Roberto Sion muda o astral das segundas-feiras

Por Carlos Bozzo Junior
Da esquerda para a direita, Vitor Cabral, Daniel D'Alcântara, Itamar Collaço e Roberto Sion, em ensaio (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Da esquerda para a direita, Vitor Cabral, Daniel D’Alcântara, Itamar Collaço e Roberto Sion, em ensaio (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Se você sofre da mesma síndrome do gato Garfield, personagem dos quadrinhos de Jim Davis, que vive “miando” a frase “I hate mondays” (eu odeio segundas-feiras), saiba que há solução para isso. Para quem odeia este dia, porque sabe que vai começar tudo de novo (compromissos, trabalho, estudos, trânsito, entre outras perturbações) e acaba entrando em um looping que aparenta ser perene, os shows do músico Roberto Sion, que acontecem nesse mal-afamado dia da semana, na Central das Artes, sempre às 21h, garantem a cura contra o tédio.

Sion, recebeu o Música em Letras em seu apartamento no bairro do Sumaré, em São Paulo, para uma entrevista seguida de um ensaio na Casinha, estúdio do contrabaixista Itamar Collaço, no bairro Vila Gomes, zona oeste da capital.

Leia a seguir trechos dessa entrevista e assista, no final do texto, aos vídeos que o Música em Letras captou durante o ensaio do saxofonista com o grupo que irá tocar com ele na próxima segunda-feira (15).

PRIMEIROS SOPROS

Roberto Sion, 69, toca desde 11 anos de idade. Estudava piano em Santos, litoral de São Paulo, onde nasceu. O saxofonista contou que, com apenas 14 anos, tocou com o regional do violonista Antonio Rago (1916-2008) em uma rádio de Santos. No mesmo ano, subiu a serra e fez seu primeiro show de jazz em São Paulo no prédio da Folha de S.Paulo, onde havia um auditório, no lugar em que hoje se encontra o pátio de carros do jornal. “Toquei com uma rapaziada de Santos. Subimos para São Paulo exclusivamente para isso. Foi meu primeiro show de jazz. Lembro direitinho.”

Psicólogo formado pela Unicamp aos 25 anos, Sion enveredou pela música quando se mudou para Boston, nos Estados Unidos. A razão? Estudar na Berklee College of Music. Lá, teve aulas com Joseph Viola (1920-2001), fundador do departamento de sopro da renomada escola, instrumentista excelente, e professor de vários saxofonistas reconhecidos mundialmente.

Entre outros professores de Sion, figuram o japonês Ryo Noda, 68, exímio saxofonista que escreveu várias obras para o saxofone clássico; o norte-americano Lee Konitz, 88, saxofonista do estilo cool e post-bop; e Joseph Allard (1910- 1991), norte-americano, professor de sax e clarinete da Juilliard School, New England Conservatory e da Manhattan School of Music, entre outras instituições de ensino.

Sion voltou para São Paulo e estudou mais música ainda, especialmente composição, análise e arranjo. Os professores, só feras: Damiano Cozzella (arranjador), Olivier Toni (maestro) e o músico e esteta H. J. Koellreutter (1915-2005). Tocou e gravou com Deus e o mundo. Entre tantos, acompanhou Toquinho e Vinicius de Moraes (1913-1980) em vários shows dentro e fora do país.

Entre os anos 1980 e 1990, Sion se dedicou ao grupo Pau Brasil. Um projeto que envolveu uma longa pesquisa aliada a muitos ensaios em busca de uma linguagem musical brasileira bem estruturada. Uma proposta nova que fugia da forma tema-improvisação-tema. Os temas eram mais voltados para a rítmica brasileira, com mais arranjos elaborados e menos solos improvisados. Uma espécie de jazz brasileiro de câmara. Um sucesso até hoje. Quando o grupo se reúne, os shows ficam lotados.

Na discografia de Sion há 11 “bolachas”. Todas ainda excelentes para serem consumidas, pois seus prazos de validade nunca expiram.

