Cobra criada, Zé Pitoco leva seu forró ao Butantã

Por Carlos Bozzo Junior
O músico Zé Pitoco, em entrevista ao Música em letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico Zé Pitoco em entrevista ao Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Criado em meio a sanfoneiros da estirpe de Dominguinhos (1941-2013), Mestre Camarão (1940-2015) e Luiz Gonzaga (1912-1989), o músico pernambucano Zé Pitoco destila o veneno de seu som em forró que acontece sábado, dia 16, no Centro Cultural Butantã, em São Paulo.

O compositor, zabumbeiro, pandeirista, baterista, saxofonista e clarinetista Pitoco recebeu o Música em Letras, em sua casa, na Vila Madalena, São Paulo, para uma entrevista. Nela, o artista contou sobre o duro começo de sua sólida carreira na capital paulista.

Leia, a seguir, e assista aos vídeos no final do texto.

CUPIRA

José Alves Sobrinho, 60, o Pitoco, nasceu em Cupira, cidade a 167 quilômetros de Recife, Pernambuco, em uma família de onze filhos. O apelido de Pitoco? Conto depois por merecer um parágrafo à parte. Em Cupira, Pitoco cursou o ginasial e ficou até os 15 anos de idade. Depois, o jovem foi para Caruaru cursar o científico no colégio Diocesano, onde ganhou uma bolsa de estudos.

Aos oito anos, Pitoco já tocava intuitivamente caixa, zabumba, triângulo e reco-reco na fanfarra da escola. “Fazíamos uns dobrados, marchas e aquela coisa toda marcial”, disse o instrumentista. Durante a época da Jovem Guarda, com 11 anos, Pitoco ingressou no conjunto “Os Teimosos de Cupira”, para tocar bateria. Como era franzino, o instrumento foi montado exclusivamente para ele. O bumbo e o surdo eram da banda de música da escola, escorados em madeiras. Chimbal e pedestais não havia, e o prato “tinha que ter um caibro para pendurá-lo em uma corda. Quando tocava nele, o bicho ia para frente e eu tinha que pegar de volta rápido para não perder o tempo da música”, contou rindo o baterista, que no conjunto contava com um acordeom, baixo, guitarra e dois cantores. O grupo tocava em um centro cultural de Cupira fazendo bailes e programas de calouros. A paga era uma “bilheteriazinha” dividida entre os músicos. Carnaval, tinha que pedir autorização ao pai, pois “pegava de onze às cinco da manhã, e só frevo. Uma pauleira”, disse o então único menino da banda formada por homens com mais de 30 anos.

APELIDO

No repertório do conjunto, músicas de Wanderley Cardoso, Roberto Carlos, Ângelo Máximo, Paulo Sérgio, que rivalizava com o rei, e muita música solada dos Incríveis. Uma oportunidade surgiu para se apresentarem na rádio Difusora de Caruaru. Antes do início do programa, acocorado e arrumando a bateria- já era uma Saema completa, com chimbal e tudo mais-, o músico escutou o locutor Irapuan Barrocas anunciar: “Bem, amigos da rádio Difusora de Caruaru, com vocês, abrindo o programa de hoje, um conjunto da cidade amiga e vizinha, Cupira, mas… espera aí, essa banda não tem baterista?”. Nesse momento, o músico levantou a cabeça surgindo por detrás do instrumento e ouviu do mesmo locutor: “Oxente, é esse pitoco?”, referindo-se assim ao baterista por sua baixa estatura, aliada à notória magreza. O apelido pegou no ato. “Você não imagina o bullying na escola. Escondido, lá do fundo da classe, os colegas me chamavam por esse apelido. Eu tinha raiva e dizia, filho da p…, Pitoco é a mãe. Aí é que o apelido pegou.”

O instrumentista Zé Pitoco, que faz show no sábado, no centro Cultural Butantã (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O instrumentista Zé Pitoco que faz show sábado, no Centro Cultural Butantã (Foto: Carlos Bozzo Junior)

ALUNO DEDICADO

Quando um músico se destacava em Cupira por tocar bem, prestava concurso para ingressar nas bandas da polícia ou do exército. Pitoco foi convidado para ingressar na banda da polícia militar da Bahia, mas não foi. Nessa ocasião, já tocava sax alto e clarinete. Primeiro, teve uma requinta (instrumento de tamanho menor que o clarinete, com som mais agudo e sonoridade mais estridente). As músicas, ele tirava de LPs, de ouvido, embora tivesse frequentado algumas aulas gratuitas com um professor de uma cidade vizinha, destacando-se dos outros alunos por sua musicalidade. “O professor vinha para Cupira uma vez por semana, e tomava a lição de cada um dos 30 alunos. Todo mundo errava. Eu já ia com o estudo na ponta da língua e debaixo dos dedos. O homem gostava e me elogiava, mas ele era bem ruim. Acabei aprendendo sozinho mesmo”, disse o músico que nessa ocasião estava com 14 anos.

