O mundo de sons de Amoy Ribas

Por Carlos Bozzo Junior
O percussionista Amoy Ribas e seus instrumentos (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O percussionista Amoy Ribas e seus instrumentos (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O percussionista Amoy Ribas faz um workshop hoje (7), seguido de show amanhã (8), além de uma “meditação-balada”, no dia 6 de maio. Os três eventos acontecem em São Paulo. Cosmopolita, Ribas recentemente fez shows na Suécia, Finlândia, Dinamarca e Alemanha, onde retorna e se apresenta ainda este ano, com datas fechadas também para Itália e Espanha.

O músico recebeu o Música em Letras para uma entrevista em sua casa, na Vila Anglo Brasileira, São Paulo, onde reside há seis anos. Leia, a seguir, sobre esse artista dedicado a não ter barreiras e respeitar a essência de cada ritmo, característica que atraiu a atenção do exímio acordeonista francês Richard Galliano, do bruxo Hermeto Pascoal, do maestro Gilson Peranzzetta, e dos também brilhantes Toninho Ferragutti (acordeom) e Marco Pereira (violão).

PRIMEIROS COMPASSOS

Amoy Ribas Rodriguez Costa, 35, é brasiliense, mas com dois anos de idade, partiu do Planalto Central deste para outro país. Foi para os Estados Unidos. Com os pais, foi morar na ensolarada Califórnia, em Marina Del Rey. Contudo, seus pais buscavam a luz de outro astro para encontrarem a si próprios. A do mestre indiano Rajneesh Chandra Mohan Jain, que se tornou famoso como Osho (1931-1990). “Ele morava lá nessa época”, contou o músico que vivia com sua família em uma comunidade.

Segundo o músico, os pais eram “sannyasin”. “É um termo indiano que significa que você segue um mestre. Que você está em busca de si mesmo. Um professor te ensina uma coisa que você não sabe. Um mestre te ajuda a se encontrar. Muitas vezes, ele não ensina nada. Ele só mostra como ser, como você realmente é ”, explicou o artista que encara tais ensinamentos mais como uma filosofia do que uma religião.

O pai do percussionista nasceu em Buenos Aires. Era baterista antes de se tornar técnico de som e criar, segundo Ribas, o primeiro estúdio com boa qualidade de som em Brasília, o Zen Studio. A mãe, psicóloga e facilitadora de biodança, amealha experiência em vários trabalhos com bioenergética. Ambos se conheceram, casaram e de Brasília vieram morar em São Paulo, onde a mãe engravidou. Como outros “facilitadores”, no caso os avós maternos do músico, moravam em Brasília, seus pais retornaram para lá com o intuito de trazerem à luz o garoto com conforto.

SONS DA ÍNDIA

As primeiras lembranças de Ribas estão relacionadas à Índia, onde foi morar com sete anos. Na Índia, Ribas morou em Poona entre 1987 e 1989. A razão? “Depois que o Osho foi expulso dos Estado Unidos, ele não conseguia permanecer em nenhum país. Só foi aceito em seu próprio país, a Índia. Minha mãe, então, me levou para morar com ela lá.”

Apesar de ter vários contatos com músicos na própria família, a primeira vez que o artista recebeu um convite para tocar foi na Índia. O convite que fez com que ele desenvolvesse interesse pela percussão partiu do baiano Alírio Lima, percussionista que tocou com Chick Corea, Santana, Frank Zappa (1940-1993) e com o grupo Weather Report , entre outros. Na ocasião, Alírio, também “sannyasin”, já atendia por Swami Anand Nivedano, morava e tocava para Osho .

“Toca aqui”, disse Nivedano ofertando a Ribas um instrumento em seu aniversário de oito anos. O presente? Um bongô marroquino que o músico ainda tem e toca. Embora frágil, está inteiro. “Não sei como, após ter mudado de tantos lugares com ele”, falou o músico que tem uma relação afetiva com o presente. As primeiras aulas de música foram dadas informalmente, estavam mais para uma “brincadeira”, ensinadas pelo experiente Nivedano.

Ainda garoto, Ribas pediu para ter um nome “sannyasin”, segundo ele dado pelo próprio Osho: Dyvian Amoy. A partir daí, tornou-se um ser em busca de si mesmo.

