“Sorria”, de Carol Andrade, por Natan Marques

Por Carlos Bozzo Junior
O músico Natan Marques ouvindo, às cegas, o CD "Sorria", de Carlos Andrade (Foto; Carlos Bozzo Junior)
O músico Natan Marques durante audição às cegas do CD “Sorria”, de Carol Andrade (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O Música em Letras inicia com este post a série Sem Noção, na qual músicos profissionais são solicitados pelo blog a opinar sobre CDs recém-lançados, sem que sejam informados quem são seus intérpretes, músicos, arranjadores ou qualquer outra dica do que será escutado. Um faixa a faixa com as impressões sobre o disco tem lugar garantido e, após a revelação das informações, o músico tem direito a uma avaliação geral sobre o trabalho.

Na matéria que abre a série, o disco “Sorria”, da cantora e compositora Carol Andrade, foi analisado por Natan Marques, 69, guitarrista e arranjador experiente, que já tocou com Elis Regina (1945-1982), Simone, Djavan, Ivan Lins e João Bosco entre outros.

Marques recebeu o Música em Letras em seu apartamento, em Perdizes, São Paulo, para a audição às cegas proposta. O músico escutou todas as faixas do começo ao fim.

Leia, a seguir, as impressões do guitarrista sobre as dez faixas do CD “Sorria”, todas composições de Carol Andrade, com arranjos, produção e violão de Alex Maia; contrabaixos acústico e elétrico de Johnny Frateschi; flauta, sax tenor e soprano de Clarim; bateria de Vlad Rocha; engenharia de som de Adonias Junior; e masterização de Homero Lotito.

FAIXA 1 (“Sorria”, de Carol Andrade)

“Gostei muito da cantora do começo ao fim. Ela divide bem, não é muito fácil cantar dessa forma, sem muita harmonia atrás. Os músicos estão quase tocando junto com ela, não tem uma harmonia de apoio. Isso que ela está fazendo é bem interessante, não é qualquer cantora que faz. O violão e o baixo são muito bem tocados. A composição é interessante. Dá para perceber que estão bem ensaiados. Se tivesse que ter alguma coisa a mais seria na parte percussiva. Não sei se é um baterista ou percussionista que está tocando, mas eles tem um ritmo legal para cacete. A melodia é interessante, uma coisa moderna. O arranjo deve ter sido feito pelos três ou quatro músicos que estão acompanhando a cantora. O que me pegou foi o baixo, o violão e a cantora. A menina canta muito bem.”

FAIXA 2 (“Nos Passos da Rosa”, de Carol Andrade)

“Ela é ótima intérprete, muito afinada e não dá na trave. Está tudo certinho. Quem toca o violão é excelente. É um trabalho difícil que o violonista está fazendo, é de se elogiar. Tem o baixo, mas o violão está segurando sozinho, eu sei como é isso. No entanto, nesta faixa, podia ter um pianinho. Na hora em que a cantora volta, a música pede que entre mais gente. Muda um pouco a levada, mas ainda sinto a falta de uma bateria. Agora, o cara do violão e a menina são excelentes. Palmas para eles. Um samba ótimo, que lembra os dos compositores cariocas da antiga, tipo Cartola.”

FAIXA 3 (“Homo Sapiens”, de Carol Andrade)

“Continua igual às outras faixas, muito bem cantada. Talvez eles queiram usar a mesma formação do disco para fazer show, mas eu continuo sentindo falta de mais instrumentos. Mas está legal, não sei a intenção deles. A bateria é meio tímida. Às vezes, fico em busca do som da bateria, tentando achar onde ela está. Mas o som do conjunto continua muito bom. Nota dez, principalmente para a cantora.”

FAIXA 4 (“Alegre Sertão”, de Carol Andrade)

“Continua causando uma ótima impressão; a composição é muito boa. Começa numa levada e muda para outra, um frevo. O arranjo é bem legal, bem bolado. Nesta faixa, senti uma performance melhor do baterista, ou do percussionista que está querendo tocar bateria. As duas peças mais importantes ainda são o violão e a voz.”

FAIXA 5 (“Flor do Campo”, de Carol Andrade)

“Continua legal. A música tem uma criatividade boa no arranjo. Neste caso, gostei da formação, o piano não faz falta. Bem legal essa entrada, acho que era uma flauta, depois entra um sax soprano que parece até um clarinete. Esses instrumentos são muito parecidos, dependendo da extensão em que são utilizados. É um arranjo bem legal e bem tocado por todos eles. O som está ótimo, ouço bem o violão e o baixo, que foram bem gravados.”

FAIXA 6 (“Valsarás”, de Carol Andrade)

“Bicho, achei maravilhosa essa valsa. Parabéns ao autor. Não sei se é de um cara ou de todos. A valsa é linda, além de muito bem tocada. A menina cantora e o violonista continuam arrasando.”