CAMARÃO E OVELHA

Reginaldo Alves Ferreira foi um sanfoneiro muito conhecido pela alcunha de mestre Camarão, dono de uma das melhores bandas de baile do nordeste. Era com a Bandinha do Camarão que o sanfoneiro, amigo de Luiz Gonzaga com quem gravou muito, e contemporâneo de Dominguinhos, excursionava por todas as cidades utilizando uma Kombi e uma Veraneio. “Era o próprio Camarão quem dirigia. Seu Luiz Gonzaga e Dominguinhos também iam fazer os shows dirigindo os próprios carros. Dominguinhos foi chofer de seu Luiz”, contou Pitoco.

Aos 16 anos, Pitoco tocava bateria, de quinta a sábado, em uma boate em Caruaru, formando um trio com, pasmem, o cantor Ademir Rodrigues de Araújo, 60, nacionalmente conhecido como Ovelha. De tarde, Pitoco estudava e de noite tocava. No segundo ano do científico, repetiu de ano. O motivo? Em 1972, Pitoco foi convidado para tocar na banda de Camarão pelo próprio. Foram meses viajando para fazer bailes. Isso fez com que o mau aluno virasse um excelente músico. Na banda de Camarão, além da bateria de Pitoco, figuravam um baixo, uma guitarra, o acordeom de Camarão, uma percussão e três sopros, trombone, sax e trompete. “Era cada arranjo rapaz, tudo cheio de ‘convenções’ e viradas na bateria. Tocávamos de tudo, samba, choro, frevo, até Beatles em ritmo de forró”, disse o músico sobre a Bandinha do Camarão que gravou dois LPs na RCA com o aval e indicação de Luiz Gonzaga, na ocasião responsável por indicar talentos nordestinos para a gravadora.

Quando Pitoco entrou no grupo, toda banda de baile tinha um prefixo que era tocado na abertura dos eventos. O da Bandinha do Camarão era “Misticismo da África ao Brasil” (1971), da banda Veneno, comandada pelo maestro Erlon Chaves (1933-1974). O tema continha mais “convenções” que o Palácio de mesmo nome no Anhembi. “Rapaz, Camarão falava para a gente escutar e se virar para tirar a música igualzinha ao disco. Era um pau do caramba. Eu tirava tudinho de ouvido. Virada por virada”, contou o músico que tocava com a banda, em clubes, das 23h às quatro da manhã. “Parávamos de tocar à 1h30 para jantar, depois a gente atacava até as quatro da manhã”, contou Pitoco que com esse ritmo e com esse som viajou para os interiores de Pernambuco, Alagoas, Paraíba, entre outros Estados, dos 16 aos 19 anos.

Anos mais tarde, um encontro de sanfoneiros reuniu Sivuca (1930-2006), Dominguinhos, Zé Calixto dos 8 baixos e Camarão, que disse para Dominguinhos: “Rapaz, Zé Pitoco era tão magro quando começou a tocar comigo, que parecia um graveto. Tive que comprar uma bateria adaptada para ele, bem pequenininha”, contou Pitoco sobre Camarão que veio a São Paulo e levou para o ainda adolescente baterista um instrumento menor feito na Gope.

O saxofonista Zé Pitoco tocando para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O saxofonista Zé Pitoco tocando para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

PRIMEIRO SAX

O saxofonista da Bandinha do Camarão e do grupo do acordeonista, Los Marines, foi quem vendeu para Pitoco um sax alto. Era o pernambucano Josias Lopes de Lima (1949-2014), que, por chamar todo mundo de Bill, tinha esse apelido.

Também clarinetista e compositor de vários frevos, Bill tocou posteriormente no naipe da Banda Sinfônica de São Bernardo do Campo, ao lado de Naylor Azevedo, o Proveta, e de Cacá Malaquias. “O Bill era excelente. Músico intuitivo sem formação acadêmica nenhuma, que nem eu.”