O músico Roberto Sion e o baterista Vitor Cabral ensaiando no estúdio Casinha, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico Roberto Sion e o baterista Vitor Cabral ensaiando no estúdio Casinha, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

ORQUESTRA JOVEM TOM JOBIM

A partir de 2001, Sion abarcou e cuidou da Orquestra Jovem Tom Jobim da EMESP (Escola de Música do Estado de São Paulo), como maestro titular até 2014. “Houve uma mudança muito grande na escola e me desliguei”, disse o maestro afirmando que essa mudança favoreceu uma nova etapa em sua vida. “Da orquestra trago a sensação do dever cumprido, com muito orgulho”, falou Sion que durante esse período desenvolveu um trabalho profundo e sério com relação a repertório, arranjos sinfônicos e artistas convidados. Entre os que “atacaram” com a orquestra estão Elza Soares, Rosa Passos, Mônica Salmaso, Chico Pinheiro, Germano Mathias, Dominguinhos e Hermeto Pascoal.

Sion reconhece que também se desenvolveu musicalmente enquanto liderava a orquestra. “Quando você doa, você recebe, né? Escrevi muito arranjo em situações de urgência, em vários estilos. Mas, em termos pedagógicos, praticamente dei prosseguimento a um trabalho que eu já fazia em big bands, transposto para orquestra”, disse o músico que nesse período estudou com mais afinco as cordas, embora já soubesse escrever para elas. “Fui aprender principalmente como trabalhar as cordas que são os instrumentos mais difíceis da afinação. Por exemplo, fazer transposições de corais de Bach para a orquestra toda te traz harmonias muito puras e muito bonitas. Você é quem dá o senso tonal para isso. Aprendi bastante nesse aspecto”, disse o maestro que com a orquestra também trabalhava a improvisação, além de ter levado seus integrantes a conhecerem vários outros maestros.

Sion é compositor, flautista, saxofonista, clarinetista, arranjador, e tem o título de doutor em música pela UNICAMP (Universidade de Campinas). “Fiz esse doutorado durante quatro anos pensando em um dia, talvez, me colocar em uma universidade”, falou o músico que disponibiliza para o internauta do Música em Letras a gravação de seu arranjo sinfônico para canto e orquestra da música “Estrada Branca”, de Tom Jobim (1927-1994) e Vinicius de Moraes, apresentado em seu doutorado: https://soundcloud.com/roberto-sion/arranjo-sinfonico-para-estrada-branca-tomvinicius

Da esquerda para a direita, Daniel D'Alcântara, Itamar Collaço e o maestro Roberto Sion (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Da esquerda para a direita, Daniel D’Alcântara, Itamar Collaço e o maestro Roberto Sion (Foto: Carlos Bozzo Junior)

SHOWS DAS SEGUNDAS-FEIRAS

Sion e o contrabaixista (acústico e elétrico de seis cordas) paulistano Itamar Collaço, 57, se conhecem há quase 30 anos. Foram companheiros tocando na noite de São Paulo, em muitas casas. A Baiúca foi uma delas. Quando Sion foi diretor de música popular do festival de Campos de Jordão, Collaço era professor no evento. Tocaram juntos várias vezes, mostrando aos alunos a que vieram. “Temos uma cumplicidade tocando”, falou Sion.

Por abarcarem o mesmo nível musical e terem uma amizade sólida, o duo é perfeito. “Sinto um imenso prazer de tocar com o Collaço”, disse Sion, que sempre contribui com a música por meio de trabalhos estruturados e bem arranjados. Haja vista o duo que Sion registrou com o sanfoneiro Toninho Ferragutti em “Oferenda”, um primor de disco.

“O lance agora é só tocar”, falou o maestro que nesta segunda-feira (15), promete muito improviso em cima de temas autorais como “J.T. Meireles” e “Terra Natal”, o primeiro feito em homenagem ao saxofonista e amigo carioca, João Theodoro Meirelles (1940-2008).

O maestro convidou o trompetista Daniel D’Alcântara e o baterista Vitor Cabral para aliarem seus sons aos dele e aos do contrabaixo de Collaço. Do trompetista, tocam a maravilhosa “Maestrina”. (Veja vídeo no final do texto)

Sion aproveita para destacar no show o belo som e a admirável musicalidade de Daniel D´Alcântara, 41, tocando o tema “I Remember Clifford”, do saxofonista tenor Benny Golson, 86, escrito em memória ao espetacular trompetista Clifford Brown (1930-1956), morto precocemente em um acidente de carro. “Nessa música vou para o piano. Quero ouvir o Dani”, falou Sion. (Veja vídeo no final do texto)

SURPRESA

Uma surpresa no show da noite do dia 15: Sion apresentará uma de suas alunas de improvisação e harmonia, uma cantora de Bauru, interior do Estado, que segundo ele é um verdadeiro talento. Luciana Nobrega, 23, é amante de “scat singing” (cantar vocalizando sílabas) e obviamente do jazz. Dela se ouvirá “What a Difference a Day Makes”, popularizada por Dinah Washington (1924-1963); “Dindi”, de Tom Jobim (1927-1994) e Aloysio de Oliveira (1914-1995); além de “Estamos Aí”, de Durval Ferreira (1935-2007) e Maurício Einhorn.

