Eu, Xixi e Vandré

Por Carlos Bozzo Junior
Fotomontagem: (Carlos Bozzo Junior)
Fotomontagem: (Carlos Bozzo Junior)

O suplemento dominical de cultura da Folha de S.Paulo, “Folhetim”, publicado no final dos anos 1970, e durante quase todo os anos 1980, trazia sempre uma grande reportagem de capa.

A edição nº 87, de 17 de setembro de 1978, trouxe uma histórica entrevista com o compositor Geraldo Vandré, realizada por Assis Ângelo, 63, paraibano, jornalista, escritor, compositor, pesquisador e estudioso da cultura popular. Segundo o jornalista, “quando a entrevista foi para as bancas, uma surpresa: em muitas delas os leitores pagavam e deixavam o jornal, levando apenas o ‘Folhetim’”.

No primeiro parágrafo da matéria, Ângelo escreveu: “Setembro, 1978, noite de um dia qualquer. Tomo o elevador de um prédio na rua Martins Fontes, bairro da Consolação, Centro, São Paulo. Paro no 6 º andar. Aperto a campainha do apt.º 61, uma, duas vezes. Silêncio.”

FOI DADA A PARTIDA

Eu tinha 15 anos. Fã de Vandré. Seus discos eram de meu pai. Suas músicas e suas letras, nossas. Seu endereço, agora, meu. Lembro de ler o primeiro parágrafo da matéria decupando e sublinhando com os olhos: “…um prédio na rua Martins Fontes, bairro da Consolação, Centro, São Paulo.Paro no 6 º andar. Aperto a campainha do apt.º 61…” Anotei em um papel e armei com um amigo. Ele topou. Fomos atrás do mito.

O amigo – e testemunha- era o Xixi, também com 15 anos na ocasião. Ele tinha este estúpido apelido vindo da corruptela do som de Gigi, antes Giba. Ambos, oriundos de Gilberto de Almeida. Hoje, Xixi voltou a ser Giba, 52, paulistano, e também jornalista.

Eu o conheci na escola Caetano de Campos. Estudamos no prédio que abriga hoje a Secretaria de Educação, na praça da República. Nesse tempo, Xixi levava a namorada para assistir, às sextas-feiras, na parte da tarde, sessões da Assembléia Legislativa. Talvez para não pagar de tão bizzaro, também era espectador assíduo de peças de teatro. Eu lia e colecionava o“Folhetim”, suplemento “cagueta” que deu a letra de onde encontrar Vandré. Talvez para não pagar de tão bizzaro, também era espectador assíduo de shows.

Ao promovermos um escambo do que estávamos conhecendo, levávamos um ao outro para sua praia. Xixi vinha para a música, e eu ia para o teatro e política. Viramos amigos próximos. A descoberta nos unia cada vez mais, fortalecida pelo desejo de investigação. “Cachorros novos”, passamos a “fucinhar” em dupla. Tínhamos 15 anos.

BUSCA BEM SUCEDIDA

Batemos a pé a rua Martins Fontes, entrando nos prédios e perguntando se no apartamento 61, do sexto andar, morava o Geraldo Pedrosa Araújo Dias Vandré. Aprendi o nome, lendo e decorando-o, a ponto de imprimi-lo na mente. A fonte? A famosa entrevista do “Folhetim”.

O porteiro de um desses prédios confirmou a informação e permitiu que eu e Xixi tomássemos o elevador. Na frente do apartamento 61, tocamos a campainha. Demorou, como na consagrada entrevista, e a porta foi entreaberta.

Achei que fosse ele (Vandré), mas fiquei em dúvida. O homem da fresta era mais velho. Diferente das fotos das capas dos discos. Perguntou o que queríamos. Eu disse: “Falar com Geraldo Pedrosa de Araújo Dias Vandré”. Ele abriu e nos convidou para que entrar. Juro. Tínhamos 15 anos.

O APÊ

Pequeno, como descrito fielmente na entrevista do “Folhetim”, a sala do apartamento era amarela de nicotina. Na cor e no cheiro. Os vidros das janelas eram brancos e opacos, dando vista para o nada. A imagem do homem se tornou mais evidente. Alto, magro e mais parecido com as fotos das capas dos discos, mas mesmo assim ainda pairava a dúvida. Perguntei: “Você é o Geraldo Vandré?”