CARTEIRA DA ORDEM DOS MÚSICOS

Com 17 anos, em 1973, Pitoco tirou sua carteira da OMB (Ordem dos Músicos do Brasil), em Caruaru. “Na prova, o único que acertou a virada de uma música de Roberto Carlos fui eu, para você ver o nível dos outros”, contou rindo. Pitoco já deixou de pagar a OMB uma ocasião, “mas por conta do SESC tenho que estar em dia”, contou o artista, dizendo ser a instituição o único lugar que ainda exige o documento.

Pitoco comentou que no ínicio dos anos 1970 muitos músicos, inclusive ele, usavam a carteira para entrar em cinemas e boates de graça, pois o documento era confundido com a identidade de policiais federais. “Hoje, ninguém mais cai nessa.”

SÃO PAULO

Pitoco veio para São Paulo, em 1975, porque o pai, caminhoneiro, deu a ordem. A razão? O moço, com 19 anos, deu de namorar uma viúva com duas filhas, que conheceu tocando com a banda de Camarão em uma vaquejada no sertão de Pernambuco, mas o pai não aprovava, ficou “muito aperreado”. Principalmente depois que o músico passou a dividir uma casa com a viúva, Djanete Batista, dez anos mais velha do que ele, em Caruaru, e a engravidou.

A filha de Pitoco, Micheline Alves, 40, jornalista que já trabalhou como diretora de núcleo das revistas Trip e TPM e foi redatora da última temporada do programa “Amor & Sexo”, da rede Globo, apresentado por Fernanda Lima, nasceu em Caruaru. Micheline tinha apenas três meses quando o pai de Pitoco o convenceu a deixar a mulher e as filhas em Caruaru. “Até hoje, eu e meus irmãos temos medo de papai. Imagina quando éramos moleques. Ele mandou eu vir para cá, e eu vim. Ele achou que com a separação ficaria tudo certo”, disse o músico que veio de caminhão para São Paulo. O motorista que o trouxe de carona era primo de seu pai. Levaram sete dias para chegar. “Ele e meu pai carregavam sal do Rio Grande do Norte para Angra dos Reis, e voltavam com sardinha passando por Recife, João Pessoa, Maceió, Caruaru e outras cidades.”

O destino São Paulo foi escolhido porque o pai de Pitoco trazia muita mercadoria para a zona cerealista da cidade, como algodão e feijão. “Ele ficava no hotel Gonzaga, no Brás, e conhecia muita gente”, contou o músico que foi indicado a um amigo do pai para tocar nos “sambões” de Moema. Josué, chefe de garçons de uma das casas, esteve em Cupira e ouviu do pai de Pitoco: “Rapaz, esse cabra está muito arredio. Você viu o que ele me aprontou? Arrumou uma viúva com duas filhas e teve mais uma com ela. Esse negócio não está certo, não. Vamos botar ele longe dessa figura”, contou o músico que obedeceu e veio com um enxoval composto de uma malinha e um par de baquetas.

Pitoco foi até Angra dos Reis com o parente motorista, e em Barra Mansa tomou um ônibus para a rodoviária antiga de São Paulo. Chegou e fazia frio. “Um frio, rapaz, que eu achava que ia morrer. Pensei que o Josué tinha uma estrutura, mas ele morava bem mal, no quarto de uma pensão com quatro camas. Tinha um cara do Piauí e outros de nem sei onde. Tudo no mesmo quarto. Era só uma cama para mim e eu pensei, meu pai do céu”, disse o músico sobre a humilde pensão que ficava no bairro do Brás, atrás da garagem de ônibus da CMTC.

Zé Pitoco no quintal de sua casa, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Zé Pitoco no quintal de sua casa, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

ROTINA DURA

O frio e o desconforto da pensão eram problemas, mas menores que a saudade que Pitoco sentia das crianças que havia deixado em Caruaru. Era muito apegado a elas. Precisava arrumar logo um emprego para trazê-las. Josué o levou para dar uma canja no Moema Sambão, mas não tinha vaga para baterista.