FAIXA 7 (“Canto de Cachuera”, de Carol Andrade)

“Muito boa também. Até agora, é uma faixa melhor que a outra. Nesta achei legal porque ela viajou por um ritmo bem brasileiro e bem tocado. A música é bem arranjada e o violão sempre impecável. A impressão que eu tenho é que o violonista e a cantora se conhecem e tocam juntos há muito tempo para atuarem dessa forma. Os dois são muito profissionais. Gostei da composição, da letra e das mudanças rítmicas.”

FAIXA 8 (“Poema do Amor Novo”, de Carol Andrade)

“Essa música tem uma levada brasileira meio blues. O nível continua altíssimo e de bom gosto. Música bem feita, bem arranjada e bem harmonizada. A harmonia é feita por quem é do ramo, não é de bico, não.”

FAIXA 9 (“Saudação”, de Carol Andrade)

“Bacana também. Continuo dizendo que há levada bem profissional. Achei interessante que no meio rola uma mudança de ritmo sutil, quase não se percebe. O nível continua altíssimo, igual ao das outras faixas. As músicas foram muito bem escolhidas, as composições são ótimas. Até agora, não pintou nenhuma daquelas músicas cheias de invenções e chatas.”

FAIXA 10 (“Margarida”, de Carol Andrade)

“Linda, linda a música. Eu me senti no interior, no interiorzão de São Paulo. Essa composição é bem brasileira. Ótima. Violão e voz são excelentes.”

O guitarrista Natan Marques em seu apartamento, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O guitarrista Natan Marques em seu apartamento, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

AVALIAÇÃO PONTUAL

INTÉRPRETE

“Nota dez. Ótima. Ela tem uma afinação impressionante. Tem tudo aquilo que a gente espera de uma ótima cantora. Meus parabéns.”

COMPOSIÇÕES

“Boas também. Não sei se são do grupo, mas são bem feitas e bem escolhidas. É um disco que mantém um andamento muito agradável, bem gostoso mesmo de ouvir. É bem cantado e sem muita invenção. Parabéns.”

HARMONIA

“Perfeita. Uma harmonia brasileira. Existe uma escola brasileira nessa harmonia que, mesmo usando um blues ou outra coisa, é brazuca, de primeira linha e de bom gosto.”

RITMO

“Perfeito. Eles passam por vários, sem problemas, mas a parte percussiva, não rítmica, poderia estar um pouquinho mais na frente, ser um pouquinho mais audaciosa.”

MELODIA

“São lindas e compostas por quem não é novo nisso. É alguém que pelo menos ouviu muita coisa. Se o autor é novo nisso, é um gênio.”

ARRANJO

“São bons. Poderia ter mais instrumentos, ficaria mais interessante. Hoje as pessoas fazem com poucos instrumentos por falta de grana. Mas este disco está ótimo assim. Poderia ser só os dois (voz e violão). O casamento do violão com a voz é perfeito. Se eu fosse pensar em alguma dupla estrangeira, nessa onda, seria Tuck e Patti.”

SOM (CAPTAÇÃO, MIXAGEM E MASTERIZAÇÃO)

“O disco não perde nada para os melhores sons que escuto. Está perfeito.”

CONSIDERAÇÕES GERAIS

“Um belo disco, muito bem tocado. Compraria e indicaria. Quero parabenizar pelo trabalho de integração tão bem feito entre violão e voz. Um disco feito dessa forma deixa quem o ouve muito feliz.”

AVALIAÇÃO DE NATAN MARQUES

“Ótimo”

Capa do disco "Sorria", de Carol Andrade (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Capa do disco “Sorria”, de Carol Andrade (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CD REVELADO

Após a audição às cegas, foi revelado ao músico Natan Marques que “Sorria” é o terceiro disco da cantora e compositora Carol Andrade e que todas as músicas são de sua autoria. Um breve histórico sobre sua carreira também foi fornecido a Marques, assim como todas as outras informações sobre o disco, seus participantes, ficha técnica, capa e encarte.

Diante das revelações, Marques complementou sua avaliação. “Foi uma surpresa ótima. Não tenho certeza de conhecer a Carol. Se bobear, ela é minha amiga no Facebook. Quero dar meus parabéns para a Carol novamente, pois ela é muito boa. Sabendo que as composições são dela, mais uma nota dez. Para o violão do Alex Maia, outro dez. Que violão bem tocado! São arranjos de bom gosto e se vê que está tudo debaixo dos dedos. O entrosamento dos dois é incrível. Um casamento perfeito de voz e violão.”

Perguntado se há espaço para esse disco no mercado, Natan Marques respondeu: “Não sei. Nem o Pato consegue espaço para fazer gol. Tem que ser Messi ou Neymar para conseguir espaço na música e dar sorte. Mas o disco tem um repertório que caberia muito bem em novelas, já que o caminho para o sucesso é esse. Então, espaço tem. Precisa ver se deixam ela ocupá-lo. Não há o que falar para dois profissionais como a Carol e o Alex. Eles estão com um ótimo trabalho. Se eu falar alguma coisa, estrago.”

CD SORRIA
ARTISTA Carol Andrade
GRAVADORA Independente
QUANTO R$ 30