Uma língua do barulho

Por Carlos Bozzo Junior
Foto: (Carlos Bozzo Junior)
Foto: (Carlos Bozzo Junior)

Há vários fatos interessantes no mundo dos sons produzidos pelos animais. Por exemplo, acreditava-se que o som de um pato fazendo “quack” não era passível de sofrer o fenômeno do eco. Isso até 2003, quando uma pata inglesa fez um solo dentro de uma câmera anecóica (onde não há eco) e depois o repetiu dentro de uma câmara de reverberação (onde há eco). Constatou-se, após análise entre ambos os registros, que o “quack” da diva penosa era passível de eco, porém a forma como é emitido torna o fenômeno quase inaudível.

Quer mais? Girafas não têm cordas vocais. Entretanto, atribuir “girafa” como um adjetivo a cantoras desfavorecidas é piada de baixa estatura.

Mais ainda sobre o som da bicharada? Então, segura essa: a maior parte do canto que se ouve em um brejo vem das pererecas, e não dos sapos.

Ainda não se satisfez? Um dos animais mais barulhentos é o bugio, aquele macaco que tem às pencas no Parque Estadual da Serra da Cantareira. Seu som pode ser ouvido por mais de 16 km (leia post anterior).

Contudo, o mais interessante é observar que os sons dos animais têm palavras certas em português para descrevê-los, dependendo de como ele soa e de qual bicho o emite.

Para quem gosta de silêncio, uma constatação curiosa: o mundo é barulhento, mas poderia ser pior! Para cada pessoa no planeta Terra, existem 200 milhões de insetos. Pense, um inseto pode: azoinar, sussurrar, zinir, ziziar, zoar, zonzonear, zuir, zumbar, zumbir, zumbrar, zunzir, zunzar, zunzilular e zunzunar. Imagine só os 200 milhões, que são integrantes apenas da sua banda, resolvendo solar todos ao mesmo tempo, alternando o som de verbo em verbo. Aterrorizante e no mínimo ensurdecedor.

Leia (prepare-se, requer paciência) o texto com sons produzidos por alguns bichos que o Música em Letras criou, utilizando como referência livro, guia, almanaque, pedaço de poema, manual, letra de música e o escambau. Cuidado, o texto é chato de fazer baleia bufar, bode gaguejar, camundongo chiar e cachorro rosnar.

TEXTO SONORO

A “verbaiada” que existe na língua portuguesa para reproduzir os sons dos bichos é extensa. A começar pela cigarra. Talvez por ser cantora, só ela pode cantar, chiar, chichiar, ciciar, cigarrear, estridular, estrilar, fretenir, rechiar, rechinar, retinir, zangarrear, zinir, ziziar e zunir.

Se não bastasse, no mundo animal a cobra sibila e ainda sabe assobiar, chocachar, guizalhar e silvar. A galinha cacareja com seu cacarejar, e ainda pode cacarecar e carcarcar, ao contrário de sua prima, a galinha- d´angola, que só pode fraquejar. Entretanto, o galo fica a cantar, clarinar, cocoriar, cocoricar, cucuricar e cucuritar.

O porco e o javali tanto grunhem, com seus grunhires, quanto roncam com seus roncares. Ambos ainda podem arruar, cuinchar, cuinhar e rosnar. O lobo pode uivar, ladrar ou ulular. No entanto, é o cavalo que relincha, bufa, bufi, nitri, rifa e rincha; enquanto o leão fica a bramar, bramir, fremir, rugir e urrar. O sapo, exibidão, se mostra a coaxar, gargarejar, grasnar, grasnir, roncar e rouquejar. Perto, uma cabra fica a balar, balir, berregar, barregar, berrar e bezoar, do lado de um macaco a assobiar, guinchar e cuinchar. Impávido a tudo, um gato permanece sem miar, resbunar, resmonear, ronronar, roncar ou chorar.

Pacífico, o cordeiro fica a berregar, balar e balir, tornando-se irmão de rima do boi, que fica a mugir; e dos insetos que sempre estão, entre outros vários verbos, a zumbir, em companhia do urso que fica a bramar, bramir e rugir.

De todos ri a hiena que costuma gargalhar, gargalhear, gargadear, ulular e chorar, nem ligando para o tigre que está a bramar, bramir, miar, rugir e urrar; enquanto o grilo, quase invisível, aparece para chirriar, crilar, estridular, estrilar, guizalhar, trilar, tritrilar e tritrinar, fazendo o burro azurrar, ornear, ornejar, rebusnar, relinchar, zornar, zunar e zurrar, para o cão aulir, balsar, cainhar, cuincar, esganiçar, ganir, ganizar, ladrar, latir, maticar, roncar, ronronar, rosnar, uivar e ulular. Ah, o camelo blatera e ronca.