O dinheiro ganho no carnaval que fez com a banda de Camarão deu para um mês em São Paulo, mas havia acabado. Pitoco encontrou no largo da Concórdia um amigo de sua terra, que estava trabalhando em uma metalúrgica que fornecia chapas de aço para as obras do Metrô. Disse que lá estavam contratando . “Eu, cabra do mato, toda vida fui disposto. Disse para esse meu amigo: ‘Oxente, passar fome nessa porra eu não vou, o que é que tem lá para eu fazer?’ Ele me levou e o dono da metalúrgica perguntou o que eu fazia. Disse que era músico. Perguntou o que eu fazia fora da música, e eu disse nada. Ele me levou para uma sala e mandou me registrar. Comecei como ajudante de prensista. Ajudava a colocar uma chapa de aço na prensa para ‘torar’ e fazer as peças. Era tudo manual”, contou o músico que viu mais de um funcionário perder os dedos decepados pela guilhotina da máquina, distraindo-se ao discutir com outro prensista sobre futebol. “Lembro que um dos mestres, seu João, perdeu os dedos na minha frente. Foi para o hospital todo ensanguentado. Quando voltou, os caras, acostumados com acidentes, tiravam sarro dizendo: ‘Êita seu João, o senhor não toca pife nem piano, para que tanto dedo?’, e caíam todos na risada. Aquilo foi me deixando mal”, falou o músico que permaneceu seis meses no emprego.

Pitoco acordava às cinco da manhã para disputar um lugar no chuveiro, antes de sair para trabalhar, ainda incomodado com frio da cidade. “Não sei como eu estou vivo de tanto frio que passei. Ainda tinha um filho da p… que acordava todo dia mais cedo para trabalhar em Diadema, e entrava debaixo do chuveiro e começava a cantar. Os caras mandavam ele parar e começava uma gritaria que ninguém dormia mais: ‘Vai tomar no c…, seu filho da…’.”

Uma média e um pão com manteiga sustentavam Pitoco, que muitas vezes teve que ajudar a carregar caminhões com as pesadas peças de aço e o corpo coberto de limalha de ferro. Vida dura em um clima frio.

FUTEBOL

Com três meses no emprego, alguém soube que Pitoco quase tinha jogado no time de futebol Central de Caruaru, e espalhou a notícia. Foi convidado a integrar a esquadra da metalúrgica. Era dispensado toda quinta-feira para treinar. O instrumentista jogava futebol de campo, era meia direita, camisa 8.

Pitoco participou de campeonatos entre as fábricas do ABC. Chegou a jogar no estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, conhecido como estádio da Vila Euclides. O músico e metalúrgico chegou a disputar uma partida ao lado de Garrincha (1933-1983). “Foi um jogo daqueles que o Luciano do Vale organizava. O Garrincha estava gordo e inchado, mas ainda corria e era cheio de graças jogando no campo.”

A sorte fez um gol na vida de Pitoco no intervalo de uma partida em que seu time perdia de 3×1. Ensebando para não descer ao vestiário e evitar a dura do técnico, Pitoco se aproximou da charanga que tocava na arquibancada do estádio, após ouvir seu apelido sendo berrado. Era Bill, o saxofonista que havia trabalhado com ele na Bandinha do Camarão. Combinaram pelo alambrado de se encontrarem ao término da partida, e assim foi.

DA METALÚRGICA PARA A BANDA

Pitoco e Bill comemoraram o encontro na casa do saxofonista. Bill estava “atacando”, registrado, na Banda Sinfônica de São Bernardo do Campo.Orientou o amigo baterista a se inscrever na Lira Musical de Diadema, banda que estava admitindo músicos, pois segundo ele, “um músico como tu não pode se arriscar a perder os dedos cortando chapas de aço”, disse Bill.

Juntos foram ao ensaio da banda de Diadema. Apresentado ao maestro como baterista, Pitoco foi informado que estavam admitindo dois clarinetistas, um trompete e o terceiro sax alto. Imediatamente, Bill intercedeu dizendo que, além de bateria, Pitoco tocava sax. Afinal foi ele quem vendeu para Pitoco seu primeiro instrumento, um sax alto.

Na banda de São Bernardo, músicos eram registrados. Na de Diadema, não. Mas era feito um contrato e davam ao músico um emprego na prefeitura, com um cargo qualquer, por um salário mínimo. Pitoco fez o teste tocando a valsa “Branca”, de Zequinha de Abreu (1880-1935), e passou. Pediu as contas na metalúrgica, onde recusou uma grana maior e um curso de ferramenteiro gratuito no SENAI, para retomar seu destino de ser músico.

A Lira Musical de Diadema, fundada em 1968 e oficializada em 1974, ensaiava clássicos e frevos das 8h às 12h, todos os dias da semana. Tocava em muitos lugares e participava de vários concursos, amealhando inúmeros títulos e prêmios.