Ele rebateu perguntando quem éramos. Falamos que estudávamos ali perto, no prédio da Caetano de Campos, coisa e tal. Ele quis saber onde morávamos. Esta pergunta, ouvimos e respondemos mil vezes. Entretanto, ela parecia estar num looping perene dentro da cabeça dele. Uma espécie de “ritornello ad aeternum”.

O homem nos ofereceu café. Aceitamos, mas a bebida nunca ficou pronta, embora ele tenha se ausentado da sala inúmeras vezes para fazê-la. Lembro-me de ele ter contado que quando criança: “O café, em minha casa era feito batido, socado no pilão. Café e rapadura, batidos juntos no pilão. Você sabe o que é um pilão? Onde você mora?”

O pilão, bem antes desse encontro, já era objeto de decoração nas salas das casas paulistanas. Por meio da escola, sabíamos não só para que servia, mas quem forçosamente o manuseava e sob que condições. Contudo, não entendíamos o porquê da repetição da mesma pergunta:“Onde você mora?”

OS SONS

Um telefone não parava de tocar. Já me achando íntimo e incomodado com o som, perguntei se o homem não iria atendê-lo. “Tenho um trato com o telefone. Eu uso o telefone. O telefone não me usa. Não atendo telefone”, disse.

Em nossa conversa, entre outras coisas, contei que tocava e estudava flauta transversal no CLAM, escola do Zimbo Trio. Ele foi para dentro do apartamento e retornou com um violão. No corpo do instrumento, um papel colado com durex, uma letra escrita à mão. O homem disse que era uma música nova com letra em guarani. Ao cantá-la, fazendo-se acompanhar pelo violão, tive certeza: aquele era Vandré, o coautor de “Disparada”, com Théo de Barros, entre tantas outras belas canções.

Depois disso, falamos, coversamos e confabulamos. Rolou até um papo sobre uma particularidade do coração do brasileiro que, segundo Vandré, “bate como um bumbo no samba, em dois. O dos norte-americanos é em quatro. Como no jazz”. Juro. Perguntem pro Xixi, que dia desses, no Paribar, lembrou do lance.

Sei que depois de um tempo, soou a campainha e o Vandré abriu a porta para um sujeito mal ajambrado, de barba rala, e nos disse: “Agora, vocês têm de ir, porque faremos uma reunião de cúpula”. Combinamos que reapareceríamos e juntos faríamos um som. Ele topou. Juro.

Saímos eu e Xixi do prédio e entramos na Biblioteca Mario de Andrade, onde assistimos, no auditório, o show do Carlinhos Vergueiro. Seu som era legal, mas mal me lembro do show. Havíamos conhecido o Geraldo Vandré e ele iria fazer um som comigo. Tínhamos 15 anos.

DIAS DEPOIS

Cerca de uma semana após o encontro com Vandré, houve um show de choro no teatro Pixinguinha. Havia muitos músicos, acho que teve até o Abel Ferreira (1915-1980) quebrando tudo com seu clarinete. Fui assistir com outro amigo, Helton Altman, hoje produtor e diretor reconhecido de eventos memoráveis. Entre eles, o saudoso festival Chorando Alto.

Avistei Vandré, que, se não me engano, era conhecido do Haroldo, que tocava cavaco, pai do violonista Edmilson Capelucci, presentes no espetáculo. Imediatamente disse para o Helton: “Vem, que vou te apresentar o Vandré”. Supondo que o cantor já havia se tornando um de meus “cheganças”, mandei: “Vandré vou te apresentar…” O sujeito se escafedeu e, protegido atrás da cortina do palco, perguntava com uma expressão mista de medo e terror: “Quem é esse cara? Quem é esse cara?” Depois, sumiu. Juro. Sumiu.

Lembro de alguém ter comentado: “Ele é assim mesmo”. Perplexo e com cara de trouxa, fiquei sem entender nada. Eu tinha 15 anos.

Leia, no próximo post, o que aconteceu 21 anos depois desse encontro.