Em determinados momentos das cerimônias com o mestre Osho, principalmente nas palestras, crianças não tinham permissão para assistir. Ribas não se intimidava. Queria participar e ficava escondido, ouvindo e vendo o mestre proferir palavras. Tudo acontecia em um gigantesco salão, o Buddha Hall, que abrigava cerca de 5 mil seguidores. “Vi e ouvi Osho falando algumas vezes. Em uma delas me pegaram e deu o maior rolo. Expulsaram a mim e a minha mãe”, disse o músico que também presenciava o som de inúmeros instrumentos de percussão em meio a violões, vozes e flautas.

Aos nove anos, Ribas foi morar com a mãe em Colônia, na Alemanha. Depois de um ano, retornaram para Brasília, onde a mãe foi refazer a vida. “Vendemos tudo, casa, carro, antes de irmos morar na Índia. Na época, o dinheiro rendia bem lá. Vivemos durante três anos dessa grana. Minha mãe só voltou a trabalhar na Alemanha”, contou Ribas.

Amoy Ribas com seu primeiro instrumento, um bongô marroquino (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Amoy Ribas com seu primeiro instrumento, um bongô marroquino (Foto: Carlos Bozzo Junior)

SONS DE MINAS

De volta ao Brasil, a mãe de Ribas ficou em Brasília, enquanto ele, com dez anos, foi morar com a avó em Pirapora, Minas Gerais. Lá, teve contato com a cultura popular mineira através do catopê (tipo de dança do congado); do reisado (festa que acontece no dia de Reis); e do carneiro (outra dança, uma variação do lundu que mistura batuque dos escravos com ritmos portugueses), além do batuque de roncador (dança de roda que reúne tocadores de roncador, caixa, canto e palmas).

Ribas possui um roncador, instrumento parente africano da cuíca, resgatado e montado na cidade de São Romão, à beira do rio São Francisco, em Minas Gerais, por Dona Maria do Batuque, 89, filha da famosa Dona Ernestina.

O instrumento é tocado por duas pessoas, sempre aos pares, como devem ser também tocadas as caixas que acompanham a cantoria, ladeadas de palmas. O roncador fica sempre em frente à fogueira, para não perder a afinação. Ribas aprendeu a tocá-lo com Dona Maria, e esteve na festa do Santo Rosário, no mês de agosto. A dica veio de seu tio Marco Antonio Ribas, mais conhecido como Marku Ribas (1947-2013), cantor, compositor, ator, dançarino e percussionista brasileiro, que gravou, entre outros, o disco “Dirty Work” (1986), da banda britânica Rolling Stones.

Em janeiro de 2008, Amoy Ribas esteve em São Romão, a 510 quilômetros de Belo Horizonte, e encomendou um roncador para o irmão de Dona Maria do Batuque. O homem, um respeitado ancião, disse que não conseguiria fazer um roncador porque naquele mês chovia muito. Não havia como encontrar tronco seco para o corte e construção do instrumento, estavam todos molhados. A solução veio de Dona Maria que ofereceu ao músico uma madeira já escavada, queimada, pintada, usada, surrada, tocada e “vivida”, mas aguardando para se tornar uma Fênix e alçar voo nas mãos de outro batuqueiro. “Leva aquele lá. Era de minha mãe”, disse a senhora referindo-se ao corpo do tambor, sem pele, que havia sido de Dona Ernestina, batuqueira que figura nos versos do livro póstumo de poemas “Magma” (1939), de Guimarães Rosa (1908-1967).

O irmão de Dona Maria “encorou” (colocou a pele, coro de boi) no corpo e montou o instrumento. Grave, na batida e na roncada, a estrovenga faz jus ao nome. O roncador de Ribas ainda traz pelos no coro por não ter sido usado diante do fogo, e nem tão pouco ter sido batido como os surrados e despelados roncadores do grupo de batuqueiros de São Romão. Trata-se de um instrumento com, no mínimo, cem anos. Tem som de história.

A avó de Ribas não era profissional da música, mas praticava muita percussão corporal, que chamava de brincadeira de criança. A justificativa? “Criança pobre do interior não tem dinheiro para comprar brinquedo, então batuca no corpo”, contou o músico dizendo que foi sua avó que ensinou ele e seu tio a fazerem percussão com o corpo.

O músico com o roncador centenário (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico com o roncador centenário (Foto: Carlos Bozzo Junior)

SONS DE BRASÍLIA

Em 1992, com 12 anos, Ribas retornou para Brasília, saindo de Pirapora e deixando seu eterno amigo, o rio São Francisco, para trás. “Estão matando ele”, alerta. Em 1994, foi encontrar o mar em Recife, onde morou por um ano. Acabou retornando para Brasília.