Zé Pitoco e um de seus instrumentos, o sax tenor (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Zé Pitoco e um de seus instrumentos, o sax tenor (Foto: Carlos Bozzo Junior)

SOM E FUNCIONALISMO PÚBLICO

Pitoco permaneceu como funcionário da prefeitura de Diadema e tocando na banda por dez anos. Sua primeira função foi a de guarda noturno de uma escola. Quando os alunos do período noturno saíam, Pitoco varria todas as salas, arrumava as carteiras e não podia dormir, pois havia uma ronda que o obrigava a permanecer desperto para assinar um papel a cada duas horas. O frio era grande e de doer os ossos para o pernambucano que, desparamentado, usando camisas de chita, não resistia e se enrolava na bandeira de feltro do Brasil que ficava na secretaria da escola.

Às seis da manhã, sem dormir, Pitoco saía da escola e ia direto para a sede da banda ensaiar. Ao meio dia, ia para casa dormir um pouco para, às 18h30, render o guarda do dia na escola e dar continuidade a uma rotina desgastante, mas que preservava seus dedos da mão.

Com dois meses de prefeitura, chamou a mulher e as filhas para morar com ele. No princípio, dividiam um barraco de dois cômodos com outra família. No total, eram dez pessoas vivendo embaixo do mesmo teto, em uma favelinha de São Bernardo, mas felizes por se reencontrarem e por terem aniquilado a iniciativa do pai de Pitoco em separá-los.

Depois de dois anos e meio, Pitoco trocou de função. Passou de guarda noturno a entregador de impostos nos bairros da periferia de Diadema, ganhando um pouquinho mais, além de levar “carreira” de cachorro. “Rapaz, entregava imposto naqueles barracos de Eldorado e proximidades. Batia palmas para ser atendido e quem me recebia muitas vezes eram os cachorros, que corriam atrás de mim, tudo doido para me morder. Aí, era imposto para todo lado, que eu deixava cair da bolsa na fuga”, contou rindo o músico.

A mulher arrumou um emprego de cozinheira em um bar no bairro do Ipiranga. Juntando os salários, saíram do barraco da favelinha e alugaram uma casinha na avenida Cupecê, “em uma quebrada”. Tocando na banda e entregando impostos, Pitoco ainda achava tempo para jogar futebol no time da Associação dos Funcionários Públicos de Diadema, mas se machucou feio antes de ser levado para jogar no Saad Esporte Clube, clube de futebol de São Caetano do Sul. “Foi quando deixei de jogar bola.”

Pitoco mudou de cargo na prefeitura. De entregador de impostos passou a encarregado da contabilidade da merenda escolar, antes de trabalhar no cadastro fiscal. “ O cadastro foi o pior trabalho de todos. Ambulantes e mascates muito pobres tinham suas mercadorias apreendidas pelo ‘rapa’ e se dirigiam para esse setor para reaver o que haviam perdido para os fiscais. Eu ficava com dó e carimbava liberando logo o resgate da mercadoria. Um dia me pegaram fazendo isso e fui transferido”, contou o músico que se negava a receber propina e, por essa razão, foi transferido para outra função. Foi para o setor de contabilidade da prefeitura, encarregado pelas ordens de pagamento. “Bicho, se eu fosse safado, estava rico hoje. Os caras pegavam funcionários que já tinham morrido, emitiam o boleto de pagamento e alguém recebia pelo defunto. Recusei a maracutaia e voltei para o setor de merenda escolar.”

O multi-instrumentista pernambucano Zé Pitoco (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O multi-instrumentista pernambucano Zé Pitoco (Foto: Carlos Bozzo Junior)

ESTUDOS

Pitoco terminou o ensino médio em um supletivo que cursou em Diadema, e passou no vestibular de educação artística na faculdade Marcelo Tupinambá, onde estudou entre 1981 a 1982. Parou por ter adoecido. “Passava muito mal e descobriram que de tanto tomar banho em açude, quando menino novo, eu estava com ameba. Um médico me deu uns venenos que quase me mataram, mas me recuperei”, contou o músico que, mesmo afastado da faculdade, ainda a frequentava ajudando professores com alunos principiantes.

Mais uma vez, a sorte marcou gol na vida do artista. Era 1985 e o músico Antônio Nóbrega estava procurando músicos para compor uma banda e apresentar o espetáculo “Mateus Presepeiro”, no Centro Cultural São Paulo. Um dos locais que Nóbrega visitou em busca de músicos foi a faculdade Marcelo Tupinambá, onde deixou seu telefone de contato. Pitoco foi avisado por um professor da instituição, ligou para Nóbrega, marcaram uma reunião e o resto é história. Afinal, são 25 anos tocando juntos e seis CDs de Nóbrega, com a participação de Pitoco, não só tocando, mas também arranjando e compondo.