Na noite de 22 de fevereiro, o saxofonista Sion se apresenta ao lado do guitarrista Marcus Teixeira, autor do tema “Bluelelli”, escrito em homenagem ao contrabaixista Paulo Paulelli, integrante do Trio Corrente. Além deste tema, ambos tocam a valsa “Nadana”, composta por Sion em 1972, nos Estados Unidos. “O Marcus é um tremendo improvisador”, falou Sion.

Na noite de 29, em que o maestro toca com o pianista Nelson Ayres, estão garantidos alguns hits já gravados por ambos, como “Conversa de Botequim”, de Noel Rosa (1910-1937) e Oswaldo Gogliano,o Vadico (1910-1962), além de “”All the Things You Are”, de Jerome Kern (1885-1945) e Oscar Hammerstein II (1895-1960), entre outras. De autoria de Ayres, “Mantiqueira” e “Caminho de Casa” devem deixar a sala repleta de boa música. “Eu e o Nelson beiramos os 70 anos, mas cheios de vontade de viver para tocar. Não desistimos”, falou o músico que se apresentará tocando flauta e sax soprano.

Esta é uma ótima oportunidade de ouvir um som com muita cancha. Um som que não é careta, porque Sion e todos os músicos dos shows arriscam. Todos gostam de tocar o que “pinta” na hora, mas com consciência de quem estuda e respeita bastante a música. Um som maduro. Excelente para quem está cansado de ouvir apenas um monte de notas emitidas a esmo. Bom para limpar a mente e deixá-la com a alma plena de música da mais alta qualidade. “Estou nessa fase de tocar o meu melhor”, disse Sion. Aproveite!

Ah, uma dica. Segunda-feira é o dia em que Sion se dedica a dar aulas. “Gosto de segunda-feira. É dia de aulas e gosto de dar aulas. Aprendi a não ficar grilado com essa coisa de segunda-feira. Isso é mais um condicionamento. Para mim, o dia também é bom por lembrar coisas boas. Segunda-feira era o dia em que tocava com a big band que eu tinha com o Nelson Ayres, no Opus 2004”, disse o professor que atende a solicitações de aulas de flauta, saxofone, arranjos ou improvisação pelo e-mail sionrentino@uol.com.br

O baixista Itamar Collaço e o maestro Roberto Sion, que se apresentam na Central das Artes (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O baixista Itamar Collaço e o maestro Roberto Sion, que se apresentam na Central das Artes (Foto: Carlos Bozzo Junior)

VÍDEOS
Roberto Sion (piano), acompanhado por Itamar Collaço (baixo acústico), Daniel D’Alcântara (flugelhorn) e Vitor Cabral (bateria) convida o internauta do Música em Letras para seu show, durante ensaio no qual o grupo toca “I Remember Clifford”, de Benny Golson.

 

Roberto Sion (sax soprano), acompanhado por Itamar Collaço (baixo acústico), Daniel D´Alcântara (trompete) e Vitor Cabral (bateria), durante ensaio no qual o grupo toca “Maestrina”, de Daniel D’Alcântara.

Solo de Itamar Collaço (baixo elétrico), Roberto Sion (piano), Daniel D’Alcântara (flugelhorn) e Vitor Cabral (bateria), durante ensaio registrado pelo Música em Letras no qual o grupo toca um trecho de “Estamos Aí”, de Durval Ferreira (1935-2007) e Maurício Einhorn.

Solo de Daniel D’Alcântara (flugelhorn), com Itamar Collaço (baixo elétrico), Roberto Sion (piano), e Vitor Cabral (bateria), durante ensaio registrado pelo Música em Letras na Casinha, estúdio de Collaço.

SHOWS ROBERTO SION
QUANDO Dia 15 de fevereiro, segunda-feira, com o trompetista Daniel D’Alcântara; dia 22, com o guitarrista Marcus Teixeira; dia 29, com o pianista Nelson Ayres. Sempre às 21h
ONDE Central das Artes, r. Apinagés, 1081, Sumaré, São Paulo, tel. (11) 3865-4165
QUANTO R$ 30