Carlos Henry lança seu “Olho Mágico”

Por Carlos Bozzo Junior
O médico, compositor, poeta e escritor Carlos Henry (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O médico, compositor, poeta e escritor Carlos Henry (Foto: Carlos Bozzo Junior)

Segundo o compositor e médico Carlos Henry, 65, desde jovem era muito boêmio, “da birita” e “putanheiro”. “Com vinte anos eu já tinha seis gonorréias na ‘coronha’. Minhas namoradinhas eram da alta sociedade de Belém, mas depois da uma da manhã, eu ia para o meretrício, onde tinha até bandido que me protegia porque eu tocava violão e cantava as músicas que eles gostavam. As meninas que se prostituíam choravam me ouvindo cantar”, contou o músico com exclusividade para o Música em Letras, em entrevista concedida em seu apartamento, na Vila Mariana, em São Paulo.

Seu último disco, “Olho Mágico”, traz 11 composições novas feitas após o médico ter sofrido um transplante de fígado, por conta de uma cirrose hepática que o acometeu, em 2009, após 45 anos bebendo. “Eu não subia no palco sem ter umas seis vodkas na cabeça”, contou.

Leia, a seguir, mais sobre o médico, escritor e brilhante compositor, vencedor de importantes festivais de música, e assista no final da matéria aos dois vídeos em que o músico interpreta “Matinal Lover” e “Vida Torta”, ambas de sua autoria.

COMEÇO

O manauara Carlos Henry Levy Sandoval é médico, compositor, poeta e escritor e viveu em Manaus até completar cinco anos. O pai trabalhava no Banco da Borracha, que financiava seringais nos tempos em que a Amazônia vivia do látex, e por essa razão morou em várias cidades. Acompanhando-o, Henry viveu em Guajará-Mirim, no Estado de Rondônia, na fronteira da Bolívia; em Porto Velho; e em Itacoatiara, onde permaneceu até 13 anos de idade.

Contudo, foi em Belém que Henry começou a ter um contato mais próximo com a música. Na efervescência dos festivais, nos anos 1967 e 1968, o garoto aproximou-se do violão adotando-o como instrumento para tocar, compor e se “amostrar”.

AULAS NA PORRADA

Henry teve, em toda sua vida, uma única tentativa de ter aulas de violão. Durou apenas três meses de 1965. Ele queria aprender músicas da Jovem Guarda. O professor queria que ele tocasse a valsa “Abismo de Rosas”, de Américo Jacomino (1889-1928), imortalizada nas gravações e interpretações de Dilermando Reis (1916-1977).

Henry queria tocá-la, mas da mesma maneira que o violonista e autor da obra- popularmente conhecido por Canhoto-, que executava o dedilhado no instrumento com a mão esquerda, sem inverter as cordas do violão. “Eu não conseguia aprender a valsa porque era canhoto e o professor me dava porradas na mão, porque eu queria tocar com o violão invertido. Tinha que tocar como se eu fosse destro”, disse o compositor que acabou aprendendo a tocar o instrumento da maneira ensinada pelo mestre.

FESTIVAIS DE MÚSICA

A partir de 1966, o garoto manauara abandonou o gosto pelas músicas de três acordes da Jovem Guarda e passou a se encantar por músicas mais elaboradas harmonicamente, veiculadas nos festivais. Em 1970, começou a compor. Quando estava com 20 anos, participou de vários festivais estudantis de música.

Em 1971, Henry participou do Festival Estudantil da Canção, “mordendo” o primeiro e o terceiro lugares com o samba “Violão Quebrado”, dele e Icaraí Dantas, e a toada “Gina”, só dele.

Já estudante da faculdade de medicina de Belém, em 1974, Henry participou da primeira edição do FEMPUP (Festival de Música e Poesia Universitária do Pará), “abocanhando”, entre cinco mil músicas inscritas, o primeiro e terceiro lugares novamente, com “Bagagem” e “Frevo de 4 Folhas”.

Uma curiosidade, o segundo lugar desse festival ficou para “Diz que Sim Diz que Não”, de Leandro Bezerra e Vital Lima, música interpretada por uma moça em início de carreira, até então conhecida apenas por Maria de Fátima Palha de Fiqueiredo, a Fafá de Belém. O presidente do júri, formado, entre outros, por Roberto Menescal e Sebastião Tapajós, era o jornalista Sérgio Cabral.