NÓBREGA, MEXE COM TUDO, MISTURA E MANDA

Pitoco deixou de trabalhar na prefeitura e tocar na Lira de Diadema, em 1985, para se dedicar exclusivamente ao espetáculo montado por Nóbrega. “Tinha um salário quase igual e eu queria tocar.”

Na banda arregimentada por Nóbrega para “Mateus Presepeiro”, entre outros, além de Pitoco (sax e clarinete), estavam dois Toninhos, o Ferraggutti (acordeom) e o Carrasqueira (Flauta), a base da Mexe com Tudo, banda suingada e famosa que embalou muitos paulistanos, de 1986 a 1992, em locais como o Vento Forte, Bar Avenida e Aeroanta.

Com o fim da banda Mexe com Tudo, Pitoco montou outro grupo de sucesso, o Mistura e Manda, sem deixar de acompanhar Nóbrega em seus espetáculos, além de gravar em vários discos de outros artistas e grupos, como o Papo de Anjo e a Orquestra Popular de Câmara, dos quais também participava.

Luciana Batista Alves, 38, outra filha de Pitoco, é cantora. Subiu no palco ao lado de Hermeto Pascoal, Guinga e Paulinho da Viola, entre outros, mas nunca gravou. Hoje, casada com o contrabaixista Guto Wirtti, e mãe de Aurora,1, aguarda o momento certo de se lançar no mercado. É bom torcer por isso, pois além de extremamente musical, Lu Alves puxou o pai e canta muito. “Um dia ainda espero gravar com ela”, disse esperançoso o pai da moça, que reconhece seu valor.

Zé Pitoco e sua aluna de zabumba e pandeiro Daniela Prioli (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Zé Pitoco e sua aluna de zabumba e pandeiro, Daniela Prioli (Foto: Carlos Bozzo Junior)

FORRÓ

Pitoco gravou muitos discos, entre eles com Chico César, Gilberto Gil, Naná Vasconcelos (1944-2016). Viajou tocando por quase toda a Europa. Shows, só ao lado de Dominguinhos, perdeu a conta. O último show do sanfoneiro, na cidade de Exu, em Pernambuco, em 13 de dezembro de 2012, foi aberto pelo clarinete de Pitoco tocando uma valsa. Canjas, deu até com Luiz Gonzaga, entre milhares. Parte dessas experiências musicais serão demonstradas no show do próximo sábado (16). Na banda, Eraldo Trajano Lau (baixo); Luiz Gonzaga (zabumba); Guegué Medeiros (bateria); Olívio Filho (acordeom); e Vanessa Moreno (voz e percussão); além de Pitoco (voz, sax e percussão). No repertório, xote, xaxado, coco, baião, choro e samba para alimentar a alma e balançar a moçada, frequentadores assíduos dos shows do artista. Entre as músicas, “Forró Na Serra do Bode”, “Forró das Catacumbas”, ambas de Pitoco; além de “Forró no Escuro”, de Luiz Gonzaga, e “Tenho Sede”, de Gilberto Gil e Dominguinhos. São duas entradas de uma hora de música de altíssima qualidade e ainda a oportunidade de se degustar uma bela tapioca. “Tem um tapioqueiro lá, cinco estrelas. Deliciosa a tapioca dele”, disse o artista.

Das 23h às 2h, som ao vivo; depois, até às 2h30, o som mecânico continua a embalar as moças e os rapazes. “Tem muita mulher bonita, como a Dani aqui”, disse o músico referindo-se a Daniela Prioli Duarte, 33, bióloga e consultora ambiental, além de ser a mais recente aluna de Pitoco, aprendiz de zabumba e pandeiro, que acompanhava a entrevista.

Canjas no show podem acontecer. Entre os supostos “canjeiros” desse sábado, talvez apareça o bandolinista Hamilton de Holanda, que estará na cidade. “É um show para disseminar a alegria, cantar e dançar, além de ouvir muita música instrumental boa”, falou o músico dando o seu recado e revelando que em breve o show deve virar um CD.

Assista, abaixo, aos vídeos de Zé Pitoco

 

 

 

FORRÓ DO ZÉ PITOCO
QUANDO Sábado, 16 de abril, das 22h às 2h30
ONDE Centro Cultural Butantã, av. Corifeu de Azevedo Marques, 1882, São Paulo, tel. (11) 98100-5365
QUANTO R$15