red Blouse”, de Antonio Carlos Jobim)

“De quem é essa música? Parece uma coisa do Jobim. Conheço. Adorei porque eles saíram fazendo aquele suingue famoso com a mão esquerda. O Fabinho está usando a mão esquerda de uma forma muito interessante. Às vezes, ele mantém um padrão para puxar por um espírito de música e depois ele faz um outro trabalho envolvente de som, que induz baixo e bateria a uma jogada um pouquinho diferente. É bacana tudo isso que ele está fazendo, fica um colorido muito interessante. Teve um momento que ele [o pianista Fábio Torres] cruzou as mãos. Esse truque ele vai ter que me ensinar. Se fez com a mão esquerda mesmo, então é mágica.”

FAIXA 4 (“É doce morrer no mar”, de Dorival Caymmi)

“Quando ouço um disco, presto muita atenção. Se eu estivesse dirigindo e nessa hora eu botasse uma música assim para ouvir, iria criar um belo problema no trânsito. Minha atenção fica muito focada para o que está acontecendo. Não posso ouvir música enquanto estou dirigindo. Nessa música, fico tentando decifrar o que eles estão fazendo, o caminho que pensaram. Essa música chama você para uma atenção maior. Para eu poder comentar com mais profundidade, teria que ouvir cada faixa dez vezes. É uma coisa muito criativa. Eles estão dando o máximo deles em cima da composição de outros. Essa é do Caymmi, mas só se percebe depois de um certo tempo. Vê-se que a atmosfera que eles criaram para cada um dos arranjos é de uma criatividade maravilhosa.”

FAIXA 5 (“A Rã”, de João Donato e Caetano Veloso)

“O que diria João Donato ouvindo isso? Quero enaltecer o trabalho do tambor, da bateria. A igualdade de som é sempre uma preocupação na formação de um músico. As notas fluem naturalmente. Nesta música, o Edu trabalha os tambores de forma maravilhosa. Nunca se ouve desigualdade no som, algo batendo ou sendo tocado fora da nuance proposta. Tem sempre uma dinâmica naquilo que ele faz. Ele tem uma noção de não passar dessa dinâmica, coisa difícil para o instrumento que ele toca. É comum a gente falar que estourou o som ou ficou estridente em um determinado momento. Com o Edu, isso não acontece. Ele não, faz o forte e o fortíssimo dentro de uma dinâmica incrível, passando pelos tambores de uma forma muito inteligente. Muito bonito. Os três músicos têm essa preocupação com a dinâmica. Uma hora, achei até que o Fabinho estava tocando o piano com a mão esquerda para o grupo e a direita para ele. Acho que é para agradar a todo mundo. Tem pianista, como ele, que é versátil a esse ponto. Uma delícia ouvir esse disco.”

FAIXA 6 (“Nívea”, de Edu Ribeiro)

“Bonito demais . Tem uma melodia e uma harmonia sensacionais, tocadas com muito bom gosto. A gente vai ouvindo os meninos tocarem e não sentimos aquela ansiedade causada pelos compassos ímpares. A maneira como eles circulam dentro desses ritmos é impressionante. O domínio é tão grande e flui tanta música bonita que parece simples. Eles tocam como se fosse um [compasso de] dois por quatro ou um [compasso de] três, o que seria muito mais fácil. É bacana porque você vê algo novo dentro de uma formação supertradicional para um trio. A sessão rítmica é a base. Você põe qualquer coisa em cima de um trio, um quarteto, orquestra, quinteto. Eles são três grandes solistas. Sem nenhuma proposta forçada, cada um aparece de uma forma muito bacana, conquistando seus espaços. Eles também estão de parabéns com relação aos arranjos.”

FAIXA 7 (“Maçã”, de Djavan)

“Atenção para o trabalho do contrabaixo nessa faixa. É muito interessante como ele está conduzindo a música. Às vezes, a partir do som da mão esquerda do Fábio, o Paulelli faz uma coisa interessantíssima com o contrabaixo, enquanto segue o ritmo. Então, você vê que cada faixa tem uma curiosidade, uma levada, uma pegada diferente. É um [compasso de] dois por quatro que a gente já está habituado a ouvir, mas realizado uma forma diferente. É a criatividade pintando em todas as faixas. A música é novidade para mim, não sei de quem é.”

FAIXA 8 (“Nordeste Romântico”, de Paulo Paulelli)

“Muito bonita. Tem um clima diferente. Esse baixo é lindo, ele faz duas coisas legais. Ele começa a tocar junto com a mão esquerda do piano, e depois faz a base. Fica um timbre bonito. O Fábio [pianista] manteve uma monotonia de mão esquerda e deu para mostrar bem o que eles podem fazer dentro de uma célula harmônica mais simples. Mesmo assim, conseguem criar uma atmosfera muito própria para o grupo. Acho que por isso que eu ‘matei de cara’ que era o Trio Corrente. Eles têm uma marca registrada. É um grupo que tem personalidade, que se manifesta em cada música que tocam. Esse é o grande trunfo do grupo.”

FAIXA 9 (“Samba de Retalhos”, de Paulo Paulelli)

“Que beleza! Que bonito solo de contrabaixo. Que fluência bonita do trio. Sempre destacando todos os três músicos. Não tem uma coisa só para um, é para todo mundo. E quando cada um tem o seu momento, eles aproveitam e mostram a que vieram. Maravilha de ouvir .”

