Bosco Batista, “motora” de artista

Por Carlos Bozzo Junior
O motorista Bosco Batista, em seu carro (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O motorista Bosco Batista, em seu carro (Foto: Carlos Bozzo Junior)

João Bosco Batista, 63, é motorista ou “motora”, abreviação usada por artistas para esse experiente, alinhado e solicitado profissional. Todos o conhecem como Bosco. Ele também conduz políticos, atores, jornalistas, celebridades e empresários.

Bosco transporta vários nomes da música por ruas e estradas perigosas, com muita segurança. Segurança esta certificada por um “motora” esperto, que age como os três famosos macacos sábios japoneses Kikazaru ( que tapa os ouvidos) , Mizaru (que cobre os olhos) e Iwazaru (que tapa a boca).

O Música em Letras esteve na casa de Bosco, na Vila Prudente, zona leste de São Paulo, onde ele concedeu uma entrevista contando como é seu dia a dia, seu trabalho e seus perrengues conduzindo astros da música. Entre eles, Luiz Melodia, Alceu Valença, Renato Teixeira e o deputado federal e cantor Sérgio Reis.

Bosco trabalha como freelancer. A solicitação de seu serviço é feita através de empresas ou diretamente por empresários e produtores de artistas. Geralmente, Bosco pega o artista no aeroporto, leva-o para o hotel e fica a sua disposição para conduzi-lo a ensaios, passagens de som, shows, compras, restaurantes e bares, entre outros lugares. “Às vezes, na ausência de quem acompanhe o artista, levo-o até o camarim”, disse o prestativo motorista que impõe respeito com seus 1,80 metro e 90 quilos.

Leia a seguir trechos da entrevista e assista, no final do texto, ao vídeo em que Bosco mostra porque preferiu ser motorista.

PRIMEIROS QUILÔMETROS

Natural de Recife, Bosco é filho de uma costureira e de um pai que a abandonou quando o rebento estava com apenas sete meses. “Então, eu tive ‘pãim’. Infelizmente, ano passado ela me deixou”, contou com os olhos marejados, mas acrescentando: “Agora, tenho reforço lá em cima”.

Antes de dirigir seu carro atual- um Toyota Corolla GLi, XEi, preto, completo e impecavelmente limpo-, Bosco teve vários carros. Os primeiros foram conduzidos sem que ele tivesse carteira de habilitação. “Naquele tempo, dava para cometer esse tipo de infração”, disse o motorista que hoje possui CNH (Carteira Nacional de Habilitação) em dia.

Bosco é um “paulista de Pernambuco”. A razão? Veio de Recife para São Paulo ainda moço, em 1969, com 17 anos. No início, morou com uma irmã e um cunhado, policial rodoviário lotado em Dracena, cidade do interior de São Paulo a 650 quilômetros da capital. Após um ano, o cunhado foi transferido para a capital e o trouxe com ele.

Seu primeiro emprego foi “descolado” pelo cunhado para que ele exercesse a função de caixa, antes de ser promovido e passar a encarregado de lanchonete, na extinta Baleia, hipermercado do grupo Eletroradiobraz que funcionava no bairro da Água Branca. “Nunca cozinhei nada. Andava de gravata. Só administrava o pessoal e ordenava as compras que o cozinheiro solicitava”, disse Bosco, que na ocasião tinha 22 anos.

Bosco permaneceu por cerca de quatro anos nesse emprego até ser dispensado junto com 4 mil funcionários, quando o grupo de lojas, magazines e hipermercados da Eletroradiobraz foi adquirido pelo Grupo Pão de Açúcar. “Foi duro rapaz. Fui demitido e tive que procurar emprego”, contou o pernambucano que logo foi admitido em uma empresa de segurança patrimonial, ramo em que atuou por 25 anos, como coordenador e encarregado de segurança. “Passei por quatro empresas de segurança. Tenho curso de direção defensiva e de tiro também”, falou o motorista que portava arma, mas nunca teve que utilizá-la. “Só no estande de tiro. Igual a seguro de vida; tenho, mas não quero morrer”, completou rindo.

Do aprendizado no curso de direção defensiva, Bosco nunca utilizou muito o que aprendeu. “Geralmente, somos acompanhados por batedores da polícia e não temos que fugir ou abrir caminho no meio da multidão. Esses dias, levei o Alceu (Valença) para cantar em Osasco e como ele precisava sair logo dali, usamos os batedores. Já o (Luiz) Melodia dá tempo para a multidão sair, ir, voltar, ir, voltar e sair novamente. Ele espera baixar a adrenalina. Quando baixa, ele levanta e sai. Ele não se preocupa em sair logo dos locais de shows.”