Nessa ocasião, Ribas não tinha uma relação “séria” com a música, apesar de conviver com músicos e instrumentos no estúdio de seu pai, tocar caixa no carnaval, e tirar uma onda dormindo dentro do bumbo de uma bateria, “Tem fotos disso, mas eu só brincava com música”, disse o percussionista.

Ribas fez cursos de desenho, teatro, cinema e ficou com uma bateria Tama de seu pai. Nela, socava a mão tocando rock e pop. Passou a “abrir a cabeça” ouvindo jazz, entre outros gêneros. Do pai, vinha o rock e jazz. Da parte da mãe, muita new age e MPB. “Weather Report, Chick Corea, Wayne Shorter, Jaco Pastorius misturados com o que ouvia na casa de meus avós, aquela coisa regional mineira com o samba, foram a música de minha infância. ”

O percussionista terminou o ensino médio, durante o qual teve os primeiros contatos com seus parceiros, irmãos de música, em Brasília. Em sua turma, no primeiro ano, estava o excelente guitarrista Daniel Santiago, 38. Fora da escola, mas na mesma turma de amigos, figurava Gabriel Grossi, 39, gaitista primoroso. Rogerinho, o Rogério Caetano, exímio violonista de 7 cordas, é de Goiânia, mas havia mudado nessa ocasião, para Brasília. Um geração de músicos em que o bandolinista Hamilton de Holanda e o baixista André Vasconcellos, entre outros, mostrava a que viera.

Um curso de verão fez com que Ribas, ouvindo esses músicos, decidisse estudar para tocar mais, como eles. O artista entrou na onda da música instrumental. Era 1996, quando estudava bateria e decidiu também estudar na Escola de Música de Brasília para sanar a vontade de se aprofundar mais no som. Permaneceu dois anos, tempo suficiente para aprender o básico de harmonia, leitura e um pouco de percussão sinfônica tocando marimba e vibrafone.

Virou autodidata e colhia informações dos próprios amigos com quem já “atacava” nos bares da cidade. “Brasília é interessante por ser uma cidade pequena, mas que tem tudo. A cidade não é de lugar nenhum, mas de todos lugares. Como muita gente não nasceu lá, as pessoas levam consigo sua própria cultura. Gaúchos, cariocas, nordestinos e árabes tocando ‘derbak’ (instrumento de percussão de origem árabe). Todos fazendo suas músicas como elas são, de verdade.”

Nessa atmosfera, Ribas tocava variados instrumentos de percussão: “derbak”, em apresentações de dança do ventre; cajon, em apresentações de dança flamenca; bombo leguero, em uma banda gaúcha de bailes; e pandeiro, em grupos de forró. A primeira gravação foi tocando congas, em um disco de João Donato, do qual não se recorda o nome

SONS DO RIO

Em 2002, mesmo considerando a cidade rica em diversidade, Ribas saiu de Brasília, “o mercado não tinha mais para onde crescer”, e foi para o Rio de Janeiro. O baixista André Vasconcellos já morava no Rio, tocando com Djavan, entre outros. O guitarrista Daniel Santiago foi morar com Vasconcellos e acolheram Ribas durante uns meses até ele se descolar na Cidade Maravilhosa.

Assim, o percussionista viveu a retomada musical da Lapa. Os bares Semente, Carioca da Gema e Rio Cenário, que às quartas-feiras apresentava o trio Gabriel Grossi, Daniel Santiago e Amoy Ribas, começavam a bombar com música boa, de qualidade. “Participamos da reconstrução da movimentação musical que houve na Lapa”, disse o músico que figurava também nas cenas do choro e do samba cariocas.

Um gringo- Ribas não se lembra o nome- documentou, em 2003, essa geração de músicos. Um ano depois, convidou Ribas e seus parceiros para um show em Los Angeles. O grupo era Grossi, na gaita; Santiago, no violão; Hamilton de Holanda, no bandolim; Nicolas Krassik, no violino; e Amoy Ribas, na percussão. Dois shows de sucesso fizeram com que fossem matéria no jornal “Los Angeles Times”.