FAIXA 10 (“Lamento Astral”, de Moacir Santos)

“Antes de falar da música, quero falar da qualidade de gravação. Isso é algo muito bom neste disco. Está muito bem gravado. Todos instrumentos estão muito bem gravados, você ouve tudo com muito prazer e satisfação. Não sei quem produziu o disco e qual é o selo, mas está todo mundo de parabéns. Acreditar nessa música faz a gente ficar feliz. Há uma grande esperança de que muita coisa boa pode continuar acontecendo no nosso país. O músico precisa ter incentivo e apoio. Uma produção desse nível tem um custo, que pode pesar no bolso daquele que tem que estudar, ensaiar, tocar. Às vezes, o músico tem que pôr dinheiro para fazer isso. Tomara que eles tenham tido incentivo, e continuem tendo, porque é isso que eles precisam. A música é uma maravilha. Não sei de quem é, mas é uma delícia ouvir. O [clima] calmo deles é sempre uma coisa muito intensa. Sempre está acontecendo algo no som. Essa sequência de acordes no final, sei que o tom é sol menor, porque meu ouvido, se não me falha a memória, continua absoluto. Para chegar nesse acorde, os ‘negos’ contam uma bela história. É muito bonito esse disco. ”

FAIXA 11 (“Samba do Ribeiro”, de Fábio Torres)

“Ou você ouve ou fica analisando. Uma coisa legal, já que parece que tem composições deles, seria ter acesso às partituras. Porque é muito difícil ficar procurando o compasso ou a forma como eles estão tocando. As partituras ajudariam muito a ter um melhor acesso a essa música, além de beneficiar uma nova geração de músicos. É tão rica essa contribuição para a música brasileira que merece ter as partituras disponibilizadas.”

FAIXA 12 (“Outra Vez”, de Antonio Carlos Jobim)

“Essa música é muito bonita e ficou diferente nessa levada. Deu uma modernizada fantástica na música. Quando a música tem conteúdo e é boa ganha boas contribuições, porque o artista parte de um bom material. Nesta faixa dá para perceber bem o temperamento de cada um deles, a levada e a proposta que fazem. Toda vez que você tem uma música bastante conhecida, fica mais fácil perceber um novo estilo, uma nova forma de tocar. Agora, se você der para uma cantora cantar, ela não vai achar nunca o tempo desta música. O grupo vai para um lado e ela para outro. É um disco feito à prova de ‘canários’.”

FAIXA 13 (“Mambembe”, de Chico Buarque)

“Parece fácil tocar samba nesse andamento, mas é muito difícil. É difícil para todo músico manter uma sequência de suingue assim constante, sem sacrificar nada, sem um atropelar o outro. A sessão rítmica é muito coesa. O piano, que é um instrumento solista, deixa todo mundo tocar, como acontece aqui. Não é nada fácil, mas é muito bacana. É bom para a gente ouvir, mas quando se está lá, tocando, você tem que ficar muito atento. Eles fazem a coisa ficar fácil, isso é ótimo neles.”

FAIXA 14 (“Célia”, de Bud Powell)

“São três músicos virtuoses. Cada um tem seu momento e eles tocam se ouvindo e pensando em música o tempo todo. Há um belo trabalho de preparação neste disco. Pelos arranjos, dá para sentir os ensaios, o cuidado com a elaboração. Esta faixa é mais uma amostra daquilo que eles são capazes de fazer.”

O pianista em sua escola de música, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O pianista na sua escola de música, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

AVALIAÇÃO PONTUAL

INTÉRPRETES

“São ótimos, os três.”

COMPOSIÇÕES

“Muito boas, bem escolhidas.”

HARMONIA

“Perfeita e rica.”

RITMO

“Ótimo.”

MELODIA

“Ótima.”

ARRANJO

“Muito bem elaborado.”

SOM (CAPTAÇÃO, MIXAGEM E MASTERIZAÇÃO)

“Tudo ótimo. Está muito bem gravado. Às vezes, o estúdio é bom e o instrumento não. Aqui está tudo certo.”

CONSIDERAÇÕES GERAIS

O pianista Amilton Godoy identificou, ao ouvir a primeira faixa do disco, o grupo de samba e jazz paulistano Trio Corrente. O grupo ganhou o Grammy Award e o Latin Grammy, em 2014, ambos na categoria Melhor Álbum Latin Jazz. O prêmio foi abocanhado com “Song For Maura”, CD gravado pelo trio em parceria com o saxofonista cubano Paquito D’Rivera.

Após a audição às cegas, foi revelado a Amilton Godoy as autorias das músicas, assim como todas as outras informações sobre o disco, seus participantes, ficha técnica, capa e encarte.

“É um disco ótimo que mostra um caminho bacana e bastante interessante dentro da música popular brasileira. Muitos trios apareceram, mas o Trio Corrente veio dar uma contribuição, mostrando, com esse disco, que ainda há muito o que fazer. Isso é muito animador para a gente. É uma sessão rítmica muito bem montada, mas são três virtuoses, três solistas. Eles se bastam.”

Perguntado se há espaço para o disco no mercado, Amilton Godoy respondeu: “Sim, porque existem muitas pessoas como eu. Não posso achar que sou o único que vai gostar disso. Tem muita gente que gosta de música boa, é preciso ter acesso a essa música. Tem que pensar que existe, como neste disco, música de qualidade. Mas ela tem que chegar ao grande público.”

AVALIAÇÃO DE AMILTON GODOY

“Ótimo”

Capa do disco “Trio Corrente - Volume 3”, do Trio Corrente (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do disco “Trio Corrente – Volume 3”, do Trio Corrente (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CD TRIO CORRENTE- VOLUME 3

ARTISTA Trio Corrente
GRAVADORA Independente
QUANTO R$ 30

SHOW DE LANÇAMENTO DO CD
QUANDO Sábado, dia 30 de abril, às 21h
ONDE Auditório MASP UNILEVER, Avenida Paulista, 1578, tel. (11) 3251-5644, Bela Vista, São Paulo
QUANTO A partir de R$ 40