PRIMEIROS CARROS

A carteira de habilitação veio tarde. “Não lembro porque eu tirei a carteira, mas acho que foi para progredir no emprego e ter um salário melhor.”

Seu primeiro carro foi um “maveka”, um Maverick, 1976, verde metálico de “seis bocas”(seis cilindros), que Bosco comprou de um amigo que o havia ganho em uma rifa. “Na época, comprei pagando R$ 50 por mês. Como eu ainda não tinha carteira, levava sempre um colega habilitado caso houvesse um problema.” Contudo, o motorista ficou “desgostoso” com o possante, horas antes de descer a Serra do Mar com a família para pegar uma praia. “Meus filhos eram bem pequenos ainda e eu nem tinha carteira. Fomos ao posto de gasolina abastecer- êita, como bebia aquele carro, andava, mas bebia muito-, e acabei batendo em uma pilastra. Voltei para casa, estacionei e nunca mais dirigi o Maverick de desgosto. Fiquei triste pra xuxu. Acabei vendendo do jeito que ficou, batido mesmo”, falou Bosco, pai de duas filhas e um filho. Com a mão na direção, formou uma professora, uma química e o outro filho está prestes a ser engenheiro civil.

Uma Brasília, azul escura, 1979, “já no final de vida”, acabou substituindo o Maverick, mas por pouco tempo. “O vendedor desistiu do negócio e depois de seis meses devolvi para ele”, disse o motorista que na sequência adquiriu outra Brasília, 1979, dessa vez branca. “Nessa época, estava muito feliz e tirei a carteira com a maior facilidade, porque já dirigia há muito tempo. Foi bem fácil. Cheguei bem encaminhado, tinha praticado bastante”, contou.

Passada a fase dos carros homônimos ao Planalto Central, Bosco teve um Gol branco, 1977, herdado de seu enteado; um Corcel II, marrom escuro, 1980; e um Fiat Tempra SW, 1997.

Em 2000, Bosco ficou desempregado e iniciou seu atendimento como motorista particular. “Eu estava para comprar uma van, mas uma empresa que prestava serviço para a Globo me admitiu porque meu carro (o Fiat Tempra SW) servia para atender os executivos, diretores e outros funcionários.”

Do Fiat Tempra, Bosco passou para um Omega e já está no terceiro Corolla, este 2010. “Tive um cinza e um azul antes deste preto. O próximo não vai ser preto por conta desse negócio do Uber. Vou comprar um prata. Para o tipo de serviço que faço, o carro, além de ter insufilm, tem que ser macio, confortável, limpo, com porta-malas grande, ar condicionado, travas e vidros elétricos, e merecer total atenção. Se você dá atenção para o carro, ele nunca te deixa na mão. Dar atenção é fazer a manutenção normal e ficar de olho na troca de óleo e pastilhas antes de estourar o prazo. O carro gosta que a gente cuide dele assim.”

ILUSTRES PASSAGEIROS

A primeira jornalista famosa que Bosco transportou foi a repórter da TV Globo Neide Duarte. Depois dela, Bosco passou a atender uma lista com vários nomes importantes. Entre eles, serve há cerca de 14 anos Luiz Melodia; Renato Teixeira, há dez anos; Alceu Valença e Sérgio Reis, há seis. O jornalista e comentarista esportivo Luciano do Valle (1947-2014), Bosco atendeu por 13 anos.

A atriz Maitê Proença utilizou por três meses os serviços de Bosco. “Foi na época em que ela estava em cartaz no teatro Cultura Artística, mas infelizmente o teatro pegou fogo e interrompeu-se a temporada. A Glória Maria (repórter), sempre que vem a São Paulo, me chama para atendê-la com as filhas. Não é toda hora, mas ela gosta de ouvir música clássica.” Nesse momento da entrevista, Bosco exibe um recorte do Jornal da Tarde, caderno Variedades de 2004, com matéria sobre a jornalista e autografado por ela com os dizeres: “Para o senhor Bosco, com um grande abraço de Glória Maria. O senhor é o máximo!”
“A Ângela Rô Rô me liga pessoalmente, nem é a assessora dela quem faz o contato. Olhe, é muita gente que atendo”, falou o motorista que também realiza viagens para o interior do Estado transportando artistas.

