Merda Naná, muita merda para você

Por Carlos Bozzo Junior
O percussionista Naná Vasconcelos em entrevista ao Música em Letras, em 2015 (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O percussionista Naná Vasconcelos em entrevista ao Música em Letras, em 2015 (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Quando morre um músico, é uma merda. Quando morre um músico amigo, são duas merdas. Quando um músico amigo deixa de sofrer para morrer, é tanta merda, que penso ser melhor comemorar, cantar, tocar, batucar para não chorar. Chorar, só se for de alegria. Alegria por ter conhecido- bem de perto- Juvenal de Holanda Vasconcelos, o Naná Vasconcelos (1944-2016), morto ontem (09/03), vitimado por uma parada cardiorrespiratória.

Conheci o percussionista, compositor e arranjador Naná Vasconcelos muito antes de ele me conhecer. Conhecia-o de ouvido, por meio de seu som- facilmente identificado- nos discos de Milton Nascimento e Raimundo Fagner, entre outros. O som de Naná, independente de quem ele acompanhava, trazia sempre seu CIC e RG. Era único.

Os LPs “Dança das Cabeças” (1977), com Egberto Gismonti; “Sol do Meio Dia” (1978), de Egberto Gismonti, do qual Naná participa; “Codona” (1979), “Codona 2” (1982) e “Codona 3” (1983), os três com os músicos Don Cherry (1936-1995) e Collin Walcott (1945-1984), semearam minha cabeça transformando-a com relação à música. Portas se abriram.

Em 1983, estudei na Berklee College of Music, em Boston, passando a apreciar mais ainda o som com o qual a “gringaiada” pirava. O som de Naná. Colegas perguntavam se eu o conhecia, mas na ocasião, só de ouvido.

Em 1992, morei em Londres, onde, além de tocar na rua e em alguns bares, “atacava” de garçom no Royal Festival Hall. Em um dia de folga, presenteado com ingressos pelo gerente, que perdeu uma aposta achando que o teatro não lotaria, fui assistir ao show “lotadaço” de Caetano Veloso, Circuladô. Ali, no intervalo, no foyer do teatro, avistei sozinho, quase escondido em um canto, Naná. Não resisti e fui até ele. Confirmado, era o homem, o artista e um dos caras mais humildes que conheci. Ficamos amigos.

De volta ao Brasil, já trabalhando na Folha e cobrindo um dos PercPans (Panorama Percussivo Mundial), ouvi de uma jovem redatora da Ilustrada que o editor da ocasião havia solicitado para “darmos” uma foto “daquela” tal de Naná Vasconcelos na capa. Caímos na risada, inclusive Naná, que depois soube por mim da história e disse bem humorado, “Deveria ter enviado uma foto minha de baby-doll”.

Passei a encontrar Naná com mais frequência em gravações, shows, festivais, festas e muitas carraspanas. Sim, eu e Naná sempre comemorávamos nossos encontros assim, com muita alegria, humor e irreverência.

Em 2013, fui a Recife com o intuito de realizar um perfil de Naná para a Ilustríssima, publicado no dia 11 de maio do mesmo ano. Permanecemos dia e noite juntos. Em um desses dias, me vi ao lado do então governador Eduardo Campos (1965-2014), que ladeado de seguranças estava totalmente blindado e avesso a entrevistas. Quando disse em voz alta que eu era da Folha e só queria declarações dele sobre Naná, o homem mandou baixar a guarda e se deixou ser entrevistado. Fui o único a entrevistá-lo naquele momento. Era Naná abrindo mais portas para mim.

Depois, nos encontramos mais vezes quando o músico vinha para São Paulo. A última, em um show com Badi Assad, no Sesc Pompéia, mas já sem carraspana; a quimioterapia não permitia. No entanto, comemoramos do mesmo jeito, com muita alegria, humor e irreverência.

Agora não será diferente. Muita merda pra você, Naná!

Assista ao vídeo inédito do percussionista Naná Vasconcelos com o Grupo Batucafro, ensaiando para tocarem no carnaval de 2013, em Recife. (Vídeo: Carlos Bozzo Junior)