Em 2008, Ribas retornou para Brasília. “Não estava mais gostando de morar no Rio, porque o ‘boom’ da Lapa foi muito rápido de ficar bom e de ficar ruim. Tocávamos e ganhávamos bem. Só tinha músico bom. Você ia a um bar e assistia a um show bom, mesmo se fosse só para dançar, beber e curtir, a música era feita por músicos bons. Os bares começaram a pagar menos. Os músicos bons passaram a não aceitar e os contratantes começaram a chamar um bando de gente ruim para tocar. Hoje, acho que a Lapa está muito caída com relação à época em que vivi lá.”

Em Brasília, Ribas retornou abrindo o curso de percussão do Clube do Choro. “Fundei esse curso dando aulas. Gravava, tocava em shows, mas o horizonte de Brasília se tornou muito pequeno novamente e vim para São Paulo”, disse o músico que desde o final de 2009 que, mora na capital paulista.

O artista sentiu necessidade de tocar com músicos de primeiro time como Toninho Ferragutti (acordeom) e Fábio Peron (bandolim), entre outros, que moram aqui. Em seis meses, vindo e voltando de Brasília, conseguiu achar e alugar uma casa na Vila Anglo, com espaço para guardar instrumentos e dar aulas. Está nela há seis anos.

Amoy Ribas tocando sua marimba de vidro (Foto: Carlos Bozzo junior)
Amoy Ribas tocando sua marimba de vidro (Foto: Carlos Bozzo junior)

SONS DE SÃO PAULO

Em São Paulo, Ribas grava, realiza oficinas e shows. Quando chegou, rodou durante três anos pelo interior, desenvolvendo um trabalho para o SESI em escolas, direcionado para crianças, uma mistura de aula e show. “Começava como um show e terminava com as crianças tocando comigo.”

As aulas do percussionista não se restringem a São Paulo. Seu som e ensinamentos já passaram por Ourinhos, Curitiba e Cuiabá; fora do país, pela Bolívia. Há aulas ministradas por Ribas para grupos interessados em música árabe, latina ou brasileira, além de aulas individuais só de pandeiro, por exemplo. Os contatos devem ser feitos pela página do artista no Facebook ou pelo e-mail amoyribas@gmail.com

O músico acha “gostoso” dar aulas porque se sente contribuindo, além de reforçar seus conhecimentos básicos, mantendo-o ligado a informações simples, mas pouco utilizadas. Em suas aulas, Ribas aborda, além do próprio instrumento, a cultura, a tradição e sua origem. “Nossa cultura, por exemplo, simboliza o que somos e isso é que é importante, mostrarmos essa cultura, além da música”, disse o artista que teve sua “cabeça aberta” por um curso de etnomusicologia. “O professor era Terry Agencop, do Suriname, que ao descrever um ritmo específico da África mostrava, por meio de um vídeo, onde morava o povo que tocava esse ritmo, como se vestiam, o que comiam e como dançavam. Só no final, ele mostrava a música e os instrumentos. Nesse ponto, já estávamos preparados para entendê-la. A cultura não é desconectada do dia a dia. Tem que se compreendê-la também. Quando você conecta quem você é com a música que você faz, você dá sentido a sua arte”, falou o músico que ensina e toca dentro desse mesmo princípio.

Ribas, que tem cerca de 30 alunos, possui licenciatura em música realizada na Faculdade Paulista de Arte. É ele quem alerta sobre o necessidade de dar aulas para se ganhar dinheiro, afirmando que há muito músico bom que não sabe dar aulas, se metem a fazer isso pela necessidade de fazer uma grana. “Saber tocar não significa saber ensinar”, alertou o professor.

Alguns CDs do artista (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Alguns CDs do artista (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CDS

O percussionista já participou de várias gravações. Entre elas, do disco “Meireles e Os Copa 5 – Esquema Novo”, do saxofonista, flautista e arranjador J.T.Meirelles (1940-2008). Também marcou presença em “Luz Negra”, disco do exímio acordeonista francês Richard Galliano. Pelo fato de o percussionista ter atuado em muitos discos, o Música em Letras destacou alguns de seus CDs autorais.

“Amoy Ribas- Batuque no Batique” (2006) é o primeiro CD autoral de Ribas e traz em 11 faixas um conceito que vem norteando o trabalho do músico, registrando uma percussão não como um simples acompanhamento, mas propondo melodias, inovando em estrutura, sem perder as raízes originas de ritmos tradicionais brasileiros. No time de músicos, o experiente bandolinista Hamilton de Holanda e o violão de Rafael dos Anjos, aqui realizando sua primeira gravação. Entre as músicas, “Néctar Abençoado”, uma balada feita para sua mãe, e “Velho Chico”, que traz o respeito do autor pelo rio que chama de seu, aqui representado por um batuque lento.