Após a premiação, Henry ganhou um cartão de apresentação de Sérgio Cabral e um convite para procurá-lo, caso fosse ao Rio de Janeiro. Empolgado, o estudante de medicina contou para o pai que iria para a Cidade Maravilhosa tentar a vida de compositor, e por isso trancaria a matrícula na faculdade. Ganhou do progenitor uma pergunta e uma constatação, antes de desistir da viagem: “Você é um estudante de medicina ou um jumento? Esse negócio de música não dá camisa para ninguém. Nem esse tal de Chico Buarque ganha dinheiro com isso. Se você for, esqueça que tem família”.

Vários festivais se passaram e, em 1977, outro deles lhe rendeu mais um prêmio. Era o Festival Três Canções para Belém, em que as músicas inscritas deveriam reverenciar a cidade. Billy Blanco (1924-2011) era o presidente do júri e tinha nos troféus de primeiro, segundo e terceiro lugares gravado o seu nome.

O poeta santareno Ruy Guilherme Paranatinga Barata (1920-1990) foi quem estimulou Henry: “Vá para casa. Para de tomar cachaça, e faça uma música para ganhar esse festival. Você é capaz”. A pedido do poeta mais velho, o mais novo topou. Compôs “Leite Moreno”. Mostrou para o mais velho, que disse observando: “Está linda, mas em nenhum momento existe a palavra Belém”. O mais novo não se fez de rogado e meteu-a no título “Belém, Leite Moreno” para fazer jus a um dos troféus Billy Blanco, o de segundo lugar. Parte do dinheiro ganho junto com o troféu serviu para sustentá-lo, em São Paulo, durante o período em que foi médico residente na capital paulista.

Alguns dos troféus conquistados em festivais pelo músico Carlos Henry (Foto: Carlos Bozzo Junior)
Alguns dos troféus conquistados em festivais pelo músico Carlos Henry (Foto: Carlos Bozzo Junior)

MEDICINA

Enquanto cursava medicina, Henry era um “rato da Santa Casa”, de segunda a sexta-feira. Contudo, nas sextas-feiras, às 18h01, Henry pegava a viola, ia para a rua e tomava cachaça até domingo.

Um professor cortou essa rotina inscrevendo-o em um intercâmbio com alunos de São Paulo. No escambo, alunos de Belém, do sexto ano do curso de medicina, vinham para a capital paulista para se especializarem em cardiologia, enquanto os alunos de São Paulo mudavam-se para Belém para aprenderem sobre doenças tropicais. “A bem da moral e dos bons costumes me mandaram embora para cá”, disse ironicamente Henry sobre sua vinda para São Paulo.

Henry entrou, em 1972, no curso de medicina da Universidade Federal do Pará, fundada em 1919. “Tive professores excelentes. Alguns formados no exterior, em Harvard”, disse o médico que realizou o sexto ano de seu curso já na capital paulista, em 1978, na Beneficência Portuguesa. Saiu de lá em 1979 e fez residência e estágio em cardiologia na Escola Paulista de Medicina.

Quando chegou em São Paulo, Henri tomou um susto. Em Belém, morava a uma quadra da faculdade. Almoçava em casa a comida da mãe, antes de retornar para as aulas onde terminava o dia. Em São Paulo, morava junto com outros médicos residentes e a dura realidade dos plantões rigorosos da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) o transformou. “Foi uma porrada na minha cabeça. Tive que entrar no ritmo. Entrei e me adaptei”, disse o médico que logo depois de terminar os estudos decidiu “cair na vida para trabalhar”.

CONCURSOS

Henry passou em um concurso e entrou para a clínica médica Maria Coelho Aguiar, da Fundação Bradesco, onde trabalhou por dez anos, durante as manhãs. Outro concurso o levou a ingressar como médico do trabalho na TV Cultura, onde permaneceu por 22 anos, trabalhando das 13h às 17h.

Na TV Cultura, entrou em 1990, sendo responsável pelo serviço médico. “Era médico do trabalho e clínico. Eu ‘jogava nas onze’. Tenho título em clínica médica. Fiz cardiologia durante dez anos. Aí me torrou o saco o negócio de colesterol e pressão alta. Você fica sabendo cada vez mais, sobre cada vez menos.” Atualmente, o compositor atende como médico do trabalho no Sindicato dos Comerciários.