Bosco exibe a reportagem autografada por Gloria Maria (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Bosco exibe a reportagem autografada por Gloria Maria (Foto: Carlos Bozzo Junior)

UNINDO SONS E TROCANDO IDEIAS

Uma vez, transportando o compositor Renato Teixeira, Bosco atendeu o rádio e era Ângela Rô Rô solicitando seus serviços. Ao saber que Teixeira estava no carro, pediu para falar com ele. Bosco pediu permissão para passar o aparelho para Teixeira, que imediatamente consentiu. Ambos falaram um bom tempo, pela primeira vez. “Rasgaram uma seda, um dizendo que era fã do outro. Rapaz, eu fiquei maravilhado só de ouvir. Fui eu quem fiz eles se falarem pela primeira vez. Fico muito feliz em promover esse tipo de coisa para pessoas tão legais como eles.”

“O seu (sic) Renato conversa comigo como se fôssemos amigos muito próximos. Fico impressionado como ele trata a mim e a todos assim. No ano passado, ele pediu que eu fosse até a casa dele e fui achando que era para transportá-lo para algum lugar. Que nada, ele queria me presentear com esse oratório lindo (falou mostrando a peça). Ele também me presenteou com um violão que era dele mesmo. A consideração que ele tem por mim é recíproca. Ele é um grande amigo.”

PASSAGEIROS PERMANENTES

O compositor e cantor Alceu Valença é outro habituê do Corolla de Bosco.“Ele gosta de brincar comigo falando de política e música. Coloco CDs com músicas do Herivelto Martins (1912-1992), da Dalva de Oliveira (1917-1972) e do Anísio Silva (1920-1989) para ele escutar. Ele adora e canta junto dizendo que há muito tempo não escutava aquelas músicas. Sobre política, temos divergências, mas ele respeita porque sabe que dou minha opinião honesta. Somos pernambucanos e falamos sobre nosso conterrâneo (presidente Lula), mas sem pender totalmente para o lado dele. É sempre uma conversa muito enriquecedora para mim. É uma troca de idéias fantástica. O Alceu é fantástico como pessoa, além de um grande artista.”

Quando se trata de conduzir Sérgio Reis, Bosco amplia o repertório musical no carro. “Seu (sic) Sérgio gosta quando coloco um disco com música da Jovem Guarda. Rapaz, ele conhece tudo, impressionante. Tem uma memória fantástica e diz o nome de quem está tocando o baixo, a bateria, a guitarra, até o arranjo ele lembra quem fez.”O artista mantém a atenção durante todo o trajeto. “Quando estou dirigindo ele diz: ‘Vai para a direita. Vai para a esquerda’. Se for de noite, ele diz: ‘Põe luz baixa. Põe luz alta’. Eu já estou acostumado, não me importo com isso. Às vezes, ele diz: ‘Vai para a direita’ e eu respondo que não posso porque está vindo um carro. Aí ele diz: ‘Ah, queria ver se você ia mesmo, se está prestando atenção’”, contou rindo. Segundo o motorista, Reis é uma pessoa fantástica. “Ele tem o coração do tamanho dele.” Reis já o presenteou, mas o cobrou perguntando: “E aí, está usando a calçadeira?” Bosco respondeu: “Chefe, ela é muito bonita. Pendurei na parede da sala”, contou o motorista exibindo o artefato feito de chifre de boi.

Bosco exibe o presente que ganhou do deputado federal e cantor Sérgio Reis (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Bosco exibe o presente que ganhou do deputado federal e cantor Sérgio Reis (Foto: Carlos Bozzo Junior)

CLIENTE DIVERTIDA, CLIENTE MALA

Na categoria passageira bem humorada, a cantora Cida Moreira leva o prêmio.“Rapaz, ela veio de Ribeirão Preto até São Paulo contando piadas. Saímos de lá por volta de uma hora da manhã, ela me ajudou muito a não sentir sono, mas por outro lado quase me mata de tanto rir.”

Malas também ocupam o banco de passageiros.Bosco é reservado e discreto. Depois de eu insistir muito, o profissional do volante contou, sem revelar o nome, sua experiência com uma cantora do pop rock nacional, bem “mala” e arrogante. “Estávamos indo para o interior, na rodovia dos Bandeirantes. Mudei de faixa para não sacudir o carro passando sobre ‘os olhos de gato’. A cantora comentou com a produtora sentada a seu lado, no banco de trás: ‘Fala para ele não passar de uma faixa para a outra’. Ela poderia ter falado diretamente comigo. Mas eu respeito.”