“Lutz Häfner-RAL 3” (2010) é resultado de uma amizade. Em 2004, Ribas foi tocar na Alemanha, com o maestro Gilson Peranzzetta, a cantora Joyce e uma big band alemã, a WDR. O saxofonista tenor da banda, o alemão Lutz Häfner, ficou seu amigo. Chamou-o para formarem um trio e gravarem. A sigla RAL corresponde a um código de cores na Alemanha, além de representar o nome de seus três integrantes por suas iniciais: “R”, de Rainer Böm (piano elétrico); “A”, de Amoy Ribas (percussão); e “L”, de Lutz Häfner (sax, clarinetes). Em uma semana, trocaram músicas, gravaram e mixaram. O disco é distribuído apenas na Europa, Japão e Estados Unidos, não chega ao Brasil. Entre as músicas, “Barranco Abaixo”, um samba rápido no ritmo, com melodia cantada lenta. “Glaslandschaftem”, paisagem de vidro em alemão, foi gravada em homenagem a um “didjeridu” (instrumento de sopro dos aborígenes australianos) de vidro que o artista adquiriu na Alemanha . A inspiração veio de uma paisagem congelada, que surgiu durante uma viagem de carro feita por Ribas entre Colônia a Hamburgo, durante o inverno.

“Tambores de Apuama” (2009) traz no nome a junção do instrumento com a palavra, que segundo Ribas, em tupi guarani, significa “que não para em casa, não para quieto, que busca algo de fora”. Em dez faixas, o disco dá continuidade ao primeiro lançado pelo artista, em que a tradição se mistura a elementos externos sem perder a identidade. “Calhetas”, um maracatu, segue outros compostos por Ribas que levam sempre o nome de uma praia de Pernambuco. Nesta faixa, Ribas mostra vários tipos de baques (batidas, levadas) do maracatu. Entre eles, o baque de arrasto, de impulso, de parada e de martelo, que estruturam uma música coberta pela sonoridade de um trompete, dois sax (alto e tenor), flautas, contrabaixo acústico, marimba de madeira, vibrafone, e a percussão e bateria de Ribas. “Nheengatu”, segundo o autor, remete à primeira língua brasileira, resultante da mistura das línguas tupi guarani, portuguesa e espanhola. “Esta língua estava se difundindo e seria uma língua brasileira, mas Portugal percebeu isso e, para não perder o poder da colônia, proibiu-a, matou-a”, disse o compositor sobre a música aqui registrada em um ijexá (um dos ritmos do candomblé). No time de músicos, além dos parceiros habituais de Brasília, Ribas conta com o piano de Gilson Peranzzetta, a musicalidade de Hermeto Pascoal e Lula Galvão no violão.

“Fora dos Eixos” (2013) é um disco dedicado a Ernesto Nazareth (1863-1934), gravado na ocasião da comemoração dos 150 anos do compositor. O trabalho é do grupo Choro & Cia, do qual Ribas é integrante. Além dele, Pedro Vasconcelos (cavaco), Fernando César (violão de 7 cordas), Ariadne Paixão (flauta), com participação de Roberto Corrêa (viola caipira), entre outros. No repertório, músicas raras e inéditas de Nazareth, como “Segredo da Infância”. Metade delas, arranjadas por Ribas, dividindo a responsabilidade entre o grupo. Geralmente, nessa formação, a melodia fica com a flauta sendo acompanhada pelo cavaco, pandeiro e o violão, que, às vezes, faz um contracanto. No grupo e nos arranjos de Ribas para esse disco, essas funções estão distribuídas entre os músicos. A melodia passa pelo cavaco, vai para a flauta e fica no violão 7 cordas, antes de cair no pandeiro. Todos são responsáveis, em algum momento, de levarem a melodia para frente.