Nos tempos da TV Cultura, Henry atendeu inúmeros artistas e funcionários da organização. Entre eles, Elton Medeiros, de quem virou parceiro, e o cantor Zé Renato. Segundo Henry, “Fernando Faro tinha pavor de médico. Depois de se consultar comigo, virou meu amigo. Atendi o Rolando Boldrin também, que quando ouviu meu CD ‘Anjo Torto’ descobriu que eu era compositor. Aí, ele me convidou para participar do programa dele, em 2004”, disse o músico que cantou no programa de Boldrin “Raiz”, dele e de Vicente Barreto, e “Minha Boiada”, dele e de Elton Medeiros.

Embora tenha se aposentado em 2008, Henry continuou a trabalhar. “Brasileiro que se preza tem que trabalhar, mesmo depois de aposentado”, falou o médico que saiu da TV Cultura, em 2011, quando adoeceu.

O músico Carlos Henry em entrevista para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O músico Carlos Henry em entrevista para o Música em Letras (Foto: Carlos Bozzo Junior)

LETRAS

Carlos Henry tem três livros editados. O primeiro é de contos, “Até a Primeira Estrela”, (1991) publicado pela Sigla Editora, atualmente esgotado. Entre os contos desse livro, o autor destaca “Só os do meu tempo”, invocando o cangaço e “Um último beijo, Cristiana”, que versa sobre um garoto de 10 anos apaixonado pela professora de piano de 19.

O segundo livro, “Comprimidos Sem Contra Indicações – Apenas leves efeitos colaterais” (1998), com breves histórias reunidas em textos curtos, máximas e aforismos, foi publicado inicialmente pela editora Escrituras, mas mudou de casa. Foi para a editora Europa, e em sua terceira edição vendeu mais de 18 mil exemplares. Uma palhinha: “Frase de um amigo meu, Ataúba, muito feio, na cama com uma mulher: ‘Me beija, criatura, faz de conta que eu não estou aqui’”.

O terceiro livro, “A Palavra Acesa” (2013), saiu pela editora Europa e foi escrito pelo autor no mesmo molde do livro anterior. Henry acabara de se submeter a uma operação de transplante de fígado, com sucesso, quando recebeu a encomenda da editora para repetir a dose considerada um sucesso comercial. Entre os achados: “A reta é a menor distância entre dois pontos. A curva é mais preguiçosa, mas cumpre a tarefa com mais graça”.

PARCEIROS DE SOM E UMA REVELAÇÃO

Entre vários parceiros, Carlos Henry compôs “Minha Boiada”, uma toada com o sambista Elton Medeiros, que conheceu no extinto bar paulistano Clube do Choro. Para o compositor manauara, o bar era sua “segunda casa”. No local, circulavam Nelson Sargento, Paulinho da Viola e João Nogueira (1941-2000), entre vários artistas. “Conheci todos eles lá. Em uma das noites, mostrei para o Elton Medeiros algumas composições e ele disse que iria me mandar uma música para sermos parceiros. Achei que fosse conversa de bar, mas um mês depois ele mandou”, disse o compositor revelando a origem de seu parceiro, que até então para o Música em Letras, nascera no bairro da Glória, no Rio de Janeiro. Segundo Henry, Elton Medeiros- autor das carioquíssimas “O Sol Nascerá”, em parceria com Cartola (1908-1980), e “Madrugada”, com Zé Keti (1921-1999)-, confidenciou-lhe que é mineiro.

“Disse para o Elton Medeiros, pelo telefone, que havia recebido a música, mas havia estranhado, pois o considerava um dos maiores sambistas vivos. Assim, eu esperava ser parceiro dele em um samba, e nunca em uma toada com o nome de ‘Minha Boiada’. Além do mais, o contato mais íntimo que eu havia tido com boi, tinha sido em churrascaria. Foi aí que ele me falou: ‘É uma toada mesmo. Ninguém sabe, mas eu sou mineiro. Vim para o Rio de Janeiro com 5 anos de idade. Agora, quero a ‘Minha Boiada’.”

Com o violonista Eduardo Gudin, Henry tem três músicas, todas sambas: “Isso de Amor”, “De Passagem” e “Gelo Fino e Marfim”. Com o baiano Vicente Barreto, criou, entre outras, as canções “Raiz” e “Senhora”.

DISCOS

Em 1976, Henry teve seu primeiro registro fonográfico, um compacto duplo com as duas músicas vencedoras do festival FEMPUP (Festival de Música e Poesia Universitária do Pará), “Bagagem” e “Frevo de 4 Folhas”, além de “Que se Quebre” e “Choro”. A bolachinha saiu pelo selo Erla.