VIAGEM TRISTE

Bosco recordou uma viagem triste que realizou, em 2006, ao lado do cantor e compositor Paulinho da Viola. “Fizemos três cidades do interior de São Paulo e quando estávamos em Bauru, recebemos a notícia de que o violonista Dino 7 Cordas (1918- 2006) havia morrido.

O Dininho, filho do Dino, estava na banda. Todo mundo ficou sabendo da notícia antes do show, mas ninguém falou nada para ele. Quando acabou o show, o Paulinho da Viola teve uma atitude muito legal.Todo mundo estava para embarcar no ônibus para retornar ao Rio de Janeiro. O Paulinho chamou o Dininho, contou para ele e fez com que eu o levasse até o aeroporto de Bauru. Lá o Paulinho comprou uma passagem e colocou o Dininho dentro do avião. Achei uma atitude fantástica.”

DROGAS E BASEADOS

Bosco disse nunca ter presenciado o uso de drogas em seu carro, salvo o álcool e a maconha, pois esta não tem como não ser percebida.O cheiro é forte. “Tenho um Bom Ar, para usar depois”, disse o motorista que nunca fumou maconha, se envolveu com drogas e “jamais diria” os nomes dos usuários da “cannabis”. “Uma das lições que aprendi, em todos esses anos como ‘motora’ de artistas e celebridade, é nunca falar se não for chamado e nem revelar o que acontece ou se fala dentro de meu carro. Às vezes, finjo que não escuto, mas sempre permaneço quieto, porém nunca revelo as conversas. Cada um faz e diz o que quer.” Mas e se a polícia parar o veículo, perguntei. “Nunca aconteceu”, disse o motorista acrescentando que jamais teve um cliente passando mal em seu carro.

O motorista mostra o violão que ganhou do compositor Renato Teixeira (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O motorista mostra o violão que ganhou do compositor Renato Teixeira (Foto: Carlos Bozzo Junior)

INVERSÃO DE VALORES

Segundo Bosco, a maioria dos artistas que transporta são pessoas legais. “Às vezes, quem acompanha o artista- produtores, secretárias e assessores- são mais metidos a serem artistas que os próprios. Uma vez fui pegar o Pedro Bial e recebi tanta recomendação de não falar com ele, não isso e não aquilo, que quando fui apanhá-lo, no ateliê do Ricardo Almeida, quase que não chego perto do homem. A pessoa que me contratou disse: ‘Estou mandando o senhor porque sei que não se deslumbra com artista’. Quando ele chegou, abri a porta de trás do carro e ele perguntou se podia ir na frente. Eu disse: ‘O senhor vai onde preferir’. Ele colocou a pasta no banco de trás, se sentou na frente e começou a puxar conversa. No começo, fiquei sem saber se respondia ou não de tanta recomendação que havia recebido, mas ele foi conversando comigo até o destino. Um cara muito legal, mas endeusaram tanto ele que tive receio.”

NO TRÂNSITO

Como Bosco tem curso de direção defensiva, segue algumas regras. Por exemplo, de noite não para no semáforo, vai devagar e para antes. Já levou muita multa, mas agora com o limite de 50 quilômetros por hora não tem sido autuado. “Com essa velocidade você vem de show com artista, na madrugada, e vira presa fácil para vagabundo”, disse o motorista que com passageiro no carro nunca foi assaltado. “Só aconteceu uma vez, saindo de casa. Ia buscar o Sérgio Reis e um cara com uma arma levou meu carro.” Como o carro de Bosco tem rastreador, duas horas depois foi buscá-lo na delegacia. “O cara levou meu paletó, um GPS e o estepe do pneu.”

Segundo Bosco, acidentes na maior parte das vezes são ocasionados por imperícia e abuso de velocidade. “Não quero virar famoso matando um artista. Por isso, quando um deles pede para eu fazer uma ultrapassagem perigosa ou correr, digo não.”A dica do “motora”para dirigir tanto na estrada quanto na cidade é “ter paciência”. “Se não tiver, esquece”, falou o motorista que ouve no carro, para relaxar, as rádios Nova Brasil FM (89,7) e Cultura FM (103,3).

Assista ao vídeo no qual Bosco mostra que “seu negócio é mesmo ser motorista”.