Morre o músico Vinícius Dorin

Por Carlos Bozzo Junior
O músico Vinícus Dorin durante passagem de som do grupo de Hermeto Pascoal, em 2015, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico Vinícus Dorin durante passagem de som do grupo de Hermeto Pascoal, em 2015, em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

O saxofonista, flautista e pianista Vinícius Dorin, 53, morreu na manhã dessa quinta-feira (28). Seu corpo será cremado amanhã, na cidade de Campinas, interior de São Paulo. Dorin estava em tratamento para se curar de uma cirrose hepática, desde a metade do ano passado.

Dorin era homem de sopro forte, não só do grupo de Hermeto Pascoal, mas da música.

É por conta de músicos como ele que a arte de amealhar os sons se mantém viva, dinâmica e sempre apaixonante. Sua técnica e maneira de improvisar não só emocionavam e surpreendiam quem o escutava como elevavam o som de instrumentos como o saxofone e a flauta a uma categoria única de beleza onde a harmonia é tratada com respeito e devoção. Sim, Vinícius Dorin era um sacerdote da mãe da música: a harmonia.

Quando eu o conheci, em 1978, ele estava tocando piano em uma das salas do CLAM (Centro Livre de Aprendizagem Musical), absurdamente bem. Na moita de uma janela dessa sala fiquei observando suas inversões, o jeito que ele montava acordes, os caminhos que percorria harmonicamente e “chapei”. Tanto que pensei ser ele pianista e dos bons.

Quando o vi tocando sax, quase não acreditei e “chapei” novamente. Só depois de um tempo, entendi que tocar daquele jeito, com fraseado bonito, articulação precisa e expressando suas idéias sonoramente de maneira clara, forte e única só poderiam vir de alguém que se dedicava e pensava adiante de seu tempo.

Com o sopro de Vinícius, por vezes a música inflava sua vela e navegava por mares pouco navegáveis, de águas revoltas e instigantes. Na calmaria de algumas baladas é que o bicho pegava. O sujeito ia mais do que fundo e de maneira surpreendente expunha a alma de um artista que tinha o poder de interromper nossas próprias respirações. Cuidado! É bem fácil ficar sem ar ouvindo Vinicius Dorin tocando. Difícil é reconhecer que a cada dia que passa menos gente trabalha e muito para isto como ele fazia.

No fundo Vinícius Dorin era um trabalhador, um operário que namorava a música e ela com ele. O fruto disto tudo era um p…. som!

Que bons ventos o levem.

Assista ao vídeo com o músico Vinícius Dorin (1962-2016) realizando uma passagem de som para se apresentar com o grupo de Hermeto Pascoal, no Sesc Belenzinho, em São Paulo, em 2015. Imagens captadas exclusivamente pelo Música em Letras.