Seu primeiro vinil é “Gerações”, de 1981, que depois foi relançado em CD, com dez faixas divididas entre choros, valsas e sambas.

O segundo disco é o CD “Anjo Torto”, de 2001, com 13 faixas, entre elas, a homônima gravada com as vozes do MPB 4, e a toada “Minha Boiada”, dele e do “mineiro” Elton Medeiros, com a bela voz da cantora Maria Martha.

O terceiro registro é o recém lançado CD “Olho Mágico”, de 2015, com 11 faixas arranjadas pelos músicos Laércio de Freitas e Nailor “Proveta” Azevedo, além de Sergio Bello, que também assina a direção musical da bolacha. Nela figuram rumba, samba, choro e a valsa “Ressonhar”, em parceria com Maurício Sant´Anna.

O músico Luizinho 7 Cordas duvidou que Henry fosse mesmo médico, depois de gravar quatro sambas no último disco do compositor: “Emenda”, “Vida Torta”, “Dona Lina” e “Confiteor”. “A cada samba que o Luizinho 7 Cordas acabava de gravar, ele comentava: ‘Rapaz, esse samba é muito bonito. Você tem certeza que é médico?”, contou rindo Henry.

O disco que saiu com mil cópias custou cerca de R$ 25 mil para ser feito. “Isso porque fui agraciado pelos amigos, que, em minha consideração, não cobraram o que deviam”, falou o autor da bolacha.

O médico e poeta Carlos Henry, em seu apartamento, na Vila Mariana , em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)
O médico e poeta Carlos Henry, em seu apartamento, na Vila Mariana , em São Paulo (Foto: Carlos Bozzo Junior)

SHOWS

Em maio de 2012, Henry recebeu um novo fígado em transplante realizado em Fortaleza. Em agosto do mesmo ano, o compositor estava tão bem de saúde, que aceitou o convite para fazer o show “Henry Canta Noel”, no Bar do Alemão, em São Paulo, cantando e tocando só músicas de Noel Rosa (1910-1937), de quem conhece, segundo ele, 180 das 229 músicas compostas pelo Poeta da Vila. O sucesso foi tanto que teve que repetir a dose, mas nas duas vezes sem álcool. “O Té, funcionário responsável pelas compras do bar, me disse que deixou de comprar cinco garrafas de vodka, todo mês, depois que deixei de beber”, contou o músico.

O show de lançamento do novo disco de Henry, “Olho Mágico”, reuniu 250 pessoas, dia 17 de dezembro de 2015, no teatro Margarida Schivasappa, em Belém. Em São Paulo, ainda não há datas ou locais confirmados.

ALCOOLISMO

Quando Henry começou a tocar violão era nos bares onde mais aprendia o instrumento. Neles, tomava de tudo. Durante 45 anos, passou pela cerveja, Cuba Libre, cachaça, vodka e uísque. “Só não tomava chumbo derretido porque não achei gelado”, contou rindo.

O compositor detectou uma cirrose em 2009. Teve sua primeira crise de encefalopatia, provocada pela intoxicação de toxinas (amônia, entre elas) não metabolizadas pelo fígado, em fevereiro de 2010. Deixou de beber por três anos, antes de se submeter ao transplante.

A cirurgia, que normalmente dura em torno de 12 horas, levou apenas quatro para ser concluída. Henry não chegou a receber transfusão de sangue. Saiu do centro cirúrgico sem tubo algum e falando como um papagaio. Dos três dias previstos para ficar na UTI, ficou apenas um. Dos dez dias de internação, permaneceu seis. Sua recuperação foi excelente. Como? “Quando você vê a morte de perto, você começa a querer ficar na vida”, explicou.

Hoje, o compositor toma apenas uma cervejinha “de leve”. “Nunca mais vou me embriagar. O diabo não andava comigo para não se comprometer. A temporada no inferno que eu passei foi o suficiente para mim”, falou o letrista.

Perguntado se está curado da doença, Henry disse: “Nunca fui dependente químico. Esta foi minha vantagem. Hoje, levo uma vida normal. Estou em minha plenitude”, disse o médico que atualmente cultiva dependência apenas pelo amor, música e poesia.

Assista aos vídeos abaixo no quais Carlos Henry mostra um pouco de sua arte.

“Matinal Lover”


“Vida Torta”