“Repercutindo” (2015) é o mais recente disco de Ribas, realizado em duo com o pianista e maestro Gilson Peranzzetta, de quem é amigo desde 2003. Em 2007, fizeram shows nessa formação em Brasília. No ano seguinte, no Rio de Janeiro. Daí veio a ideia de gravarem o resultado desse encontro. A música homônima ao título do CD, um baião “diferentão”, teve sua primeira parte composta por Ribas e a segunda por Peranzzetta. “Croa de um Jongueiro”, um jongo (dança brasileira de origem africana) no qual Ribas toca um ilu (tambor afro-brasileiro) fazendo o ritmo do jongo. O músico utiliza ainda um vibrafone para realizar a melodia junto com o piano. Com uma harmonia que passa pelo universo modal, o ritmo permanece no jongo. Mais uma vez, Ribas utiliza elementos originais sem modificá-los ou adaptá-los, respeitando-os.

Quando o artista recebeu o Música em Letras para essa entrevista, ele estava na semana de gravação do mais novo disco de Marco Pereira, com quem já gravou “Camerístico”, “Samba da Minha Terra” e “Luz das Cordas”, todos do violonista. “É muito bom trabalhar com o Marco. Ele mostra a música no violão e ouve o que tenho para sugerir. Fazemos uns ajustes e gravamos”, contou o músico sobre o disco que terá a participação de Toninho Ferragutti, no acordeom, e de Guto Wirt, no contrabaixo, entre outros bons nomes da música instrumental. A “bolachinha” deve sair ainda este ano pelo selo Borandá.

OFICINA

Na oficina que o percussionista realiza hoje (7), instrumentos de percussão brasileiros e mundiais terão suas maneiras de tocar, técnicas e origens demonstradas pelo músico, de maneira interativa com o público. “Quero trazê-los para meu mundo respeitando a capacidade de cada um”, disse Ribas sem se importar com o nível de conhecimento musical do participante. “Quem já é músico tem capacidade de aprender mais coisas. Quem não sabe nada, terá a oportunidade de construirmos juntos”, falou o artista que utiliza mais de 30 instrumentos durante essa vivência. Entre eles, o pandeiro quadrado e o curioso “kais kais” da África do Sul (veja vídeo abaixo).

SHOW

No dia 8 de abril, o percussionista realiza show solo utilizando vários instrumentos de percussão, entre eles o vibrafone. “Asa Branca”, com um arranjo diferente escrito por Ribas, está prevista no programa, além de “Néctar Abençoado”, “Proa de um Jongueiro” e “Entre Rios”, um samba para São Paulo, cidade que o compositor considera estar entre rios e não entre duas marginais. “Loa de um Barranqueiro” homenageia o tio do percussionista, Marku Ribas. Loas são toadas que barqueiros de algumas regiões do rio São Francisco cantam sincronizando o ritmo com o movimento dos remos. No show, a música aparece como um maracatu.

Excelente oportunidade para se ter contato com vários estilos de música daqui e do mundo, sem limitação de misturas, e assistir à melodia passar por instrumentos não convencionais, geralmente utilizados para acompanhamento. Assista ao músico interpretando “Néctar Abençoado” em uma marimba construída por ele. Com teclas de vidro, a marimba utiliza seu próprio case como caixa de ressonância.

MEDITAÇÃO

O músico realiza uma vez por mês, em São Paulo, uma experiência musical bem diferente com meditação. “É uma meditação que se liga com a celebração de uma festa. É um novo conceito que estamos criando de balada. Não balada de ficar bebendo, doidão e curtindo. Isso você acha em qualquer bar. Faz a pessoa entrar em um processo de relaxamento, libertação, esvaziar a cabeça e relaxar para construir essa celebração de uma maneira mais leve.” Um amigo de Ribas, Prem Vardan, terapeuta tântrico e facilitador dos grupos de meditação do Osho, conduz os participantes proferindo palavras que levam ao relaxamento, antes de realizar a energização do corpo, utilizando vária maneiras, entre elas, a hiperventilação, para depois descarregar essa energia na festa. Durante todo o processo, Ribas recheia o ar com seu som.

OFICINA DE PERCUSSÃO E SHOW COM AMOY RIBAS
QUANDO Hoje (7), quinta-feira, acontece a oficina; amanhã (8), sexta-feira, o show; ambos às 20h30
ONDE Espaço 91, (acessar o site www.espaco91.com.br e enviar mensagem para comprar ingresso e obter informações sobre o endereço)

MEDITAÇÃO E CELEBRAÇÃO COM A MÚSICA DE AMOY RIBAS
QUANDO Dia 6 de maio
ONDE Companhia do Ser, r. Paulistânia, 309, Vila Madalena, São Paulo, tel. (11) 3774.0898
QUANTO R$ 60