Triste mesmo é aguentar o repetitivo papagaio em seu charlar, charlear, falar, grazinar, parlar, palrear, taramelar e tartarear, imitando o condenado gluginejar, gorgolejar, grugrulejar, grugrulhar e grulhar de um peru antes do Natal.

Não foi o suficiente? Então, prossiga com a leitura se for capaz.

Entre as vozes dos animais, uma abelha ou uma mosca podem azoinar, sussurrar, zinir, ziziar, zoar, zonzonear, zuir, zumbar, zumbir, zumbrar, zunzir, zunzar, zunzilular e zunzunar. Enquanto uma anta surpreende ao assobiar, a ariranha a regougar, e o asno a azurrar, ornear, ornejar, rebusnar, relinchar, zornar, zunar e zurrar.

Entre vários pássaros, um abutre pode grasnar. Uma águia, borbulhar, cachoar, chapinhar, chiar, escachoar, murmurar, rufar, rumorejar, sussurrar, trapejar, crocitar, grasnar, gritar e piar. Uma andorinha vai chilrar, chilrear, gazear, gorjear, grinfar, trinfar, trissar e zinzilular. Um andorinhão, bem mais econômico, pode crocitar ou piar. Barulhenta, a araponga dá de bigornear, golpear, gritar, martelar, retinir, serrar, soar e tinir. Grande, a arara se põe a chalrar, grasnar, gritar, palrar e taramelar.

Quer mais? Ok.

Entre mais seres alados, o avestruz pode grasnar, roncar e rugir; o azulão pode cantar, gorjear e trinar; o bacurau, gemer e pair; a maritaca, chalrar, chalrear e palrar. O beija-flor fica a trissar; o bem-te-vi, a cantar, estridular e assobiar; o canário, a cantar, dobrar, modular, trilar, trinar; o gavião carcará, crocitar, grasnar e grasnir; a cegonha, goterar e grasnar; o caburé, a piar, rir e silvar; o cisne, a arensar; a codorna, a piar e trilar; o condor, a crocitar; a corruíra, a chilrear e galrear; o corrupião, a cantar, gorjear e trinar; a coruja, a chirrear, corujar, crocitar, crujar, piar e rir.

Já o corvo pode variar entre corvejar, crocitar, grasnar e crasnar; a cotovia, a cantar e gorjear; o cuco, a cucular, ou cuar; o curiango, a gemer; a ema, a grasnar e suspirar; o estorninho, a palrar e pissitar; o falcão, a crocitar, piar e pipiar; a gaivota, a grasnar e pipilar; o ganso, a grasnar e gritar; a garça, a gazear; o gavião, a guinchar; a gralha, a crocitar, gralhar, gralhear e grasnar; a graúna, a cantar e trinar; o inhambu, a piar; o jaburu, a gritar; o jacu, a grasnar; a jandaia a chalrar, grasnar, gritar, palrar e taramelar.

O juriti se difere ao soluçar e turturinar, além de arrular e arulhar; o marreco pode grasnar, grasnir e grassitar; o melro, assobiar e cantar; o pardal, chaiar, chilrear, piar e pipilar; a patativa, cantar e soluçar; o pato, grasnar e grassitar; o pavão, pupilar; o pelicano, grasnar e grassitar. O perdigão vive como a perdiz a cacarejar, piar e pipiar; o periquito, a chalrar, chalrear e palrar; o pica-pau, a estridular, restridular; o pintassilgo, a cantar, dobrar, modular e trilar; o pinto, a piar, pipiar, pipilar; o pombo, a arrolar, arrular, arrulhar, gemer, rular, rulhar, suspirar, turturilhar e turturinar; a siriema, a cacarejar e gargalhar; o tucano, a chalrar; o urubu a corvejar, crocitar, grasnar e crasnar.

Na turma dos que assobiam temos, entre outros, cobras, coelhos, saguis, capivaras, lebres, lontras, macacos, pacas e cotias. O tatu, diferente de outros bichos, e da dupla russa t.A.T.u., composta por Yulia Volkova e Lena Katina, não tem voz registrada.

Ainda lendo este texto? Disfarce e, como os bichos acima, saia assobiando em busca de uma ajuda profissional. Boa sorte!

Este post é uma homenagem ao poeta Manoel de Barros (1916-2014), que deixou sua vontade por escrito: “Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos”.